Inocência
18 Dividida
Notas iniciais
Capítulo 17 — Dividida
Pov. Annabeth*
Eu sai do quarto dos meninos depois de alguns minutos parada enquanto absorvia as palavras de mamãe. Siga seu coração. Eu sempre fazia isso, mas agora ele estava confuso e tenso, cheio de medo e culpa. Joguei-me na cama e peguei o colar. O observei por alguns segundos enquanto pensava na minha vida. Em Percy e em Tritão. Eles eram tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais. Ambos faziam meu coração bater, ambos tinham um modo especial de fazer as coisas, de demonstrar seus sentimentos e isso me fazia ficar cautelosa em relação a todos os meus atos, eu não queria me magoar e magoar nenhum deles. Rolei o cordão entre meus dedos e li a frase que estava escrita ali: “Vivo em um mundo cheio de mágica. A mágica sou eu.” Era difícil pensar em qualquer coisa. Com meu coração dividido.
Lembrei-me do que Poseidon perguntou para Thalia, sobre ela canalizar o poder dela. Será que tinha alguma relação com quem tinha feito aquilo com Perséfone. Bateram em minha porta, me despertando os pensamentos.
– Já vai! — Me pus de pé e coloquei o cordão em meu pescoço. Pelo menos assim eu pensaria um pouco mais na missão. Abri a porta e vi Thalia.
– Hey! O que foi?
– Tritão está aí! Ele quer ver você! — Eu sorri. Olhei para o relógio e percebi que agora era minha aula com Nico, quanto tempo eu tinha passado pensando e encarando aquele cordão.
– Já estou indo! — Thalia viu o cordão em meu pescoço e sorriu. Fui ao banheiro e lavei meu rosto, quando voltei Thalia disse:
– Ele fica bonito em você! — Sai do quarto e andei ao lado dela e fomos para a cozinha. Tritão estava encostado na porta da mesma e encarava Percy, que sinceramente não tirava os olhos do irmão. Thalia pegou no ombro dele, mas Percy nem ligou, o que fez Thalia revirar os olhos.
– O que veio fazer aqui? — Percy perguntou friamente.
– Vim ver minha namorada! — Ele disse e quando olhou para mim, seus olhos se iluminaram. Senti minhas bochechas ficarem vermelhas na mesma hora, provavelmente eu estava da cor de um pimentão, pois ele riu me puxando para perto. Ele passou os braços ao redor de minha cintura e eu coloquei as mãos em seu peito. Ele me beijou no alto da cabeça e me ficar ali encostada nele. A cozinha se encontrava com um ar tenso, dava para perceber no olhar de Percy, Thalia e Nico.
– Nós vamos treinar hoje, não é Annabeth? -Nico perguntou depois de alguns segundos, provavelmente queria tirar a tensão. Eu ia assentir, mas Tritão não deixou.
– Não. Ela vai sair comigo hoje. — Nico assentiu e olhou para Thalia. Eu sai de perto de Tritão e o encarei.
– Eu não posso sair com você hoje, Tritão. Eu tenho que aprender a lutar e Nico é excelente com o manuseio de espada, eu tenho que aprender. Lorde Poseidon disse que eu vou à missão então é necessário que eu aprenda pelo menos me defender. Eu já não estou me sentindo bem indo como um peso a eles...
– Deixe para depois. Vocês ainda não têm nenhuma pista, somente aquele colar. Duvido que isso se resolva agora, tenho certeza que você terá tempo para lutar. -Eu não gostei do modo como ele falou aquilo. Ajudar Perséfone era sério, mas pareceu pelo tom de voz dele que era algo de segundo plano, pareceu quase que não valia nada.
– Isso é sério! — A expressão dele mudou quando eu disse essas palavras.
– Desculpe, eu me preocupo com Perséfone, mas queria passar um tempo com você, me desculpe? — Eu sorri, ele pareceu pensar e vi que aquele era o jeito dele, fofo. E por ele ser aquilo, daquele jeito, me fez sentir-me culpada. — Vamos Annie, nós podemos nos divertir hoje à tarde. — Eu mexi no meu cabelo, claramente desconfortável.
