Innocence NejixTenten
15 Imprevistos
Notas iniciais
O vento frio cortava caminho em meio às árvores, fazendo seus membros doerem mais do que gostaria. Havia corrido por longos minutos desde que percebera que algo a observava, e que já não sabia mais qual rota seguir para retornar para casa. Respirava com dificuldade, tremendo ao sentir o ar gélido penetrar-lhe as narinas.
Ouviu um barulho arrastado. Virou-se, entrando em desespero ao pensar que seja lá o que tivesse os olhos nela, agora a seguia. Deixou as flores murchas que carregava caírem em meio às folhas secas e galhos úmidos do cercado em que se encontrava e voltou a correr no ritmo que conseguia. Pouco depois, um grito agudo cortou as sombras agitando as poucas criaturas aladas na copa das árvores.
— Vocês ouviram isso? – Ino alertou os jovens que caminhavam mais à frente.
— Acha que seria ela? – Naruto perguntou sendo detido por Kiba, que lhe fez um sinal de silêncio enquanto farejava alguma coisa.
— É por aqui! Vamos – disse finalmente, indo em direção às árvores ao redor da casa.
Pouco depois, estavam em um local razoavelmente espaçoso. Parecia um cômodo redondo construído pelos troncos maciços que se elevavam a partir dos restos vegetais e da terra molhada pela chuva de horas antes. Akamaru latiu chamando a atenção do dono para algo em que este pisava.
— As flores... – Naruto as apanhou, lembrando-se do bilhete que encontrara em seu quarto. – Estamos no caminho certo. Consegue tirar algo a partir daqui?
— Acho que ele não precisa responder – Ino tomou a frente logo atrás do canino que havia começado a correr, por uma brecha abaixo de um tronco que caía sobre os demais. A escuridão encobrindo marcas de arranhões e fios de cabelo finos e alaranjados.
*~*~*~*
— Será que eles já a encontraram? – as feições preocupadas de Hinata eram evidenciadas pela luz quente.
— Ele voltará logo – Temari respondeu, deduzindo a provável fonte de sua inquietude, enquanto apoiava um dos cotovelos no corrimão da varanda térrea. – Foi por isso que levaram os cachorros pra passear.
— O chefe devia ter deixado a gente ir com ele! – Konohamaru reclamava, encarando a labareda com um olhar severo.
— É verdade... Somos do mesmo time – Udon mostrava uma expressão impotente enquanto ajeitava os óculos.
— Vocês dois não sabiam pra onde a Moegi estava indo? – foram inquiridos pela mulher que os observava.
— Nós não estávamos com ela. O Konohamaru...
— Que é?! Vai colocar a culpa em mim agora, é? – a voz rouca protestou, fazendo o amigo se encolher.
— Já está na hora de pararem com isso – a voz de Asuma ressurgia de dentro da casa, conseguindo a atenção dos presentes. – A culpa não é de nenhum de vocês, não tinha como saberem que ela sairia assim... – disse descendo as escadas e acomodando-se ao lado da esposa. – Além disso – sorriu –, tivemos sorte de ela ter avisado ao Naruto. Tudo ficará bem, não se preocupem.
Suas palavras pareceram amenizar o rosto dos pequenos por um tempo, porém, havia aquele nome. Aquele que quanto mais era pronunciado, mais fazia o coração de Hinata se contorcer. Não por imaginar que algo terrível tivesse acontecido, mas por lembrar-se de um de seus diálogos com Neji, naquela mesma varanda, algumas tardes atrás.
~*~
[N. A.: Veja o trecho imediatamente anterior a este no capítulo 11]
— Você tem ideia da razão pela qual ele age assim? – surpreendeu-a assistindo ao loiro se afastar.
— N-Neji-kun... – tentou disfarçar a falta de regularidade das batidas em seu peito, ainda que soubesse que ele já havia percebido. – Não sabia que já tinha chegado... – encarava um ponto aleatório do céu, enquanto o primo se concentrava na figura desastrada à frente.
— Por que não disse nada? – sua expressão habitual pareava com a sobriedade de suas vestes. – Não é educado receber um elogio como aquele e não agradecer – deteve a própria voz ao notar que ela estava desesperada demais para dar uma resposta coerente.
Recostou-se à parede atrás dela, calmo como se tentasse entender qual a situação atual do relacionamento não resolvido que já conhecia. Palavras baixas e suaves começaram a se misturar com o vento.
— Eu... Devo admirá-lo bem mais... – fez uma pausa significativa, sentindo que o jovem ainda prestava-lhe atenção. – Pergunto-me o que meu pai pensaria disso...
— E o que você pensa disso? – deixou-a apreensiva pela importância dada à pergunta.
— Neji-kun... – virou-se para encara-lo. – Você sabe como ele é...
