Inocência Ultrajada

9 Capítulo 9 ENTRE AS SOMBRAS...


As muralhas de pedra do castelo se destacavam na tarde fria, contra o veludo acinzentado do céu. Pesadas nuvens escuras pareciam referendar o clima trágico que se anunciava.

Shaka estava na ameia norte, o cenho franzido, observando suas terras e o negror que subia aos céus, quando o cavalo, com sua carga morta, aproximou-se da ponte.

Ikki vinha ao seu encontro, após constatar que havia algo errado acontecendo na direção da aldeia que já visitara. Ao aproximar-se mais, também viu a cena que o deixou estarrecido.

- Que diabos?! – deixou escapar quando percebeu o corpo amarrado às costas do animal.

Shaka ordenou para que descessem a ponte. O som dos cascos contra a dura madeira ecoou pela muralha de pedra que se estreitava naquele local. O animal estancou e ao se deparar com o corpo, Shaka levou a mão à boca. Seus olhos custaram a acreditar no que estava vendo. A jovem exibia marcas de chicote, de dentadas e, na região dos seios, escritos com uma lâmina afiada, os nomes daqueles que a violentaram.

- Shaka. – chamou Ikki.

Aterrorizado, Shaka não respondeu nem moveu um músculo sequer. Diante de seus olhos surgia uma realidade de mortes e horrores das quais ele se tornara prisioneiro.

Ikki adiantou-se para retirar o corpo de cima do animal e colocá-lo no chão, retirou o pergaminho que tinha sido amarrado à boca da jovem e, em seguida cobriu o corpo com sua capa. Acostumado com as atrocidades cometidas em batalha, Ikki mesmo assim surpreendeu-se com o grau de crueldade exposta aos seus olhos.

Afoitos e assustados, todos se amontoavam para ver o corpo, enquanto sentiam o ar pesado, tanto devido aos resquícios de fumaça existente no ar, quanto pelo trágico acontecimento.

Com cuidado, Ikki abriu o pergaminho que continha um desenho do rosto de Shaka e, tão perfeito, que se não tivesse se apresentado daquela forma, dentro de uma boca cheia de sangue, seria digno de ser exposto.

- Dê-me isto! – falou Shaka, saindo da imobilidade e falando num tom que Ikki estranhou.

- Milorde, eu creio que...

- A mensagem é para mim, não é mesmo? Então é em minhas mãos que ela tem de ficar!– disse Shaka ainda com o tom de voz mais alterado.

- Sim, mas achei que não gostaria...

- De me expor? De presenciar mais uma morte? Estou mais que exposto, estou enredado neste jogo perverso que parece não ter fim. Sinta o ar, milorde, está tão pesado que até o mais tolo dos homens sabe que o pior ainda está por vir!– gritou Shaka puxando o pergaminho da mão de Ikki.

Demoradamente, Shaka olhou o desenho, sabendo que havia uma mensagem oculta atrás da imagem. Saga tinha prazer nos jogos e enigmas. Quando eram amantes, ele sempre enviava uma mensagem secreta com instruções eróticas ou poemas, cujo duplo sentido, antevia os desejos que ele ansiava satisfazer. Não seria diferente agora.

Traduziu a mensagem, guardando-a para si, depois enrolou o pergaminho e guardou-o, sob o olhar tenso de Ikki e dos demais.

A movimentação no pátio zumbia como uma colmeia e, entre camponeses revoltados, tristes e ansiosos, Aiolia apresentou-se com seus homens preparados para sair em combate.

- Vamos acabar com esses malditos, agora! Meus homens já estão preparados para a luta. – disse Aiolia.

- É uma atitude precipitada, milorde! Está claro que estão nos provocando e desejando exatamente isso, que nos lancemos sobre eles, sem ao menos saber o número de seus homens! Temos que ter cuidado. – retrucou Ikki.

- Eu dou outro nome ao que acabou de dizer, milorde. Para mim é covardia! – rebateu Aiolia.

