Inn

4 Leo Morgan x Ace Valentim


Notas iniciais
>.< gente, o tempo está ficando mais curto ou é impressão.

O dia está claro, o sol brilha no céu, o vento assanha meu cabelo castanho e eu tenho vontade de faltar o trabalho e ir à praia. Estou conseguindo que Cody fale mais comigo, mas ainda fala pouco sobre si.

Caminhamos juntos para a faculdade onde eu não estudo, apenas trabalho. Pois é, quem diria que eu voltaria para cá depois desses anos e seria para trabalhar no refeitório e não como um perfeito professor de literatura moderna.

O refeitório é repleto de gente interessante, simples e trabalhadora, estou gostando de ficar por lá e meus avós adoraram ouvir as histórias do meu novo trabalho, não que seja algo muito interessante, mas já é algo diferente na vida deles.

– Certo, Cody, hoje, assim que acabar a aula a gente vai lá na livraria onde você quer trabalhar, ok?!

– Certo.

– Te espero na frente do portão. – assanhei um pouco os fios negros já bagunçados do pequeno.

– Tá bem. – e ele seguiu caminho pelo campus... eu achei os passos dele meio rápido. Ontem ele chegou meio sujo, disse que caiu em uma possa de lama. Provavelmente foi empurrado por alguém, pessoas inúteis e sem coração!

Os funcionários entram pelos fundos da faculdade, eu sempre sou o último a chegar. Ao todo somos seis funcionários, mas todos são pessoas dispostas e alegres.

– Bom dia, Léo, querido. – uma senhora de seus sessenta anos, Marieta, era quem comandava a cozinha e me desejava sempre esse bom dia caloroso. Me dava quarto beijos e mandava eu me trocar.

Começávamos cedo a fazer o almoço e mal percebíamos o tempo passar, logo o refeitório estava lotado de alunos com as filas. Eu ficava no caixa, dona Marieta dizia não confiar muito nos outros. Eram tantos estudantes, a maioria entusiasmados ou cansados pela bateria de aulas.

– Léo. Como vai? – parece que Lars sempre virá almoçar na faculdade, acho que ele tem família aqui perto, se eu fosse ele ia almoçar com ela. Ele era meu amigo na época que eu cursava literatura, eu gostei dele um tempo, paixão rápida, aí ele se mudou. Formou-se em administração e está provando ser bem competente, tem rendido excelentes comentários e muitas críticas invejosas.

– Muito bem, professor e você?! – mas éramos realmente bons amigos, até ele ir estudar fora do país.

– Cansado. – ele disse ajeitando os óculos e retirando o dinheiro do bolso. Não parece ser tão mais velho que eu, mas acho que ele tem uns quatro anos a mais.

– Como vai professor? – aquela voz irritante e sarcástica apareceu atrás do Lars, muito perto do ouvido dele na minha opinião, Eros! E aqueles olhos felinos procuraram o rosto do professor.

– Mentalmente cansado. – ele me disse com uma expressão de poucos amigos, pagando depois do metido do Eros. – Não apareceu na minha primeira aula, sr. Dion. – disse ao loiro infernal ao lado dele.

– Hum... sentiu minha falta então?! – ele respondeu provocando.

– Não! – Lars se apressou para dizer. – Só fico pensando na sua falta de responsabilidade... se está aqui deveria ter ido para a aula.

– Não se preocupe, não o farei sofrer longe da minha presença. Meu troco. – disse a mim saindo de um sorriso galante para aquela cara de desdém quando me olhou. Passei o troco dele tentando não dar a mínima para aquele maldito ser irritante. Finalmente ele começou a se distanciar. – Falando nisso professor, pare de flertar com os funcionários da escola. – disse se referindo a mim com a cabeça. Como ele ousa!

– Não estou flertando! – eu e Lars dissemos juntos.

– Claro que não. – e ele saiu para sentar-se com um rapaz sorridente, com que eu o via sempre.

A ruga na testa do Lars desapareceu depois disso e ele voltou a relaxar.

