Inocência Ultrajada

2 Capítulo 2 PENITÊNCIA...


Enquanto subia as escadas apontadas por sir Kamus, Ikki notava a palidez acentuada do jovem nobre e se perguntava o que estaria provocando aquele mal-estar.

Apoiando o pé no primeiro degrau da escadaria de pedra escura, sir Kamus chamou por um dos criados que estava limpando um dos salões destinados a acolher os homens de Ikki.

- Cormac, diga para Moira trazer água fresca e um pouco de vinagre para os aposentos de lorde Shaka.

Ao ouvir a ordem dada de uma forma tão tranquila, Ikki não pode deixar de perguntar:

- Eu ouvi bem? Você pediu água e vinagre? Este homem precisa de um médico!

- Não, ele não precisa. – respondeu Kamus com a mesma calma.

Cansado e irritado, Ikki não resistiu ao ímpeto de avançar na direção de Kamus e, embora um pouco mais baixo que ele, agarrá-lo pela parte dianteira da túnica e olhá-lo bem no fundo dos olhos, falando entre dentes:

- Qual é o seu problema? Lorde Shaka acaba de desmaiar de dor... Ele pode estar doente ou coisa pior! Pode ter sido envenenado e... suas atitudes me levam a crer que você tem algo a ver com isso, seu miserável!

Kamus não se alterou, embora tivesse vontade de dizer tudo o que sabia e que o corroia de um ódio que ele não conseguia disfarçar.

- Shaka não foi envenenado. Agora faça o favor de me soltar. – disse o cavaleiro enfrentando o olhar raivoso de Ikki.

- Se sabe de alguma coisa, diga agora! Chega de mistérios e meias palavras!

À contragosto, Kamus encarou Ikki e falou:

- O desmaio do lorde não se deve a doença ou envenenamento. Ele desmaiou de fraqueza, pois já está há quatro dias sem comer. Está jejuando. Agora, por favor, solte-me.

- Jejum? Mas, por quê? É algum tipo de...

- Penitência. Lorde Shaka está se penitenciando pela morte de seu pai.

Afrouxando a mão que apertava a gola de Kamus, Ikki sentiu-se um tanto confuso. Tinha sido solicitado para ajudar, mas nada sabia sobre aqueles que viera proteger.

- Hã... Perdoe-me, mas você há de convir que suas atitudes para com o seu senhor são muito... estranhas.

O olhar de Kamus parecia uma lâmina fria. Ele não era um servo qualquer, era tão nobre quanto Shaka e só ficara protegendo-o como um ato de reverência e gratidão ao homem que amara como seu pai. E quem era aquele homem para questionar suas atitudes? O que ele sabia sobre o que, realmente, tinha acontecido? Voltou a olhar para Ikki, disfarçando o ressentimento que jazia dentro de si.

- Se não tem mais nada a perguntar, peço que me dê licença. Tenho muito a fazer. – disse Kamus com um tom de voz controlado.

- Pode ir. – disse Ikki.

Quando Kamus saiu, Ikki moveu a cabeça e olhou para dentro do quarto que escolhera entre as várias portas que se apresentaram a ele no longo corredor. Em meio à penumbra, vislumbrou a silhueta de Shaka que já voltara a ficar consciente e tentava se levantar.

- Milorde, não se levante. Pode cair novamente. Alguém já está vindo ajudá-lo e...

- Não quero ficar neste quarto. – retrucou Shaka continuando a mover-se com esforço.

- Mas, por quê?

- Não suporto ficar aqui.

Ikki coçou a cabeça exasperado. Mais isto agora! O dia tinha sido cansativo, ele estava cansado e faminto e o jovem nobre ainda tinha um quarto “preferido”.

- Está bem, deixe-me ajudá-lo então. – disse Ikki no exato momento que a criada entrava com um castiçal na mão e uma jarra dentro de uma bacia, na outra.

A mulher idosa, quase sem fôlego e com o rosto afogueado olhou para os dois e tentou sorrir.

- Siga-me, sir. O quarto que milorde Shaka ocupa é outro, no final do corredor.

Amparando Shaka, Ikki entrou com passos cautelosos numa antecâmara escura. A iluminação precária de um castiçal mostrava um quarto pequeno, com um leito espaçoso e uma lareira que já havia sido acesa. Podia-se ouvir o som do mar batendo nas pedras e um cheiro de maresia pairava no ar.