- Entenda como quiser. Mas devo avisá-lo que arrogância não vence uma batalha. Estratégias não foram criadas por covardes, nem por tolos.

- Minha estratégia já está definida, não sou estúpido ao ponto de comprometer a integridade de meus homens sem ter um planejamento. Minha experiência em batalhas é vasta e eu vou mostrar a esses demônios com quem estão lidando.

- A única coisa que você vai mostrar a eles é que reage da forma esperada, quando provocado. – disse Ikki com sarcasmo.

- E você milorde? Como reage quando é provocado? Ah, já sei, senta e espera que passe! – provocou Aiolia.

Após a fala de Aiolia, os comentários que iniciaram tímidos, logo assumiram a forma de clamores e discussões acaloradas entre os soldados de Aiolia e entre os homens de Ikki.

Houve um momento tenso onde os dois se encaravam como se fossem se enfrentar e, antes que Ikki respondesse a provocação, Shaka se pronunciou:

- Chega! – ele gritou e todos se voltaram arregalando os olhos ao ver a expressão furiosa do senhor da Fortaleza. – Agora não é momento de falar em batalha ou retaliação. O corpo desta pobre mulher precisa passar pelos ritos fúnebres e, depois deles, eu irei até a aldeia. Se existem sobreviventes, é deles que, primeiramente, vamos nos ocupar. Até lá, respeitem a minha decisão e mantenham a unidade e o respeito entre si ou podem se retirar da Fortaleza.

Ikki encarou Aiolia sentindo uma forte vontade de fazê-lo engolir o insulto, mas se controlou. Se fosse em outra época, seu orgulho estaria acima de tudo e ele mostraria a Aiolia que sentaria sim, em cima de seu pescoço e de preferência, após tê-lo ensinado uma boa lição com a espada.

Altivo e com uma expressão isenta de emoções, Ikki sinalizou para os seus homens e deixou o local, olhando de relance para Shaka que permanecia com uma expressão sombria e raivosa.

Aiolia, à contragosto, também foi reunir-se aos seus homens, enquanto as conversas iam escasseando até se transformarem em cochichos.

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“Requiem aeternum dona eis Domine... Et Lucenat eum requiescat in pace”

Paz... Descanso... Eternidade... Luz... Deus...

O murmúrio das orações em latim que o padre proferia em tom monótono anestesiava o coração de Shaka que mergulhava o dedo no frasco de óleo e traçava o sinal da cruz na fronte, boca, mãos e pés da jovem que ele nem sabia o nome, mas que recebia os ritos de suas mãos como um costume antigo atrelado ao poder de um lorde.

Shaka conhecia aquelas palavras de cor, tantas vezes repetidas por seu pai, diante de parentes que partiam. Se ele estivesse vivo, talvez adicionasse alguns ritos pagãos para despedir-se dos mortos, pois adotara o catolicismo mais por amor à esposa que por devoção.

Quanto a si próprio Shaka sentia-se dividido, descrente de qualquer tradição que fechava os olhos para a dignidade humana e desejoso que tudo o que estava vivenciando fosse um sonho ruim do qual pudesse despertar a qualquer momento. Infelizmente não se tratava de um sonho, mas do mundo real com seu eterno ciclo de violência...

Após a cerimônia, o corpo da camponesa foi envolto em panos de linho e colocada num caixão de madeira numa carroça. Os camponeses lançaram um último olhar e fizeram o sinal da cruz.

A criadagem interna da fortaleza ocupou-se de continuar com seus afazeres e Shaka ficou um tempo dentro da pequena capela que abrigava, apenas, uma cruz de madeira e um altar simples. Envolto pela luz colorida e diáfana dos vitrais, fez o sinal da cruz tentando absorver a resignação que pairava em um local como aquele. Porém, a atitude fora em vão, nem o ambiente, nem sua índole natural conseguiam dissolver a ira que crescia em seu coração.

