Inocência Ultrajada

20 Capítulo 20 EPÍLOGO...


Notas iniciais
Bem, a pedido da Sion, aqui vai um capítulo extra mostrando como ficaram as coisas, alguns anos depois...Bjs! Espero que gostem!!

Conforme a luz se enfraquecia, tão etérea quanto os sonhos, Shaka permanecia na ameia da Fortaleza e se permitia relembrar a mesma situação, sete anos atrás.



Agora, as plantações de trigo, milho e centeio imprimiam um colorido inédito àquelas terras... Verdes, mesclados ao dourado e marrom, o cheiro da terra fértil, o perfume das árvores frutíferas que viajavam pelo ar e se juntavam ao principal alimento de todo aquele povo formavam um conjunto único, especial...



E, tinha sido aquele conjunto, somado a uma grande paixão, que havia transformado Shaka em um senhor cujo nome era pronunciado com alegria e respeito pelos camponeses. Falava-se também de seu companheiro e belo amante, Ikki de fênix, um guerreiro poderoso e justo que combatera e vencera os gêmeos terríveis.



Amante. A palavra agora possuía um novo significado e, em seu peito os sentimentos fortes que tinha por ele só se intensificavam com a passagem do tempo. Nem mesmo os anos arrefeceram o ardor que manifestavam na cama e nem o amor que os unia em perfeita cumplicidade.



Lágrimas, agora?



Só de felicidade ao ver que seus ideais estavam ali, personificados em cada rosto corado de criança, velho e adulto bem nutrido, em cada pedaço de terra arada e plantada, em cada casa construída para abrigar as famílias que chegavam buscando a abundância que oferecia...



– Com licença, milorde. O mensageiro chegou e disse que Lorde Kamus e lorde Milo aproximam-se do castelo. – falou o criado que agora era pago em regime de horário e, ao final de seu turno, retornava a sua casa para ficar com a família.



– Obrigada, senhor Justus. Já vou descer. – respondeu Shaka sorrindo.



Todos haviam combinado de se encontrar no Solstício de Verão onde os camponeses celebrariam uma grande festa. As tradições antigas dedicavam esse período à Deusa das fadas Aine de Knockaine, porém com a influência cristã também festejavam a noite de São João, o Batista.



Fogueiras, alegria e brincadeiras de pular sobre o fogo, andar sobre as brasas e queimar ossos eram partes das atrações esperadas. Seria um reencontro festivo com muitas crianças e jovens crescidos. Amigos que continuavam juntos e aqueles que a aventura os levara a outras paisagens...



Shaka pensou em Kagaho, o menino que agora contava com catorze anos. O tempo passa... Pensou o lorde suspirando. Também se lembrou de Afrodite e Máscara da Morte... Como gostaria de revê-los, saber se estavam bem e para quem estavam lutando. Quem sabe, o fogo não os atrairia naquela noite em especial?



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A viagem não fora longa, pois as terras de Kamus ficavam apenas dois dias afastadas de Virgo. Ele também participava dos projetos de Shaka e acabara criando um sistema em suas terras onde todos podiam usufruir do ganho e do sustento de forma digna e justa. Como eram terras de pastagem, Kamus começara uma imensa criação de ovinos e equinos, o que favorecia a troca e o comércio com Virgo e arredores.



Já se preparava para o entardecer quando eles chegaram aos portões altos de Virgo e Milo resolveu dar os últimos retoques na vestimenta de Kagaho, agora um jovem de catorze anos.



– Ei, fique quieto para eu dar o laço! – disse Milo para o jovem quase da sua altura.



– Eu me sinto esquisito com isso, pai! E eu... vai ficar estranho um homem como eu vestido desse jeito.



Homem? Onde está o homem que eu não estou vendo? – disse Milo terminando sua tarefa.



– Eu já sou um homem e... Pai, por favor, eu não quero ir a essa festa. Porque não posso voltar para casa e esperá-los? Vão você e Kamus. Divirtam-se, revejam os amigos e eu fico esperando!



Milo compreendeu o receio de Kagaho. Ele não era mais um menino, seu corpo tomava proporções de homem e, ele se comparava aos pais. Achava-se feio e sem graça, como a grande maioria dos garotos da sua idade.



– Escute aqui, deixe de bobagem, está bem? Você vai conquistar muitas garotas ou... garotos, como preferir! Não há nada de errado com você!



