Inocência Ultrajada
3 Capítulo 3 REVELAÇÕES...
Ikki levantou-se tão logo o sol começou a tingir o céu com as cores pálidas do princípio da manhã. Vestiu a calça e a camisa, apanhou a espada e passou sorrateiramente entre alguns criados que ainda dormiam em suas esteiras no salão que servia de refeitório.
Havia descansado pouco naquela noite, pois só tinha se recolhido após todos os seus homens terem sido devidamente alojados. Procurara sir Kamus e conversara a respeito dos sistemas de defesa da fortificação numa tentativa de aliviar o clima tenso que se estabelecera entre eles. Fora um alívio constatar que o cavaleiro colocava seu dever acima das questões pessoais e conversara de forma civilizada, embora seu rosto mantivesse sempre aquela expressão misteriosa que oscilava entre a lealdade e o ódio.
Agora, sentindo o ar fresco da manhã, Ikki estava ansioso pelo seu ritual diário de treinamento. O clima ainda mantinha vestígios da friagem e da umidade noturnas, mas o que ele mais gostava era o silêncio e a bruma que se formava nas montanhas. Aquele conjunto, com sua atmosfera quase mística, lembrava as histórias contadas pela criada que cuidara dele após a morte de sua mãe. “As terras altas, dizia ela, são a morada da deusa Danu e sua corte formada pelos sidhe, seres de uma beleza rara, extraordinária e, dependendo da situação, tão mortais quanto o mais terrível dos demônios!”
Ele ficava imaginando como seriam estes seres e, por um segundo, a imagem pálida de Shaka insinuou-se em sua mente. Sacudiu a cabeça tentando focar no que viera fazer. Era melhor deixar os assuntos com o jovem nobre para depois. Sem saber exatamente o porquê, aquele homem o perturbara desde que o olhara nos olhos. Parecia mesmo um ser mítico capaz de encantar e destruir alguém num piscar de olhos...
O pátio do castelo estava deserto, uma solidão perfeita às atividades que ele iniciara e lhe conferia uma espécie de paz interior. Num canto coberto pela grama muito verde Ikki deixou a espada de lado e tirou a camisa pondo-se a fazer alongamentos para distender a musculatura das costas. Gostava da sensação de ter a pele acariciada pelo sol e de sentir-se livre. Sol, solidão e liberdade! O que mais um homem poderia desejar?
Com os músculos aquecidos retomou a espada e deu início à série de exercícios que Shion, um antigo soldado remanescente dos tempos do seu avô tinha lhe ensinado quando ele se mostrara rebelde e inimigo do próprio pai.
Aos poucos, Ikki surpreendera-se com os resultados que ele mesmo obtivera: o treinamento e a disciplina não apenas lhe proporcionavam força e bem-estar como também clareavam a mente e fortificavam o corpo, fazendo-o suportar muito além do que pensava poder aguentar.
Enquanto trabalhava a espada no ar, atacando e se defendendo de um inimigo invisível, seus pensamentos rumaram para o passado. Poucos anos atrás, era apenas um garoto cheio de rancor que se sentia inadequado e sem nenhuma qualidade que o fizesse ser amado por quem quer que fosse.
A marca das chicotadas em suas costas não fora nada, comparada à culpa que seu pai o fez sentir e que permaneceu em seu íntimo por muito tempo. Agora era um homem que assumira seu papel e suas responsabilidades o que tornara a relação com seu pai um mal necessário que ele aprendeu a administrar, assim como suas necessidades emocionais eram supridas pelos amigos, pelo calor da batalha e pela certeza que nada mais era capaz de feri-lo.
Por isso, intrigava-o as relações familiares e, principalmente, a relação entre Shaka e seu pai. Dohko possuía fama de ser um homem generoso e justo, capaz de defender não só a família, mas todos os que estavam sob sua proteção. Geralmente, o pai defendia a honra de sua mulher e filhas. Mas, ali, ele morrera defendendo Shaka, um jovem que lhe parecia saudável e forte. O que será que tinha acontecido, verdadeiramente?
Com suas indagações, o fôlego curto e o suor umedecendo o rosto e o peito, Ikki parou o treinamento por uns instantes. Admirando a paisagem ao redor, girou a espada com o pulso antes de postá-la na grama. Inclinou o pescoço a fim de distensioná-lo e foi então que viu o jovem nobre junto à janela a poucos metros acima da sua cabeça.
Saudou-o com um movimento de cabeça:
- Bom dia, milorde.
- Bom dia, sir Ikki. Vejo que levantou cedo...
