No carro Elle começou mais uma nova crise de explosão.

– De quem anjo eles estavam falando? — perguntou algum tempo depois que já estavam na estrada.

– Eu não sei – respondeu Sam dando de ombros e mexendo freneticamente no celular.

– Sabe o que é pior do que ter um anjo lá? – comentou Kevin também procurando por qualquer coisa no celular – Como um demônio sabia onde um anjo ia aparecer?

– Como isso pode ser pior que ter um anjo no mesmo lugar que nós sem que nós tenhamos visto? – perguntou Sam deixando o celular cair em cima da perna – Nada de estranho na região que ligue a anjos.

– Nem a demônios, pelo menos não até a confusão que deixamos para trás – prosseguiu Kevin também soltando seu aparelho – Eles pode ter seguido a Elle, tanto o anjo quanto o demônio, não é isso que ela faz, atrai as coisas?

– Eu não atraio demônios ou anjos. Pelo menos não até agora. – respondeu agora olhando para Dean na esperança que ele participasse da conversa. O outro dirigia compenetrado demais.

– Nunca viu um demônio? – indagou Sam, demônios eram os sobrenaturais mais comuns na vida de qualquer caçador.

– Eu só vejo o que vem até mim. Teoricamente tudo vem até a mim. Mas não, nunca vi um anjo. Já vi alguns demônios, mas eles sempre sumiam rápido. – explicou Elle, os olhos dançando entre quem participava da conversa e quem não.

– Bem, pelo o que está dizendo você só atrai os filhos de Eva. – concluiu Sam com um suspiro desacreditado.

– Monstros? – traduziu Elle de uma maneira que ela mesma entendesse.

– Exato. – confirmou Kevin – Monstros nascem de Eva, os primeiros deles pelo menos. Anjos são criaturas divinas, almas puras, uma espécie de super-humanos. Demônios são almas de Deus, anjos ou humanos, que caíram em pecado.

– Faz sentido – confirmou a garota mordendo o canto da boca nervosa – Explica porque depois de tantos anos eles nunca passaram na minha frente. Eu nem sabia que eles podiam vir a terra.

– Em geral eles não fazem isso – explicou Kevin – Aparentemente está acontecendo algo no céu. Os anjos... – o profeta perdeu as palavras.

– O apocalipse que a bíblia contava não aconteceu. De alguma maneira essa era a última coordenada que Deus os tinha dado. E quando os planos não funcionaram eles ficaram perdidos. Não temos notícias desde então. – Sam tentava encontrar as palavras para resumir toda a situação celestial do mundo em apenas uma frase.

– Coordenadas? – questionou a outra.

– Deus sumiu. E o que ele deixou escrito como fim não aconteceu. Anjos são seres programadinhos. Não sabem o que fazer se a programação não se cumpre. – tentou Sam mais uma vez pacientemente.

– Deus sumiu? – ela arregalou os olhos tentando entender como aquilo era possível – Como raios some alguma coisa que está em todos os lugares!?

– Nós não temos todas as respostas Elle. – disse Kevin lhe dando tapinhas no ombro – A gente já sabe disso não é?

Aos poucos o silêncio tomou o carro e durante as horas de viagem que se seguiram pouca coisa se falou. Às vezes Elle perguntava sobre os anjos, sobre os demônios. Coisas simples para tentar entender a natureza daquelas criaturas. E apesar de a história dela estar cada vez mais próxima do céu e do inferno não era capaz de encontrar semelhanças com aqueles seres.

Ela também percebeu que Dean pouco falou. Mas esperou o momento certo para questionar a ele sobre o eventual humor fechado. Logo depois de chegarem a Fortaleza Sobrenatural, e se certificarem de que não estavam sendo seguidos, esse momento chegou.

Era noite quando todos tinham se ajeitado em seus quartos. Apesar do estranho relacionamento sem nome e sem jeito que mantinha com Dean, Elle fazia questão de usar o quarto que a tinham dado. Por isso precisou ir até o dele quando quis conversar.

Bateu na porta e sem esperar pela resposta girou a maçaneta devagar. Colocou primeiro a cabeça e depois o corpo. O viu esticado na cama, ainda com a roupa do dia anterior, as mãos entrelaçadas debaixo da cabeça e o rosto mirando o teto.