– Não se preocupe, ignore-o e ele deixará você em paz. – eu disse, embora eu venha tentando isso a algum tempo. – Seu troco.

– Infelizmente, é um de meus melhores alunos, já percebi. Vem me testando nesses poucos dias aqui... Então, tenho muito o que contar e tenho certeza que você também tem assuntos acumulados, como largar a faculdade.

– Ah, é.

– O que você acha de sair para beber no barzinho aqui perto, como nos velhos tempos?!

– Claro, hoje?!

– Minhas aulas terminam as seis, então...

– Te encontro lá. – e ele seguiu para uma das mesas, pode ser impressão minha, mas ele sorriu. O que é raro, já que Lars sempre foi muito reservado e sério. Totalmente o meu oposto.

Depois de algum tempo todos foram para a sala de aula. Lars seguiu raivoso, já que Eros foi acompanhando ele até a sala, é visível que o loiro só está se divertindo irritando o professor.

O refeitório ia ficando vazio e eu começava a fechar o caixa, mas à medida que as pessoas se iam, eu notei que alguém não fazia nem questão de se mover. Um rapaz de corpo atlético e cabelos acobreados brilhantes olhava pelas janelas de vidro do refeitório.

Não havia prato na mesa ou qualquer indício de que ele havia comido. Se ele pretende comer é melhor vir logo.

– Sabe quem é, Leo? – Marieta chegou perguntando a mim e se referindo ao rapaz

– Não. – quer dizer, acho que o rosto dele não me é estranho.

– É o futuro dono da maior empresa de publicidade do país. Dizem que o pai dele manda e desmanda nessa universidade. Acho que vou oferecer um prato de comida para ele. Tão magro... – magro?! Ele está é muito bem de corpo.

– Ele devia voltar para as aulas...

– Ele sempre demora um pouco para voltar. Às vezes ele almoça ali, sozinho, comida trazida de casa.

– Hum. Então acho que vou lá saber se ele deseja alguma coisa. – de qualquer forma, nunca o vi por aqui, ou pelo menos, nunca tinha reparado nele. Também, faz só alguns dias que estou aqui.

Caminhei até lá e parei perto da mesa. Ele desviou a cabeça só o suficiente para me ver pelo canto do olho. Era sério e me pareceu que a minha presença o incomodou.

– Hum... bom dia. – ele me ignorou. Que mal educado! – Posso ajuda-lo em alguma coisa? – a cantina estava agora silenciosa e vazia. Ele só me olhou, continuou sentado com a perna cruzada e com os braços também cruzados, me olhou como se eu estivesse incomodando, não vou desistir fácil, pus meu melhor sorriso. – Sou Leo Morgan e comecei a trabalhar aqui a alguns dias, está esperando o almoço? – hum... — Não acha que deveria voltar para a aula, é realmente importante. – ele tem a oportunidade de estudar, porque não se esforça mais, claro, porque os pais já vão lhe dar tudo de mãos beijadas! Continuou apenas me encarando com os olhos de um mel brilhante, combinando com as cores que pintavam seu corpo. Mas agora já chega tentei ser simpático e não adiantou! Ele me ignorou e virou a cabeça para o outro lado! – Desculpe, mas é mudo?!

– O que? – ele me disse desviando a cabeça novamente na minha direção.

– É mudo ou apenas mal educado?!

– Não acha que é falta de educação se apresentar a alguém sem ser introduzido por outra pessoa?! – hã?!

– Em que século você vive?!

– Léo! – Marieta disse me repreendendo docemente. – Desculpe o rapaz, ele é novo aqui. – ela trazia um prato generoso de comida, uma comida dos deuses devo admitir, e um copo de suco. – Trouxe um almoço para o senhor, é cortesia. – ele continuou olhando o prato posto a sua frente. Examinou cada coisa.

– Devia provar, a comida da Marieta é excelente. – eu disse sorrindo a ela que só se fez de modesta.

– Não. – ele disse de um jeito muito rude. Por que?!

