Inocência Maculada
1 Capítulo Unico
INOCÊNCIA MACULADA
A porta da capela se abriu, e Mao saiu por ela, tropêgo. Olhou-a com a fascinação e obsessão de sempre e correu ao seu encontro.
- Eu já te amei, Mao. – disse, encarando-o. O jovem rapaz tentou dizer algo, mas as palavras não sairam. Provavelmente Lelouch havia finalmente conseguido usar seu geass.
- Mao, vá primeiro e espere por mim... – C.C. usava o mesmo tom inexpressivo de sempre e o encarava como se olhasse através dele, para sombras no passado. – ...no mundo dos mortos. – completou, então atirou no rapaz. Um tiro único, na altura do pescoço.
Quanto sangue ainda teria nas mãos? Apertou involuntariamente o enorme urso laranja que vivia agarrada. Deixou que uma lágrima solitária escorresse por seu rosto. Por seu antigo amor. Ninguém a estava vendo. Ela não precisava ser forte o tempo todo.
Mao não desistiria dela, nunca. Ela era o seu amor, sua obsessão. Mesmo depois de tanto tempo, de tê-lo abandonado por ser fraco, ele ainda a buscava. Ele ainda a desejava. Sentiu um pequeno arrepio percorrer-lhe o corpo.
Lembrou-se da última vez que o vira. O encontro no parque de diversões. Vira o monstro que ela, inconsientemente havia criado.
- C.C, por que está tão quieta? – disse Mao, aparecendo de forma debil sentado sobre um dos cavalos do carrossel. A música infantil e enjoativa. As cores, as luzes.
- Você continua infantil como sempre. – Mao sempre seria aquela criança que ela havia conhecido.
- Achei que você fosse me chamar de “seu príncipe” num cavalo branco. – riu, de forma infantil, porém um tanto alucinada. O que havia acontecido com ele? Conhecia seu lado infantil, conhecia sua obsessão, mas havia algo, além do sadismo costumeiro, que estava lá.
- Vim especialmente para buscá-la. –disse, descendo do carrossel e aproximando-se da mulher. – Você está feliz, não é?
- Mao, já lhe disse isso antes, você para mim é apenas...
- Isso é apenas uma mentira. – interrompeu-a, aproximando-se ainda mais. –Porque C.C. é quem mais me ama. – seu olhar tornou-se doce e infantil. E embora a sensação incomoda ainda estivesse lá, ela já não conseguia decifrá-la.
O jovem chinês retirou os fones de ouvido. Alto e claro, podia-se ouvir a voz da jovem dos cabelos verdes. Palavras doces e carinhosas dirigadas a ele.
Num turbilhão, as lembranças vieram. Lembranças que ela tentara manter escondidas de si mesma. Ele era só uma criança, como poderia ter selado o contrato com ele? Mas ela fora egocêntrica. Buscava sua própria salvação.
Prometera cuidar dele, estar sempre ao seu lado. Ser seu conforto. Mas não fazia isso por ele, queria apenas expiar seus próprios pecados. Mesmo isso seria muito nobre. Estava lá apenas para certificar-se que ele cumpriria o acordo. E quando viu que ele era incapaz, o abandonou.
Onde estava todo o amor, e todas as promessas? Bem escondidas, para que isso não viesse assombrá-la à noite. Amargava-lhe pensar que o deixara a própria sorte, mas não podia manter-se presa a ele para sempre. Precisava ser salva. Precisava de um novo contratante.
- C.C. você é única. Única para mim. – disse Mao, tirando-a das duras recordações.– Não me importo com Lelouch ou... – aproximou-se o suficiente e a puxou pelo braço. A mulher desvencilhou-se dele e puxou uma arma.
- Eu deveria ter feito isso desde o início. – disse, ao apontar a arma para o rapaz. Ele pareceu surpreso e assustado. Recuou um pouco. C.C. sentiu sua mão tremer ligeiramente. Era só atirar e ela se livraria de Mao, mas ela queria?
Não teve tempo de explanar suas divagações. Viu um clarão, acompanhado de um barulho ensurdecedor, e uma dor lascinante e a arma cair de sua mão.
- Como imaginei C.C. nunca atiraria em mim. – disse Mao, segurando uma arma.