– Tritão não se faça de santinho e alguém que finge se importar. Para alguém que já matou friamente e que já fez de algumas vidas nada, tenho certeza que você não importa. — Tritão olhou para Percy, sempre Percy. A tensão ficou palpável, eu podia ver aqueles dois se encararem com tanta intensidade que eu não quis me meter, mas foi impulsivo e logo eu estava no meio dos dois, segurando e colocando uma de minhas mãos no peito de cada.
– Por favor, parem! — Eles nem ligaram para mim, se encararam. Olhei em desespero para Thalia, mas ela não fez nada.
– Eu me importo Perseu. Não sou como você, fútil e que só pensa que existe você no mundo, que quer toda a atenção do mundo, e nem tenta fazer por merecer para poder se fazer de coitadinho.
– Você não me conhece...
– Conheço bem demais.
– Parem! Já chega! Toda vez é isso! Eu não quero mais ver vocês dois brigando. São irmãos! — Eu gritei, mas eles me escutaram? Não!
Percy me olhou e Tritão fez a mesma coisa, mas não era porque eu tinha falado aquilo.
– Você escolhe Annabeth. Você vai com ele aproveitar o dia, ou fica aqui e luta com Nico para ver se conseguimos ajudar Perséfone rapidamente! Você que sabe? — Havia mais entre aquelas palavras do que qualquer podia ver, acho que eu estava errada, elas estavam muito explicitas. Era uma pergunta que veio cedo demais, escolher entre eles dois. Não sei quais seriam as conseqüências, na verdade não queria pensar nelas. Eu já me sentia culpada o suficiente por não ter falado nada para Tritão e ter decidido não contar nada, escolher entre eles dois me fez sentir péssima. Mas os olhos deles estavam cravados em mim. A culpa, ansiedade e raiva estavam junto comigo e eu tentei pensar direito, com clareza. Tentei me lembrar das palavras da minha mãe, seguir meu coração. Sei que nenhum dos dois estava implicando para saber qual dos dois eu amava e acho que isso nunca ia acontecer, não é? Até parece que um dia Percy me amaria, e Tritão me olharia com um olhar de alguém além provavelmente da esposa ideal. Eu era um objeto naquela hora. Deu vontade de correr para o banheiro, meu estomago revirou. Mas então deixei tudo de lado, e olhei para Percy.
– Eu preciso sair um pouco. Tenho certeza que vocês podem pensar um pouco nesse mistério hoje à tarde, sem mim. — Ele me olhou parecendo chocado. Tritão tinha um sorriso enorme no rosto. Ele foi para a saída e estendeu a mão. Olhei para a Thalia e Nico e mandei um olhar de desculpas, não quis olhar para Percy. Dei a mão a Tritão e saí com ele. No momento quis botar na minha cabeça qual era a verdadeira decisão que eu estava tomando. Não era entre Percy e Tritão, era sobre sair ou ficar, isso.
...
Enquanto seguia Tritão sem saber para onde exatamente ele estava me levando, senti meus pensamentos flutuarem para um moreno de olhos verdes. Inevitavelmente lembrei-me do nosso beijo, meu primeiro beijo. O suave toque dos nossos lábios, de como eu me senti bem naquele momento, as mãos estavam frias, meu coração acelerado, os pensamentos a mil. Era uma sensação indescritível, única. Pensei naqueles lábios carnudos, no gosto de menta que eles tinham. Uma completa besteira, eu sei, mas eu senti algo parecido com isso quando beijei Percy. Pensei em seus cabelos negros e quis acaricia-lós.
– Annabeth você parece estar no mundo da lua! — Tritão me falou, chamando minha atenção. E eu realmente estava distraída, pensando em Percy, poderia ser pior?Sorri para Tritão que tinha uma cara fofa naquele momento e disse:
– Desculpe. Mas você não me deixou saber aonde iríamos, então fiquei pensando em diversos lugares. — Ele sorriu lindamente.
