Inn
11 Zack
Notas iniciais
Entããão, esse mês eu prometo continuar postando constantemente, vamos ver no próximo. :D
Zack
- E depois você pode começar a limpar a frente da loja. – falei sem encarar o menino que terminava de estopar a loja.
- Por que você não faz nada?
- Porque tenho quem faça por mim... é pra isso que te pago.
Continuei lendo o jornal. Meu pai deve estar chegando esses dias da viagem. Olhei para o garoto que agora estava sentado e comendo, o negócio das três horas. Olhava o quadro na parede.
- É minha mãe. – eu disse, ele fica olhando esse quadro sempre que para pra comer.
- Sério?!
- Ela que fundou a loja, no tempo que o centro ainda era o local de compras da cidade.
- Ela é bonita.
- É eu sei.
- Sente falta dela?!
- Claro, quem não sentiria?! As mães não podem passar uma semana fora de casa que os filhos reclamam.
- É, acho que sim.
- E a sua?!
- Está viva.
Como eu disse, ele continua falando pouco, mas já conversa mais. Não que eu me importe de conversar com ele, é que ficar à tarde aqui é muito chato. Ele pegou a vassoura e saiu da loja, começou a varrer perto da esquina. O sininho soou e um homem entrou na loja, já havia vindo aqui antes, Cody o atendeu e ele saiu daqui satisfeito.
Meu vendedor não o viu entrar e continuou varrendo a calçada.
- Posso ajudá-lo. – falei com a maior boa vontade do mundo.
- Pode, mas... eu preferia que o garoto...
- Tá certo. – gosto de ser só o administrador daqui mesmo. – Cody!
Ele veio prontamente.
- Ah, olá. E então?! Gostou do livro?! – era engraçado ver o Cody conversando com ele, o homem parecia um jogador magro de basquete com seus cinquenta anos e Cody um anão de jardim.
- Foi incrível! Nunca consegui passar tanta informação para os meus alunos de modo tão fácil! Preciso de um de matemática agora, para uma amiga.
- Fico feliz que gostou. – a gente percebe que ele fala sinceramente, ás vezes, mas o maior sorriso que vi no rosto dele até hoje foi só um meio sorriso, uma torção muito sem graça nos lábios. – Sei do que você precisa!
Ele correu para o estoque e voltou de lá com teias de aranha na cabeça, eu as tirei quando ele passou por mim.
- Só aqui encontrei esses livros. São velhos. – ele continuou ao freguês depois de limpar a poeira do produto no avental. Que propaganda maravilhosa Cody.
- Desculpe os livros velhos. – falei com um tom sarcástico.
- Mas eles são bons, muito melhores do que os de hoje. Principalmente para as crianças que ele ensina.
- Eles têm a sua idade, Cody. – o homem falou com um meio sorriso. – Sabia que já te indiquei para meus colegas?!
- Ah, muito obrigado. – Cody tem uma mania de vender os livros e antes folhea-los, era o que ele fazia agora, parecia que quem ia comprar o livro era ele. – Aqui, ele dá umas dicas muito boas de como... – o garoto começou a falar e dar as dicas para o cara, o que eu achei ridículo já que ele é professor e provavelmente não ia aceitar esses conselhos de um pivete de quinze anos.
Mas me parecia que ele não estava prestando atenção no Cody, na verdade, prestava sim, mas não prestava atenção ao que o Cody dizia, se é que me entendem, não gostei do que vi.
- Esse também é muito bom. – Cody pegou um banquinho e subiu em uma prateleira, fiquei observando o cara, e sim, eu não gosto do modo como ele olha o Cody. É um maldito pedófilo.
- Vou levar os dois! – o homem disse mal folheando os livros.
- Ok, pode pagar lá. – o homem veio na minha direção.
- Cody, a calçada. – falei e ele me lançou aquela cara sem expressão dele antes de sair. – Então, o senhor gostou mesmo dos livros.
- Sim, minha amiga adorou.
- Achei que o último que você comprou era para você.
- Oh... sim. Era. – certo.
- A gente aceita cartão de professor. – não sei nem se isso existe! — Qualquer coisa que comprove que é professor.
- Ah, claro. – ele me disse desconfiado. Acabou que ele me entregou uma carteirinha mesmo... bem, talvez fosse coisa da minha cabeça... ou não, estava escrito “professor universitário.”