— Hunf! Como se isso desse a ele o direito de decidir sua vida – seus olhos pareceram irritados. – Eu cuido de você... E eu realmente não me importaria em morrer por você. É o que esta marca em minha testa significa – os olhares de ambos se desencontraram. – Porém... – aproximava-se mirando o horizonte, como se sua mente estivesse em outro momento. – Toda vez que vejo aquele idiota, eu tenho certeza de que ele faria bem mais que isso para estar ao seu lado.
Dessa vez não se incomodou em esconder a reação natural de sua face pálida. Num breve segundo era como se toda a agonia escapasse de dentro de si para um lugar tão distante quanto a profundeza daquelas palavras. Neji voltou-se para ela uma última vez.
— Hinata – o chamado pelo nome fê-la olhar para cima. – Eu jamais impedirei que você diga o que realmente sente para ele. Só quero mantê-la segura – transmitiu-lhe o peso de sua seriedade, sussurrando em seguida, após um beijo dado em sua testa. – Tome uma decisão da qual não se arrependa depois.
~*~
— Hinata, por que você está chorando? – Chouji, por um milagre ou pelo fim definitivo de um pacote de alguma coisa, voltou a prestar atenção aos arredores.
— Hum? Ah, eu estou bem – acordou de seu devaneio, enxugando-se com uma das mangas. – Só estou muito perto do fogo – sorria gentilmente, enquanto percebia mais vozes atrás de si.
— Parece que aqueles três estão com problemas na cozinha... – Kurenai cantarolou um riso nervoso, esforçando-se para ignorar o barulho de pratos quebrando. – Chouji, Hinata – sua voz era um pouco autoritária, mas ainda dócil. – Vocês poderiam?
— Claro! Kurenai-sensei – a jovem reverenciou-a rapidamente e dirigiu-se para o interior. Chouji fez o mesmo quase sendo acompanhado pela loira de Suna.
— Temari... – Asuma fê-la virar-se com um olhar assustado. – Você estava com o Shikamaru mais cedo, sabe se ele ainda está dormindo?
— Hum... N-Não! – respondeu rapidamente e correu em direção à porta quando não viu onde poderia esconder seu rosto.
— Eu... Disse algo que não deveria? – apontava para si mesmo, dirigindo a pergunta à Kurenai.
— Não... Nossas garotas só têm muitas dúvidas acerca do amor – devolveu um tom risonho e meigo, tocando-lhe o rosto enquanto Konohamaru e Udon dormiam.
*~*~*~*
— Moegi! – Naruto correu ao seu encontro ao avistá-la poucos metros adiante de onde estavam. – Você está bem? – segurava-a pelos ombros, finalmente permitindo-se acalmar.
— Onii-chan!! – abraçou-o fortemente, chorando ainda mais do que antes.
— Fica calma, só me conta o que acontec...
— Ele vai me matar! Está me seguindo desde que tentei voltar pra casa! – sua voz era nítida apesar das lágrimas.
— Ninguém vai fazer nada com você enquanto estivermos aqui! Agora fica calma, precisamos saber o que estamos enfrentando – Naruto fez sinal para que os demais se aproximassem com mais pressa.
— O que aconteceu? Eu pensava que ela só tinha se perdido... – Ino estranhou os soluços agudos da garota até vê-la apontar para a parte mais densa da floresta. Um ruído de passos trôpegos movimentava-se no mesmo sentido em que se encontravam, e como não era de se estranhar, Akamaru deu os primeiros sinais de que não era algo bom.
Desenrolando-se da matéria viva atrás de si, a criatura alta e de veias à mostra ergueu-se diante da pouca luz vinda do céu nublado. A mesma luminosidade refletia os trapos amarrotados ao redor de seus olhos e os dentes afiados e desproporcionais que pendiam para frente em sua boca. Desta veio mais um grunhido, que por mais improvável para uma pessoa comum, fez Naruto rir.
— Eu já dei conta de paspalhões mais feios que você, sabia?! – provocou o ser que ignorava sua voz ao continuar bramindo e se aproximando lentamente.
Kiba e Akamaru aproveitaram a iniciativa lenta para jogarem-se sem medo num ataque em conjunto, o qual não pareceu surtir muito efeito na musculatura inacreditavelmente forte do indivíduo. Ao passo que ambos continuavam, e após observações rápidas de Ino, esta não pôde deixar de expressar o susto que teve ao notar que o tal monstrinho pálido de quatro patas não tinha vínculo algum com o ambiente ao redor; não havia chakra, não havia nenhuma energia circulante que explicasse o vigor, a princípio duvidoso, que aquele tipo de animal apresentava.
Naruto fez Moegi se afastar alguns metros do local, ficando ainda mais atento ao receber as observações de Ino por telepatia. Habilidades sensoriais eram inúteis quando não havia o que localizar.
