Inominável
6 Briga, briga! Briga de Piranhas!

Dean e Sam se levantaram imediatamente, deixando um mal humorado Sr. McAllister para trás, urrando não ter terminado de dizer o que a tal vadia merecia. A ideia de deixa-lo falando sozinha foi boa, pois quando chegaram até a praça se depararam com pelo menos dez pessoas gritando ao mesmo tempo. Isso é claro, se não contarmos as crianças e seus choros.
A praça era o verdadeiro pandemônio. Um grupo de moleques do ensino médio berravam “BRIGA DE PIRANHAS, BRIGA DE PIRANHAS, BRIGA DE PIRANHAS!”. E ao mesmo tempo que gritavam se batiam, jogando os ombros uns contra os outros e as vezes dando murros de mãos fechados em seus estômagos e costas.
Um senhor de idade, mais precisamente o já conhecido Professor Black, discutia com uma uma garota. A garota, que não devia passar dos 15, apontava o senhor um bastão de ferro – ainda não identificamos de onde o bastão surgiu. Professor Black a olhava raivoso, apontando o dedo e falando entre os dentes, como um velho cão de guarda.
Ainda que existisse vários outros pontos menores de crise o ponto alto era o banco de frente para o chafariz. Uma senhora de uns cinquenta anos acusava a mulher de couro de... Piranhagem. Ao pegar o assunto pelo meio a acusação era apenas a maneira como a mulher de couro se vestia.
– Essa é uma cidade de respeito – berrava a senhora loira com cara de tia da igreja – Você vem aqui e fica desfilando por aí com calças coladas, blusas rasgadas e ainda se nega a vestir-se.
Com um passo a frente a acusadora pegou um pedaço de pano no chão e jogou contra o rosto da mulher vestida de couro. No ar o pano se abriu e revelou a forma de um vestido. O mesmo bateu o lado da cabeça da mulher morena, que com muita paciência e um sorriso de desdém apenas esperou que ele caísse de volta ao chão, escorrendo o tecido fino pelo lado do corpo, tomou o cuidado de não realizar movimentos bruscos.
– Senhora... – começou sua combatente imóvel com um tom baixo. A garota estalou o pescoço e inspirou profundamente, virando o rosto em seguida evitando olhar a velha mulher.
– Não ouse dirigir a palavra a mim! – apesar de todos ali julgarem impossível o timbre da senhora louca aumentou ainda mais, um agudo que os leigos chamariam de hipersônico.
– Senhora – a segunda vez o tom foi de desafio, o sorriso cresceu nos lábios e apenas os mais atentos teriam visto a cabeça da morena fazer que não leve mente e um “ah não” escapar sem som de seus lábios ameaçadores.
Andando nervosos, mas em passos controlados e perdidos, Dean, Sam e até os policiais observavam a situação, os dois primeiros se aproximando do foco principal discretamente.
– Você é uma mulher da vida! Uma mulher fácil! Nessa cidade não tem espaço para... Para... – a velha ponderou palavras de baixo calão qu valessem menos Aves Marias — Vacas como você!
Como um gato ela se armou, as mãos para frente foram de encontro a sua vítima, uma no pescoço e a outra no cabelo. E pela primeira vez em toda a cena a mulher de couro se moveu.
Sua mão direita encontrou o pulso esquerdo da agressora e o forçou o osso para trás. A cabeça fez um giro para baixo e mesmo que o cabelo fosse puxado para cima os dedos da velha foram estrangulados pelo mesmo. Por fim e ao mesmo tempo o joelho esquerdo da presa acertava a costela da agressora. Com certeza agora os papeis se trocavam.
Os estremos eram assim expostos. Uma senhora de idade que em sua magreza não poderia ser mais frágil caiu no chão urrando e principalmente chorando de dor. E conforme ela gritava de ódio lágrimas se entrepunham ao som agonizante. E ainda de pé a misteriosa figura de uma mulher que apesar da estética normal demonstrava um estilo de luta muito bem calculado para uma adversária tão fácil. Cada movimento seu tinha sido como em uma dança, coreografado e principalmente decorado, talvez anos antes.
Apesar do talvez desta história, para Sam que se dava ao trabalho de raciocinar aqueles detalhes, a precisão de luta da perseguida era uma certeza. Com passos tão longos quanto suas pernas permitiam, e para um homem daquela altura isso era muito, ele chegou até a mulher.