- Ah, dá aulas em faculdade.
- Sim.
- Deu oitenta, senhor. Só em faculdade?! Deve ser difícil.
- Só, é mais fácil que para estudante de ensino médio. – jura?! Ele esticou a mão para me pagar e eu meio que o puxei para bem próximo de mim. Usei a minha cara de pouco amigos que geralmente já surte efeito.
- Então porque fica dizendo para o Cody que dá aulas para alunos da idade dele?!
- Eu...
- Vou dizer uma única vez senhor, não sou cego, fique longe da minha loja e do meu funcionário... ou as coisas vão ficar bem feias para você. Fui claro?!
- Sim. – ele me disse meio desconfiado.
- Mande a sua amiga vir fazer as compras dela... ficaremos felizes em atendê-la. – ele só concordou com a cabeça e não me perdeu de vista enquanto não saiu da loja. Pedófilo de meia tigela, atrás daquele cabeça de vento... talvez fosse exatamente por isso, qual é, Cody não tem atrativos.
- Obrigado, Cody. Espero que nos encontremos de novo em breve. – é muita audácia, ele falou assim que saiu da loja para Cody na calçada.
- Aham. – eu falei em alto e bom som, ele apenas me sorriu torto e seguiu o caminho.
- Claro. – Cody apenas acenou se despedindo e entrando, acho que esqueceu a pá. – Acho que ele é um bom professor, e você?
- Acho que a gente devia era limpar aquele estoque.
- Concordo. Quando começamos.
- Você devia começar logo quando terminar lá fora.
- Isso é exploração!
- Achei que não ligasse. – ele pegou de novo a vassoura e foi para fora reclamando baixo. – E sem reclamar!
Já era quase noite. Acho que o estoque vai ficar para ser limpo amanhã. Meu celular tocou.
- Fala, J.J.
- Tenho algo muito sério para falar com você, cara. Pode vir aqui para o bar?!
- Meu velho não voltou ainda e já está quase na hora do Cody.
- O assunto é serio, Zack, é rápido, manda o moleque aguentar por uns dez minutos.
- Por que você não vem?!
- Tenho que olhar minhas irmãs.
- Tá. Tô indo. – levantei, tirei o uniforme da loja e peguei meu casaco. – Cody, fica por mais dez minutos, tenho um assunto urgente para resolver.
- Tá. – ele respondeu quando eu já estava do outro lado da rua.
O bar ficava a uns seis quarteirões dali, J.J. ajudava de vez em quando, é o bar do padrasto dele. Já estava lotado quando eu cheguei, era uma antiga padaria, então tem um balcão, poucas mesas, seria um lugar agradável se o dono tivesse um pouco de visão, se bem que visão nessa droga de bairro não serve mais para nada.
- E ai?! – eu disse sentando em um dos bancos do balcão. J.J. estava de barman hoje e ele veio me servir.
- O que quer beber?! – perguntou disfarçando, o padrasto dele não gosta de clientes não pagantes.
- O que você pode me dar de graça?! – mas a gente sempre dá um jeito.
- Rum.
- Então, rum. Que assunto era esse tão importante?!
- Von se juntou a gangue do Domy.
- O que?!
- Pois é... depois daquele dia ficamos discutindo o quão idiota você era de não aceitar o convite... não consegui pará-lo, ele entrou para a gangue por livre e espontânea vontade.
- Ele é muito burro.
- Será mesmo?! Quer dizer... eu não sei se...
- Ora, J.J., calado. Você sabe que é burrice, as pessoas que eles matarem terão apenas um assino: Von. O escudo humano deles será o Von. Que idiota, mas deixe ele aprender com os erros.
- Esperava que você fosse falar com ele.
- Já é crescido para saber dos riscos.
- Ele pode morrer, né Zack.
- Pode. Mas sabe como ele é... é muito cabeça dura, vamos torcer para que no primeiro susto ele amarele como sempre e pule fora. O problema é que uma vez dentro...
- Sempre um deles.
- É. – acho que tomei a dose de uma vez. – Vai encher meu copo?!
- Você é muito folgado. Acha que o treinador de vocês consegue convencê-lo a sair?! – não consegui conter um riso.