Shaka tinha uma expressão enigmática, os longos cabelos estavam soltos e pareciam uma cortina de seda luminosa e dourada sobre os ombros. Em vez da lúgubre palidez da noite anterior, seu rosto possuía uma coloração saudável apesar do sombreado de profundas olheiras. Era a imagem digna de um sidhe...
- Sim, e vejo que está melhor hoje. Comer lhe devolveu a cor no rosto. – respondeu Ikki sorrindo, enquanto pensamentos indesejáveis como aquele teimavam em invadir-lhe a mente.
Na noite anterior, Ikki tinha reparado o quanto Shaka era bonito, uma beleza suave que atraía e também podia causar problemas, mas agora, a luz do sol ele sentiu-se estranho por considerar a beleza de um homem como uma tentação. Logo ele que nunca se sentira atraído por um. Na verdade, os relacionamentos eram um ponto nevrálgico na sua história pessoal, então os relegara a um segundo plano. Um bom sexo, sim, envolvimento emocional, não.
Era considerado viril e bem-vindo nos prostíbulos. Apreciava a beleza feminina e jamais desejara estar com um homem, mesmo convivendo com homens que haviam feito esta opção. Seu homem de confiança e amigo, Milo, deitava-se tanto com homens, quanto com mulheres, ele o sabia, mas nunca haviam conversado a fundo sobre a questão.
Agora, avaliando a situação, via que nunca tinha julgado nada de errado nas relações fora dos padrões tradicionais. Talvez porque sua mãe preservara a crença nos deuses antigos que, ao contrário do catolicismo, deixavam o homem livre para escolher o seu destino. Ou talvez porque, no fundo, essa possibilidade existisse e ele nunca tivesse encontrado que a despertasse...
- Posso participar do seu treino ou prefere continuar sozinho? – perguntou Shaka interrompendo as indagações de Ikki.
- Seria uma honra, milorde! – respondeu ele empunhando, novamente, a espada.
Por um momento, Shaka olhou fixamente para Ikki. Baixando os olhos, o cavaleiro deu-se conta que estava nu da cintura para cima, algo não muito comum entre os nobres que se cobriam dos pés à cabeça. Foi até suas roupas e pegou a camisa, vestindo-a pela cabeça.
- Perdão. Milorde. Estou em sua propriedade e agindo como se estivesse num acampamento.
Shaka fez um leve aceno como a dispensar o pedido de desculpa, depois jogou uma corda através da janela e agilmente desceu por ela até o chão sob o olhar surpreso de Ikki.
- Sou eu quem deve solicitar o seu perdão. Interrompi seu treinamento, mas como pretendo substituir seu inimigo invisível, acho que devo ser perdoado. – disse Shaka sorrindo, escondendo bem a admiração que sentira ao ver Ikki despojado daquele jeito.
Com gestos lentos e graciosos, Shaka empunhou a espada num movimento de desafio. O coração de Ikki disparou de repente, reconhecendo naqueles movimentos a experiência de um mestre na arte da espada e sua defesa do golpe foi puramente instintiva.
Após o choque inicial, o cavaleiro constatou que o jovem nobre tinha uma força que não condizia com o que ele aparentara. Agora, os centímetros a mais que o nobre exibia em sua estatura pareciam estar também na força com que ele golpeava.
Ikki golpeava firme e com destreza, usando o corpo rijo e mais adaptado à batalha como um de seus trunfos. Embora parecesse estranho, os dois rivalizavam em força e Ikki ainda estava admirado com o fato e começara a não conter mais os seus golpes.
Shaka começou a ficar ofegante, afinal ele podia dominar a arte da espada, mas havia se alimentado pouco e Ikki estava mais bem preparado fisicamente.
O olhar vivo de Ikki encontrava o de Shaka cada vez que as espadas se chocavam e o jovem nobre teve de admitir que Ikki, embora não demonstrasse um estilo elegante, possuía força e determinação invejáveis que logo, logo iriam derrotá-lo.
Então, quando os pulmões já davam sinais que o cansaço vencera, Shaka pensou, rapidamente, numa estratégia. Ofegante, encarou Ikki, no fundo dos olhos, e fez um movimento de corte muito rápido, com as costas da espada, surpreendendo-o com o movimento inusitado e fazendo-o abrir a guarda por um segundo. Um segundo que bastou para bater-lhe no pé esquerdo que estava apoiado e fazê-lo se desequilibrar, encostando agora o fio da espada, em seu pescoço.
- Parece que eu venci... – disse o loiro respirando entrecortado e com um brilho malicioso nos olhos.
No chão, Ikki ainda não acreditava que perdera para um homem que, tinha jejuado por quatro dias!
