Innocence NejixTenten
4 Eu te amo, eu te protegerei!
Notas iniciais
— Você mudou bastante... E não mudou nada – dizia enquanto enfaixava a própria mão.
— Fui estúpido em não reconhece-la aquela vez na floresta. Não sabia que a ANBU estava recrutando, mas... Como aconteceu? – tentava não transpassar sua curiosidade, apoiando as costas na quina da pia.
— Bem, quando você partiu – falava com êxito em ocultar seus ressentimentos – A equipe nove se fragmentou.
A culpa fez seu peito arder. Sua expressão de desgosto ficava clara e abaixou a cabeça enquanto ela prosseguia, tentando não pensar em outra coisa senão suas palavras, ecoando pela cozinha e batendo de canto a canto até retornar para seus ouvidos.
— Ficamos sem muito trabalho por algumas semanas e Gai-sensei achou sensato encontrarmos uma ocupação. Ele e Lee foram para uma base de treinamento nos arredores da vila, a cada mês mudavam para um ponto mais alto. Estão de volta já há três semanas, e eu... – fez uma pausa para aconchegar-se em uma cadeira e respirar – Optei por aceitar o convite que o Kakashi propôs: trabalhar com a ANBU por alguns meses enquanto não encontrava coisa melhor. E por lá fiquei já que gostaram de mim – finalizou com um leve sorriso de vitória militar.
— Ficaram fora por... Quatro anos? – questionou incrédulo, encarando a kunoichi que não o olhava da mesma forma – Tanto tempo longe apenas para...
— Fugir – ela cortou – Fugir da realidade que suas condições estúpidas impuseram a nós – seu olhar era vingativo e frio.
— Gostaria que compreendesse o que aconteceu lá fora... – disse quase intransmissivelmente.
— Explique-me, então! – refutou o tom baixo de sua voz, batendo com rispidez na mesa – O que raios estava procurando?! Não tinha motivos para sair daquele jeito, será possível que você não vê o quanto...
Nesse momento um grito grave os interrompeu, seguido de um barulho na copa da árvore abaixo da janela. Tenten rapidamente alcançou-a e abriu-a sem dificuldades, bastando olhar uma única vez para correr em direção às escadas e prestar socorro à pobre vítima.
*~*~*~*
Fechara a porta da frente e mal precisou dar o primeiro passo para encontrar quem procurava.
— Hanabi-chan! – gritou Hinata ao correr até Neji e tomar-lhe dos braços a irmã mais nova. Ajoelhou-se e segurou-a no colo enquanto a mesma acordava.
Seu rosto e braços mostravam-se arranhados em pouca quantidade, apesar de violentamente, e um hematoma fino atravessava a distância entre os cabelos escuros e a sobrancelha direita. Pela coloração dos ferimentos, notava-se que receberam algum tratamento emergencial e havia faixas em seu pé esquerdo.
— Ela torceu o tornozelo – disse Tenten – As pernas só se livraram dos arranhões porque ela usa calças compridas.
— Onde ela estava? – perguntou a voz atordoada da irmã – Neji-kun...
— Perdoe-me... Se eu tivesse percebido talvez pudesse evitar a tempo...
— Ela estava na cobertura do prédio. Seguindo-o provavelmente – retrucou Tenten com olhar de desaprovação ao Hyuuga – Vamos, sei quem pode ajudar a tratar disso.
*~*~*~*
Hanabi estava no quarto há algum tempo. Hinata aguardava na sala do andar térreo, desconfortável pela situação de Neji e Tenten que fitavam o chão de forma extremamente rancorosa. O gelo só começara a derreter quando Sakura desceu as escadas alegando que estava tudo bem e que Hanabi precisaria de poucas semanas de recuperação antes de voltar a atividades normais. Estranhou a presença inesperada do segundo Hyuuga.
— Tenten não me avisou que estava de volta, Neji – cumprimentou-o gentilmente – Ela sempre fala tanto de você – disse deixando a amiga numa má situação e repreendendo-se mentalmente quando percebeu.
— Estou de volta há pouco tempo, Sakura – respondeu Neji com um sorriso simpático, aparentemente ignorando a segunda parte do comentário da Haruno – Agradeço por prestar seus serviços à Hanabi-san – falou por fim com uma simples reverência.
— Está tudo bem, fica por minha conta. Gostaria de ficar mais um tempo, mas tem muito serviço no hospital.
— Gostaria que eu a acompanhasse até lá, Sakura-chan? – ofereceu Hinata como agradecimento.
— Descanse, eu a levo até lá. Afinal, já estou de saída – disse Tenten levantando-se.
— Como ela disse, não precisa se preocupar – Sakura sorriu – Boa noite a vocês e diga à Hanabi que não faça muito esforço.
— Ela ficará bem, muito obrigada – disse Hinata abrindo a porta – Boa noite Tenten-chan.
— Boa noite, Hina – sorriu docilmente, desfazendo o ato quando seus olhos foram de encontro aos de Neji, que estava logo atrás da prima. A porta fechou-se.
— Algo o incomoda Neji-kun? – questionou vendo um desconforto antigo em seus olhos.
— Não, apenas... Inquieta-me o bem estar de Hanabi – mentiu num tom vago – Boa noite – disse brevemente passando as mãos pelos cabelos longos e seguindo pela escada até seu quarto.
