Inocência Ultrajada

1 Capítulo 1 PRÓLOGO


Notas iniciais
FIC DEDICADA À SION NEBLINA COMO UM PRESENTE SINGELO DE ANIVERSÁRIO!! PARABÉNS, AMADA!!

Conforme a luz se enfraquecia, tão etérea quanto os sonhos, Shaka permanecia na ameia da Fortaleza e se permitia flutuar em algum lugar além da sombra das nuvens que pareciam tentar cobrir a maior extensão das montanhas verdejantes como a carícia de um amante...

Amante. A palavra doeu em seu peito como se tivesse levado uma chibatada ou um golpe forte. Baixou a cabeça e lembrou a cena de uma semana atrás quando soltara a mão do pai, flácida e muito branca sobre a pesada mortalha de lã. O corpo sem vida daquele que fora seu protetor mostrava-se com a face cinzenta, a boca arroxeada num último crispar de dor.

Lágrimas nunca seriam o bastante para lavar o pecado que cometera e que levara seu pai à morte. Eram inúteis, mas mesmo assim ele as vertera sob o olhar acusador de todos ali.

– Com licença, milorde. O mensageiro chegou e trouxe a mensagem que esperávamos. Ikki de Fênix aproxima-se do castelo com seus homens. – disse Kamus interrompendo as lembranças de Shaka.

– Obrigada, sir Kamus. Já vou descer. – respondeu o jovem escondendo o rosto molhado pelas lágrimas.

Kamus fez uma reverência e saiu. Cavaleiro e homem de confiança do falecido, era conhecido pela seriedade excessiva, a expressão sempre grave e um forte senso de dever. Só por isso, permanecia ali, protegendo e servindo ao homem responsável pela morte de um homem que ele admirava e tinha como segundo pai.

Maldita hora em que ele aceitara lutar pela honra de Shaka e não tinha permitido que ele lutasse em seu lugar! Dohko era um excelente guerreiro, porém Saga era mais jovem e forte. Inferno! Devia tê-lo convencido! Agora era tarde demais... Pensou o cavaleiro fechando os punhos e saindo à passos largos.

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Aquele cenário em nada se parecia com o seu lar no Condado de Galway. Do alto do cabo constituído de rochas elevadas que avançavam para o mar, Ikki admirou a Fortaleza Virgo. Aninhada no topo de uma escarpa, o corpo volumoso da edificação erguia-se sombrio do solo verdejante do litoral da Irlanda, sua torre mais alta assemelhando-se a um punhal cravado no coração da terra.

A seus pés, Ikki viu cabanas abandonadas a pontilhar a encosta da elevação, estruturas simples em pedra que agora jaziam semidesmoronadas. O jovem nobre suspirou recuando sobre os cascalhos e sentindo o retesar do corpo de seu cavalo.

Aquela era uma paisagem típica da época onde os normandos andavam por aquelas terras conquistando, saqueando e destruindo. Um lampejo de dor lembrou-lhe que a sua mãe irlandesa havia sido morta por normandos, mesmo que seu pai fosse um deles.

De costas para o casario em ruínas ele baixou o olhar para o mar revolto, deixando a força emanada daquele cenário natural varrer seus pensamentos e lembranças desagradáveis. Pensar não mudara e nem mudaria a realidade infernal da sua vida, então era melhor agir.

Sacudindo a cabeça com força, encaminhou-se para junto de seus homens. O pequeno exército fizera uma pausa num ponto acima a fim de descansar os cavalos antes de completar a última etapa da viagem.

Os soldados colocaram-se em movimento ao avistá-lo, pondo-se a recolher alimentos e cantis de água. Sir Milo, homem em armas e recém promovido a cavaleiro, foi ao encontro dele e, com um sorriso maroto, entregou-lhe um cantil.

– Tome milorde. Quiero que experimente uma bebida nova. Esta cerveja irlandesa é tão boa quanto o nosso vinho e com certeza, vai tirar o cansaço da viagem dos seus ossos.

Ikki apanhou o cantil e levou-o aos lábios, sentindo o fogo do usquebaugh deslizar da sua garganta até seu estômago. Então sorriu ao perceber a expressão de espanto de Milo. O jovem normando, na certa, esperava vê-lo cuspir ou ficar vermelho após beber um líquido tão forte.

– Bem, isto não apenas tira o cansaço mas também esquenta o corpo inteiro. – falou Ikki tomando mais um longo gole antes de devolver o cantil a Milo. – Obrigado, amigo.

– Ora! Pensei que fosse enganá-lo desta vez, milorde. Preciso me esforçar mais na próxima vez. – disse Milo decepcionado.

Ikki sorriu e apanhou as rédeas do seu garanhão das mãos de Shun, seu irmão mais novo e escudeiro. Acomodou-se à montaria e balançou a cabeça ao ver a expressão compenetrada de Milo.

Imaginou qual seria o novo truque que ele inventaria para animá-lo ou fazê-lo rir. O jovem cavaleiro era somente um pouco mais velho que ele, estava sempre de bom humor e tinha uma força invejável. Era bom tê-lo ao lado para guerrear, mas também era muito bom tê-lo como amigo.

Os primeiros matizes do crepúsculo tingiam o céu quando a tropa atingiu o estreito pedregoso que dava acesso à Fortaleza Virgo. A longa estrada transformara-se em um estreito que permitia a passagem de um homem por vez. Ikki admirou a engenhosidade dos homens que tinham planejado e erguido aquela construção no alto de um penhasco rochoso.

