Inominável
2 Determinada
Notas iniciais
Ela estava chorando, naquela noite fria, exposta aos ventos do terraço que tinha vista para a cidade.
Desde que sua mãe começara a ensiná-la como alguém de sangue nobre deveria se portar, Jadis chorava com frequência.
Sua mãe fazia com que fosse assim, sempre adulando a irmã mais velha em detrimento da mais nova, enfeitando-a com as mais belas jóias, presenteando-a com vestidos deslumbrantes. Jadis também possuía belas roupas, mais do que ela poderia usar até deixá-las gastas, também ganhava jóias e era tão bonita quanto a irmã, embora a mãe deixasse bem claro que os cabelos ruivos de Makaira que caíam em cascata até abaixo de sua cintura eram mais bonitos que os louros de Jadis, platinados e escorrendo pelas suas costas; que as curvas do corpo delgado da mais velha eram mais atrativas do que a fina silhueta, porém elegante, da mais nova; que os olhos tão azuis e cristalinos quanto o Rio de Charn que Makaira possuía eram mais profundos e temíveis que os castanho-esverdeados de Jadis; que a personalidade da primogênita era majestosa, enquanto a da outra não possuía nada de notável.
As coisas eram assim desde que Jadis lembrava-se, mas agora que era quase uma mulher as repreensões e insultos da mãe tornaram-se mais freqüentes, sempre dando ênfase aos defeitos dela enquanto exaltava a grandiosidade da irmã. Insistia que agora que era seu dever participar de bailes, e estar com outros nobres, deveria portar-se como uma dama. E aquilo irritava. A falta de amor da mãe. A perfeição da irmã. A ausência do pai. Jadis detestava tudo aquilo.
E eram essas lembranças que a perturbavam naquela noite. As lembranças de humilhações feitas por anos e de um pai indiferente ao seu sofrimento.
Decidiu falar com o seu bisavô, a única pessoa de todo o reino de Charn que a compreendia e amava. Tinha muito orgulho dele. Certa vez ele recebeu 700 convidados no maior salão de banquetes do castelo, quando ainda governava Charn. Matou a todos antes que pudessem sequer beber qualquer coisa, pois todos tinham idéias subversivas a respeito da forma como ele governava. Agora estava muito idoso e inválido, conseqüência de todas as guerras que havia lutado. Teve que entregar o trono ao seu filho antes do tempo, mas sobreviveu a ele e viu o reino ser entregue ao seu neto. Era um senhor duro, tanto de mente quanto de coração.
Jadis limpou as lágrimas do rosto, voltou ao castelo e subiu algumas escadas. O castelo era imenso e o seu bisavô instalava-se no alto, para ser poupado dos barulhos que estavam sempre presentes nos andares inferiores. Chegou ao corredor onde os aposentos dele se encontravam e bateu na porta.
– Entre – ouviu-se uma voz que saía do quarto – Então é você, Jadis – disse o senhor quando a ela abriu a porta – A que devo a honra?
– Eu preciso do senhor. De sua ajuda – disse a moça.
– E como eu posso lhe ajudar? Você sabe que eu o farei, se puder.
– É minha mãe. Ela não me deixa em paz. Quer que eu seja como Makaira – disse Jadis, de cara fechada.
Helanon arqueou os lábios em um sorriso pequeno e cruel.
– Diga-me, querida. Você tem quase tudo que a sua irmã tem, não é mesmo? As roupas, as jóias, ambas são belas... Então porque a sua mãe prefere Makaira? Você sabe?
– Não, senhor. – Jadis não conseguia encontrar uma resposta.
– É porque, minha querida, ela tem algo que você não tem, e é isso que a sua mãe não pode perder. Vamos, pense... Que coisa seria essa?
– Eu realmente não sei, bisavô. Não há nada que...
– Oh, querida, sim. Há sim uma coisa que as diferencia. Algo que você quer muito. O que é?
Os pensamentos começaram a passar mais rápido pela cabeça de Jadis. O que seria? O que ela poderia querer tanto? Que diferença seria essa?
Então ela entendeu. De todas as coisas que Jadis ganhara, havia apenas uma que ninguém pudera lhe dar. Havia apenas uma coisa que as diferenciava. Uma que a separava do amor da mãe.
– A coroa. O trono – Respondeu Jadis.
Helanon mais uma vez riu.
– Isso, minha menina esperta. E tudo o que você precisa fazer é tirar isso dela. Então você terá tudo o que quiser. Pessoas que lhe obedecerão prontamente, súditos que viverão para fazer a sua vontade, atenção do seu pai, se ele viver até lá, o amor e o respeito de sua mãe...
– Mas como eu poderei conseguir isso? Ela é a herdeira.
– Com magia, minha querida. Magia traz poder. E o poder pode te dar o que você quer.
– Sim, bisavô. O senhor está certo.
Jadis saiu dos aposentos, após se despedir, e repassou mentalmente cada palavra que o seu bisavô falou, pelo resto da noite.
Ela iria procurar magia.
Ela estava determinada a possuir o poder.
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