– Ah, sim! Serei o homem mais atraente da festa. – resmungou o menino deixando a franja cair sobre os olhos que não podiam enxergar, mas que cada vez mais percebiam tudo ao seu redor.



Milo sorriu e despenteou os cabelos escuros e, agora, longos do garoto. Kagaho franziu o cenho, mas jamais desprezava esse gesto. Era algo que lhe dava uma sensação forte e boa dentro de si. Bufou, tentou ir até Kamus e convencê-lo, mas depois que Milo colocava algo na cabeça, ninguém conseguia demovê-lo.



– Milo tem razão, Kagaho. Você vai se divertir e estará entre amigos. Shaka faz questão de vê-lo! – disse Kamus.



– Acho incrível como sempre concorda com ele. – rosnou o garoto.



Kamus sorriu, porque era verdade. Milo conseguia convencê-lo e seduzi-lo. Sempre! Parecia que a paixão que o movia estava sempre ardendo, se renovando e, consequentemente, abraçando-o na mesma voragem, levando-o a experimentar o prazer e o amor de um jeito indescritível, apesar da passagem dos anos.



Shaka desceu as escadas e correu ao encontro de Kamus, Milo e Kagaho. Sorriu ao ver que o garoto se desenvolvera muito bem, apesar de tudo que passara.



– Kamus, Milo, Kagaho! Sejam bem vindos à Virgo. – disse ele sorrindo.



Milo adiantou-se e o abraçou, olhando para Kamus e Kagaho como se devessem fazer a mesma coisa. Kamus balançou a cabeça antes de abraçar seu irmão. Após a batalha, ambos haviam descoberto uma arca onde Dohko deixara um documento reconhecendo Kamus como seu filho. A morte prematura o impedira de revelar como tivera um relacionamento fora do casamento e as consequências de tal ato havia sido um certo ruivo, de atos justos e retos como pai e humor taciturno como a mãe.



Para Shaka, o documento era, apenas, a confirmação do sentimento fraterno que tinha por Kamus. Antes, ele era seu irmão apenas de alma, porém agora era um irmão completo como dissera Milo e saber disso o fortalecia ainda mais e o deixava feliz.



– Venham, devem estar cansados! Ikki está nos campos com Aiolia e Mu e já devem estar todos retornando.



Os quatro adentraram o grande salão onde as boas lembranças pareciam estar gravadas em cada recanto do lugar. Logo, como Shaka tinha mencionado, Ikki, Aiolia e Mu chegaram suados e acalorados. Houve abraços, risos e típicas piadinhas masculinas entre si.



No jantar, o grupo recebeu outra dupla que irrompeu o grande salão sob murmúrios e dedos apontados, discretamente. Uma entrada em grande estilo, como era característico de um certo homem...



Os longos e belos cabelos loiros estavam presos em uma trança entremeada com fios de prata, enquanto ao seu lado, o outro exibia longos e revoltos cabelos negros que caíam soltos...



Afrodite e Máscara da Morte caminharam em direção à mesa central, ambos garbosos e cheios de viço, como diziam os camponeses.



– E então, haverá lugar para mais dois amigos, nessa festa? – perguntou Afrodite com seu belo nariz empinado, enquanto Máscara da Morte já se servia de uma caneca de vinho de uma das mesas.



– Sempre, meus amigos! – disseram Ikki e Shaka, ao mesmo tempo.



Afrodite sorriu e quase caiu para trás quando Milo saltou por cima da mesa para abraçá-lo.



– Seu safado! Como ousou ir embora sem se despedir e você, Máscara, sete anos fora e a primeira coisa que faz é beber vinho, antes de abraçar os amigos seu bêbado maledetto!



Máscara gargalhou e pegou Milo pela cintura, apertando-o como se fosse um urso. Milo bufou, tentando se soltar, mas Máscara apertava mais. Todos riam do ato que mais parecia uma luta corpo a corpo.



– Satisfeito agora? – disse Máscara vendo Milo com o rosto vermelho.



– É o máximo de força que pode empreender, italiano? Uma mulher me abraçaria mais forte. – rosnou Milo rindo.



Kamus revirou os olhos e Kagaho também. As risadas retornaram e Afrodite interrompeu o idílio para apresentar um belo jovem que vinha, timidamente, logo atrás deles.