– Não gosta de espaguete, arroz, carne e verdura?! – eu perguntei.

– Gosto.

– Então, prove, garanto que você vai amar a comida e não vai desejar outra. – só a do Andrei.

– Meu motorista está trazendo meu almoço. E além disso... não confio na comida daqui. – ele disse de uma forma tão desrespeitosa, com olhar de nojo para a comida e eu percebi que Marieta ficou um pouco decepcionada. Qual o problema dele?

– Posso garantir a você que a comida é de qualidade e feita com bastante atenção e respeito a quem vai comer. Dou a minha palavra.

– De que me vale a sua palavra?! – agora eu me chateei, não costumo ficar bravo, só com Eros, mas esse cara... esse cara... tudo bem querer a comida de casa, tudo bem que ele tem condições de ter um motorista para vir deixar e buscar a comida. Mas eu exijo o mínimo de respeito! Comigo e com a senhora!

– Você é bem rude.

– E você irritantemente insistente. Leve essa comida, não vou comê-la. – ele olhou novamente com nojo e Marieta começou a retirar o prato.

– Como pode ser tão bem nascido e tão mal educado. – eu disse quando Marieta já ia distante.

– Sou mal educado porque não quis comer o que ela me ofereceu?! – esse olhar de superioridade... supera o Eros!

– Não, pelo modo como recusou.

– Garanto a você que não me importo. Já perdi tempo demais com a sua ladainha, vá varrer o chão ou algo assim. – dois caras com um terno preto e óculos escuros entraram carregando algo parecido com um baú. – Finalmente. — eu observei um banquete ser posto na mesa da cantina, dois tipos de carne, verduras, frutas... me parecia os banquetes dos livros que eu lia. Ele me olhou uma ultima vez. — Ainda tenho que lidar com esses ratos, imagina, comer a mesma coisa que eles.

Mesmo bodejando essas palavras meu ouvidos escutaram. Foi algo assim impensado, minha mão se fechou, sei lá em um copo de vinho sobre a mesa e eu o joguei na cara dele. Ele ficou tão atônito quanto eu depois, e Marieta quase teve um passamento.

Mas meu choque passou rápido. Já estava feito mesmo, e ele merecia era um soco, mas acho que esses caras são os seguranças dele.

– Então, ligue para o seu papai e peça para ele te dar educação e comprar um restaurante. Porque, afinal, o dinheiro é dele. — ele riu cético.

– Sabe com quem você está falando? Com o dono...

– Com o filho do dono das empresas KeT de publicidade. Em outras palavras, sem o dinheiro, a influência e as empresas do seu pai, você seria nada. Um rato talvez.

Eu fui arremessado no chão por um dos seguranças dele e um deles ia me chutar, mas Marieta meio que gritou e um simples e baixo “pare” saindo da boca dele já foi suficiente para o homem irritado se afastar de mim. O rapaz apenas enxugou o rosto molhado e ignorou a camisa branca agora meio avermelhada.

Ele levantou e me olhou de cima, sabe, eu sei que tudo o que eu disse é verdade e não retiro, mas ele tinha toda aquela postura, todo aquele jeito de olhar superior e meio nobre, daqueles que você para pra observar e percebe que é diferente de você. Ele só cruzou os braços a minha frente e encarou firme os meus olhos.

– Se querem acabar com ele, o façam lá fora. – ele disse e se virou. Eu não acredito! Eu comecei a ser carregado e arrastado para fora. Ei, não! – Não quero que uma mulher veja isso.

– E ainda é covarde! Por que não me enfrenta cara a cara! – eu ia perder de qualquer jeito.

– Porque tenho quem faça o serviço por mim. Graças ao meu pai. – ele disse quando eu já estava praticamente na porta.

Eu vou morrer! E quem vai sustentar os meus avós e pagar os alugueis atrasados da pensão?! E o pobre Cody, ele nunca vai achar a livraria tudo porque eu fiquei enrolando para levar ele lá! Ah, e o Lars, vai beber sozinho no bar hoje!