Shaka acomodou-se na cama entre travesseiros altos, fechou os olhos e inspirou. Depois tornou a olhar para Ikki que permanecia com uma expressão questionadora.

- Sir Kamus disse que está jejuando. Isso é verdade?

- Sim, estou cumprindo minha penitência. Padre Enéas disse que eu devia jejuar durante três dias, mas ficarei sete.

- O quê? Tudo isso? Você está louco? – disse Ikki.

Shaka sorriu levemente, admirado da surpresa de Ikki.

- Pois saiba milorde que existem homens capazes de jejuar por semanas e meses.

- Certamente que ouviu histórias sobre eles, mas nunca conheceu um. — retrucou Ikki.

- Tem razão. Mas, sei que são verdadeiras.

- E agora deseja tornar-se um deles?

- Não, apenas desejo reverenciar meu pai. Agora, por favor, deixe-me só para fazer minhas exortações. – disse Shaka cruzando as mãos sobre o peito e fechando os olhos.

Bufando, Ikki retirou-se à contragosto. Mas que diabos! Todos ali pareciam dificultar-lhe a vida. Desceu a escadaria pensando no que fazer para impedir aquela loucura. No caminho, encontrou Milo que vinha com um odre de vinho, enquanto mastigava um pedaço de carne seca com vontade.

— Ah, aí está milorde! Veja, trouxe um pouco de vinho, enquanto ainda estão preparando nosso jantar. – disse Milo sorrindo.

— Um vinho é bem-vindo... Surgiu um problema, lorde Shaka está jejuando e pretende levar essa loucura por mais tempo que deveria. Preciso convencê-lo a desistir disso... Bem, você é o homem indicado para isso. Pense em alguma coisa. – falou Ikki.

— Acho que tem alguém mais sutil e competente que eu, milorde.

— Quem?

— Afrodite. Ele tem uma sutileza que me falta...

- Não sei se sutileza adianta, mas vamos tentar. Chame-o.

Instantes mais tarde, Afrodite entra imponente e orgulhoso. Diferente dos outros cavaleiros, sua presença aristocrática fazia imaginar que ele era um nobre afetado, de beleza rara, quase feminina e possuidor de uma fragilidade que se revelava na pele alva, nos cabelos dourados, na boca em forma de coração.

Entretanto, dos homens a serviço de Ikki, ele era tão ou mais impiedoso que os demais. Ele empinou o nariz e, após inspirar, saudou seu comandante e depois fitou-o, perguntando qual a sua missão.

- Só isso? – perguntou com um ar de enfado.

- Se conseguir, fico lhe devendo. – falou Ikki.

Exatos dez minutos depois, Afrodite deixou os aposentos de Shaka e chamou um dos criados.

- Traga vinho, pão e uma sopa para o seu senhor.

O homem pequeno e esguio assentiu com a cabeça e correu para fazer o que lhe era mandado. Ikki olhou para Milo que sorriu de volta no estilo “eu não disse?”.

- Como conseguiu? Ele parecia irredutível! – disse Ikki.

- Simples, disse a ele que se continuasse a jejuar, você, milorde, teria de acompanhá-lo. Como está cansado e pouco acostumado com esse tipo de... sofrimento voluntário, ficaria fraco e inútil para proteger a fortificação. E, além disso, seria uma falta de cortesia submetê-lo a um ato deste tipo, ainda mais que você nada sabe sobre o que aconteceu. Bem, milorde, creio que agora fica me devendo...

- Tem minha palavra, Afrodite. Não sei como agradecê-lo.

- Fique tranquilo... Você saberá como, no seu devido tempo... – disse Afrodite com um olhar maquiavélico que fez Ikki franzir o cenho e Milo rir.

- Em matéria de manipulação, Afrodite é um mestre... – disse Milo vendo o amigo afastar-se de forma cuidadosamente impactante.

Shaka sentou-se na cama, enquanto a criada ocupava-se em atear fogo às toras de madeira. A luz tênue imprimia suavidade e aconchego ao ambiente. A bandeja com pão, água, vinho e um prato de sopa permanecia intocada. Uma batida forte e Shaka sobressaltou-se, olhando na direção da porta pesada. Sem esperar que a criada abrisse, Ikki entrou e fitou o jovem nobre com um sorriso amplo.

