Innocent Distraction
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1
Comandar um navio, ainda mais um cruzeiro, era muito fácil para Draco. Ele era o gerente, e por isso era a segunda maior autoridade do lugar, logo abaixo do capitão. Tinha a função de manter tudo em ordem durante e depois das viagens. Os passageiros costumavam embarcar e passar seis dias aproveitando tudo o que o navio tinha para oferecer, enquanto ele apenas os observava e cuidava para que tudo ficasse em ordem. E então os turistas iam embora e ele tinha duas semanas inteiras para usufruir das atrações da embarcação o quanto quisesse, enquanto os funcionários preparavam tudo para a próxima remessa de turistas.
Mas não daquela vez. A empresa dona do cruzeiro decidiu que queria revolucionar. A viagem da vez teria a duração de dois meses, a primeira desse porte feita no mundo. O navio sairia da costa dos Estados Unidos e iria até a Europa, passando pelo Reino Unido, França, descendo em direção á Portugal e Espanha, depois passaria pela Itália e enfim parava na Turquia. A viagem terminava ali, e quem quisesse voltar no cruzeiro, teria que comprar a viagem de volta. Apesar de ser uma longa viagem, Malfoy estava relaxado. Dois meses no mar não o incomodavam nem um pouco, ele tinha quase certeza de que essa viagem seria tão calma quanto as outras. Pena que ele estava enganado.
Draco estava se preparando para ir á piscina no primeiro dia da tão esperada folga, quando o seu celular tocou. No mesmo instante ele soube que havia algo errado. Ele pegou o aparelho e olhou o visor, onde o nome Alvo Dumbledore piscava incessantemente. Malfoy não queria falar com o chefe. De fato, nem mesmo imaginava qual podia ser o motivo da ligação. Até onde sabia, tinha certeza que não tinha feito nada de errado.
— Bom dia, chefe! –ele atendeu com uma falsa alegria.
— Ora, Sr. Malfoy, não precisa utilizar de suas habilidades como ator para disfarçar sua infelicidade em me atender. Eu bem sei que por ser seu primeiro dia de folga o senhor estava se dirigindo à piscina.
“Merda.” Pensou o homem, revirando os olhos. “Esse velho chato me conhece mais do que eu imaginava.”
Draco apenas soltou uma risada anasalada. O que ele mais queria era acabar logo com aquilo e ir aproveitar a água.
— Pois bem, Alvo. Posso saber o motivo da sua ligação?
— Antes de te falar, eu queria deixar claro que a decisão não foi minha, e sim de todos os outros sócios da empresa. –Dumbledore começou, parecendo um tanto quanto apreensivo. Draco já estava ficando nervoso e engoliu em seco, temendo o pior. — Eu sei que você é o funcionário mais competente que já tivemos, mas não tenho força nenhuma sozinho, muito menos contra o resto dos sócios. São quatro contra um, Draco. Temo que não vá gostar da decisão tomada.
— O... O senhor vai me despedir? –gaguejou, com a voz bastante embargada. Logo depois ele pôde ouvir o chefe gargalhando do outro lado da linha.
— Não, é claro que não! Por que faríamos isso? Eu acabei de dizer o quanto você é competente, não seja tonto.
Draco arregalou os olhos ante a exclamação do velho chefe, e, bem mais aliviado, voltou á postura fria de antes.
— Então porque não para de enrolar e me conta logo o que decidiram?
— Se você está exigindo... –Malfoy revirou os olhos pelo enrolo de Alvo. Aquele velho o irritava muito quando queria. –Eles estão mandando um inspetor junto á próxima remessa de turistas. Você sabe, para checar se está tudo certo com o navio, ver o que precisa ser melhorado, observar o seu desempenho em uma viagem tão longa quanto essa... A empresa quer investir em viagens de dois meses, mas antes precisam saber se você é o gerente certo para este tipo de cruzeiro. Mas os outros sócios me proibiram de te dizer quem é. –Completou Dumbledore, já sabendo que Draco pediria mais informações sobre o inspetor. — Disseram que você tem de agir naturalmente, como age quando está com os hóspedes “normais”. Eles não queriam nem mesmo que eu te avisasse! Mas eu os convenci de que você merecia, ao menos, saber da presença desta pessoa no navio.
No segundo em que ouviu as palavras proferidas pelo chefe, Draco cerrou as mãos, pronto para socar o primeiro que aparecesse em sua frente. Respirou fundo, contou até dez e fez tudo o que podia para não gritar com Dumbledore, mas o velho não ajudava nem um pouco, já que estava tentando conter o riso. O cretino sabia que Malfoy reagiria daquele jeito, devido ao orgulho do rapaz.