- J.J., o cara prostitui o próprio filho... acha mesmo que o Von se meter com gangue é problema?! Para ele é excelente porque o aluno tá treinando para as competições batendo em fracotes pela rua.
- O próprio filho?!
- O garoto não é assim um santo, mas o pai tem culpa. Ele é um excelente treinador, mas é um filho da puta.
- Eu entendo.
- Enche aqui. – e esse é o meu circulo de amizade...
- Bebida não é um tanto mal para um esportista?!
- Calado. E foi você quem me convidou.
Ainda discutimos um bocado o caso do Von, J.J. me convenceu a falar com ele. J.J. é a voz da consciência do nosso grupo. Fiquei conversando com ele um tempo, falei do torneio do fim do semestre e ele me lembrou que a bolsa da minha faculdade dependia disso, não sei porque, eu nem estudo nem nada, mas acho que o diploma é suficiente.
Um cara bêbado no bar me agarrou e insistiu que eu acompanhasse uma música dor de cotovelo com ele. Aí Von apareceu no bar e ficou parado na porta quando me viu.
- Ei, preciso conversar com você. – falei e ele sorriu um sorriso malandro.
- O linguarudo já saiu espalhando as boas notícias?! – disse finalmente se aproximando do bar.
- Só más, na verdade. Que merda é essa de entrar para o grupo do Domy?!
- É isso mesmo. Se você não quer subir de vida, eu quero.
- Vai ser preso ou morto em uma briguinha qualquer, sabe disso, certo?!
- Eu me garanto, Zack. – ele está se achando mais que o normal.
- Se garante, Von, você?! Na primeira briga você vai amolecer!
- O que?!
- Essa vida não é para você.
- E pra quem é?! Para você?!
- Claro que não, eu não sou burro de cair nas propostas deles.
- Você leva jeito, Zack, pra convencer as pessoas. – J.J. disse sarcasticamente. Tá reclamando do que?! Foi você quem mandou eu falar com ele! E vai ser assim.
- Está me chamando de burro?!
- Imbecil e inconsequente também! – a essa altura todos no bar já nos encaravam.
- Você só está com inveja e arrependido de não ter sido você a aceitar a proposta deles. – ele já dizia meio incerto, recuando. Ah, se ele me estressar de verdade ele sabe que vai levar uma bela surra.
- O invejoso aqui sempre foi você!
- Certo, Zack! E que futuro eu vou ter?! Sempre o segundo em competições e um diploma de faculdade praticamente comprado! Pelo menos assim eu ganho um dinheiro!
- O dinheiro do bar do J.J.? O daquela velha no fim da rua?! Da minha loja?!
- Da sua com certeza não! Aquele negócio falido, devia ter fechado quando a sua morreu, se acabado junto com ela!
Eu o puxei pela blusa e o encostei no balcão com um tanto de força, o bar inteiro olhou para a gente, já olhavam há um tempo na verdade, mas alguns até estimulavam a briga.
- Não fale da minha mãe. – ele me olhou com os olhos quase saindo das orbitas.
- T-ta.
- Eu não me importo se você morrer, só não me culpe, eu te avisei.
- Certo, Zack, não vai bater no seu AMIGO vai?! – J.J. falou num tom ameno e eu soltei o frouxo.
- A-alguns de nós preferem as ruas, o perigo... outros preferem ser amigos de nerds. – ele quer mesmo sair sangrando daqui.
Ah... opa.
Olhei o relógio de ponteiros comprado no importadão. Eram 21:30.
- Ah, merda. – quando saí da loja não eram nem 18:00! Comecei a me apressar.
- É, fuja de mim! – ele falou lá de dentro. Ah! É! Voltei rapidamente e acho que Von pensou que eu ia bater nele porque se acovardou todo e correu para a outra ponta do bar. Mas eu não me importo com ele agora.
- Tem alguma coisa para comer aí, J.J. – ele me olhou confuso e virou para as garrafas.
- Não, cara. Tenho essa tortinha de limão que minha irmã fez para mim, mas... – eu peguei da mão dele.
- Valeu.
- Ei! Zack!
Eu corri de volta para a loja. Eu realmente desejava que ele tivesse trancado tudo e tivesse ido embora, mas não, quando eu dobrei a esquina a luz da loja estava acesa. Droga Cody, podia ter se mandado, fora que é perigoso, a rua inteira estava vazia.