– O que está acontecendo?! – o diretor apareceu em uma das portas, acho que ele vinha almoçar. Ele me olhou meio preocupado e confuso.

– Seu funcionário me faltou com respeito e me deu um banho de vinho. – ele disse com a voz calma, era seu tom natural. Com incrível autoridade sem gritar ou gesticular ou perder a compostura.

– E eles...

– Eles iam ensinar o lugar ao qual ele pertence.

– Eles iam me matar! Olha o tamanho deles e olha para mim! Não precisa desses dois, sério. Basta esse da esquerda aqui. – eu meio que começo a falar muita besteira quando estou nervoso, o rapaz só me olhou tentando assimilar o que eu disse.

– Escute... senhor, posso fazer com que nunca mais o veja, mas eu não gostaria que a escola tivesse um caso de espancamento. Ou algo assim. – até o diretor quer me matar!

– Ninguém ficaria sabendo.

– Eu vou direto a policia! Não tenho medo de você! – Marieta se pronunciou de trás do balcão, não precisa se envolver!

O rapaz pensou um pouco.

– Ratos falam pelos cotovelos. – ele disse ao pano sujo de vinho em cima da mesa. – O que pretende fazer?! – diretor pigarreou e se aproximou de mim, agora eu estava sentado como um bichinho indefeso, no meio daqueles dois armários e esperava pela minha sentença.

– Você está demitido. – o que?! – E o proíbo de pisar aqui novamente.

– Mas... e o senhor não vai me dar o direito de me defender!?

– Não. – ah ta.

– Mas senhor, o rapaz precisa do emprego! – Marieta disse lá de dentro.

– Você também, eu creio. – o diretor disse em forma de ameaça.

Bom, e agora, estou desempregado, não vou receber esse mês, Andrei e Edgar não vão poder me ajudar, e eu já acumulei uma dívida grande com eles. Não posso atrasar a casa de idosos dos meus avós, não de novo. Calma... eu vou ser racional e correr para encontrar alguma coisa. Vou furar com o Cody. De novo.

Eu me vi inconscientemente de pé.

– Achei que você nunca ia calar sua boca. – aquele demônio disse de novo.

– Estava pensando no que vou fazer agora. – sabe, eu nem dei muita atenção. Ao contrário dele, acho que ele ficou me olhando. Vou pegar minhas coisas... acho que eu vi um anuncio de vendedor em algum lugar. Mas que droga! – Escuta. – eu disse de novo e ele me deu atenção prontamente. – Dê graças a deus que você tem o seu papai para de bancar... aposto meu salario, — que agora é zero, infelizmente. – que se seu pai dissesse “se vira” você não conseguiria sozinho. Já parou para pensar nisso?! O que você sabe fazer sem o seu pai segurando a sua mão?!

Ele ficou calado e eu já estava gritando. Acho que era o desespero, eu realmente tenho que começar a fazer o um pé de meia, sabe, para quando eu jogar vinho em alguém rico e for demitido por isso. Foi vinho, se fosse água da torneira eu entenderia...

– Trate-o com mais respeito rapaz. – o diretor falou totalmente submisso. Eu comecei a ir em direção a cozinha onde Marieta me olhava com pena... como isso aconteceu, realmente eu exagerei, mas ele não tinha o direito de nos faltar com o respeito.

– Sinto muito, diretor, mas ao contrário de você, eu não preciso balançar o rabinho para ele. – eu escutei passos atrás de mim e lá vinham os dois brutamontes!

E eu corri! Nunca corri tanto, a qual é, covarde uma droga! Quero salvar minha pele. O rapaz sentou e ficou sendo paparicado pelo diretor.

– E agora querido?! – Marieta me disse quase chorando quando cheguei ao vestiário. – A gente juntou um pouco do dinheiro e talvez dê para alguma coisa. – não dava e todo mundo tem família aqui.

– Não precisa, eu já tenho outro emprego me esperando. – eu disse sorrindo.