Que Deus me perdoe! Pensou por estar sentindo um ódio tão imenso que lhe despertava o desejo terrível de matar. Quando saía da capela para juntar-se à Aiolia, um criado veio esbaforido e gritando:

- Milorde! A criada assassina... Hilda. Está morta! Fui levar comida a ela e a encontrei caída e sem respirar.

Shaka olhou-o e, pela primeira vez, naquele dia, seus lábios se abriram num sorriso fraco.

- Deus é justo, afinal. Assim que eu sair, levem o corpo para fora das muralhas e queimem-no. Depois enterrem as cinzas em um lugar bem longe desta Fortaleza.

- Queimar? Sem nem ao menos chamar o padre, milorde?

- Sim, queimem-no. Para quê protelar o inevitável? Que as chamas a levem direto para o Inferno. – falou Shaka, secamente.

O criado notou a mudança de expressão de seu senhor. Compassivo, Shaka sempre tinha um olhar bondoso e gentil. Mas agora, o que todos viam era um olhar sofrido e perigosamente obscurecido pela ira.

- Assim será feito, milorde. – respondeu o criado se afastando.

Do outro lado, Ikki observava Shaka com atenção. A postura tensa do corpo, a angústia que se tornava visível na forma brusca como estava se comportando. Entendia-o muito bem. Desde que haviam se conhecido, ele percebera muito de si mesmo nas atitudes culpadas de Shaka e na couraça que ele erguera dentro de si. Caminhou em silêncio na direção dele sem ser percebido.

- Shaka. – disse ele tocando-o no ombro.

Ao sentir a mão grande e quente contra o seu corpo, Shaka comoveu-se, mas não demonstrou. Queria ficar longe daquele que amava, só assim poderia livrá-lo da sombra da morte que o acompanhava como se fosse uma amante.

- Obrigada, milorde. Mas, não se preocupe, estou bem. – disse ele evitando um contato maior.

- Não, não está. Acha que pode se esconder de mim? – perguntou Ikki obrigando-o a encará-lo.

- Não estou me escondendo. Tenho obrigações a cumprir e preciso de serenidade.

- E por acaso eu ameaço a sua serenidade?

- Sim, você deseja me proteger e ao agir assim, enfraquece-me, ao invés de ajudar-me.

- Desde quando o cuidado com quem se ama, enfraquece?

A cor sumiu das faces de Shaka e ele não respondeu de imediato. Também amava Ikki como nunca havia amado alguém. Ao conhecê-lo, aprendera a distinguir entre a paixão e o amor, embora esse amor despertasse um desejo maior e mais ardente do que vivenciara com Saga.

Porém, se aceitasse esse amor, o colocaria em risco por um pecado somente seu. A solução não era mais usar dois exércitos para derrotar Saga e Kanon. Sem que soubesse, com o último ato desumano e a mensagem contida nele, o próprio inimigo tinha lhe sinalizado como derrotá-lo.

- Agradeço, novamente, a sua preocupação, milorde. Entretanto, mesmo com o risco de parecer rude, não é o momento para discutirmos esse assunto. – disse por fim.

- Vou acompanhá-lo até a aldeia. – falou Ikki tocando-o, novamente no braço.

- Não será necessário, lorde Aiolia o fará. Fique e ajude a manter a ordem interna. Foi para isso que pedi sua ajuda, caso tenha esquecido.

Ditas as palavras, Shaka montou e não direcionou mais o olhar para Ikki, mas podia sentir na nuca o olhar intenso e magoado do jovem lorde. Ele nada dissera, mas Shaka sabia o quanto o havia ferido e humilhado com suas últimas palavras. Melhor assim, ele sentiria raiva dele e se afastaria. Não desejava que Ikki fosse atingido por toda aquela sujeira...

