Injustiça
1 Lumine
Notas iniciais
Lumine
“Ojou-chan, fique atrás de mim.” Foi a primeira coisa que eu havia ouvido Childe dizer a mim. Eu estava encrencada e cercada de guardas da região de Liyue. Minha missão era coletar informações para Mondstadt, visto que o mundo estava e ainda continua em guerra. O ruivo encontrava-se na mesma cidade para fazer exatamente o que eu tinha feito, mas para Snezhnaya. Um território distante e frio, local que eu nunca havia sequer pisado. Se eu ao menos soubesse que ele era um Fatui, se eu ao menos soubesse que ele gostaria de roubar as informações que eu havia conseguido com tanto custo… Tudo poderia ter sido diferente. E certamente muito menos dolorido.
— Obrigada. Eu posso te agradecer de alguma forma? — eu não deveria ser tão agradecida com uma pessoa em uma região que está em conflito com a minha.
Isso foi tolice da minha parte. Mas o sorriso de Childe, que agora sei que não é seu nome verdadeiro, era tão cativante que eu sentia que devia algo a ele. E cai em suas redes, assim como ele caiu nas minhas durante o tempo em que passamos juntos.
— Que tal um almoço? — ele sugeriu, e eu aceitei.
Nossa conversa tinha sido muito boa. Com muitas risadas, alguns xingamentos e principalmente uma trégua do mundo cheio de caos, confusão e conflitos, as únicas coisas que giravam em torno de mim e de qualquer Cavaleiro de Favonius. Só que eu estava fazendo isso com um Fatui, uma facção de Snezhnaya a qual tinha os ideais opostos da minha. Um erro fatal. Confraternizar com o inimigo pode ser uma coisa muito interessante para a sua sociedade, mas apenas se você não se apegar a pessoa. E esse fora meu caso. Exatamente por isso que minha vida ia ficando mais próxima de um inferno a cada vez que eu me encontrava novamente com Childe, mais conhecido no campo de batalha como Tartaglia.
— Eu nunca conheci alguém como você. — fora o que ele tinha me dito antes de me beijar pela primeira vez.
Os nossos beijos eram sempre intensos, perigosos, e talvez até um pouco grosseiros. Cheios de emoções como tensão, paixão e um pouco de aventura. E aprendi a amar cada vez mais essa sensação, me afundando cada vez mais nessa areia movediça chamada falsamente de Childe. A cada toque cálido, a cada sorriso de canto. Seus olhos azuis eram profundos como a cor do oceano, sua pele era lisa como seda, ainda que tivesse tantas cicatrizes no dorso. Sua gargalhada era como música para meus ouvidos, e seu bom humor sempre preencheu o meu coração vazio pela dor da guerra e da perda.
Quando finalmente descobri sua identidade real, já era tarde demais. Já estávamos tão envolvidos que mesmo isso não iria ser o suficiente para apagar a chama do nosso amor. Na verdade, descobrir só faria com que a dor fosse ainda maior, a todo momento nos lembrando de como a vida é injusta e que a qualquer momento poderíamos nos encontrar em um campo de guerra e lutarmos até a morte.
— Tartaglia. Deveríamos parar de nos vermos. — eu tentei dizer um dia.
Minha voz era firme, mas meu olhar entregava tanto a dor que eu sentia quanto a vontade nula de fazer o que eu tinha acabado de falar. Childe, como sempre, apenas sorria. Sua expressão me dava a falsa sensação de aconchego e tranquilidade, e eu sempre era convencida ao contrário.
— Deveríamos. Mas tanto eu quanto você não temos a mínima intenção de fazer isso. Não é mesmo, Ojou-chan? — o seu tom brincalhão me irritava, mas era a mais pura verdade.
E ele me beijou. Um beijo tão intenso quanto qualquer outro que havia me dado, mas que ainda sim havia me conquistado novamente. O nosso corpo, colados um no outro apenas ajudava com que a nossa temperatura ficasse ainda mais quente, numa tentação bem sucedida para que pudéssemos retirar as nossas roupas. Childe, tão hábil e afiado com as palavras e com combate, tinha um toque tão macio, quente e sedutor. A cada carícia, cada beijo, cada suspiro contra a minha pele me incentivava a fazer o mesmo, misturado com as nossas respirações descompassadas que apenas ajudava o clima a ficar melhor e que a junção de nossos corpos fosse ainda mais especial. Quando eu sentia o corpo de Childe em cima do meu corpo, seus olhos sempre iam em direção aos meus. Eu poderia não só sentir o prazer em ter o seu membro dentro de minha intimidade, mas observar a sensação de deleite que a nossa noite de amor o dava, além dos sentimentos de amor e felicidade momentânea transmitidos pelos seus olhos oceânicos que brilhavam a cada movimento erótico de nossa dança. E quando eu sentia o seu corpo desfalecendo junto com a sua semente sendo plantada dentro de mim, o ápice do meu próprio corpo também chegava.
— Eu amo você, Childe. — eu sempre dizia assim que terminamos de nos entregar em carne e alma.
O ruivo, deitado ao meu lado enquanto acariciava o meu corpo ainda nu, sorria como se tivesse ouvido essa frase pela primeira vez. Aquele mesmo sorriso que havia me conquistado desde o primeiro dia, mas com um sentimento ainda maior posto sobre ele. Childe chega até o meu rosto, plantando um beijo cálido em meus lábios.
— Ajax. — ele me contou. — O meu nome verdadeiro é Ajax.
E foi a partir desse dia que eu tinha certeza: jamais conseguiria lutar e quem dirá matar esse homem no campo de batalha.
Eu havia falhado como uma Cavaleira de Favonius.
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