– Mas você disse...

– Consegui um ontem. – quanto mais rápido eu sair em busca de um, melhor. Uma tarde geralmente não é suficiente para encontrar alguma coisa e ainda mais nessa baixa estação...

– Tem certeza?

– Tenho. – disse dando um beijo na bochecha dela e me despedindo dos outros. – Acho que nunca passei tão pouco tempo em um emprego. – eles riram um pouco e eu me mandei. Mas antes... – Como é o nome dele, Marieta?!

– Ace Valentim, querido. – vou amaldiçoar você o resto da vida, desgraçado!!!

Saí com cuidado caso os armários estivessem lá fora me esperando, não estavam, deviam estar cuidando do ego do chefe deles.

Mimado, chato, ignorante, arrogante e prepotente. E não é o Eros!

– É outro filho da mãe! – eu meio que gritei com raiva quando passei pelos portões. Tinha uma pessoinha encostada lá no muro. – Cody?

– Quem é filho da mãe?! – ele me perguntou segurando a mochila e devorando um achocolatado.

– Não deveria estar em aula?!

– Hm... estou saindo um pouco mais cedo. – já sei porque.

– Cody, devia reportar esses abusos.

– Para quem?!

– O diretor. – quer dizer... realmente, aquele diretor provavelmente não faria nada, e só pioraria a vida do menino.

– Eu já testei isso em outras oportunidades. Não surtiu efeito, só piorou.

– Hum.

– Então, você vai poder me levar lá hoje?! – ele me disse com aquela cara de pouco interesse na vida que ele tinha sempre.

– Eu... vou sim. – quem sabe eles não sabem de algum lugar onde eu possa trabalhar, mas é uma tarde perdida, é longe daqui. – Então, vamos?!

– Uhum.

Pegamos o metrô e depois de uma hora chegamos na parada certa. Começamos a caminhar pela calçada meio suja do ex-centro da cidade, a arquitetura daqui é bonita, eles deveriam valorizá-la. Ainda tem algumas pessoas que vem aqui procurando produtos piratas ou consertos de roupas e objetos, ainda tem umas lojas populares também. E tem a livraria do sr. Josias, onde eu trabalhava.

Ainda é um pouco movimentada, funciona como sebo também, tem alguns livros raros aqui. O sininho indicou a nossa chegada.

– Iuhuuu. – eu falei para a loja vazia, só o ventilador de teto fazia uma zoada quase inaudível.

– Bem-vind...o, diz Leo. – um rapaz se ergueu do chão atrás do caixa, e falou no início animado, mas quando percebeu que era só eu, voltou à cara de tédio.

– Como vai Zack!!! Sentiu minha falta?!

– Pode crer, sem você eu não tenho mais folga.

– Falo da minha presença de espírito.

– Não. Agora ficou bem mais tranquilo. – há há, muito engraçado.

– Esse é Cody, o garoto que eu disse que ia trazer para trabalhar aqui.

Eles ficaram se olhando em silêncio um tempo.

– Não quero trabalhar aqui. – Cody disse já se dirigindo a porta.

– Não quero pivetes fracos, doentes e metidos a inteligentes aqui.

– É uma livraria! Os melhores vendedores são os inteligentes. – fui até a porta antes que Cody fosse para a rua. – Ele tem essa cara de mal e de meliante, mas é boa pessoa.

– Ei. – Zack disse lá de trás. – Quem é meliante.

– Cody já leu muito e é esforçado, as caixas você carrega, tem esse corpo pra que?!

– Ele sabe que a gente não paga muito, certo?!

– Sabe.

– Se ele quiser a vaga é dele.

Eu olhei para o menino que ficou encarando o filho do dono da loja.

– Eu não sei... – o pequeno disse meio baixo.

– Boa tarde. – o senhor Josias entrou na loja, era um senhor de idade, baixinho e com uma cara carrancuda.

– Boa tarde. – eu disse sorrindo amarelo.