Ikki ficou olhando Shaka cavalgando na direção do portão principal, acompanhado de Aiolia e seus homens. Sua mente se tornou turva, sobrecarregada e exausta. Mas, não era isso que o impedia de montar seu cavalo e ir atrás de Shaka para cobrar explicações.

Engoliu a mágoa, o orgulho e a impulsividade em nome de um bem maior, em nome do que estava disposto a fazer para garantir a vida e a libertação de Shaka.

Fechou os olhos e respirou fundo. Quantas vezes se perguntara como era sentir amor? Quantas vezes seu corpo vivenciara apenas o desejo, para depois ansiar por outro corpo e mais outro, até o desejo fenecer e o ser desejado tornar-se parte do esquecimento?

No entanto, mesmo só tendo beijado Shaka uma vez, sabia, desde que pousara os olhos nele, existir algo poderoso e misterioso ligando-os. Desejava protegê-lo acima de qualquer coisa, até mesmo da sua vida. Tudo o mais perderia o sentido se falhasse em fazê-lo. Abriu os olhos com um sorriso triste e suspirou mais uma vez. Após ter passado por tantas experiências, enfim, encontrara a resposta para a questão que seu coração e sua alma haviam buscado tanto...

Milo chegou por trás, batendo em seu ombro e fazendo Ikki encará-lo com um olhar triste e, ao mesmo tempo, urgente.

- Dias de tormenta, milorde? – perguntou Milo com cumplicidade.

- Sim, Milo, mas já estou acostumado. Nada, em minha vida foi fácil e não é agora que será. Está pronto?

- Desde que ordenou, milorde. Como sabia que lorde Shaka não o levaria consigo?

- Porque somos parecidos.

- Dois cabeças-duras?

- Alguém já lhe disse que fala demais, sir Milo?

- Quase todo mundo.

- Pelo visto, de nada adiantou, não é mesmo?

- Não, mas esse talento me permite acessar informações muito interessantes, milorde. Foi conversando com sir Kamus que descobri um trunfo que vai ajudá-lo a ter sucesso em seu plano...

- Então está perdoado. Vamos lá, colher os frutos desse seu talento. – disse Ikki batendo nas costas de seu homem de confiança e melhor amigo.

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Parado com um archote na mão, Kamus esperava, impaciente, embora sua postura corporal parecesse relaxada. Não sabia se sua decisão em dividir o que descobrira há alguns dias quando fizera uma vistoria rigorosa na Fortaleza estava certa, porém como aprendera à duras penas, qualquer decisão era melhor que omitir-se dela.

Achara aquele lugar de uma forma inusitada, como se estivesse predestinado para tal. Toda a fortaleza tinha passagens secretas para a necessidade de evasão durante um ataque. Porém, aquela era muito mais que isso, era um túnel que unia a fortaleza ao interior da montanha, levando a algum lugar estratégico que Kamus não sabia onde era, mas resolvera unir-se a Ikki e Milo para descobrir.

Sua decisão fora tomada, após assistir a discussão entre Aiolia e Ikki. Aiolia era forte e experiente, mas passional em demasia, já Ikki embora pudesse ser impulsivo, portara-se com uma dignidade que o agradou. E também havia Milo, que apesar da irreverência, o instigava pelo coração generoso e possuía a coragem e a habilidade de um verdadeiro guerreiro, qualidade que não passou despercebida aos seus olhos inquisidores.

O som dos passos rápidos alertou-o e ele fixou o archote na parede para certificar-se de quem vinha em sua direção. O ranger da grande porta de acesso às abódadas subterrâneas revelou a presença dos dois homens que ele já esperava.

- Sir Kamus, bom vê-lo. – disseram Ikki e Milo.

- Igualmente, senhores. Agora, venham por aqui. – respondeu Kamus cumprimentando-os com um meneio da cabeça.

Ikki e Milo entraram em uma grande galeria subterrânea. O único archote iluminava pouco, mas se podia notar que havia o toque humano em muitas partes do longo e úmido corredor até chegar num ponto estreito onde o piso ficava desigual. Depois dele, havia rochas maciças onde outra porta, desta vez menor, interrompia o caminho de forma que, ao passar por ela, um homem teria de rastejar.

