Notas iniciais
Acho que as coisas começam a ficar mais interessantes por aqui XD - ou não, são vocês quem dizem *carinha feliz* Notas: #*~*~*~*# = Mudança de narrador. "abc" = pensamento.

O uivo do forte vento ecoava pela floresta. Pássaros pareciam indagar a umidade repentina do velho carvalho e a mancha rubra que, escorrendo pelos troncos bêbados, impregnava em suas jovens penas como nanquim seco.

O corvo surge, corveja; a garota acorda – pronta para a tensão de mais um raio de sol.

*~*~*~*

Levantou-se conturbado, lembrando-se daquela noite. As largas mãos se infiltraram dentre os longos cabelos e voltaram às têmporas. Segundos mais tarde, colocou-se de pé, vestiu-se, caminhou sem pressa até a porta, quase oculta no escuro frio, e deixou o aposento para dirigir-se ao mesmo andar, com as mesmas pessoas e uma intuição não rotineira de algo muito bom.

# *~*~*~* #

Minha casa tinha dois pavimentos, um tão diminuto e simples quanto o outro, sendo que apenas o meu quarto, o do meu irmão e um pequeno banheiro ocupavam o andar superior. Era um banheiro um tanto apertado e o acúmulo de vapor o tornava confortavelmente quente, apesar do frio insuportável do lado de fora. Ainda penso que foi por isso que o meu amiguinho peludo e completamente branco foi parar ali. O inverno estava chegando. Lebres gostam de tocas, e nossa casa não era muito diferente.

Claro que meus pais discordaram em deixa-lo conosco e, ainda que eu tivesse insistido muito, fui obrigada a leva-lo para fora. Já longe de casa, o pequeno desvencilhou-se de meus braços e correu alguns metros à frente, para um local onde ainda havia grama.

Era um final de tarde e por acaso ou não – por mais que eu acredite que acasos não existem –, Satsu agora tornava a acariciar o seu pelo macio, sorrindo para mim, como sempre fazia ao decorrer dos dias em que nos víamos. Yuki encontrara um lar.

~*~

Eu até gostaria de me concentrar nas boas e inacabadas memórias de meu passado, o que não é fácil quando se está no meio de tanto barulho. Naruto e sua cabeça de vento finalmente deram sinal de sanidade e resolveram fazer algo razoavelmente sensato.

*~*~*~*

— Garante que ele não estará lá? – perguntei-lhe com certa repulsa.

— Por que esse ódio todo, Tenten? – respondeu Lee com outra pergunta.

— É possível que você tenha esquecido?! – disse com o timbre um pouco alterado – A forma rude como ele tratou a tudo e todos para de repente aparecer assim é nauseante!

— Bem, você não é obrigada a falar com ele se não quiser... – comentou tentando abrandar-me.

— Você sabe muito bem – comecei com descortesia, parando de andar em círculos e o encarando – Que sequer suporto olhar para alguém que trata os sentimentos dos outros como lixo!

— Está tratando-o como algo pior que lixo... – disse fazendo desenhos na areia; uma expressão singela e calma, ignorando os meus quase berros.

— Que seja! – bradei desistindo e sentando-me em uma pedra, de frente para ele. Estávamos sozinhos em nosso local de treinamento.

Suspirei pesadamente e ele, interrompendo os desenhos de flores de cerejeira, se aproximou repousando uma das mãos em meu ombro.

— Olha, Tenny... Vai ser bom pra você. Tanto estresse te leva a nada.

— “Tenny”... – falei baixo como se refletisse – Por que me chama assim? – indaguei lembrando-me de outro momento.

— Alguém que conheço te chama assim – senti incerteza em sua voz. – Mas não mude de assunto! Precisa relaxar um pouco, está trabalhando demais!

— Bem... Se o cara mais esforçado da equipe diz... – esbocei um sorriso.

— É necessário se não quiser ficar louca antes do tempo – disse em tom de brincadeira levantando-se para ir embora. – Espero por você!

Vislumbrei sua pose de “nice guy” antes que desaparecesse na floresta. Abaixei a cabeça, colocando as mãos sobre a nuca, e ouvi meu próprio conselho.

— Acho que já enlouqueci.

*~*~*~*

A maioria deles estava ocupada com alguma coisa. Shikamaru prestava atenção na fogueira, vagando para algum lugar onde o retrato de certa moça estava. Hinata, tímida, com as bochechas mais que rosadas, ouvia toda a linha de besteiras que Naruto tinha para falar. Ele, por sua vez, estava de pé em frente a mim, Hinata e Lee, que também não parecia prestar muita atenção. Kiba falava alto, contando histórias espetaculares para Shino e Ino, que ouviam com certo interesse, todos civilizadamente sentados.