– Museu de história natural. Achei que você gostaria de ir naquele lugar. Poderíamos ir ao lugar que você quisesse depois, mas talvez fosse bem diferente se fossemos lá. — Sorri animada. Ele me puxou pelas ruas lotadas em que estávamos e olhei ao redor, estava me acostumando a andar por aquelas ruas de Nova York, eram sempre tão movimentadas, pessoas que não paravam nenhum segundo, era bem diferente da cúpula onde eu vivia com os outros. Estávamos debaixo da água Annabeth!Você queria o quê?
No resto tentei me desligar da culpa que sentia por ter traído Tritão e por não ter coragem de contar a verdade para ele. Foi uma tarefa bem fácil já que Tritão fazia diversas brincadeiras e me fazia rir a todo o momento, eu acho que eu não merecia todo esse carinho vindo dele.
No final acabamos em uma sorveteria. Olhei para as cores de cada sorvete e acabei pedindo uma mistura de diversos sabores.
– Sua criança. Está indo pelas cores! — Tritão zombou de mim quando viu meu sorvete. A primeira bola era azul, chiclete, a segunda rosa, morango, e a última era amarela, abacaxi. Eu dei de ombros.
– A culpa é sua se você é sem criatividade!- Ele sorriu enquanto pegava o sorvete dele, que era de creme. Sem graça. Sentamos-nos ainda rindo em um daqueles banquinhos ali perto e eu olhei para frente, contemplando à tarde, que estava maravilhosa. Por cima da mesa, Tritão pegou minha mão e entrelaçou-as. Olhei para ele, encarando seus olhos e olhei nossas mãos em seguida. Senti-me feliz, confortável.
– Obrigada por ter vindo comigo! — Ele falou me surpreendendo. — Sei que fui meio arrogante naquela hora, mas eu realmente me importo com Perséfone. É que não adiantaria vocês ficarem presos dentro daquela casa batendo cabeça sempre para poder solucionar isso. Não gosto daquele trio, mas tenho certeza que eles irão conseguir ajudar Hades. Principalmente com você agora junto deles. — Peguei no cordão devagar e assenti. — Percy não entende as coisas, acha que tudo que faço às vezes é em meu beneficio próprio. E confesso que isso foi um pouco, mas é que nunca mais tivemos um tempo para nós. — Ele pegou meu rosto e me puxou para mais perto. — Algo só nosso. — E no momento seguinte quando ele se inclinou para mim, eu soube o que ia acontecer. Mas eu não fiz nada para impedir. Senti o cheiro dele, senti cada movimento quando ele vinha de encontro aos meus lábios. Meu sorvete escorregou de minhas mãos e provavelmente sujou toda a mesa. E quando Tritão tocou seus lábios gelados nos meus, que provavelmente estavam na mesma condição, senti-me estranhamente bem. Sei que foi irracional, mas comparei seu beijo e toque com o de Percy. De Percy tinha sido quente e cheio de paixão, será? Vontade. De Tritão tinha sido gelado, bom. Sua língua em contato com a minha era bom. Peguei em seus cabelos e passei meus braços pelo seu pescoço. Desliguei minha mente, acho que eu fazendo isso faria tanto um favor para mim, como para a sanidade da própria.
...
Já estava tarde e Tritão e eu estávamos na frente da minha casa, acho que já podia dizer isso. Eu fui para a porta e ele soltou minha mão. Seu sorriso era deslumbrante, aquele sorriso me deixava feliz, e a tarde tinha sido ótima.
– Espero que tenha gostado de hoje!
– Obrigada. Eu precisava parar de pensar um pouco nesses problemas. — Tritão tocou meu rosto e eu fechei os olhos.
– Quando casarmos você não precisará se preocupar com absolutamente nada. Vai ter tudo o que quiser, e fazer tudo o que quer. — Assenti. Não me limitei a pensar em como seria nossa vida quando nos casássemos, eu não queria isso, não agora. Não com tanta confusão na minha cabeça e sinceramente, essa tarde tinha atiçado mais ainda essa confusão.