– Como você ousa deixar o emprego sem me dizer nada?! – disse me repreendendo como só os velhos conseguem. – Me deixou sozinho com esse traste!

– Velho... por favor. – Zack retrucou sem emoção.

– Desculpe, mas eu recebi uma proposta melhor, e o senhor sabe da minha situação. – bom, eu tinha uma proposta melhor.

– Hum.

– Mas muito obrigado pela oportunidade, eu o procurei um dia desses, mas você tinha viajado, claro que eu vinha falar com o senhor.

– Hum. E esse?! – disse avaliando Cody.

– É o meu substituto.

Ele foi conversar com o Cody e eu segui ao balcão para falar com Zack.

– E como vai no novo emprego? – ele disse sem tirar os olhos do pequeno de cabelos pretos.

– Fui demitido.

– O que?

– Hoje.

– Por que?!

– Eu meio que chateei Ace Valentim.

– Hum.

– Quase me mataram, eu ia apanhar dos seguranças dele.

– Devia fazer alguma defesa pessoal.

– Como judô?! Pra lutar contra você?! Não obrigado.

– Sério. Esses caras ricos não deixam essas coisas por menos.

– Seja meu segurança! – eu falei com a melhor cara de pidão que eu tinha.

– Não. Tenho mais o que fazer... onde arranjou esse pivete?!

– Não fale assim do Cody, mora comigo na pensão. Tente não assusta-lo muito. E trate-o bem. Ele sofre bullying na faculdade.

– Sofre?! Não me diga...

– Você não sabe quem é?! Quero conversar com eles.

– Não pioraria a situação do menino?! O “irmão mais velho” pedindo para não implicar com ele?!

– E ninguém vai fazer nada?!

– Você quer aumentar seu leque de inimigos. – verdade. – Pelo menos diga que você disse umas poucas e boas para aquele riquinho metido a besta.

– Tentei.

– Muito bem... – Josias veio falando feliz até nós trazendo o Cody. – Cody será nosso novo funcionário.

Eu sorri feliz e Zack pareceu não gostar muito. Mas ele vai ver como o Cody é uma fofura de menino e vai se apaixonar por ele. Se bem que Zack não faz muito o estilo fofo.

– Que bom, Cody. – eu disse a ele que já avaliava o ambiente.

– Começa amanhã. E Zack... quais são as regras? – ele sempre era meio áspero com Zack, mesmo sendo seu único filho, acho que porque Zack não é muito obediente ou comportado.

– Não posso bater, abusar, ou gritar com os funcionários, devo trata-los bem porque é por causa deles que terei minhas folgas dessa droga de serviço.

– Isso. Tirando a ultima parte. Até amanhã, garoto.

– Uhum. – Cody disse e eu e ele nos retiramos.

Zack não sabia de canto nenhum que precisasse de funcionários, eu olhava o negro que corria pelas janelas do metrô. As vezes eu queria ser como aquele cara: rico, podre de rico. Assim eu não passaria minha vida mendigando por empregos, mas... fazer o que se meus avós no momento são mais importantes do que a minha “vida de garoto de vinte e três anos”. Céus eu estou tão cansado disso. Só queria fechar os olhos e dormir por um bom tempo... e quando acordasse, queria ter dinheiro. Por que me demitiram logo agora! Com os tratamentos praticamente dobrando de preço.

Estou cansado, quero dormir, mas... tenho que encontrar um emprego e hoje eu vou conversar com o Lars, as coisas vão melhorar. Meus olhos estavam meio úmidos, acho que estou realmente cansado a ponto de chorar por uma besteira dessas. Mas é que essa vida podia dar um tempo.

– Léo, tudo bem?! — Cody me perguntou largando o livro que lia.

– Estou ótimo, foi um cisco. – sério que eu disse isso?! Quem acredita nisso.

– Sério, deixa eu ver. – ele realmente ficou de joelho no banco do metrô e olhou dentro dos meus olhos. – Acho que foram dois ciscos porque os dois estão lacrimejando. Minha mãe assoprava quando... – ele é tão fofinho!!! Eu abracei aquele corpo como se fosse de pelúcia. – A-acho que você já está bem.