Quando entrei ele estava deitado sobre o balcão. Ah, o meu temor tinha se concretizado, o menino passou mal e morreu.
- Cody?! – falei assim que entrei na loja. Ele ergueu o rosto sonolento prontamente. Ah, ufa.
- Que horas são?!
- Quase dez.
- Hum... – ele disse colocando os óculos.
- Trouxe... uma tortinha pra você. Por favor não passe mal. – ele sorriu um daqueles sorrisos desajeitados.
- Obrigado.
Ele pegou e começou a comer. Por que ele não reclama comigo?! Eu saí e deixei ele plantado aqui! Por não sei quanto tempo!
- Então, se quiser já pode ir.
- Ah, tá.
- Mas acho que não tem mais metrô a essa hora. Vai ter que pegar três ônibus.
- Tá bem. – ele disse tirando o avental.
- Talvez não chegue antes de uma da manhã.
- É, calculei isso... pode me dizer quais ônibus tenho que pegar?!
- O ônibus da rota 36, o da rota 44, até o grande supermercado, e o 16.
- Ok. Até amanha. Ah! Eu limpei o estoque.
- Limpou?!
- Você estava demorando, então adiantei.
- Então tire o dia de folga amanhã.
- Sério?!
- Sério. – é mais pela culpa mesmo.
- Então até depois de amanhã!
- Tchau.
Eu fiquei de olho nele até ele entrar no primeiro ônibus que estava praticamente vazio. Depois fechei a loja, e subi para o meu quarto, tomei meu banho e deitei no sofá. Devia ter mandado ele me avisar quando chegasse em casa. Mas ele é inteligente, deve acertar o caminho. Tomei um copo de leite. Já passava da meia noite. Será que ele chegou?!
Meu celular tocou. Número desconhecido.
- Zack?!
- Oi...
- É o Cody. – ufa, ele chegou bem. Como ele tem meu número?! Ah... meu pai ou Léo, com certeza.
- Que é que você quer?! – ele ficou um pouco em silêncio... certo. – Cody?!
- Pode vir me pegar?!
- Hã?!
- Eu não sei bem onde estou.
- Não sabe bem onde está?!
- Eu acho que dormi demais no ônibus da linha 44...
- Certo, é só pegar ele de novo...
- É fim da linha. O ônibus já foi para a garagem e o motorista disse que só amanhã de manhã. Ou eu teria que andar até a avenida principal... mas eu não sei onde fica.
- E você não perguntou?!
- Ele me expulsou do ônibus!
- Fim da linha da rota 44... – minha nossa. – Cody... o que você está vendo ao seu redor?! – comecei a trocar de roupa. Tudo bem, é tudo culpa minha.
- O ponto do ônibus... e alguns arbustos e gramas, ervas daninhas, algumas arvores...
- Pessoas?!
- Não... eu estou sozinho. Não... espera, tem um barulho naquele arbusto... Oi! Tem alguém aí?! – eu escutei ele gritar já um pouco longe do celular.
- NÃO, CODY! CODY! ALÔ!!!
- Oi, não precisa gritar...
- Escute, você está na rodovia fora da cidade. Não se mexa que eu vou até aí te pegar. Tente não chamar atenção, não aceite caronas, nem converse com estranhos.
- Certo. Acha que eu sou criança?! – sim, e uma das mais ingênuas!
- Só faça o que eu mandei.
Eu já estava no ponto de ônibus. O motorista parecia bem cansado e dirigia como uma tartaruga, o tempo parecia não passar, e minha perna nervosa não parava de subir e descer. Ah, droga Cody.
Quando cheguei ao ponto seguinte tive que esperar um ônibus que passasse por perto de lá, e claro que ele demorou, lógico! Só porque eu preciso dele agora!
Quando finalmente cheguei ao ponto onde eu tinha que descer encarei o caminho que eu tinha que fazer a pé. Era uma rodovia mal sinalizada e mal iluminada, sem casas, sem construções, só com árvores e arbustos como ele me descreveu. Tem um motivo para os ônibus não trafegarem por aqui a essa hora. É perigoso. Comecei a andar pelo caminho escuro e longo que eu teria pela frente, acho que era um quilometro e meio.
Isso é longe quando se está com pressa.
