Inocência
1 único
Zoro lia um quadrinho deitado na cama de seu quarto, mas sentiu um cheiro de cigarro saindo da sacada aberta. Fungava o nariz pra ter certeza de que era o idiota do sobrancelhas fumando mais uma vez escondido.
Revirou os olhos e foi lá fora; na sacada ao lado, Sanji estava escorado no parapeito olhando as estrelas. No entanto, ele percebeu a luz que Zoro ligara e olhou para o lado.
— Marimo? — Ajeitou a postura se desencostando do parapeito. — Desculpa... não sabia que estava aberta.
E apagou o cigarro no guarda-corpo.
Sanji era seu vizinho que só se falavam pela sacada de seus quartos. Zoro não entendia direito por que não interagiam em outros lugares até começar a entender melhor a cabeça de Sanji durante os papos noturnos. Ele entendeu que era uma espécie de confessionário, talvez por isso Sanji mantinha distância para que continuassem sendo desconhecidos — dizem que é mais fácil se confessar para um desses.
— É uma merda, sabia? Por que não morre logo disso de uma vez? Francamente...
Sanji riu com o aborrecimento de seu vizinho e coçou o rosto, como se pensasse em algo. Era só um adolescente como Zoro era, mas esse sempre se sentia mais velho ficando perto dele.
Pele pálida e cabelos loiros, tinha a impressão que suas mãos viviam suadas. Naquela noite estava mais agitado que o normal, balançando os braços com o rosto mirando o gramado do jardim e as sobrancelhas enroladas enviesadas.
Não estava bem, por isso fumava.
— O que houve, sobrancelhas?
Sanji coçou a nuca e inspirou fundo. — Você escuta seus pais transando?
— Que porra de pergunta é essa???
O rosto de Zoro ficou rubro e ele reforçava a ideia de que odiava ser um confessionário.
— É porque eu escuto os meus... — Sanji se explicou sem esperar Zoro se recompor. — Tipo, o meu pai... a minha mãe faz som nenhum.
Sanji parou de falar, seu rosto ficou vermelho como o de Zoro um segundo atrás, que agora piscava os olhos confuso.
— Eu não escuto nada, o quarto deles ficam no andar de baixo. — Respondeu.
— Ham... — Sanji parecia decepcionado. — Então, me perdoe... eu vou voltar...
Tencionou deixar a sacada, mas Zoro pediu para ele esperar.
— O que te incomoda de verdade é não ouvir nada da sua mãe?
Os olhos azuis de Sanji voltaram a fitar o gramado do jardim, as mãos suadas seguravam o guarda-corpo tremendo. — Sim-m
Era algo chato, mas Zoro achava que não precisava se importar tanto.
— Ah, é normal, sobrancelhas... dizem que em casamentos-
— Mas não é repugnante? — Sanji lhe interrompeu com um rebate que saiu numa voz alterada.
— Sim, é... — Coçava a cabeça sem saber o que responder. — Sabe, sobrancelhas... não tente entender esse mundo adulto agora não, eu sei que você deve tá pensando em nunca transar na sua vida — Nesse momento, Sanji abriu os olhos espantado e Zoro sorriu por ter acertado. — Mas não vale a pena abrir mão de algo bom por causa do seu pai idiota. Você já gostou de alguém? Ainda gosta?
Zoro tombou a cabeça pro lado, esperando uma resposta que veio no rosa que tomou a pele de seu vizinho. Ele começou a rir.
— Ela suspeita, pelo menos?
— Não... — Sanji respirava descompassadamente, porque tentava dizer que não era “ela” e sim “ele”. Aquele ali ao seu lado.
— Já sei!
O marimo resolveu mudar de assunto por vê-lo muito sem graça e foi no seu quarto buscar algo. — Você tem um desses?
Era um mp3 com um fone de ouvido.
— Não, são muito caros...
— Então, pega o meu emprestado. Quando você ouvir algo que não queira, é só pôr os fones e dar play que uma música vai tocar!
Zoro se aproximou e esticou o braço, Sanji também e pegou o aparelho.
— Obrigado, marimo...
Sanji já estava retornando para o quarto, mas Zoro lhe chamou novamente.
— O que foi?
— É porque pensei uma coisa agora e acho que pode te atrapalhar...
— Como assim?
— É que você vai me conhecer mais ouvindo minhas músicas, se importa com isso?
Sanji olhou ao redor meio confuso. — Qual é o problema de eu te conhecer mais?
Zoro piscou os olhos. — Você não acha isso um problema?
— Ham?
Então, Zoro estava aquele tempo todo enganado? Não existia a distância para ser mais fácil de se confessar?
— Por que não vem me visitar, então, caralhos? — Perguntou.
— Eu... eu não sabia que podia...
— Claro que pode!!
— O-o c-cigarro...
Céus, Zoro odiava quando Sanji gaguejava. — O que tem?
— Eu acendo um sempre que tô triste, mas eu percebi que você sempre aparece já preocupado comigo... então, tenho acendido pra te chamar mesmo quando não estou triste....
Isso explicava por que ontem Sanji quis falar d'O Senhor dos Anéis, um papo nada triste ou vergonhoso. Zoro começou a rir por ter sido enganado esse tempo todo e se sentiu aliviado por não ser um confessionário.
— Venha almoçar aqui na minha casa amanhã, pode ser?
— Sim!
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