- Com licença milorde. Já que resolveu comer, vim fazer-lhe companhia. – disse Ikki olhando com o cenho franzido para a bandeja sobre a mesinha de cabeceira.

- Foi ideia sua pedir a um de seus homens que me convencesse. Tenho que dizer, estou decepcionado com seus métodos baixos! – disse Shaka contrariado.

- Métodos baixos? Não sei do que está falando.

O jovem nobre olhou-o, enquanto Ikki sorria e puxava uma cadeira feita de madeira entalhada para perto da lareira. Imediatamente, a criada serviu duas taças de vinho e levou para Ikki e Shaka. Como se estivesse esperando que seu anfitrião desse o primeiro passo, Ikki apenas sentiu o aroma do vinho e tornou a olhar para Shaka.

- Poucas coisas podem fazer um homem feliz. Não acha milorde? – perguntou Ikki balançando o vinho na fina taça de prata.

Silencioso, Shaka bebeu um gole vagarosamente e sentiu o calor subir-lhe ao rosto quando a bebida caiu direto no estômago vazio. Ikki notou o rubor quase instantâneo mesmo com a precária iluminação.

- Acho melhor comer algo milorde ou o vinho o pegará de jeito.

Ao som das palavras do cavaleiro, Shaka retornou ao dia fatídico em que conhecera Saga, o belo lorde das terras altas. Lembrou-se da sensação quente as suas costas, a voz grave e, ao mesmo tempo aliciante como um tecido aveludado sussurrando ao seu ouvido, o toque sutil em suas costas despertando-o para uma ânsia que lhe custou caro.

- Eu digo e repito, foi... um golpe baixo o que fez comigo. – disse Shaka.

- Pois eu digo que somos totalmente responsáveis por nossas escolhas. Eu não fui responsável pela sua. Você podia ter recusado. – respondeu Ikki sem se intimidar com a acusação.

Shaka fechou os olhos, novamente, e as palavras de Ikki marcaram-no profundamente. Sim, ele estava certo. Somente ele era responsável pelas suas escolhas e decisões. Como diria sua mãe, ele era o único pecador, ali.

- Milorde? – Ikki levantou-se ao sentir aquele lampejo de dor atingindo-o tão forte que ele arrependeu-se da arrogância de suas palavras.

- Tem razão, milorde. Sou totalmente responsável por meus atos. Agora, se não se importa, eu escolho terminar minha refeição sozinho. – disse Shaka sentindo um aperto na garganta.

- Shaka...

O jovem nobre o fitou ao ouvir seu nome e Ikki compreendeu que havia algo muito doloroso e grave dentro dele. A expressão pesarosa mesclava-se a uma determinação contida que Ikki compreendeu, porque era a mesma que, anos atrás, exibira ao seu pai. A mesma turbulência raivosa, a perda da inocência e, por fim, o endurecimento das emoções.

- Não preciso de sua compaixão, milorde. Só peço que me ajude a manter a segurança daqueles que estão comigo. Não temo a morte, pois sei que existem coisas piores que ela. Agora, por favor, deixe-me só.

Sem saber o que dizer, Ikki estendeu o braço, cobrindo a mão de Shaka com a sua. Como se tocado por um ferro em brasa, Shaka afastou-a no mesmo instante. Ikki respeitou-lhe a vontade, mas disse:

- Pode contar com a minha ajuda e proteção. Não vou mais importuná-lo com perguntas. Quando achar que pode confiar em mim para dividir sua carga, estarei pronto para ouvi-lo.

Ditas as palavras, Ikki retirou-se e Shaka fechou os olhos permitindo-se derramar as lágrimas que estavam presas na garganta...

000****000****000

Havia risos na fortaleza de Saga, porém não eram nada semelhantes ao alegre farfalhar da corte e as extravagâncias dos nobres. Era um som áspero e ofegante, regado a gemidos de prazer e dor...

As paredes adornadas com tapeçarias gigantescas se contrapunham às mesas opulentas onde havia comida, bebida e corpos sendo penetrados, ao mesmo tempo. O ar recendia ao odor dos corpos, dos fluídos do sexo e do sangue...

A fortaleza, antes uma fonte de poder e conhecimento, transformara-se em um reduto de horrores, orgias e depravação, tendo Saga com mestre de cerimônias e seu irmão Kanon como acompanhante.