- Realmente, milorde. Acho que não sou o único a usar métodos baixos. – disse Ikki irritado.
- Milorde, eu...
- Poupe-me de sua voz macia e de seu olhar suplicante. Afinal, milorde, porque necessita da minha ajuda se é tão forte quanto eu? – inquiriu Ikki embainhando sua espada.
- Como eu disse ontem, não é a mim que veio proteger. Eu preciso de sua ajuda para assegurar a vida de todos os que vivem sob a minha proteção. Apenas isso.
- O que quer dizer, especificamente? Chega de meias-verdades!
- Quero dizer que sou eu quem vai desafiar e matar Saga e seu irmão. O que eu preciso é ter a certeza que depois disso, aqueles que pertencem a este castelo estarão protegidos contra qualquer represália que o meu ato possa acarretar. – respondeu Shaka olhando bem dentro dos olhos azuis de Ikki, fazendo-o ver ali, personificado, um verdadeiro sidhe.
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O fogo na lareira crepitava. Labaredas subiam entre as achas de lenha refletindo nos olhos brilhantes e maliciosos de Saga. Na mesa ampla, de madeira avermelhada, um livro de capa negra com símbolos pintados à mão, jazia em meio a uma porção de pergaminhos espalhados, após ter sido entregue por um mensageiro.
Saga repousou os cotovelos na mesa, enquanto os criados aguardavam de cabeça baixa as ordens de seu senhor.
- Isto chegou esta manhã? – perguntou ele com voz grave.
- C-Chegou ontem senhor, mas... como o ordenado, não interrompemos o seu entretenimento. – respondeu o criado com uma expressão de quem preferia enfrentar a forca que olhar para o seu senhor.
- Muito bem, podem sair! Avise Kanon que o espero para o desjejum. – disse Saga abrindo o livro com um sorriso maldoso.
Imediatamente, os criados serviram outra mesa com vinho, pães e carne defumada. Depois de certificar-se que tudo estava a contento de seu senhor, saíram quase correndo e o lorde pôs-se a olhar as gravuras que ele mesmo havia pintado.
Eram cenas eróticas ilustrando as diversas possibilidades do sexo entre homens. Entretanto, o que mais o agradava era saber quem fora o modelo para tais gravuras. A simples lembrança daquele jovem estremecendo em seus braços inundou-o de uma forte excitação.
- Shaka... você será meu. Não adianta negar ou fugir. Nem mesmo pedir proteção ou me ameaçar. Você me pertence de corpo e... alma. – disse ele em voz alta, enquanto lia a mensagem contida no pergaminho que viera junto com o livro.
Kanon adentrou o salão no instante em que Saga acariciava a capa do livro como se acariciasse a pele de um amante. Os olhos dele endureceram ao ver seu irmão com aquele ar apaixonado e distante. Será que nada conseguia apagar aquele sentimento do coração dele?
- O que este livro faz aqui? Você não o tinha dado ao seu... amante?- perguntou Kanon num tom de voz controlado, mas que denotava certa irritação.
- Shaka enviou-me de volta com... uma mensagem. – respondeu Saga tornando a ficar sério.
- E o que diz a mensagem?
- Ele diz que me odeia e virá matar-me, pessoalmente...
Com os olhos fixos no irmão, Kanon deixou escapar uma sonora gargalhada. Depois, aproximou-se da mesa e cobriu a boca de Saga com rudeza, fazendo-o relaxar e abrir os lábios para os dele.
- Deixe-o tentar... – sussurrou Kanon, enquanto mordia o lábio inferior de Saga e se afastava, atirando-se na imensa cadeira coberta com pele de carneiro.
- Estou entediado... acho que preciso de exercício. Organize os homens, vamos ver do que esses aliados de Shaka são capazes. – falou Saga.
- Acha boa ideia se expor assim? – perguntou Kanon.
- Ninguém vive para sempre, irmão... E, além do mais, não acredito que esse tal Ikki seja páreo para nós.
- Eu não o subestimaria, milorde... – disse a jovem loira que entrava sem medo no salão e sorria de um jeito tão pérfido quanto os dois irmãos.
- Hilda...
A jovem de cabelos quase brancos de tão loiros, aproximou-se altiva e sem nenhum temor. As feições dela eram perfeitas, maçãs do rosto definidas, lábios delicados e cílios espessos. De uma beleza nórdica, ela parecia um tanto estranha vestida com roupas de criada.
- Creiam-me, senhores... o bando de lorde Fênix é bem interessante e, atrevo-me a dizer, muito mais eficiente do que supúnhamos. – disse ela tirando o cálice de vinho das mãos de Kanon e bebendo um pequeno e demorado gole.