— Droga! Não tem como eu te levar de volta porque não sabemos se há mais deles por aí...
— Hum... Naruto-onii-chan... – seu timbre assustado de repente se tornou curioso. – Se não tem chakra dentro dele, o que tem então? – encarou-o com uma expressão interrogativa.
— Se liga! Eu não... – uma ideia emergiu com o pontapé simples da garota. Como puderam ser tão idiotas? – HEEEY!! KIBA!! POR ACASO VOCÊ NÃO CORTA ESSAS UNHAS PRA FICAR FAZENDO CHARMINHO? PARA DE CORRER ATRÁS DA CAUDA DELE E USA A CABEÇA!
— ELE NÃO TEM CAUDA, IDIOTA! – devolveu os tons provocativos e desviou por pouco das garras imensas que o perseguiam, conseguindo deferir um último chute na face da criatura. – Taijutsu não surte efeito! Ele é muito forte pra rasgar como se fosse um origami!
— Então segura ele pra mim! – gritou antes de abaixar-se. – Quero que fique com a Ino e não saia de perto dela, entendeu?
Moegi acenou afirmativamente e rumou por uma trilha segura até a loira. O quadrúpede estava mobilizado na medida do possível, considerando que chacoalhava a cabeça como se sentisse algo particularmente tenebroso ao ouvir os latidos de Akamaru.
Naruto clonou-se em vezes suficientes para derrubá-lo e logo uma chuva de armas afiadas caía amaciando a pele borrachuda e enervada. À medida que se debatia, seus tecidos mudavam de conformação, até romperem-se de vez e liberarem um material seco e flutuante pelos cantos. Uma das patas largas, com sua derradeira queda, lançou Akamaru para longe, instantes antes de finalmente parar de se mover.
Kiba correu em auxílio do companheiro de vida e Naruto, Ino e Moegi só observaram a grande figura, e seus quase dois metros de envergadura, literalmente se desmancharem como pó e se espalharem dentre as árvores e a grama baixa de onde tinham vindo.
*~*~*~*
Parou defronte ao primeiro degrau da escadaria de madeira e permitiu-se pensar por um breve intervalo o que havia de racional em se dirigir para onde estava se dirigindo. Decidiu que não queria decidir se aquilo era racional de algum modo e ignorou qualquer objeção de sua mente, seguindo para o andar acima com uma desconfortável sensação que não a deixava respirar como gostaria.
~*~
Não havia ninguém no quarto. Estava escuro, com reflexos claros vindos da janela que agora mostrava o afastamento de nuvens pesadas. Suspirou, com raiva, recostando a cabeça na parede da passagem e observando algo deslizar por baixo do travesseiro, na cama superior de um dos beliches.
Alcançou o encarte de textura firme, deduzindo rapidamente que era uma fotografia. Da organização dos exames de graduação do ano anterior. E ele estava na foto, bem ao seu lado, com a mesma cara de desinteressado e a pose desleixada de sempre.
Sentia-se tola, no sentido literal da palavra; tola como aquelas garotinhas apaixonadas ficam quando acham que sentem algo por alguém. E nem em mil décadas gostaria de admitir que estivesse perdendo para algo tão estúpido quanto isso parecia. O amor atrapalha as coisas se houver descuido, embrenha-se em seus instantes sóbrios até que você pare tudo o que está fazendo para pensar nele. Ou seja, tudo o que uma shinobi como ela não deveria se permitir fazer.
Por sorte (ou para o seu azar) alguém alcançara o local antes que tomasse coragem de destruir o que não lhe pertencia. Teve tempo de colocar a foto no mesmo lugar, ou quase isso, e endireitar-se numa posição menos suspeita, anteriormente à pronúncia da figura encapuzada.
— Estão te procurando lá embaixo – Shino disse sem muita emoção. – Eles voltaram.
*~*~*~*
Neji descia as escadas com um feitio amaroso após a conversa que se desenrolara com certa tensão. O telefone tocou enquanto passava ao seu lado, e não poderia haver melhor pessoa para atendê-lo àquele momento.
— As coisas estão indo bem, Tsunade-sama – respondeu com máximo decoro após um tempo. – Não, não surgiu nenhum imprevisto. Todos estão bem... Avisaremos assim que voltarmos – manteve o tom irremediavelmente sério, à medida que a mulher do outro lado da linha parecia se convencer. – Sabe muito bem que eu jamais contaria a verdade sobre a missão para ela, foi o que combinamos quando deixei a vila – fez uma pausa, fingindo que alguém vinha. – Terei que desligar agora. Mantenho contato assim que possível... Tenha uma boa noite – o barulho do aparelho sendo repousado no gancho ecoou secamente pela sala vazia.
— Shizune! – clamou pela assistente após desligar. – O que você fez com a minha garrafa de Kissui[1]?
[1] Marca de Vodka japonesa.
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