Inominável

3 Agente Especial Smith e Agente Especial Smith


Dean trocou suas botas de lona pelos sapatos do Agente Especial Smith.

O mais velho ajeitou a gravata. O pescoço ainda doía da noite dormida no banco do carro algumas horas atrás. Aquele maldita cidade ficava tão no meio do nada que foram obrigados a dormir na estrada antes de chegar até lá.

Não foi preciso mais do que dois toques no batente da porta para que o Padre viesse até a frente da igreja. Os olhos do caçador percorreram rapidamente todo o local por dentro, estranhamente não tinha nada de estranho, como a maioria das igrejas parecem a maioria dos humanos.

– Agente Especial Smith e Agente Especial Smith. Sem grau de parentesco – informou Dean com um sorriso serio e uma mexida de sobrancelhas. Definitivamente ele não percebia que fazia aquilo com as sobrancelhas.

– Entrem. Entrem. Por favor, entrem. – para uma cidade com um recente histórico como aquela, Saint Andrea tinha moradores atenciosos de mais, já que agora Padre Ledger entrava na lista de simpaticos. Mesmo seus 30 poucos anos eram acolhedores na mesma intensidade que os setenta e muitos do Professor Black.

– Então Padre, gostaríamos de fazer algumas perguntas sobre os últimos casos de... – o mais novo titubeou para encontrar as palavras, acabou escolhendo as duas mais óbvias mesmo – Homicídio e suicídio da cidade.

O resultado não poderia ter sido mais positivo. Apenas o suspiro do Padre anunciava uma imensa, porém detalhada versão dos fatos.

– Erick sempre foi um bom moço sabe. Muito bom mesmo. – começou o padre afrouxando a gola da camisa – Crescemos juntos. Praticamente, eu digo. Erick era o melhor amigo do meu irmão mais velho, logo ele vivia em minha casa. Éramos vizinhos. Eu vi Erick casar com Susana meus senhores. Vi o pequeno Jimmy nascer e meu irmão se tornar padrinho da menina. Aqui em Saint Andrea não temos muitas ambições sabe. O povo daqui fica feliz em ser o açougueiro, se sente orgulhoso em ser o mecânico. São as pequenas coisas que movem essa cidade, afinal ela é tão pequena. Erick era assim. – com um suspiro o Padre olhou para os próprios pés antes de continuar a contar.

– A versão oficial da cidade é que naquele dia ele acordou irritado. Harry teve tempo de vir a Igreja antes de... Bem. Erick passou o dia inteiro gritando com as pessoas da padaria e de noite decidiu que iria caçar com Harry, o meu irmão. Para desestressar, ele disse.

– Quando estacionou o carro na frente da casa de Harry resolveu entrar na casa. Os primeiros policiais que vieram disseram que não demorou mais que cinco minutos todo o processo. O primeiro tiro foi na perna de Harry, o segundo na virilha – o Padre suspirou – o terceiro no estomago de Emilly, sua esposa. O quarto tiro na garganta da moça. Ele ficou vendo minha cunhada se afogar no próprio sangue até Lisa descer as escadas. A menina... A minha sobrinha... A minha pequena sobrinha – Padre Ledger estremeceu e sua voz, que já estava embargada falhou.

– Lisa ganhou cinco tiros no rosto. Senhores... – mais uma vez foi preciso fazer uma pausa – Eu me perguntaria que tipo de homem faria isso com uma menina de apenas quatro anos de idade, mas sinceramente, a única resposta que eu teria é que Erick não é esse tipo de homem.

– E os casos seguintes... – Sam teria concluído sua frase para direcionar a pergunta, mas Ledger queria colocar tudo para fora. O padre queria confessar pecados que não eram dele.

– Harry foi levado ao hospital e quando recebeu alta, três dias depois, veio direto a igreja. Obviamente não ouvi o que ele confessou, mas vi que o Padre Gerard ficou muito abalado com a conversa. Quando Harry saiu do confessionário Padre Gerard gritou para que ele voltasse. Padre Gerard já era bem velho, chegou a ajoelhar no chão e implorar que ele não fosse embora. – dessa vez o tempo de espera para a respiração foi maior. Cinco inspirações, quatro sopros de ar antes de voltar a falar.

– Meu irmão invadiu a casa de Erick. Susan estava no banho. Ele a matou afogada. Em seguida foi até o quarto de Jimmy e o matou enforcado com uma gravata. Logo depois ele se suicidou com a mesma gravata. – os dedos estalando do sacristão era o único barulho ouvido por alguns segundos.

– Mas os incidentes não pararam, não é? – perguntou Dean com o tom mais calmo que estava acostumado a figurar.

– Não. A cidade ficou abalada. Toda a cidade verdadeiramente abalada. A próxima morte foi de Linda. Alguns disseram que ela era amante de Harry, outros disseram que era amante de Erick. Pessoalmente duvido das duas versões, acho que linda sofreu do mesmo mal que Erick, mas ao invés de raiva entrou em amargura frenética. Os casos tomaram a cidade. Foram nove suicídios em apenas dois meses, sem contar o de Harry e Linda. Os casos de violência também cresceram. Hector da marcenaria e Lars assistente na prefeitura brigaram em um bar, se bateram tanto que os dois morreram no chão entre os cacos de cerveja. Devon prendeu sua namorada em uma cadeira fingindo que uma brincadeira e fez com que o próprio cachorro a comesse até a morte. Arthur, um menino de sete anos, jogou três amiguinhos da escada. Arthur morreu sufocado quando um grupo de adolescentes prendeu sua cabeça em saco. As datas se espalham pelos meses. – seu último gesto foi passar os dedos por entre os cabelos e deixar a cabeça cair para o lado.

– E assim lá se foram cinco meses de uma cidade que eu não conheço mais.

– O senhor citou o Padre Gerard. Ele também está entre os mortos do último mês. É por isso que está no lugar dele, não é? – perguntou Sam, que desde o inicio gravava a conversa em seu celular sem que o padre percebesse. Quem não é da justiça não precisa se preocupar com as leis de privacidade publica.

– Ele morreu sim. O diagnóstico foi de velhice. É claro que tudo isso mexeu com ele, mas não achei que fosse um ponto importante da investigação, digo, ele era apenas um Padre velho que viu sua cidade desabar. Que homem de Deus não desabaria junto?

– Padre Ledger, algo de diferente ocorreu na cidade antes dos acontecimentos? Alguma moda nova, mesmo que uma roupa ou um tipo de pulseira. Algum visitante inesperado. Percebi que a maioria dos alimentos do mercado são orgânicos. Mesmo uma mudança nas colheitas ou no tempo, no clima eu digo, poderia ajudar. Um cheiro talvez... – disparou Sam tentando ser delicado.

– Bem... Nada disso. Não que eu tenha percebido e eu acho que perceberia. Não recebemos visitantes, os senhores devem ter percebido pela única estalagem da cidade. E o clima... Bem, as plantações continuam as mesmas de sempre, afinal em Saint Andrea sempre está chovendo nessa época do ano. – mais uma vez seus olhos encontraram suas botas. Como as do velhinho da entrada na cidade, também eram galochas de plásticos prontas para a chuva, mesmo que não fizesse jus a batina a manteria limpa e distante da lama.