*~*~*~*
— Eu esqueci completamente do que aconteceu – dizia Sakura incomodada – Eu pensei que estava tudo bem, vocês estavam juntos e Hinata não me disse nada, então...
— Não, está tudo bem... Ele pareceu não perceber – respondia pensativa enquanto aproximavam-se da entrada do hospital – Sakura, posso perguntar uma coisa?
— Claro – disse fitando a amiga com um olhar suave e tranquilizador.
— O que faz você se sentir bem estando longe de casa por tanto tempo?
— Não sei se entendo o que diz, Tenten...
— Ficar uma vida dentro de um hospital, cuidando de outras pessoas, sabendo que aquelas que você mais preza estão te esperando em algum lugar...
— Ah, isso? Bem, primeiro é suportável porque se essas pessoas estão me esperando é por acreditarem que eu vá voltar, mesmo que eu não dê boas razões para isso. E segundo... – pausou para sorrir, como se lembrasse de algo ou alguém – Às vezes as pessoas que mais precisam de nós não são aquelas que estão sempre ao nosso lado, Tenten – disse parando em frente à porta do hospital – Mas... Por que a pergunta? Sente falta de mais alguém fora ele? – indagou sem jeito.
— Apenas queria entender o que aconteceu – discorreu olhando para uma estrela pequena e solitária.
Uma estrada de terra guiou seus passos. O vento de baixa temperatura tornava seu rosto pálido e brincava com as mechas soltas dos coques típicos que usava. A noite seria longa, vazia... E dolorosa.
*~*~*~*
“Nobuhiko”, príncipe confiável. Nunca valorizou dinheiro. Muito ligado à família e sempre apto a proteção. Gostava de meditar no campo, próximo às árvores, e eu de observar seus cabelos longos enquanto a brisa brincava com eles. Ele me levou para muitos lugares e acima de tudo... Protegeu-me quando o dia chegou.
*~*~*~*
— Onde ela está? – indagou aos gritos quando sentiu minha falta.
“Os soldados estão chegando”, ele me dizia, “Mas eu te amo, eu te protegerei de todos eles”. Um grito enfático cortava meus pensamentos enquanto as espadas vinham me atacar. E lá estava ele; sem um golpe de piedade, todos foram exterminados. E a culpa era de uma simples garotinha. “Você está bem, não é?”, perguntava-me sempre com um sorriso, capaz de iluminar a cidade inteira.
Então o grande dia chegou. A família Yuzo, responsável pela morte de meus pais, também o tirara de mim. Um soldado forte segurava-me pelos braços enquanto eu assistia-o pegar tudo o que tinha, enquanto eu gritava e implorava para que voltasse. E ele voltou... Para dizer adeus. O soldado largou-me na neve com violência e ele correu até mim. Segurou minhas mãos e entregou-me algo pesado amarrotado em um tecido vermelho-sangue junto com algumas moedas, que eram tudo que tínhamos aquela altura da crise de nosso vilarejo. Estávamos entre os países do Som e da Cachoeira.
“Siga sempre para o sul”, recomendou, “O País do Fogo é o seu lar agora”. Eu o abracei. Meus sete anos passaram como um filme, minhas lágrimas fluíam como um rio, e todos os pedaços de vidro, e de gente, e de terras banhadas a sangue, indicavam algo parecido com o fim. Eu teria quarenta e oito dias para cruzar a fronteira a quilômetros do litoral onde estávamos.
Dizem que a guerra motiva as pessoas a voltar para aqueles que amam, mas a guerra que nos deixou vivos até aquele momento era pela sobrevivência. Precocemente e da forma mais tortuosa possível aprendi a viver sem proteção, sem abrigo ou lugar para o qual retornar. Eu não tinha mais nada. A última lembrança que guardo daquele dia é o sorriso impresso em seu rosto, sobre um barco a desaparecer no horizonte interminável da morte certa.
Qual era a circunstância? Ou minha morte em troca da resistência dele, ou sua reverência à luta pela minha liberdade a prazo. Pois se após quarenta e oito dias alguma pessoa viva pisasse sobre o território recém-dominado, ela agilmente passaria para melhor condição. Tornar-se-ia escrava de algo que o destino não pode conter: a própria morte.
No quadragésimo sétimo dia eu estava com três quartos do caminho andado. Meus últimos suspiros e a espada que eu abraçava junto a mim... Era o fim perfeito para evitar o que poderia vir no dia seguinte. Uma caravana de fugitivos passou. Eles pararam para me ver e eu apenas ouvia algumas vozes em acordo de me dar uma chance. Foi quando, definitivamente, pensei que o tapete de neve gélido seria meu último leito. Eu apenas adormeci.
Acordei num dia quente, porém não vi fogo ao meu redor. Este vinha de cima, surgindo por trás da indicação ‘Aldeia Oculta da Folha’. Os raios de sol pareciam com aquele sorriso, refletindo na lâmina afiada, como quem dizia “eu te amo, eu te protegerei”.
*~*~*~*
Meu quarto frio e penumbroso denunciava o início de uma nova manhã. “Um sonho...”, pensei. Levanto-me com preguiça e sigo em frente rumo ao armário antigo. Lá está meu orgulho prateado. “Akinori-san[1]”.
[1] Inscrição na espada de Tenten, que significa “Brilhante Exemplo”.
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