A moça sentia o sangue escorrer do braço, onde havia sido atingida. Aquele lampejo que ela tivera a princípio, quando chegou ao parque e não soube traduzir, estava ali. Com todas as letras bem diante de seus olhos. Um brilho psicótico reluzia nos olhos de Mao.
- C.C. me ama. – disse, apontando para si mesmo.
- Eu estava só te usando! – gritou em resposta.
- Você não deveria mentir. – disse, e atirou na garota mais algumas vezes. Nenhuma parte vital, apenas para imoblizá-la, para que ela não fugisse de novo. – C.C. eu tenho uma casa na Austrália. É linda, calma e clara. Nós iremos viver lá. Tenho até um avião esperando. – Então seus olhos se iluminaram de forma sombria. – Mas você é muito grande para levá-la no bagageiro. Terei que compactá-la. – Virou as costas para ela e foi atrás do carrossel, então voltou de lá carregando uma moto-serra.
Os olhos da garota se arregalaram por um instante. Ela não podia morrer. Mas o que aconteceria ao ser retaliada? Medo não era algo que sentisse, ainda mais diante de seu pequeno Mao. Bobagem, ele não era mais aquele menino assustado que ela conhecera.
Caminhou em direção a ela com os olhos vidrados. Sua obsessão lhe cobria o raciocínio. O seu desejo por paz era maior que seu amor. Mas C.C. entenderia. Ela o amava.
- Então essa é a minha punição? – perguntou, encarando-o. Ele caminhou na direção dela.Viu-o aproximar-se, aparentemente fora de si. Este seria seu fim. Mas como?
A voz de Lelouch chamou sua atenção. Ambos se voltaram para um enorme telão, onde a imagem de Lelouch se reproduzia. Ele estava na Torre de Tóquio, longe o suficiente do alcance do geass de Mao.
C.C. apenas ouvia as palavras que seu novo contratante dispensava a Mao. Ele a possuía, sabia seu verdadeiro nome. Mesmo em meio à dor que sentia e aos gritos de Mao, sentia-se confortável por ter confiado em Lelouch.
Mao gritou estarrecido e atacou o telão com a moto-serra.De repente parou seus movimentos, ouvia pensamentos. Virou-se e se viu cercado pela polícia, armas apontadas e o pensamento coletivo de que haviam encontrado o seqüestrador.
Viu um policial destacar-se do grupo e ir até C.C. Os olhos dela se arregalaram. E ele soube de quem se tratava.
- Você estava na Torre de Tóquio! – gritou sem dar atenção aos demais policiais.
“Aquilo era gravação” respondeu em pensamento. Lelouch pegou a mulher no colo e o encarou “Você é muito previsível, seu geass é um desperdício”.
O garoto virou-se, abandonando o local e levando C.C. consigo. Ela ainda pode ver quando Mao se precipitou para eles e foi alvejado pela polícia.
Por que se sentia estranha? Por que ficara com pena dele? Ainda teve um breve lampejo de salvá-lo, protegê-lo, mesmo depois de tudo que havia feito com ela.
A viagem de volta para casa foi longa e silenciosa. Ela pensara em Mao o tempo todo e isso lhe entristecia. Sentia-se confusa e receosa. Ele era apenas uma criança de seis anos quando o conhecera. Amor, bem e mal, ele não sabia nada disso. E ela tampouco o ensinara.Culpava-se, pois o geass que havia oferecido a ele, o afastara ainda mais das outras pessoas. Toda a humanidade que ele conhecera estava traduzido na figura dela. Uma mulher silenciosa e teimosa. Que passava por cima de todos apenas para cumprir seu contrato.Não importa quanto tempo se passasse Mao sempre teria seis anos.
Apertou o urso contra o corpo, e deixou mais algumas lágrimas caírem. Mesmo depois de tanto tempo afastada dele, ainda sentia sua falta. Sempre sentiria. Fora seu primeiro amor, a primeira pessoa que precisou dela. Lembraria sempre dele.
Ouviu a campainha. Pulou da cama com um largo sorriso, sua pizza havia chego. Deixou o urso cair e esqueceu-se do por que chorava. O que havia acontecido pela manhã ficaria lá. Estava morrendo de fome.
Notas finais
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