Liguei no celular dele para saber se estava bem. Ele não atendeu. Ah, Cody, qual é. Liguei de novo e nada, mais uma vez... fazia quase uma hora que ele tinha me ligado.
Finalmente avistei o ponto de ônibus e o garoto sentado em um dos bancos. Ele estava de olhos fechados, olhei ao redor, realmente não pareci ter ninguém ali, o que me preocupa é que esse ponto é no meio do nada... ninguém sabe porque ele existe aqui, e eu não quero descobrir.
- Cody. Ei. Cody. – eu falei e ele foi acordando devagar.
- Ah, oi Zack.
- Te liguei umas oito vezes no celular. – falei com os dentes duros.
- Ah... eu dormi.
- Você... dormiu?!
- É.
- Ah... SABE O QUÃO PREOCUPADO EU FIQUEI?! ACHEI QUE TIVESSEM TE ASSASSINADO POR AQUI! O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA DE DESCER NUM CANTO DESSES?! – ele me olhou com os olhos arregalados.
- Desculpa. – tá, tentei me recompor, se alguém estiver escondido por aqui com certeza me ouviu.
- Vamos, antes que a gente tenha uma surpresa desagradável. – comecei a andar, não passou nem sequer um carro nesse tempo todo que estive aqui.
- Uhum. Tá meio frio, né. – ele disse mais atrás de mim.
- É. Anda do meu lado. – disse puxando o braço dele para perto de mim e... bem...o braço dele meio que estava... – Cody. – eu me abaixei para olhar o rosto dele, é a única forma dele ficar mais alto que eu. – Você tá com febre?! – coloquei a minha mão na testa dele. Não sei se era minha mão que estava excessivamente fria ou se ele que estava fervendo.
- Acho que sim... – um vento sacudiu o corpo dele. Tá bem. Dei meu casaco para ele, era ideal porque tinha um capuz e tudo mais. E batia quase no meio das coxas dele.
- Usa isso. Vamos voltar logo. Como vai ficar doente logo hoje?!
- Deve ser culpa daquela faxina! Sabe, naquela poeira toda devia ter vírus e bactérias que a ciência desconhece. – eu ri um pouco.
- Faz sentido.
Tive que andar um pouco mais devagar para ele me acompanhar. O caminho todo que eu percorri até encontrá-lo e a metade do caminho que percorremos até agora, com longos trechos escuros e meio esquisitos, me fez ficar curioso.
- Cody.
- Hum?!
- Não ficou com medo de ficar por aqui sozinho?! – se bem que ele não aparenta ter medo de nada.
Ele ficou em silêncio um tempo e eu achei que ele não tivesse escutado a minha pergunta, quando eu ia repeti-la, senti ele meio que se aproximar de mim e segurar o meu braço.
- Tive... por que acha que eu liguei para você.
Ah... bem...
- Por que você não ligou para um dos seus amigos?! Tipo o Léo ou alguém da pensão...
- Porque eu pensei primeiro em você.
- Não faz sentido... – eu sou uma das pessoas que mais o maltrata. – Por que?!
- Porque você me faz sentir seguro.
Ah, tá, ele pirou, é delírio da febre. Mas... confesso que foi bonitinho.
Cody foi agarrado no meu braço até chegarmos a avenida principal. Ele já estava quieto à algum tempo e eu percebi que talvez fosse uma ideia melhor eu levá-lo a um hospital antes, o primeiro ônibus nos deixou em um pronto socorro.
Estava vazio, só estavam esperando uma senhora, um homem com um corte aberto na mão e eu e o Cody. Sentei-o numa cadeira e fui procurar ajuda.
- ... e aguarde meia hora. – a voz enjoada da mulher me disse pela terceira vez sem nem sequer me olhar.
- Eu entendi, senhora, que não há médico no momento... Mas é apenas uma febre, tenho certeza que qualquer enfermeira pode medicá-lo. – ela suspirou e carimbou alguns documentos. E começou...
- Nossos médicos estão em procedimentos agora, pegue uma senha, sente-se em uma das cadeiras e aguarde meia hora... – ah, eu não tenho paciência para isso. Vou tentar mais uma vez.