A primeira investida foi para agarrar seus braços e pescoço, porém, ao contrário do que tinha acontecido com a velha que pelo menos tinha firmado as mãos na moça, ele falhou. Com uma abaixada de ombros ela girou escapando pelo lado direito do corpo dele.
A segunda foi para golpeá-la na cabeça. Aproveitando a má posição da garota ele tentou acertar a nuca dela com o cotovelo, mas como se ela previsse seus movimentos o corpo vestido de preto mudou de rumo no mesmo segundo e mais uma vez escapou do golpe. Ela era rápida, muito rápida.
Dean chegou alguns apenas segundos depois, dois deles perdidos tentando decidir o que fazer sobre aquele novo combate.
Seu instinto venceu a confusão mental e no segundo seguinte já se podia ver e ele a puxando pelo pescoço em um mata leão muito mal encaixado, resultado de uma chegada inesperada. O corpo dela escorregou pelo lado direito do dele. Agarrando o tecido da camisa da garota ele tentou puxá-la de volta enquanto Sam tentava agarrar suas pernas para imobilizá-la.
Eles não teriam conseguido se não fosse o tiro.
– DESGRAÇADO – ela urrou pela primeira vez se deixando vencer. O peso do seu corpo caiu sobre o corpo de Dean, que preocupado em imobilizá-la pelo menos estava preparado para mantê-la de pé.
E foi assim, que ao tentar arrumar as mãos para sustenta-la viu o sangue escorrer por entre o tecido pesado da jaqueta dela. O sangue vermelho vivo brilhou contra o sol do fim da manhã, manchou seu próprio casaco, mostrando que era exatamente da cor da fitinha dos mortos. Uma bela escolha, ele pensou.
Mais atrás o policial que avisará do acontecido ainda segurava uma arma tremula na direção da garota. O corpo dela girou sobre o de Dean e agora ela estava de frente para ele, pressionando com a mão contrária o próprio ferimento. Ainda com a ideia de mantê-la segura, como se o tiro no ombro a fizesse desmaiar a qualquer momento, o caçador a abraçou pela cintura. Ela pareceu não se importar, na verdade ele não era o foco dela. Agora de frente para o seu atirador ela berrou.
– Como um ser humano pode ser tão burro? Vocês fazem esforço? – Sam se reposicionou na cena, caminhando na direção do policial ainda segurando o queixo acertado por um chute.
– Se eu fosse você eu desistia. Não tem mais como você correr. – ele focou os olhos nos dela e de costas para o policial a acusou em um tom mais baixo – Não importa o que você seja. Nós estamos acostumados com a sua raça, não importa qual seja ela.
– Oh céus! É justamente isso que eu estou dizendo! Vocês atiraram em mim! E atiraram na pessoa errada. – ela tirou o a mão do próprio braço, Dean ainda a mantinha presa, ela ainda não tentava fugir.
Apenas ouvindo a confusão se desenrolar Dean teve o impulso de levar a mão até o braço da garota. E assim o fez, checando se precisaria ir para um hospital.
O buraco da bala ainda estava ali no casaco, o sangue também, ainda úmido e tão vermelho quanto minutos atrás, mas seu toque não gerou nenhuma reação na garota. Um raio de arrependimento tomou conta da mente dele ao mesmo tempo que seus dedos tateavam a pele curada. Talvez ela fosse mesmo um tipo de monstro.
O oficial que de início os avisou da confusão pediu a Dean e Sam que a levassem para a delegacia. Seria preciso um pouco de paciência e jeitinho de conhecidos para dispersar a confusão da praça, que depois de tal cena de violência tinha tornado as discussões verbais ainda mais calorosas. O policial não esperou que eles dissessem que levariam a menina, apenas deu as costas e saiu andando enquanto soltava um sussurrado.
– Os novatos cuidam dos novos problemas, os veteranos dos velhos problemas. Hey Bill, solta o Professor!
– Você vai nos dizer agora porque está fazendo isso. – anunciou Sam para a garota, e ao invés de ir para a delegacia puxou o braço ferido dela na direção do Impala.
– Hey! Calma aí muchacho! – Dean fechou o a cara parecendo quase que ofendido no lugar da garota. O puxão o fez tentar segurá-la instintivamente, como se achasse que ela fosse tropeçar ou alo do tipo, já que a força que Sam aplicava, agora proposital e conscientemente era bruta. Porém, Dean logo entendeu que ela não precisava do corpo dele para lhe servir de apoio ou muralha. Mesmos os passos não programados em resposta ao puxão eram completamente certeiros. Apenas um movimento dos pés a fez recobrar o equilibro.