Após andarem durante um bom tempo, Kamus abriu o último trinco enferrujado que fechava uma pequena portinhola com seu punhal e ela se abriu. A visão do outro lado dos rochedos e uma pequena praia fez Ikki inspirar o ar marinho e sorrir.

- Esse caminho não foi construído, somente, como uma rota de fuga. Quem o planejou, sabia que teria uma grande vantagem se resolvesse atacar seus vizinhos...

- Creio que sim. Nenhum de nós o conhecia. Eu o encontrei por acaso, ao notar um acesso que, no início, pareceu-me uma despensa abandonada ou algo do gênero. Depois eu lembrei-me que Dohko tentou contar-me algo, antes de morrer, mas só conseguiu pedir que eu não enfrentasse Saga sozinho.

- Ele teve sorte de ter, ao seu lado, alguém como você, sir Kamus. Sei que nos estranhamos no início, mas reconheço a sua hombridade e valor. – disse Ikki tocando o ombro de Kamus.

Kamus enrubesceu e Milo sorriu ao vê-lo sem saber o que fazer ao receber um elogio. Então completou:

- Sir Ikki está certo, vai ser muito bom tê-lo ao nosso lado, milorde.

- Agradeço a gentileza, mas apenas cumpro meu dever. – respondeu ele e Milo notou que o tom de voz ao responder-lhe foi mais amigável.

Depois do beijo que haviam trocado, ambos permaneciam em alerta com as próprias reações. Conversavam e trocavam impressões sobre vários assuntos, porém logo que aquele silêncio tenso que parecia querer atirá-los, um nos braços do outro, se instaurava, ambos seguiam para o campo de treinamento ou para os banhos frios...

- Bem, senhores, vamos voltar e nos prepararmos, devidamente, para colocar o plano em prática. – disse Ikki.

- Plano? – indagou Kamus.

- Sim, milorde e eu espero contar com a sua colaboração. Encontre-nos após todos estarem dormindo.

- Será uma honra! – disse Kamus tocando o cabo de sua espada.

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Shaka cavalgava em silêncio ao lado de Aiolia que permanecia calado e atento a qualquer movimento. Os soldados, mantinham uma disposição que os deixava também atentos e preparados para qualquer ataque.

Quando chegaram a uma bifurcação que indicava os limites da aldeia, Shaka avistou uma lança com uma cabeça humana na ponta. O cheiro da morte e os corvos que desciam à procura de alimento causou-lhe uma enorme náusea quase fazendo-o vomitar, mas ele permaneceu firme. Aiolia percebeu-lhe a palidez e sinalizou, elevando a mão direita. Imediatamente, dez homens colocaram-se em torno de Shaka, isolando-o da cena horrenda.

O jovem lorde rompeu o cerco e cavalgou com rapidez, fazendo com que os soldados se esforçassem para acompanhá-lo. Entrou na aldeia, encontrando vários camponeses mortos. Homens, mulheres, crianças, animais... A destruição, associada ao massacre testemunhava que nada escapara da sanha dos assassinos.

O coração de Shaka acelerou de tal forma que parecia querer sair pela boca. Com velocidade, Aiolia aproximou-se emparelhando seu cavalo com o dele, de forma que ele não pudesse avançar.

- Shaka! Deixe que eu e meus homens cuidemos de tudo. Volte para a Fortaleza, mandarei meus melhores homens escoltá-lo.

- Não posso! Se houver sobreviventes, Aiolia eu preciso achá-los! – disse Shaka com um tom de voz que denotava uma forte angústia.

- Meu amigo...Sei que é forte, mas não está acostumado a este nível de brutalidade. Faça o que eu digo. Acharemos os sobreviventes, se houverem. Por favor, volte à Fortaleza. – pediu Aiolia preocupado por saber que Shaka jamais tinha presenciado tanto horror e saber o quanto tudo isso o feria de forma profunda e dolorosa.