- Minha senhora... – comecei comportadamente de novo. Mas Cody começou a tossir atrás de mim e eu meio que perdi a compostura. – Escuta aqui, madame! – eu meio que dei um soco no balcãozinho e ela finalmente me encarou. – Me chama a droga de uma enfermeira, porque se aquele menino morrer, e eu me sentir mais culpado que já estou, vai sobrar feio pra você!
- Zack... não bata na mulher. – Cody falou meio arrastado do banco. Bato em quem eu quiser!
A mulher pegou um telefone e rapidamente veio uma enfermeira e um segurança do hospital, muito franzino, na minha opinião.
A enfermeira examinou o Cody deitado em duas cadeiras e me disse que ia buscar um remédio. Meu celular de novo, ótimo, é meu pai que chegou e vai me matar quando eu chegar em casa.
- Oi.
- Zack, pelo amor de deus, você viu Cody?! – não, era apenas o Léo, histérico, com outras vozes atrás dele.
- Vi.
- Ah, graças a deus, ele viu... – ouvi uns suspiros de alívio. – E onde ele está.
- No pronto socorro.
- Ai meu deus... eu não acredito...
- Léo?! – acho que não foi uma boa ideia contar.
- Oi, Issac?! – era outra voz.
- Zack.
- Querido, aqui é Andrei, o que Cody faz em um pronto socorro?! – ele me perguntou calmo e eu ouvi o Léo dizer “eu disse que tinha acontecido alguma coisa, eu disse!”, acho que ele estava chorando.
- Não aconteceu nada demais... Léo está bem?! – escutei alguém dizendo que ia pegar um copo de água com açúcar.
- Está, ele só faz drama, mas estava muito preocupado, todos estávamos, o que houve?!
- Só uma febre, o trouxe aqui para ser medicado.
- Ah. Graças a deus. – eu ouvi que o homem também parecia aliviado.
- Vou levá-lo em casa daqui a pouco.
- Obrigado. Vou cuidar do outro aqui agora. Léo, não acha que já ficamos muito preocu... – e ele desligou.
A enfermeira veio até mim e disse que ele estava medicado, me deu algumas pílulas e o liberou. Esperei uns dez minutos e quando ele disse que conseguia andar nós fomos lá para fora. Nada de táxis, nada de ônibus depois de meia hora de espera...
A casa dele não fica tão longe certo?! Se eu for cortando pelas ruas do meio só dá umas doze quadras.
- Cody... não é melhor ficar no hospital até amanhã de manhã?!
- Casa... – foi o que ele me respondeu.
- Tá. Suba nas minhas costas.
Eu comecei a andar, com ele nas minhas costas eu caminhava mais rápido. Quando o vento aumentava eu o sentia encolher atrás de mim, as mãos pequenas se fechavam na minha blusa. A respiração quente e lenta batia no meu pescoço. Sabe parte do problema é minha culpa, se eu não tivesse demorado tanto para voltar ele não teria demorado para ir embora... mas ele também é muito idiota de errar a parada... e ele podia ter fechado a loja. Não sou o único responsável.
Cansou mais do que eu pensava, Cody podia ser pequeno e mirradinho, mas era um pequeno de tamanho considerável para carregar. Finalmente cheguei à pensão e toquei a campainha. Olhei o relógio... quase três da manhã.
- Ah, finalmente. – um ruivo falou. – Sou Andrei... – ele olhou para fora. – Vieram andando?!
- Não tinha taxi nem ônibus. E ele não queria ficar no hospital. – falei invadindo o lugar. Era legal, parecia aconchegante.
- Codyyy!!! – Léo veio desesperado para cima de mim buscando Cody, com cara de choro e rosto vermelho. – Está frio, e quente! – acho que ele ia começar a chorar de novo.
- Calma, Léo. Ele está medicado. – falei olhando as escadas. – Onde é o quarto dele?!
- O segundo. – Cody disse sussurrando para mim.
Léo e o ruivo não eram os únicos na sala nem os únicos a nos tratarem como uma atração. Tinha um moreno dos olhos cinza, um garoto de cabelos castanhos e olhos verdes que estava no início da escada, e no fim do corredor estava, talvez um dos mais belos homens que já vi, loiro e emburrado.
- Até que enfim. – ele disse. – Agora, Léo cale a boca! Insuportável. – e voltou para dentro do último quarto.
- Desculpe, Eros, se me importo com as pessoas! – Léo retrucou com uma voz chorosa. Deve estar insuportável mesmo.