Ansioso por colocar um ponto final à exaustiva jornada, Ikki suspirou profundamente e deu ordem de seguir em frente. Ao chegar à margem do fosso seco, ele fez sinal aos seus homens para que também parassem. A ponte levadiça estava erguida e funcionava como uma barreira intransponível. Não havia ninguém no alto das muralhas do castelo, nem tochas acesas para afastar a intrusa escuridão. Mesmo assim era possível ouvir vozes no interior da edificação.

Indagando-se se não haveria ali soldados suficientes para montar guarda, Ikki gritou:

– Abram, em nome de Ikki de Fênix!

Após uma espera interminável, ele viu luz imiscuindo-se da janela da torre junto ao grande portão. A tênue iuminação logo se estendeu às ameias fronteiriças do castelo. Em seguida, uma voz suave, porém masculina perguntou:

– Como posso saber que é quem diz ser?

Saltando do cavalo, Ikki, já irritado pelo cansaço, respondeu impaciente:

– Enviei um mensageiro para avisá-los que já estava à caminho. Creio que isso, por si só já prova quem sou!

– Perdoe-me, mas eu precisava saber. – respondeu a voz, pontuada por um sotaque nobre.

O guinchar de metal sobre metal anunciou a descida da ponte elevadiça, fazendo-os recuarem alguns passos. Tão logo a plataforma acomodou-se sobre as margens do fosso, Milo deu um tapinha nas costas de Ikki e sorriu, malicioso e ambos se encaminharam para a entrada parcamente iluminada da Fortaleza Virgo.

Shaka não teve pressa em descer os degraus que levavam ao pátio do castelo. Ali, o solo recoberto por pedregulhos o lembrava de cenas degradantes e ele estancou por um momento. Atrás dele, sir Kamus, o único cavaleiro de lorde Dohko ainda remanescente na edificação olhou-o com a expressão severa de sempre.

– Deixe-me recebê-los. Não é bom expôr-se assim. Temos que verificar se não é um truque, pois como bem sabe, Saga e Kanon são capazes de tudo.

Shaka tentou mostrar-se sereno ante a censura contida no tom de voz de Kamus. Dentre os homens de lorde Dohko, ele era o único a julgá-lo responsável por tudo o que tinha acontecido desde que os irmãos terríveis tinham se decidido se apossar da Fortaleza Virgo.

Ainda que desse certa razão a Kamus, Shaka não queria expressar sua culpa perante o soturno cavaleiro. Já lhe bastavam as noites passadas em claro, na solidão de seu leito, recriminando-se pelos ferimentos e pela morte de seu pai.

Numa inflexão neutra ele afirmou:

– Saga e Kanon não sabem que pedimos auxílio a lorde Guilty. Se ele enviou seu filho, temos que recebê-lo e ninguém melhor que eu para fazê-lo.

– Mesmo assim, mantenho a minha opinião. É a falta de cuidado que acaba custando mais caro que podemos imaginar.

Mordendo o lábio inferior, Shaka deixou que Kamus passasse a sua frente. Por dentro, uma imensa tristeza em ver-se alvo das constantes recriminações do cavaleiro.

Ikki percebeu o zum zum de uma conversa baixa e estendeu os braços a fim de mostrar que não trazia armas nas mãos. Shaka deu um suspiro aliviado, passou as palmas úmidas pela túnica e caminhou até ele.

– Fique onde está, milorde.

Ele não atendeu à ordem de sir Kamus. Deu mais dois passos hesitantes e depois adquiriu confiança, alcançando lorde Ikki e pondo-se a observá-lo com extremada atenção. Ao cabo de instantes, fez-lhe uma mesura e sorriu timidamente.

– Milorde... Muito obrigado por atender ao meu pedido. – disse Shaka olhando dentro dos olhos de Ikki.

O rosto do seu salvador estava queimado de sol e uma cicatriz estreita lhe marcava o supercílio. Sua expressão era selvagem e intensa, acentuada pelos cabelos negros e curtos e pelos olhos azuis que pareciam cintilar.

Ikki notara o rosto belo e pálido. Os lábios delicados e os dentes alvos. Os olhos pareciam com o mar melancólico e cheio de mistérios. Não soube explicar para si a vontade de abraçar aquele homem e jurar que nada, nem ninguém nunca lhe faria mal.

Sou Ikki de Fênix, filho de Guilty e vim em resposta ao seu pedido de ajuda com certos vizinhos indesejáveis.

Shaka sorriu e, de repente, sentiu uma forte pontada no abdome que o fez dobrar os joelhos e teria ido ao chão se os braços fortes de Ikki não o amparassem a tempo.

Acolhendo-o junto ao peito protegido pela cota de malha metálica ele exclamou:

– Por Deus, milorde. O que se passa?

Shaka não conseguiu responder. Apenas fechou os olhos abraçando o ventre com os braços enquanto a dor crescia nas suas entranhas.

Sem perder tempo, Ikki tomou-o nos braços.

– Aonde devo levá-lo, sir Kamus? – perguntou Ikki preocupado.

Shaka ouviu com nitidez a resposta seca do cavaleiro. Mas, no instante seguinte, mergulhava num mundo de pleno silêncio e total escuridão...

Notas finais
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS À TODOS QUE PASSAREM POR AQUI! BJS, XD