– Obrigada! — Tritão me puxou para seus braços e foi chegando mais perto. Sorri e beijei seus lábios em um selinho rápido, pois senti que alguém nos observava, e isso me deixou um pouco desconfortável.
Separamos-nos e Tritão se despediu, me encostei-me à porta e esperei alguns segundos para abrir e entrar. Thalia foi a primeira a me abordar.
– Como foi?
– Foi bom! — Sorri. Ela ergueu uma sobrancelha, como se esperasse algo mais. — Nós nos beijamos, se é isso que quer saber! — Ela sorriu me abraçando. Eu não sabia o motivo.
– Acho que ele seja a pessoa certa para você, de acordo com suas limitadas opções. Queria que fosse de um modo diferente que escolhesse quem você quer para a vida, mas ele não é ruim Annabeth. — Então quando ela disse isso, eu entendi. Thalia também tinha visto aquela cena e provavelmente depois do que eu contei, percebeu como eu me estava me sentindo. Engoli em seco.
– Thalia, não tem outra opção! — Sorri fraco. Ela deu de ombros e me puxou para a sala. Nico estava sentado assistindo alguma coisa na televisão e quando me viu, sorriu. Sentei-me ao seu lado e olhei para Thalia, que agora olhava para a televisão. Ela não tinha falado para ele ainda, eu senti só pelo ar, e porque provavelmente se ela tivesse contado, ela estaria grudada nele agora. Ri.
– Desculpa por ter perdido sua aula hoje, Nico! Amanhã podemos compensar isso, não?
– Relaxa Annabeth. Só espero que tenha sido uma tarde agradável para você! -Ele sorriu.
– Foi! Prometo amanhã dar o meu melhor na sua aula! — Ele piscou e eu ouvi passos no corredor. Olhei para a entrada do mesmo e em poucos segundos vi o moreno que me atormentou em alguns momentos nessa tarde. Ele tinha o olhar seco, frio, mas não era debochado.
– Você escapou das aulas dele, mas ainda temos a nossa. E não me importo se está cansada ou algo assim, quero você em minha sala agora. Temos que estudar. Quero acabar com isso bem rápido. — Dito isso, ele saiu, sem me deixar responder ou falar uma única palavra. Olhei para Thalia e ela suspirou.
– Depois irei lá! Ele só está com raiva pela discussão com Tritão, ele sempre fica assim. Essa implicância com o irmão não acaba. — Eu assenti me levantando. Thalia parecia que ia falar mais alguma coisa, mas se calou. Andei em direção a biblioteca e me preparei, na verdade eu não sabia o que esperar. Toquei na maçaneta e abri a porta. Olhei antes de entrar e não vi ninguém. Será que ele estava ali? A minha pergunta foi respondida um segundo depois, quando fui puxada para dentro. Segundos depois a porta estava fechada, eu encostada contra ela, e olhos verdes escuros a me encararem. Eu o analisei e senti seu cheiro. Coloquei a mão no peito de Percy e ia afasta-ló, mas ele segurou minha mão.
– Não! — Foi como um sussurro, mas eu escutei. A voz dele estava rouca e distante, seus olhos pareciam estar do mesmo modo. Ele pegou em meu rosto e acariciou minha bochecha. Um turbilhão de emoções passou por mim. O que eu estava fazendo? Eu estava me deixando levar, e eu não podia fazer isso. Mas quando Percy se inclinou para mim, eu não quis me esquecer da situação, somente aconteceu, eu não me desliguei, simplesmente foi. Ele me beijou com fervor e eu senti uma quentura passar por meu corpo, minhas mãos esfriarem e tudo em meu estomago revirar, nada de conforto, somente alegria, prazer, paixão. Aproveitei a sensação, aproveitei e me deixei levar, meu erro. Percy se afastou e pegou em meu rosto. Não sei se ouvi direito ou foi algo da minha imaginação, mas pensei ter escutado ele sussurrar: “Vocês tem opções, só basta querer”, mas ele logo se afastou e foi para o outro lado da biblioteca, me deixando atônica e presa a porta. Opções? Será?
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