- Pare, Aiolia! Não é a mim que deve proteger, será que ainda não compreendeu? Sou o suserano deles, é meu dever mantê-los em segurança. Ordene aos seus homens que enterrem os corpos, enquanto alguns entram comigo na floresta. Talvez alguns tenham escapado e se escondido lá. – falou Shaka puxando as rédeas do seu cavalo para ir na direção da floresta.

Mesmo contrariado, Aiolia atendeu o pedido de Shaka. Porém, quando os soldados juntaram-se ao lorde, homens, mulheres e crianças saíram da floresta como uma massa de insetos barulhentos. Gritavam e agitavam os braços, reconhecendo as cores do estandarte de Aiolia.

- M-Milorde! Milorde!

Shaka experimentou um alívio forte e repentino que chegou a escurecer sua visão por alguns segundos. Os camponeses cercaram-no com olhares assustados e agradecidos, ao mesmo tempo, e ele teve dificuldade em desmontar. Entretanto, um pouco mais revigorado desceu e ouviu com detalhes como tudo tinha acontecido, enquanto os soldados ajudavam a recuperar pertences e cuidavam dos feridos.

Depois de muito trabalho, Shaka procedeu a entrega do caixão que trouxera, perguntando sobre ela e seus familiares. Uma senhora idosa aproximou-se segurando seus poucos pertences e chorando, escorou-se na carroça contendo o caixão.

- E-Ela é a minha neta. Zabrina é seu nome... – disse ela.

Os braços de Shaka a ampararam, sob o olhar atônito dos camponeses. Nunca um suserano havia tocado daquela forma num camponês e todos se ajoelharam atrás deles, enquanto ela soluçava. Com o olhar sombrio, Shaka só confirmava o que decidira fazer. Olhou, demoradamente, em cada rosto sofrido e desgastado pela violência. Então tocou no cabo de sua espada e falou:

— Há lugar dentro da Fortaleza para todos vocês. Com as plantações queimadas e o gado morto, não haverá alimentos, nem condições para a permanência nesta aldeia. Pedirei aos soldados que reconstruam tudo e aos agricultores que preparem, novamente, a terra. Enquanto isso, ficarão em segurança. Peguem o necessário para que possamos partir, imediatamente.

Houve clamores eufóricos e um novo ânimo instalou-se entre os camponeses. Aiolia sorriu para Shaka numa demonstração de apoio e concordância.

Do meio dos camponeses, um menino correu e lançou-se nos braços de Aiolia. O menino possuía os cabelos loiros e olhos grandes, de expressão felina, que vibravam num tom castanho com reflexos da cor do mel. O lorde estranhou, mas acolheu-o em seu colo.

- Como se chama, pequenino? – perguntou Aiolia.

- Sou Kagaho, milorde e quero aprender com o senhor como guerrear e matar os inimigos! Por favor, me torne seu escudeiro. – disse o menino que devia ter uns seis anos de idade.

- Onde estão seus pais? – perguntou Aiolia.

- Eu sou órfão, milorde.

- Seus pais morreram no ataque?

- Não, milorde. Eu já não tinha ninguém, mas... Zabrina pretencia ficar comigo. – respondeu o menino franzindo o cenho.

Aiolia encarou o menino no fundo dos olhos, sentindo um misto de compaixão e fúria por alguém tão jovem sofrer duas perdas em tão tenra idade.

- Então procurou a pessoa certa. Venha, cavalgue comigo. – falou Aiolia sorrindo e puxando o menino pela mão.

O garoto sorriu e agarrou-se à cintura do cavaleiro. Quem olhasse a cena, veria apenas uma criança inocente e aberta ao aprendizado. Entretanto, Kagaho era muito mais...

Notas finais
AGRADECIMENTOS E BEIJOS À TODOS!!!