— Vocês não podem fazer isso! –o loiro se ouviu dizendo, com a voz bastante esganiçada. Ele estava a ponto de explodir.
— Não adianta, Draco. São as normas da empresa e nenhum de nós dois pode ir contra elas. Você sabia que uma hora ou outra eles mandariam um inspetor.
— Mas...
— Um ano cuidando do bem mais precioso, caro e lucrativo que a empresa já teve e ainda quer que nem mesmo verifiquem se está tudo certo? Já é querer demais.
— Por favor, Alvo! Apenas me dê uma dica de quem é o inspetor. –Malfoy exclamou, aflito.
— Sinto muito, Draco, mas não posso fazer isso. Você terá que descobrir por si próprio.
Direcionando o olhar para o oceano imenso á sua frente, o homem soltou um suspiro forte, cansado. Ver o mar sempre o acalmava. Como sua mãe costumava dizer, ele combinava muito com o mar. E não só por causa de suas orbes azuis-acinzentadas. A personalidade de Draco, que costumava esconder todos os seus sentimentos, bons ou ruins, era como o mar, que escondia as paisagens e seres mais bonitos nas partes mais fundas, mas juntos também estavam as criaturas mais estranhas e sombrias. Essa semelhança o fazia se sentir em paz perto do oceano, por isso trabalhava num cruzeiro, e amava o que fazia.
— Tudo bem. O que eu posso fazer senão aceitar, não é? –Draco não pôde segurar um sorrisinho irônico. — Agora, se me dá licença Alvo, tenho que dar o aviso aos outros funcionários. Passar bem.
— Boa sorte com o inspetor... Eu espero realmente que tudo dê certo. E não se esqueça do quanto nós confiamos em você, Draco. –E, dizendo isso, o chefe desligou, deixando um Malfoy bastante atordoado com a notícia que tinha acabado de receber.
Draco deixou seu quarto com a cabeça cheia, pensando em tudo o que poderia acontecer no cruzeiro durante a estadia do inspetor. Ele sabia que teria que enfrentar hordas de reclamações por parte dos funcionários quando lhes desse a notícia, como se ele fosse o culpado pela decisão.
Depois de convocar todos os trabalhadores para o salão principal do navio, o gerente se viu frente a frente com milhares de pessoas curiosas e até mesmo apreensivas. Ele olhou para as mãos que tremiam levemente. Sim, “o grande Draco Malfoy” tinha um pouco de medo de falar em público. Então tomou coragem, se concentrou para esconder a tremedeira, respirou fundo e pigarreou, começando a falar logo em seguida:
— Boa tarde, senhores e senhoras. Sei que uma convocação quando estamos tão longe da data de chegada dos hóspedes é um pouco estranho, mas foi algo necessário. Quero deixar claro que foi uma decisão quase unânime dos sócios da empresa e que eu não tive absolutamente nada a ver com isso. Eu mesmo não gostei muito da idéia.
Ao ver os rostos impacientes, tratou de continuar logo.
— Fui informado pelo Sr. Alvo Dumbledore de que, junto com os hóspedes, receberemos um inspetor, que estará aqui para avaliar todo o nosso trabalho durante os dois meses de estadia. Infelizmente, não me disseram quem é esta pessoa. –Na mesma hora um burburinho começou na multidão de funcionários e Draco tratou de sair logo dali, ou sobraria para ele. — Nas próximas duas semanas estaremos completamente focados na preparação para a chegada dos hóspedes e principalmente do inspetor. Vamos fazer com que ele ou ela se surpreenda com a ordem do nosso navio. Muito obrigada a todos pela atenção. Essa reunião se encerra aqui.
A passos rápidos e largos, Draco saiu do salão e se dirigiu ao próprio quarto, tentando ignorar o frio na barriga que agora diminuía, mas que esteve intenso durante a declaração.
Durante o resto da tarde e da noite, por onde quer que passasse no navio os funcionários o olhavam de cara feia, pareciam pensar que o fato de terem que trabalhar em dobro era culpa do gerente. Como se ele próprio não estivesse sendo forçado a trabalhar muito mais do que o normal!
Ao entrar no quarto, Draco estava tão exausto que sentiu a visão escurecer e a cabeça latejar. Ele se permitiu cair na cama macia e rapidamente adormeceu, tendo terríveis sonhos nos quais o navio acabava interditado e ele na rua, por um erro de organização que fora culpa dele próprio.
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