Prestava atenção aos estalos da madeira – ao mesmo tempo em que tentava repetir a ação com o que Naruto falava – quando percebi outra figura chegar. Meu olhar foi de encontro a Lee, repreendendo-o mentalmente por ter me convencido a comparecer. Notando meu desconforto (e piorando-o em seguida), cumprimentou o senhor perfeitinho que acabara de chegar e convidou-o para se sentar no único lugar vazio dentre as toras de madeira que nosso anfitrião loiro organizara: ao lado do meu.

Palavras não descrevem a raiva que senti naquele momento. “Era tudo um truque dessa ervilha sobrancelhuda... Como pude cair nessa?!”, pensei indignada. Apertei meus olhos o máximo que consegui, levando uma das mãos à testa numa tentativa de simular uma leve dor de cabeça – aquela do tipo “É fraca, mas vou correndo para casa antes que eu morra...”. Porém, como vez por outra acontece, meus planos não iam bem.

— Esfriou de repente, não? – comentou Hinata, agarrando-se nos próprios braços.

— Acho que tenho algo pra te emprestar... – disse Naruto parando com a palestra sobre “Como me Tornei um Ninja Excepcional” e dirigindo-se à entrada de casa para buscar um casaco.

— N-Não precisa se preocupar Naruto-kun. Não está tão frio assim... – gaguejava controladamente pela tensão comum de dirigir-lhe a palavra.

— Espera, é só um minuto! – afastou-se deixando a negação de lado.

— Pelo menos ele parou de tagarelar – disse Lee aliviado. Talvez assim conseguisse prestar mais atenção no que estava pensando, ou melhor dizendo... Em quem ele estava pensando.

Momentos depois, Shikamaru saiu de sua troca de olhares com as chamas e voltou-se para perguntar algo para outro ninja, que acabara de entrar na inércia novamente.

— Ei, Rock Lee... Rock Lee!! – falou mais alto.

— O quê? O que foi? – conectou-se com o mundo por instantes – Espera! Que horas são?! – desesperou-se, desconectando de novo.

— Wow! Calma... É que eu quero saber se...

— Eu tenho um compromisso! – agitou-se como um raio.

— Não acredito que estava falando sério quando disse qu... – tentei continuar, mas ele desapareceu tão arrebatadoramente rápido que não tive chance de concluir minha dúvida. E estava certa, por sinal.

— Qual o problema de vocês?! Não era sobre os encontros amorosos da “tigela ambulante” que eu ia perguntar! – reclamou Shikamaru.

— Como sabe que é um encontro? – falei acabando com qualquer suspeita que os presentes ainda tivessem.

— Temari sempre diz: “Se você vir um homem correndo como se um demônio estivesse atrás dele e dizendo que tem um compromisso... É uma garota!”...

— Temari diria isso? – perguntou Kiba, não imaginando o quão enorme era o nível de conhecimento da shinobi em questão.

— Disse no último aniversário... – memorou, sem as melhores expressões do mundo.

— Pra quem? – quis saber Ino, com um olhar enxerido e levemente desconfiado.

— Não interessa! – respondeu-a convicto e emburrado.

— Eu até deixaria passar se não te conhecesse – riu. – E até discutiria mais também, mas, por falar em hora...

— Sabe a quantos parágrafos o Rock Lee disse isso? [Shino]

— Você é REALMENTE estranho! Grava as conversas por parágrafo? – interrogou Kiba, perplexo.

— Organização é para poucos...

— Melhor não dizer mais nada... [Kiba]

— Mas por que saber as horas? Por acaso tem algum compromisso também, oxigenada? – provocou Shikamaru.

— Exatamente – confirmou, deixando-nos em choque.

— Não sabia que tinha namorado – disparou Kiba, sem prestar atenção no que disse.

— A Sakura não é minha namorada!! – rebateu irritada e com vergonha pelo desentendimento.

— Que alívio... Já estava pensando em quantos terços teria que rezar para o coitado...

[N/A: A conversa foi interrompida porque Shikamaru precisava apanhar um pouco. Se você, leitor, quiser ser realista e acompanhar o tempo cronológico da estória, saia para dar uma volta. Uns 20 minutos devem ser suficientes...]

— E então? – disse Ino sorridente (ao terminar seu trabalho como abatedor de carne).

— “E então?” o quê? – Shikamaru tempestuosamente raivoso.

— Qual de vocês vai me levar até lá? Oras...

— Aonde quer ir? – perguntou Kiba, empenhado em ouvi-la.

— Ao hospital! Já disse que preciso falar com a Sakura... Ela já deve ter largado, provavelmente passam das dez.

— Se quiser ir com o Akamaru, não há problema algum.

— Mas você nunca larga esse cachorro, não é mesmo? – estranhou Shikamaru.

— Ofereço porque ele é mais inteligente que certa pessoa para ir e voltar sozinho, sem se perder!