– Senhores, este é Lune, nosso protegido. – disse Afrodite tocando o ombro do jovem. — Viemos por dois motivos, um deles para revê-los e o outro para pedir ajuda. Estamos ajudando um senhor com terras próximas a Virgo que está tendo problemas com roubos e ataques à sua propriedade. Colocamos alguns prá correr, mas parece que existe uma organização entre ladrões e estão dispostos a espalhar o terror por estas terras também.



– Está dizendo que eles estão vindo na direção de Virgo? – perguntou Shaka franzindo o cenho.



– Ainda não, mas as notícias sobre a riqueza e abundância destas terras já correm aos quatro ventos. É só uma questão de tempo até tentarem algo. Vejam, eles já se encontram aqui. – disse Afrodite tirando um mapa do cinto e o desdobrando.



Rapidamente, Ikki e Shaka voltaram os olhos para o mapa e houve um momento de silêncio palpável onde a ameaça alertada pelo belo mago pareceu criar uma expectativa em todos ali.



– Eu e Máscara pensamos que, se os atacássemos aqui, neste ponto, dissolveríamos qualquer tentativa de organização, acabando com a ameaça.



– E por que não aqui? – Ikki perguntou marcando um ponto mais ao norte. Pegando duas canecas e duas colheres, o moreno criou um desenho sobre a mesa. – Veja, há uma colina logo além do bosque dos carvalhos. Se reunirmos um bom número de homens armados podemos surpreendê-los por trás e acabar logo com os planos deles...



Máscara da Morte concordou, franzindo o cenho.



– Sim, você pode ter razão. Eles ainda costumam procurar lugares desse tipo.



– Bem, nossa vantagem será a experiência e o entrosamento que existe entre nós. – disse Ikki sorrindo.



Afrodite e Máscara o encararam com as sobrancelhas erguidas.



– Nós?



– Claro. Outro dia, observando os desenhos que as colheitas fazem na terra tive uma ideia sobre uma nova formação de combate... O que foi? Por que estão rindo?



– Quando pensamos em pedir ajuda, não pensamos que tomaria parte nesta empreitada. Soubemos que tem usado de suas habilidades de outra forma. – falou Afrodite.



Ikki deu-se conta do próprio entusiasmo. Seu peito pareceu aquecer com a simples ideia de um combate. Estava em seu sangue. A excitação da batalha, o som do aço, o companheirismo com homens destemidos... Olhou para Shaka e sentiu-se desconfortável, mas, ao invés de ver dúvida ou reprovação nos olhos azuis, o que viu foi... compreensão.



– Certamente que Ikki de Fênix irá, pessoalmente, defender o que nos é caro. Não esperaria menos de um guerreiro como ele. – disse Shaka tocando o braço do moreno.



Por certo ele o compreendia. Shaka conhecia-o melhor que ele mesmo. E ele o conhecia o suficiente para saber que, ao criar aquele pequeno paraíso, Shaka exercera seu dom maior, o dom de criar vida e beleza. Algo que ficaria eternizado muito mais que batalhas... O amor era uma força maior e mais duradoura.



Após algumas combinações onde Aiolia, Mu, Kamus e Milo também se inseriram, foi o momento de festejar e contar histórias. Dali a algumas horas iriam até o pátio central onde a fogueira seria acesa. Guirlandas e fitas coloridas já enfeitavam o ambiente e batatas doces já exalavam o cheiro delicioso ao serem colocadas na brasa. Crianças e jovens corriam e cantavam e tudo parecia em seu lugar...



Kagaho estava sentado em um barril, decidindo se comia ou não uma batata quando Lune aproximou-se dele.



– Posso me sentar aqui com você? – perguntou o jovem.



– C-Claro. – respondeu Kagaho estranhando que alguém tão bonito quanto Lune desejasse a sua companhia.



– Eu não gosto muito de festas, sabe? Mas o senhor Afrodite foi tão bom comigo que não pude recusar acompanhá-lo.



– De onde você é? – perguntou Kagaho.



– Sou como... você. Minha mãe tentou vender-me ao senhor Afrodite em troca de mais poder. Ele me acolheu e me libertou. Graças a ele posso conservar essa aparência...



– Você é... muito bonito e teve sorte, assim como eu, de encontrar humanos especiais.



Lune sorriu e tocou o rosto de Kagaho com a mão macia.



– Nunca pensei que encontraria alguém como eu e tão... viril. Gosto de você. – disse Lune.



Kagaho engoliu em seco. Ele, viril? Lune estava falando sério ou brincando?