- Bando?
- Sim, bando. Apesar de lorde Ikki ser um nobre, alguns dos homens sob seu comando têm origem, digamos... duvidosa.
- Ora, minha querida... que nobre ou família irlandesa não tem? – falou Saga rindo.
Hilda e Kanon riram também e a jovem aproveitou para reforçar o motivo de sua aliança com os gêmeos.
- Preciso voltar ao castelo e continuar com o meu papel... Porém, milorde, espero que cumpra a sua palavra, assim que conseguir o que deseja.
Ditas as palavras, Hilda levantou-se. Havia graça e desenvoltura nos movimentos dela somados a um toque de perfídia que a unira aos dois homens mais poderosos das terras altas. O magnetismo da jovem e sua capacidade para interpretar era impressionante e a percepção deste poder atraíra a atenção de Saga para o plano de tomar para si Shaka e tudo o que ele possuía. Para isso, submetia-se a casar com ela por conveniência e, juntos, construírem um império onde não haveria limites para os desejos de ambos.
- Nunca duvide disso, minha cara... Juntos, seremos quase deuses! Não é mesmo Kanon? – falou Saga beijando a mão pequena e alva, enquanto Kanon sorria e juntava-se aos dois, beijando o pescoço da jovem como se fosse um vampiro...
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Shaka esperou pela expressão de choque no rosto de lorde Ikki, pela manifestação de condenação ou desprezo naqueles olhos frios e azuis que pareciam perscrutar sua alma desde que havia adentrado à fortaleza.
Mas, nada disso aconteceu deixando-o imóvel, quase paralisado sem saber que atitude tomar. Porque ele ficava olhando-o daquele jeito?
Por fim, Ikki balançou a cabeça comentando num tom pouco expressivo:
- Fiquei imaginando o que levara seu pai a enfrentar em combate corpo a corpo um homem com metade da idade dele... Agora, entendo. Saga humilhou você. Não como um cavaleiro, mas de outro jeito. Ele o violentou, não é?
Shaka sentiu um rubor tomar conta de seu rosto. Como aquele homem que mal o conhecia tinha chegado àquela conclusão? Teria alguém da fortaleza contado tudo a ele? Kamus teria, enfim, partilhado as suas desconfianças ou... certezas?
- Você chegou a essa conclusão ou... alguém contou sobre o que aconteceu? – perguntou Shaka controlando-se para não fraquejar diante de Ikki.
- Juntei os fatos: honra, dor... e por fim, morte. Seu rancor e sua culpa expressos de um modo tão intenso que o impedem de ver a loucura que está prestes a fazer. Já passei por isso, então sei muito bem ler os sinais. Existem vários tipos de violência, as do corpo, as da alma e aquelas capazes de nos tornar uma sombra de nós mesmos.
A voz de Ikki era grave e quente. Não havia nos olhos dele a reprovação ou a repugnância e isso ressoou dentro de Shaka como uma oportunidade de libertar-se, de contar a verdade sobre aquele episódio terrível.
- Aprecio sua compreensão, milorde. Mas, devo dizer-lhe que não sou... uma vítima inocente. Eu sou culpado pela morte de meu pai. Eu permiti... eu me entreguei a Saga.
Antes que ele continuasse, Ikki resolveu sair da inércia e movimentar o corpo. Era bem mais fácil para ele articular um pensamento ou chegar a uma conclusão quando em movimento.
- Vamos andar um pouco. Acho que antes de ter um protetor, você precisa de um amigo. – disse Ikki e Shaka assentiu.
Andaram até as muralhas altas e ali, ambos observaram o mar, as gaivotas que revoavam sobre a superfície das águas agitadas pelo vento. Aquela liberdade da natureza fortalecia Ikki, enquanto Shaka sentia que ela zombava das emaranhadas tramas que tecera para si mesmo.
De repente, ele não queria mais envolver Ikki naquela teia maldita! Mas, pelo menos, não o deixaria pensar errado. Tinha que admitir seu erro brutal e, se Deus permitisse, consertar tudo antes que mais alguém viesse a sofrer por sua estupidez.
Vendo que Shaka mantinha-se em silêncio, Ikki tocou-lhe o ombro com suavidade, fazendo-o virar o rosto para ele.
- Milorde, imagino o quanto lhe custa falar sobre tudo isso. Sou um estranho, quase um desconhecido. Confesso que não tenho os modos sutis atribuídos aos nobres, mas posso assegurar que livrar-se deste fardo o fará ver as coisas de outro ângulo e também... ver que a culpa age como um veneno, privando-o da paz de espírito.