O belo e selvagem lorde estava nu, sentado numa cadeira ampla e com incrustações de metal dourado, semelhantes a um trono. Seus cabelos longos e azulados pendiam sedosos até os ombros e seus olhos cintilavam com um brilho libidinoso.

Aos seus pés, duas jovens nuas tomavam seu falo nas mãos pequenas e levavam à boca, alternadamente, enquanto beijavam-se na boca e se tocavam de forma íntima. Saga ria, agarrando os cabelos da jovem de menor porte, enquanto ela lambia seu membro túrgido e olhava com luxúria para seu irmão.

Kanon, seu gêmeo, estava nu, vendado, deitado sobre a mesa principal como se fosse um, dos inúmeros pratos de comida, e era mordiscado e lambido por homens e mulheres vestidos apenas com amplas e negras capas. Alguns, mais vorazes, deixavam a marca de unhas e dentes sobre o corpo musculoso, mas nenhum se atrevia a ir além, essa prerrogativa era somente dele, Saga.

Era como ver-se em dois lugares, sentindo ambas as sensações e o lorde sorria com a ligação quase simbiótica que os unia em tudo, principalmente, no sexo...

As duas jovens agora roçavam o corpo no de Saga, oferecendo os seios para que ele os tomasse na boca, mas o olhar fixo do lorde dirigia-se para certo homem que afastava as pernas de Kanon e sugava-o com força, arrancando gemidos altos.

Saga empurrou as duas jovens, tirando-as de cima de seu corpo. Uma delas olhou-o sorrindo e deitou-se no tapete aos pés da cadeira e afastou as pernas, abrindo-se à companheira que, imediatamente, passou a lambê-la e sugá-la com a mesma ânsia, enquanto o lorde abria caminho até seu irmão.

Kanon se retorcia ao sentir a boca ávida em seu falo e seu corpo retesou quando pressentiu o irmão junto a si. Saga sorriu diabólico, e pegou uma adaga de uma das mesas, passando a língua em toda a extensão da lâmina.

Lentamente, se aproximou do homem que movia os lábios de forma habilidosa no corpo de seu irmão. Tocou-o nos mamilos rijos de excitação com arma afiada e fria e mordeu-o na curvatura do ombro. O homem elevou a cabeça para trás, ofegando de prazer, mas Saga obrigou-o a continuar abocanhando o falo do irmão, enquanto passeava com a adaga pela pele suada e roçava seu falo nas nádegas redondas que estremeciam de excitação.

Então, quando Kanon atingiu o orgasmo e o homem gemeu deliciado com o gozo dele em sua boca, Saga cortou-lhe a garganta fazendo o sangue jorrar em cima do irmão. Ao sentir o gosto metálico em seus lábios, Kanon sorriu e passou a língua de forma sugestiva. Gargalhando, Saga penetrou-o bruscamente, arrancando um gemido de dor e prazer que pareceu incendiar a todos que ali estavam.

O corpo sem vida que jazia em meio a uma poça de sangue, pareceu a todos como uma penitência macabra... Tomados por uma insanidade coletiva, homens e mulheres se arrastavam para banhar os corpos no líquido rubro. Alguns se masturbavam e juntavam seu sêmen ao sangue, para depois cobrirem o corpo de seus parceiros e retomarem ao sexo desenfreado.

Alimentado pela energia macabra, Saga mergulhava dentro do corpo do irmão com selvageria e dominação. Kanon gritava, invadido de forma tão violenta que começava a sangrar. Suas coxas fortes mancharam-se de sangue e sêmen quando o irmão gozou e estocou com mais força e fúria.

Porém, ele não se importava, ele merecia toda a dor e prazer que Saga lhe concedia. Era a sua penitência por amar loucamente o irmão, um incesto proibido que apagara toda a decência que lhe restara. Para satisfazer seus desejos, ele entregara sua alma e a de Saga às trevas. Agora, só lhe restava, submeter-se aos desejos do irmão e cumprir com o pacto maldito que selara ao corromper a inocência daquele jovem ...

Notas finais
Obrigada a todos!!! Posso demorar um pouco para responder os reviews, mas farei, podem contar!! É o carinho de vocês, o tempo sagrado em que me colocam que faz toda a diferença!! Bjs, XD