As respostas de Kagaho chegaram através de um beijo, um leve roçar de lábios que se aprofundou quando ele compreendeu o que estava acontecendo e retribuiu ao carinho. Ao longe, Afrodite observava e sorria, mentalmente. Pois bem, garoto! Agora estou quite com você. Aproveite e seja feliz!



– Então, já deu uma de cupido? – perguntou Máscara chegando por trás de Afrodite e beijando-o na curva do pescoço.



– Eles foram feitos um para o outro, não acha? Quando aquela fada tentou vender-me o Lune eu soube que havia um traço do destino ali. Kagaho nos ajudou muito naquela vez. Eu devia isso a ele. Os dois podem aprender muito juntos...



– Bem, ele terá companhia quando Milo e Kamus nos acompanharem e certamente não irá reclamar de ficar de fora da luta, desta vez. Assim, todos ficam felizes, caro mio!



Afrodite sorriu e abraçou Máscara da Morte. Olhou para a fogueira alta e gesticulou produzindo fagulhas coloridas que encheram o ar e atraíram o olhar alegre das crianças. Pequenos elementais dançavam nas chamas e lhe atiravam beijos, aquecendo-o de um jeito bom... Naquelas horas, ele gostava muito de ser um mago.



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Ainda não havia amanhecido quando Ikki encontrou Shaka nas ameias, olhando para o horizonte. Ele não se virou com sua aproximação.



– Está animado para partir? – perguntou o senhor de Virgo.



– Shaka... eu...



Ikki sentia-se culpado por estar tão contente com algo que pensava ter deixado para trás. Não que sentisse saudades dos tempos de batalha ou estivesse infeliz ali. O fato era que, sempre que necessitassem de sua ajuda, seu sangue de guerreiro se manifestava. Shaka devia estar magoado, pensando que ele estava entediado ou desejando afastar-se dele. Tinha que provar-lhe que não, mas não sabia como fazer, pois não podia esconder a alegria de seu coração.



Shaka virou-se, o vento a agitar as pontas de seus cabelos, a expressão inescrutável.



– Suponho que devemos nos despedir de modo apropriado antes que você siga para o norte. Afinal, um guerreiro deve estar plenamente satisfeito para poder cumprir com suas obrigações e não ser tentado a procurar consolo em outros braços... – disse o loiro aproximando-se daquele jeito felino, enlouquecedor...



Ikki o fitou em silêncio, não querendo se atrever a acreditar no que ouvira e nem nos olhos cheios de paixão que o fitavam intensamente. Só conseguia balançar a cabeça, admirado. Como Shaka fazia aquilo? Todas as vezes que ele pensava entendê-lo, ele encontrava uma nova maneira de surpreendê-lo.



E o loiro fazia de propósito. Um pequeno sorriso erguia os cantos de sua boca, como se pudesse ler seus pensamentos e emoções em um piscar de olhos.



Um sorriso foi se espalhando pela face de Ikki.



– Como pode haver alguém tão perfeito como você?



– Sou único, assim como você. Foi um guerreiro que apossou-se do meu coração e nunca vou querer que ele se esqueça de quem é. Você é Ikki de Fênix, o homem que me trouxe amor e prazer, mas, que acima disso, continua sendo um homem de honra com o qual todos podem contar. – disse Shaka com sinceridade na voz e no olhar.



– Eu te amo, Shaka... Amo mais que tudo. Nunca duvide disso. – falou Ikki trazendo Shaka para perto de si em um abraço apertado.



– Eu sei, meu amado... – respondeu Shaka levando a mão aos cabelos negros e revoltos.



O olhar amoroso e o som leve da risada de Shaka fizeram Ikki colar os lábios aos dele e beijá-lo com uma paixão cálida e urgente. De imediato, as duas silhuetas se fundiram em uma só ao fundo do céu escuro e logo, ambos estavam no quarto, amando-se febrilmente, comungando daquele amor que se tornaria uma lenda, a lenda do Guerreiro invencível e o Grande senhor, dois personagens que entraram para a história daquelas terras como a perfeita sincronia entre Força e Beleza, Honra e Amor...


Agora sim, é o fim....ou...o começo!

Notas finais
OBRIGADA, SEMPRE!!! À TODOS QUE, DE ALGUMA FORMA, SEJA DE FORMA ATIVA OU SILENCIOSA, CONTRIBUIRAM PARA O DESENVOLVIMENTO DA FIC! BJS, XD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!