Cody seguiu para casa, acho que ele é a única pessoa no mundo que ainda cai nessa dos ciscos. Eu fui encontrar com Lars no barzinho e, como sempre, cheguei um pouco atrasado.

– Atrasado como sempre, Léo.

– Desculpe. – disse rindo.

Sentamos em uma das mesas afastadas e conversamos muito, me contou que terminou os estudos fora e que até trabalhou por lá uns anos, mas preferiu voltar. Contei como meus avós ficaram doentes e como a aposentadoria deles foi reduzia a praticamente nada e eu tive que ajuda-los e me manter, como não podia cuidar deles, estudar e trabalhar, eles agora moram numa casa de idosos e eu vou visita-los sempre que posso, duas ou três vezes por semana. E eu meio que ganhei mais uns vinte avôs e avós.

– ... ah, meu irmão, meu irmão não mudou nada. É o mais velho e o mais inconsequente homem da face da terra. – ele me contava sobre o irmão.

– O que você tem de racional...

– Ele tem de inconsequente!

– Nunca o conheci.

– Não é alguém que valha a pena conhecer.

– Mas é seu irmão... e você disse que ele é um pintor famosíssimo.

– Ele tem talento e realmente é um grande artista... mas ele em si.

– Nossa.

– Ele está com um garoto de dezessete anos agora.

– Um namorado de dezessete anos?!

– Não. Um caso, de dezessete anos. Ele não tem namorados. Já faz mais de um ano... foi traumático quando vim de férias e fui visita-lo, fui até o quarto dele e esse menino estava dormindo lá... lembro que explodi. Para mim, ele tinha passado dos limites.

– Um ano? Tem certeza que isso não é tempo demais para um caso?!

– Não sei, mas eu sinceramente preferia que esse garoto se desligasse dele, não é saldável.

– Conheço alguém na mesma situação.

– Sério?!

– É.

– Ia morar com meu irmão, mas com tanta gente estranha entrando e saindo da casa dele, eu preferi ter meu próprio apartamento.

– Quem me dera um bom apartamento...

– Que mudança de vida essa sua. – ele me disse já mais relaxado e um pouco mais sorridente.

– Pois é... e ainda fui demitido hoje.

– Você?!

– Isso. Fui meio inconveniente com Ace Valentim. – esse nome sai amargando da minha boca.

– É meu aluno.

– Sua turma é excelente eim?! Ace, Eros...

– É bem difícil e me parece que esses dois têm uma rixa. O que você fez?!

– Também, com os egos deles. Bom, ele foi mal educado, então eu extrapolei. Preciso de um emprego logo... – eu meio que comecei a pensar em todos os meus problemas de novo.

– Escuta, Léo... – eu olhei para ele e parecia que estava prestes a dizer algo realmente importante.

– Com licença. – um dos garçons falou para mim. – Ouvi você dizendo que precisa de um emprego.

– Sim.

– Um garçom acabou de ser demitido.

– E EU NUNCA MAIS PISO NESSA MERDA DE LUGAR!!! — um homem saiu em fúria de dentro do estabelecimento. Sei não eim...

– Bom, de qualquer forma, ele nunca vinha mesmo... sempre faltava. – o garçom disse e eu meio que sorri para o Lars e corri para a gerência do lugar.

Uns dez minutos depois eu saí vitorioso. Eu amo a minha vida, que incrível, uma hora você está no fundo do poço e depois está no topo!

– A vaga é minha disse tomando um gole da minha bebida.

– Léo...

– Siiiim...

– Quero voltar a ficar com você. – o que?!

– Hã?!

– Antes de eu ir embora a gente saiu umas três vezes.

– Eu lembro...

– Eu ainda gosto de você. Então... – ele ainda não melhorou muito nessa parte sentimental, eu realmente senti falta do Lars quando ele foi embora, e eu realmente gosto dele. Não o amo, mas gosto o suficiente para tentar.