— Olha quem fala! Se acha tanto e perdeu uma luta pro Naruto!

— E o que isso tem em comum com o que estávamos falando?!

— CHEGA!! – grunhiu Ino, calando não apenas eles, mas qualquer um da vizinhança. – Você vem comigo... – disse agarrando o braço de Kiba – E você, vê se fica quieto! – bradou autoritária para Shikamaru, que recebeu mais um olhar mortal quando a chamou de problemática.

— Bem que o Neji podia vir junto, fala tão pouco que parece que está doente! – brincou Kiba, já a caminho do hospital.

— Agradeço a preocupação, mas estou bem... Vira-lata.

— Eu ouvi isso! – rosnou em resposta, levando mais uma bronca de Ino.

~*~

Depois de tanto drama, restaram apenas Shino, Hinata, Shikamaru, eu, Naruto – que ainda não tinha voltado com o tal casaco – e o maldito ninja ao meu lado que, apesar da leve interação, parecia distante. Pensei em dizer algo, porém pensei tanto que Shikamaru se fez mais ágil.

— Err... Vocês da equipe dez... Será que têm alguma missão amanhã na qual precisarão de ajuda ou algo parecido?

— Temari? – dissemos eu e Neji em uníssono, espiando um ao outro involuntariamente.

— Droga! – confirmou, encostando-se à madeira. – Aquela problemática está hospedada na minha casa durante esses dias do exame chunnin. E bem... Seria cruel pedir que alugasse um quarto de hotel, com um sobrando por lá...

— Sobrando, é? Hum! Sei... – disse Neji ironicamente.

— Ora, procure o que fazer, Hyuuga! – tentou passar despercebido. – Sem falar que ela reclama por tudo! “Você dorme demais!”, “Deveria arrumar seu quarto!”, “Essa casa é o caos em bagunça!”, e vai piorando até que... – fez uma cara assustada, percebendo alguém atrás de si.

— Você bem que poderia ir pra casa agora, sabe? – opinei, levantando e sentando-me mais próxima ao fogo (e bem mais longe do Hyuuga).

— Se não quiser perder o pescoço, é melhor se apressar – comentou Shino.

— Ela tá bem atrás de mim, não tá? – disse indicando com o polegar e temendo nossos acenos de cabeça.

— Shikamaru Nara! – disse uma voz que até o mais valente temeria. Ele permaneceu estático por um momento e engoliu a seco antes de virar-se para encarar a “fera”. – O que pensa que está fazendo aqui?! Daqui a pouco são onze horas e você me deixa sozinha naquela casa esquisita com uma tranca tão estupidamente bizarra, que não segura nem vento?!!

— Eu não sabia que tínhamos problemas com a port...

— E VOCÊ ACHA QUE EU SABIA?! – berrou fazendo com que caísse de susto e medo. – Aquele seu vizinho tarado apareceu falando coisas estranhas! Estava bêbado de novo e...

— Você o matou? – levantou-se desesperado pela resposta, segurando suas mãos e dessa vez, assustando-a.

— Err... Não, ele só... – ela corou por um momento percebendo tamanha proximidade e soltou-se, cruzando os braços. – Ele está na casa dele. E... Irreconhecível, por sinal – disse emburrada.

— Ah, esses problemas são tão...

— Problemáticos! Eu já sei! Vamos logo!! – voltou ao tom ameaçador, empurrando-o pelo caminho.

— Falou, pessoal! A gente se vê por... AI!! – despediu-se depressa acenando para todos os presentes e sendo acertado por um punho fechado logo que se virou. Saíram ambos, discutindo. Ele com uma imensa dor de cabeça.

Murmurei alguns risos pela situação. Peguei uma pequena vareta e mexi um pouco no fogo, com intenção de espalhar o calor na área onde estávamos. Um silêncio prolongado se fez. Ninguém olhava para ninguém e Naruto finalmente deu sinal de vida.

— Ufa! Enfim encontrei – disse entregando um casaco preto levemente surrado para Hinata, que agradeceu sem falar muito – Acho que fica um pouco grande, mas foi o único qu... Ué? Cadê o pessoal?

— Tinham coisas mais legais pra fazer... “Se é que encontros amorosos são legais...” [Neji]

— E por que demorou tanto? – perguntou Shino, desconfiado.

— Me atrapalhei na hora de sair do quarto – respondeu com um sorriso de um canto a outro, “agindo como um babaca”, como o Sasuke diria.

— Está tão bagunçado assim? – perguntei – Bem que a Sakura disse...

— Ah, mas não foi só isso! Tinha um mosquito muito chato lá! Era minúsculo e fazia um barulho insuportável! Demorei alguns minutos para conseguir mata-lo...