– Ela não fez nada. – interviu Dean, a mão ainda na cintura dela, apenas um lembrete de que Sam não tiraria ela dele tão fácil – Só discutiu com aquela velha idiota. – o rosto virou para o lado e a mão solta se virou para o ar em uma expressão esperta de quem pede piedade em tom de piada – A gente nem tem porque prendê-la na delegacia se quer saber. O guarda bendito que está ficando acostumado a arrastar as pessoas para lá. E quer saber? Se a levarmos para lá perdemos nossa dianteira. Agora a louca está conosco – ele olhou para ela e tentou não sorrir muito — e ela vai nos contar como está fazendo a cidade inteira se matar. – já para Sam ele abriu o seu sorriso mais amigável.
Dean a empurrou contra o Impala, prendeu suas mãos com uma algema e com uma segunda prendeu a primeira no gancho da cabeceira do banco da frente. O corpo impaciente se viu caindo, literalmente jogado contra o banco traseiro do carro. Antes de se recompor a porta fechou com um estalo. Os garotos eram mesmo bons e fazer o tipo.
– Você é uma bruxa? – perguntou Dean tentando encontrar logo a resposta. Talvez apostando em um tiro de sorte. Já estava cansado do Sam irratadinho.
– Você encontrou algum patuá na casa das pessoas? – ela respondeu com ironia, mas no fundo curiosidade, com um olhar que entrega quando alguém te supera.
Seu único movimento foi se dar ao trabalho de ajeitar-se um pouco mais no banco, o que verdadeiramente, era impossível, pois com as mãos presas o corpo ficava obrigatóriamente inclinado para o banco do carona.
Sam não respondeu a pergunta. Pelo contrário, escolheu a ação. Simplesmente jogou uma rajada de água benta e detox contra o rosto dela.
Com as mãos presas a garota vestida de couro teve que mover o rosto com certa agressividade para tirar o líquido que escorria para seus olhos. Ela não gritou de dor e seu rosto não ficou em carne viva como fosse esperado.
Por outro lado, o detox que escorreu para o seu olho o fez ficar vermelho vivo em uma reação química feia de ser vista quando olhada com atenção. Mas a garota nem ao menos tentou coçar o olho, apenas gritou de volta.
– Filho da puta! Eu não sou um demônio! Que merda tem na tua água benta! Você fodeu meu olho! – E Sam é claro, a ignorou.
Ele não parecia estar preocupado em ter quase cegado ou de estar cegando naquele exato momento uma vítima apenas por negar socorro. O único movimento que ele produziu foi pegar a adaga em seu casaco e ameaça-la mais uma vez.
– Qual seu nome? – a voz de Dean saiu como uma rajada impaciente. a situação não era tão confortável quanto qualquer um dos presentes pudesse concordar.
– O que isso importa? – berrou a refém — Eu não sou o problema! Idiota! – ela completou com desdém — E graças as suas idiotices, além de estar presa num carro velho de dois babacas – seus olhos rodaram pelo veículo procurando por algo — minha mochila ficou para trás! Tudo porque uma mulher verdadeiramente doente resolveu dizer que eu sou uma puta. – respirando fundo ela suspirou. Manteve o controle antes de terminar sua frase — Frigida desgraçada. – com muita calma, movimentos seguintes que não condiziam ao tom de voz inicial, ela voltou a se ajeitar no banco. Com as mãos presas tentou subir as pernas para ficar menos esticada.
– Não! Merda! Lama em cima do banco não! – tinha um ganho um motivo para também se irritar, ainda que tivesse durado alguns segundos. Na verdade a situação o mostrava que mesmo com motivos, algum impulso novo, as suas atividades sensoriais funcionavam como de praxe.
Ele era capaz de perceber seu sangue fervendo e não era apenas uma força de expressão. Como quando estamos com febre e sentimos nossa pele quente contra o ar que nem está frio, da mesma maneira ele conseguia entender o caminho que suas veias formavam pelos seus braços e dedos, apenas porque elas estavam mais quentes.
Tentou respirar fundo e mesmo assim a respiração continuava compassada, ele conhecia muito bem a sensação de ser controlado por uma grande descarga de adrenalina, mas aquela sensação era definitivamente desconhecida. Aquilo com certeza não era normal.
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