Coloquei o Cody na cama, peguei meu casaco de volta. Estavam todos no quarto, o tal Andrei, Léo, o outro dono da pensão, o garoto de olhos verdes e até o bonitão apareceu na porta... mas o quarto não é tão grande assim gente, tá sufocante.
- Você disse que o medicaram?! – Andrei me perguntou e eu assenti, lhe dei o resto dos remédios. – Você quer passar a noite aqui?!
- Ah, não...
- Não vai consegui ônibus para casa mesmo, muito menos metrô, fique até clarear.
- Tá bem.
Aos poucos eles foram saindo e só ficou Cody, dormindo, Léo e eu.
- Que horas ele ficou doente?! – me perguntou já mais calmo.
- Não sei...
- Ele estava com você?!
- Ele se perdeu fora da cidade, tive que ir buscá-lo.
- Fora da... mas...
- Ele saiu tarde do trabalho e errou os pontos de ônibus.
- Porque ele saiu tarde?!
- Erro meu.
- Erro seu... erro seu?! Cody podia ter sofrido um acidente, ou ter sido sequestrado ou... sei lá, fora da cidade e você tá aí todo calmo?! Por sua irresponsabilidade! E como deixa ele ficar na sua loja até de noite! Sabe que aquele lugar é perigoso e...
- Léo, Léo... o menino tá tentando dormir.- falei tentando me livrar da bronca. Ele só suspirou e se virou para sair.
- Você é um caso perdido... o sofá da sala tá livre. – disse saindo do quarto. – Eu vou dormir aqui com o Cody. Vou pegar meu travesseiro, como é que pode ele... – e saiu reclamando com o corredor.
Eu sei que fui meio irresponsável e tudo mais, mas...
- Foi mal, Cody. – falei baixinho, ele estava dormindo. E eu não sou bom com desculpas.
- Não tem problema. – ele disse sem abrir os olhos.
- Hum... estava acordado.
- Léo estava aqui... não dá pra dormir. – eu sorri um pouco, é, ele tem razão.
- Eu devia ter voltado na hora, teríamos evitado muitos riscos e dores de cabeça.
- Você saiu para resolver algo importante... eu entendo que você tivesse que demorar. – ele é muito ingênuo.
- E se eu tivesse mentido?!
- Mas não mentiu... e eu ficaria do mesmo jeito, achando que você tinha ido resolver alguma coisa importante... não faria diferença se fosse realmente ou não.
É, quem ficaria com peso na consciência seria eu.
- Ainda bem que você me dispensou amanhã. – ele comentou já desligando.
- É ainda bem... Cody, tem que cuidar melhor de você, certo?!
- Cuido muito bem de mim.
- Estou vendo. – me peguei acariciando os fios negros... vou admitir, ele é bonitinho quando está dormindo, quando está quetinho e quando não tem aquele olhar superior no rosto. Só isso. Percebi que ele também segurava o tecido da minha calça frouxa. Parecia criança.
Assim que percebi que ele dormiu e a mão dele me soltou, eu levantei e caminhei para a porta. Léo estava lá, parado, agarrado no travesseiro. Ah, merda.
- Há quanto tempo está ai?!
- Não muito. – disse com um sorrisinho que eu não gostei nem um pouco.
- Hum. – passei por ele e caminhei escada abaixo.
- Não queria interromper o momento fofo... – muito antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele já tinha se trancado no quarto do Cody.
Ridículo, momento fofo, eu... me poupe. A melhor parte da noite foi aquele sofá, acho que é até melhor que a minha cama.
Notas finais
Léo: eu já me acostumei.
Andrei: eu fiquei um pouco... receoso. Mas logo vi que era uma boa pessoa, trouxe o Cody esse caminho todo nas costas.
Edgar: tinha cara de baderneiro!Tem certeza que não fez nada ao Cody?!
Eros: Achei que a gente ia ser assaltado! Por um ladrão gostoso...
Léo: claro que achou ¬¬ é um dos seus fetiches?!
Eros: é da sua conta?!
Téo: ele é meio... diferente... com aqueles piercings e tudo mais.
Alex: eu apresentaria a minha mãe de boa. ^^
Léo: é, seu outro pretendente também não fica atrás de pessoa "diferente."
Zack: valeu pessoal ¬¬
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