Depois da morte de Theodor, as manhãs nasciam com outro sentido no imenso castelo feito de pedras, a jovem Condessa Lefrebve permaneceu inerte sentada no velho banco de concreto. Seus olhos pareciam querer desvendar o segredo daquele maldito labirinto, o mesmo que presenciou enquanto seu falecido esposo a violentava.

Uma pequena lágrima escorreu por seu delicado rosto enquanto suas mãos despedaçavam uma frágil rosa vermelha. Uma criada se aproximou e anunciou a visita surpresa da Lady Josephine.

Ela se virou e andou lentamente pelo imenso corredor, atravessou a sala de estar e entrou no grande salão. A criada Justice a seguiu, vigiando-a enquanto ela olhava em volta como se estivesse apreensiva. Viu as estantes que iam do chão ao teto e ocupavam duas paredes, a lareira de pedra, grande e alta o suficiente para caber um homem em pé. As poltronas e divãs aconchegantes, reunidos em áreas comuns, e as grandes janelas que permitiam visão total do grande pátio ao lado do castelo. Arvores antigas derramavam sombras sobre boa parte do gramado, flores no jardim ca­prichosamente tratados balançavam ao vento e a distância, o som das leves brisas de verão.

– Que surpresa agradável. – saudou a jovem.

Os olhos verdes da Lady pareciam estar nadando em duas poças de chuva, suas mãos apertavam de forma rude as abas de seu chapéu.

– Sua vagabunda sem alma, como pode me atrai? Há de arder no inferno, sua pequena devassa. – praguejou.

Angelique encarou-a perplexa rapidamente sentiu sua face arder.

– Como ouça me agredir com tais palavras? – protestou.

Não tardou para as lagrimas escorrerem no rosto oval da Lady Josephine.

– Eu que te ajudei, nem sequer percebi a víbora que estava acolhendo. Como pode deitar-se com meu marido, sua vagabunda. – vociferou.

Ange desviou seus olhos para um canto vazio, Lady Josephine tinha razão, de certa forma havia traído sua confiança.

– Não tem provas para me acusar. — ironizou.

Lady Josephine retirou de dentro de seu chapéu um pequeno lenço bordada o sobrenome de seu pai, Le Blanc, por um minuto Ange sentiu seus olhos tremerem.

– Não é uma prova, pois freqüentei sua casa e acabei me esquecendo de meu lenço.

Josephine jogou a cabeça para trás como se a tivesse esbofeteado por aquela mentira.

– Acha mesmo que irei acreditar nas suas mentiras. – disse soltando uma risada irônica – Tenho idade o suficiente para saber quando está mentindo, sua pequena meretriz.

A expressão de Angelique nem se quer havia modificado, ostentava uma expressão indiferente a dor que Josephine estava sentindo.

– Não me venha contar suas histórias tristes, Lady Josephine. Pois não sabe o quanto é penoso ser estuprada por um ogro igual ao Conde Theodor, sentir suas entranhas serem arrebentadas. Apenas fiz o que devia fazer, a vida bate, mas também ensina a revidar com a mesma moeda. – grunhiu.

Josephine encarou-a estupefata.

– E por que meu marido?Eu que segurei sua mão quando perdia seu filho.

Angelique sentiu uma lagrima teimosa escorrer por sua delicada face.

– Não tive outra escolha, quando me falou sobre a Canterella não imaginei outra pessoa que pudesse me ajudar.

Ange por um breve momento pensou em se aproximar de Josephine, ela balançou negando a aproxi­mação com um gesto de cabeça.

– Vá para o inferno. – vociferou.

Concentrou a atenção nos escuros olhos verdes da Lady Josephine que a ti­nham cativado desde que a conhecera. Só não poderia imaginar que sua vingança a levaria a nesse ponto.

– Apenas tem a feição de um anjo, mas tem alma de um demônio. Sua maldita traidora.

De tanto sofrer nas garras de Theodor, a jovem Angelique já não ligava, mas para aquelas palavras rudes que vinham em sua direção, apenas observava a com cautela como se estivesse aprendendo a expressar sua fúria. Às vezes podia sentir as enormes e ásperas mãos do Conde Lefrebve a tocar, fazendo sua pele arrepiar de repulsa.

–CALA ESSA MALDITA BOCA. – ordenou Lord Gerard Point Du Lake inerte na porta.

Ambas se viraram na direção de onde a voz rude vinha, Angelique nem sequer se moveu de seu lugar, a expressão de Gerard era severa e impaciente.

– Como ousa vir à casa da Condessa e a afrontar dessa forma? – vociferou.

Pela primeira vez em anos Lady Josephine mostrou não se preocupar com as ordens de seu marido.

– Veio defender sua amante. Querido? – questionou-o.

Os olhos de Gerard brilharam de fúria, enquanto uma de suas mãos segurava o pequeno chicote e a outra recebia as fortes pancadas.

– Irei ensinar lhe a me respeitar, sua vagabunda! – vociferou.

Aproximou-se de Josephine com tamanha rapidez, quando ousara desferir o golpe com seu chicote a voz de Angelique o impediu.

–Já basta! – berrou

Lord Point Du Lake fez uma careta perplexa, mas obedeceu.

– Não permitirei que machuque sua esposa dentro de minha propriedade e principalmente em minha presença. – disse.

Os olhos dele brilharam, o queixo se contraiu. Angelique havia se tornado a esposa que todo homem desejaria, rude e educada ao fio da espada.

– Aceitarei seus desejos minha Condessa. – disse Gerard.

Rapidamente se voltou na direção de sua esposa e segurou-a de forma rude no braço e praticamente saiu arrastando-a para fora na direção da charrete que os aguardava na entrada.

Angelique permaneceu inerte sozinha no imenso salão, suas mãos tremiam enquanto imaginava ouvir os passos firmes e pesados das botas de couro de Theodor, depois de sua morte todas as noites tinha pesadelos com ele.

– Quando poderei me livrar dessas malditas lembranças. – murmurou enquanto segurava fortemente as barras de seu vestido.

Talvez nunca.

O pior daquelas lembranças era que talvez nunca pudesse se libertar da sombra obscura do impiedoso Conde Lefrebve. Sentiu suas pernas amolecerem por alguns minutos, seu corpo continha as marcas que nunca cicatrizariam, e a dor de perder seu único filho ainda fazia amargar o coração.

Vestia as vestes de luto, não por causa de Theodor e sim por causa de seu bebê que mal vira a luz do sol.