- Ah, milorde... nem bem chegou e é o único que não me julgou. Conhece-me mais que aqueles que estão ao meu lado e estiveram comigo em todos os momentos.
- Sir Kamus o julga culpado, não é?
- Sim, e não só ele... Entretanto, eles têm razão, embora eu não tenha tido a intenção de causar tamanho mal. Kamus era como um filho para meu pai e seu braço direito. Nós temos pouca diferença de idade, embora não pareça. Eu nunca partilhei com ele o que vou partilhar com você agora, mas eu sei que, de alguma maneira, ele sabe.
- E o que ele sabe?
- Que lorde Saga... Bem, ele e eu... nos tornamos amantes. Antes dele se tornar o homem terrível que é hoje, eu me deixei seduzir pela sua educação, cultura e a forma com que me fez descobrir o desejo. Ele aproximou-se de meu pai, tornaram-se amigos e aliados. Então nós nos aproximamos e ele ensinou-me várias coisas. Passamos a nos encontrar às escondidas e ele me fazia sentir único e me despir da vergonha de amar um homem. Foi assim até que ele mudou radicalmente. Ele exigiu que eu deixasse a fortaleza e fosse viver com ele a despeito do que meu pai diria. Eu fiquei com medo desta mudança, também não desejava afrontar meu pai. Saga não aceitou minha decisão e passou a comportar-se como um selvagem arrogante, muito diferente do lorde educado e gentil que me seduzira com palavras de amor e atenção especial. Resolvi que não devíamos mais nos ver, mesmo que isso me dilacerasse, pois eu estava apaixonado por ele. Então, ele esperou que meu pai e seus homens deixassem a Fortaleza para um encontro com o clã de seu pai e nos atacou.
Ikki ouvia tudo sentindo um aperto nas entranhas. Ele sabia muito bem o prazer que certos homens experimentavam em impor sua vontade sobre outros. Também o incomodava saber da paixão de Shaka por outro homem e essa constatação acentuou o desconforto em seu estômago.
- Ele os atacou para levá-lo com ele... é isso?
- No início, eu pensei que sim. Mas o nível daquele ataque foi brutal em demasia. Ele feriu nossos empregados que estavam acostumados ao sossego e à paz. Eu ainda ouço os gemidos e os gritos... Também a forma com que ele e Kanon riram ao subjugar nossas defesas, pareciam possuídos por alguma entidade maligna e cruel. Então, eu pedi para que eles parassem, eu... disse que me entregaria. Mesmo assim, ele continuou com sua selvageria e arrastou-me para dentro da fortaleza. Com um prazer sádico, ele me violentou de todas as formas possíveis e... imagináveis. Saga possui um universo erótico onde a dominação é a sua forma de obter prazer. No início, eu... me submeti aos seus caprichos. Mas, naquele dia, ele queria me machucar de verdade e foi o que fez. Quando acabou, eu estava inconsciente e sem condições de enfrentá-lo. Foi então que meu pai ao saber o acontecido, foi até ele e o desafiou, morrendo logo em seguida...
Ao sentir a voz lhe faltar, Shaka estendeu o braço e tocou o ombro de Ikki com força. Precisava daquele toque, mesmo que depois do que revelara a ele, suspeitasse que não houvesse mais cumplicidade entre os dois.
O sangue de Ikki ferveu e ele sentiu uma espécie de ira que despertava a vontade de acabar com Saga e seu irmão. Shaka havia sido manipulado por alguém mais experiente cujas intenções eram escusas desde o início. Por isso sentiu vontade de protegê-lo, porque reconheceu no jovem nobre a mesma ingenuidade que ele também tivera um dia. E, embora não parecesse, Shaka tinha tido uma vantagem, um pai amoroso para lutar por ele e agora ele entendia aquele sentimento de culpa, porque também um dia, alguém o amara e também pagara caro por isso.
- Você é um homem forte e corajoso, milorde. Seu único erro... isto é, se podemos considerar o amor desta forma, foi confiar que o objeto de sua paixão era alguém decente. Mas, pelo que vejo, Saga não só é um sujeito desprezível e abjeto, como também ambicioso e astuto. Ele o enganou desde o início seduzindo-o como o fazem os patifes. Erga sua cabeça e aceite que a vida, às vezes, pode ser cruel e que todos nós podemos nos enganar. Mas, também saiba que não está mais sozinho e já pagou o preço. – disse Ikki colocando seu braço forte sobre o ombro de Shaka.
Sem acreditar no que estava vendo e ouvindo, Shaka fez algo que jamais pensara em fazer, abraçou-se a Ikki e se permitiu chorar.
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