– Você devia tomar um banho. – falou em um tom neutro.

– Eu vou depois. – ele respondeu antes de respirar profundamente – Só estou descansando. Quero ficar um pouco sozinho e...

– Sabe. – disse a morena se sentando no canto da cama, deixando o corpo virado de lado para ele ao olhar para a parede – Eu aprendi rápido que quando as pessoas querem ficar sozinhas elas devem mesmo ficar. Mas eu não acho que esse seja o momento certo...

– Eu não tô afim, Elle. Tô cansado. – a garota revirou os olhos e respirou irritada com a insinuação dele.

– Não seja ridículo, okay? – ela virou o tronco na direção dele falando séria – Você sabe muito bem que eu não vim aqui para te morder.

Mesmo que tentando esconder ele sorriu de leve olhando para ela pelo canto do olho. Ela riu de volta mordendo a boca em cumplicidade, mas se empenhando em manter o jeito sóbrio.

– É sério, Elle. Amanhã a gente conversa e vai tudo ficar bem – a essa altura ele só pensava em como dizer uma coisa daquelas sem aumentar a confusão.

– É sobre mim? – ela perguntou delicadamente.

– Ellie, por favor. – ele insistiu.

– Dean. – ela moveu a cabeça afirmando que não ia insistir – Eu estava pensando, você sabe rezar?

Ele riu fraco entre um suspiro.

– Eles não vão te ouvir, Elle. Se Deus ouvisse as pessoas o mundo não seria essa confusão. Nem os anjos conseguem falar com ele. E... Bem, Sam e Kevin já te disseram que os anjos não estão lá muito participativos.

– Eu te ouvi noite passada. – disse a garota puxando as pernas para cima da cama, a barra da camiseta deixando aparecer parte da roupa debaixo – Eu meio que te ouvi – corrigiu – Eu acho que estava rezando. Parecia que estava. A maneira que você falava... Era tão bonita. Tão compassada. Me lembro de ouvir seu apelo antes de eu mesma adormecer. – Dean a olhou com certa pena e culpa, ela sorriu serena – Não tinha me atentado a essa possibilidade até hoje. Fiquei pensando, talvez eles me ouçam. Talvez eu emita um sinal diferente.

Os grandes olhos azuis em sua imensidão escura se encheram de luz. A face de frágil daquela mulher era ainda mais bela que a eterna rebeldia que normalmente ela sustentava. Dean sorriu e abriu os braços. Sem demora ela se aninhou.

– Eu não sei fazer isso direito também. Não é algo que eu costume fazer – ele disse entrelaçando os dedos nos dela, com o polegar acariciando as costas da mão garota.

– Como você faz? – ela perguntou virando os olhos para cima na direção dele. O homem aproveitou a posição para lhe dar um selinho na testa.

– Eu não sei. Acho que fecho os olhos peço por um amigo. Por um guardião. – disse Dean sem ter coragem em confessar todo o resto. Em resposta a sua fraqueza a apertou mais nos braços.

Foi o que a garota fez. Fechou os olhos e depois de uma longa lufada de ar sussurrou palavras sem jeito. Chamando alguém que nem conhecia por um nome respeitoso de mais para alguém como ela.

– Senhor. Procuro respostas e acredito que foi você quem me ofereceu as perguntas. Elas são muitas grandes mesmo para alguém que não se fere, Senhor. – Elle engoliu seco e ajeitou o rosto no peito de Dean – Ouvi dizer que não se deve pedir, se deve agradecer. Por isso, agradeço por Dean, por como ele tem se doado a mim. Agradeço por Sam e sua dedicação a algo que eu mesma não tenho coragem de continuar. Agradeço a Kevin por permanecer empenhado mesmo quando a conexão não se firma. Obrigado Senhor, porque apesar de tudo, estou melhor do que antes.

– Apenas a faça parar de dizer nomes. – a voz cortante vinha da figura em pé ao lado da cama. Assustada com a nova presença Elle observou um homem de aparência simpática lhe fitar com certa raiva.

– Cass! – exclamou Dean se sentando na cama de repente.

– Ola, Dean.