– Eu adoraria. – ele me olhou e eu não pude deixar de rir um pouco. Levei minha mão a dele em cima da mesa. A mão do Lars é fria e macia, grandes mãos e olhos realmente provocativos quando querem e igualmente frios quando desejam ignorar. Mas eu gosto disso nele, ele foi, dos três caras com quem eu fiquei em toda a minha vida, o que eu mais gostei e com quem eu mais me identifiquei. Embora sejamos completamente diferentes. – Então, você vai me levar em casa?

A gente caminhou até o carro dele, estava um pouco distante do barzinho, era uma rua tranquila, passavam poucos carros e poucas pessoas, área residencial. Ele foi alguns passos na frente. Talvez as coisas realmente melhorem agora, é diferente quando você tem alguém que se interessa por você e que vai estar lá quando você precisar.

Esse é o Lars, ele é assim, ou pelo menos era, mas pelo que observei, ele não mudou, só ficou mais maduro talvez, com um ar mais adulto.

Quando estávamos próximos ao carro, ele virou-se para mim e seu rosto se aproximou do meu, sua mão tocou meu queixo, o contato frio com a pele fez meu corpo se arrepiar. Eu ainda sei como beijar?!

Não sei se não ou se sim, sei que continua sendo muito bom, ele envolveu minha cintura e me beijou como ele sempre era calmo, acompanhando meus movimentos e sentindo minhas mãos em sua nuca. Depois ele me abraçou firme.

– Escute, Leo, comigo você não precisa mentir ou esconder, se precisar, peça a minha ajuda, certo?! – é eu lembro, eu me sentia seguro com ele, uma estabilidade. Eu o abracei de volta e concordei, eu sei que posso.

E aí eu notei um carro preto em uma das ruelas, um daqueles carros importados, um homem de terno, que reconheci como um dos que estavam com Ace mais cedo, saiu do veículo, mas não se mexeu. O que eles fazem aqui... não estão atrás de mim, certo?! Quer dizer... não é para tanto, é?! Ah, eu vou morrer!

Se ele não se mexe, eu me mexo.

– Lars, podemos ir?! Acho que não me sinto muito bem.

– O que foi?

– Não sei, podemos ir?!

– Claro.

Entrei o mais rápido que consegui no carro e começamos a nos mover, o carro nos seguia! Estávamos sendo seguidos!

– O que sente?! – Lars me perguntou de novo.

– Só uma forte dor de cabeça. – o carro continua ali.

– Então deveríamos passar numa farmácia e irmos para a minha casa, é mais perto que a sua.

– Claro, mas não precisa ir para a farmácia. Só preciso tomar um pouco e água ou algo assim.

– Tudo bem.

Ah, céus, o que eu fiz, comprei uma briga feia com quem não devia?!


“Às vezes os ratos esquecem que o lugar deles é dentro de uma gaiola. Se não obedecem... vem as consequências. Não costumo me interessar por ratos, não me interesso por ratos. Mas aqueles rebeldes requerem uma atenção especial. Rastos como Leo Morgan, 23 anos, órfão, avós enfermos, segundo grau completo... dados ridículos, posso dizer mais penetrando os olhos verdes e ouvindo aquelas palavras, que por algum motivo me afetam de uma forma no mínimo incômoda.”

Ace Valentin.


Notas finais
..... seguros em casa....
Léo: seu apê é legal... por que viemos para cá mesmo?!
Lars: porque você disse que estava passando mal.
Léo: ... eu estava u.u by the way, você já pensou em como morreria?
Lars: ... Oo não, porque pensaria nisso se estou na flor da idade?!
Léo: eu acho que vou morrer espancado por algum grupo de gangsters T.T
Lars: ? acho que você realmente estava passando mal.
Léo: como você quer morrer?!
Lars: .............. não vai providenciar isso, vai?!
Léo: ¬¬ não.
Lars: a gaveta das facas é trancada.
Léo: NÃO VOU MATAR VOCÊ!