— Você O QUÊ? — bravejou Shino com uma aura maligna presente no corpo e na voz – Eu envio um dos meus para saber se está tudo bem e é assim que você o recebe?!!

— M-Mas eu não sabia que era um dos seus... E-Era como q-qualquer outro inseto... – falou aterrorizado (e sem pensar, pra variar).

— COMO QUALQUER OUTRO INSETO??!! – agoniou-se fazendo Naruto se esconder atrás de Hinata – NUNCA diga isso com um dos meus!

Naruto começara a correr. Dezenas de milhares de insetos o perseguiam e Shino ia atrás da multidão (ou colônia, se preferir), dando ao loiro o trabalho extra de desviar das armas que lançava impulsivamente.

Por umas três voltas permaneceram ao redor da fogueira, mas quando Naruto teve a brilhante ideia de correr para dentro de casa, iniciou-se o verdadeiro tumulto. A calmaria foi interrompida aos insetos de Shino começarem a adentrar as outras moradias do prédio em busca da infame criatura de cabelos amarelos.

— Desse jeito ele vai acabar matando mais gente... – disse Neji num momento de distração, já convencido de que Naruto não sairia dessa inteiro.

Hinata se desesperou ainda mais, seguindo os dois prédio adentro, chamando inutilmente seus nomes e pedindo desculpas para os moradores que estavam a reclamar no corredor, expulsando hexápodes¹ pelas portas e janelas.

— Por que disse uma coisa dessas? Sabe como ela fica com relação ao Naruto! – rosnei sem a real intenção de falar com a única pessoa que sobrara do lado de fora, junto a mim, é claro.

— Já era inevitável, de qualquer forma – disse indiferente. – Um dia eles tomam jeito.

# *~*~*~* #

Por fim, a sós. Não que isso fosse algo bom, a princípio. Agora já não olhava mais para ele; estava encolhida, quase tocando o fogo, e abraçando o próprio corpo com firmeza. Não usava agasalho algum tampouco se queixara do frio uma vez sequer desde que chegou.

Resolveu olhar para ela que, tempos depois, intimidou-se com a presença de uma segunda sombra, que se aproximou e repousou ao seu lado. Mais silêncio. Tremeu, então, desviando sua atenção para o lado oposto de forma desconfortável. Algumas fagulhas ascendem no ar no instante em que ele toma de suas mãos o fino galho de árvore e coloca-se a mexer na brasa como ela antes fazia.

O olhar dela voltou ao vazio. Percebeu algo cair. Algo que encobriu friccionando o rosto no ombro direito, atitude a qual ele, discretamente, reparou.

— Fagulhas – ela disse.

Não o encarou, mas sentiu-se envolver por algo quente, diferente do fogo e da cor da neve. Um traje longo e branco protegia seus ombros dos rigorosos golpes dados pelo vento noturno, que aumentava e diminuía a cada minuto.

— N-Não precisa... Estou bem. – disse sem jeito, já removendo o habitual vestuário do Hyuuga. Ele a impediu.

— Estive nas montanhas no último verão. É... – procurou por uma expressão, suspirando, desistindo. – “De arrepiar” – completou sem gostar de como isso soa para seu vocabulário mais recatado. Sentira-se ridículo, apesar de ter chegado ao ponto em que queria.

Ela deixou um ar de riso aparecer por um momento e voltou à normalidade inertemente séria a qual estava acostumada. Encarou-o pelos cantos e quando seu olhar direcionou-se para as próprias mãos, gélidas, a dele, tão aquecida quanto a labareda à sua frente, moveu seu rosto para encará-lo. Assustou-se, em seguida, observando um ponto brilhante aproximar-se e desaparecer. Ele, então, afastou-se.

— Fagulhas – ele disse.

Sublevou-se e, antes de partir, ela o chamou.

— Peço à Hinata que...

— Não devolva – disse, tranquilo, ignorando as correntes resfriadas que atingiam a camiseta escura e fina que usava.

Naruto aparece à porta, com marcas de picadas dos pés à cabeça e com uma mancha arroxeada em volta dos olhos. Seus orbes seguem os da moça e pode ver a figura de mechas longas afastar-se.

— Hum? Bom... – ainda não entendia a situação — Vamos entrar, Hina-chan já estava preocupada – chamou com uma tapinha em seu ombro, retornando de onde tinha vindo, sequentemente.

Não sabia explicar o mal que aquilo deveria lhe fazer; uma aproximação súbita de alguém que dizia odiar. Talvez fosse a falta de justificativa que fez brotar em si um sorriso. Um sorriso de muito tempo atrás.

¹Hexápode: nome característico de animais com três pares de patas, como os insetos.

Notas finais
A propósito, em virtude do festival de Tanabata Matsuri hoje (07/07), o capítulo do próximo final de semana (o sete) se passará no clima do festival! Espero que gostem!!