Ininterrupto

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Mas quem é vivo sempre aparece, já dizia o ditado popular. Queridos, desculpe a ausência. Só quem já cursou o último ano de faculdade sabe como é. TCC não é moleza. :( Mas o importantente é que voltamos. E voltamos para ficar! Boa leitura, destinados! ( Se ainda tiver alguém... oops)

Anteriormente...

— Will? — Vee me chama a meia voz. Sei que há algo mais errado que a história gravada na pedra. História de poucos minutos atrás. Sei que algo sombrio ocorreu ali.

Minha cabeça tange na direção de minha vizinha de unidade habitacional.

Vee está de costas pra mim.

E aos seus pés, o cadáver de Dantan Ceran repousa.

—*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Levo cerca de 10 segundos para perceber que estou repetindo “eu o conheço” incessantemente. Me calo.

Não preciso checar o cadáver para saber o inevitável. Ceran está morto. Não é algum desenvolvimento de ki, sexto sentido, visual do corpo, intuição ou sentimento. O cheiro denuncia a morte. O cheiro denuncia a podridão do assassinato. O cheiro me faz querer vomitar.

— Eu o conheço. – Repito novamente para ninguém em específico. Sei que é burrice, me choquei contra a onda que transformou o explanador de paleontologia desta manhã nesta massa corporal disforme. – Esse cheiro não vem deste corpo. – Constato em seguida, contradizendo minha afirmação anterior. Como meu raciocínio lógico não se originou pelo desenvolvimento logic, sou suscetível a falhas. O mau odor se dá em razão da putrefação dos órgãos internos em contato com matérias fecais e/ou bolo estomacal já em decomposição pela ação de sucos gástricos e bílis, esta decomposição produz gazes como o enxofre, líquidos com cadaverinas, entre outros. Ou seja, fede. Muito. Este processo leva dias, todavia Ceran estava vivo esta manhã. Não houve tempo hábil para o corpo entrar em decomposição. Principalmente no estágio avançado denunciado pelo cheiro.

— Pouco me interessa você conhecer ou deixar de conhecer. – Levo um susto ao constatar que Vee ainda está comigo. Esqueci completamente de sua existência. Ando até o lado oposto do corpo e encaro minha vizinha de unidade habitacional. Esperava encontrar o olhar presunçoso que tanto detesto, mas o que visualizo é uma cena bem diferente: Vee está com olhos esbugalhados, ainda olhando o cadáver. Lágrimas frias escorrem por suas bochechas. – Pouco me importa de onde está saindo este cheiro. É claro que é de outro lugar. – Tremendo, se abaixa lentamente e posiciona a mão sobre a testa ensanguentada de Ceran. Ela não desvia o olhar do corpo. Que burrice! Se quiser verificar se ainda resta um pingo de vida no homem, posicione dois dedos sob sua traqueia. De que adianta tocar sua testa? – Will, ainda está quente! – Sussurra em só fôlego rachado. – O choque que levamos há pouco, matou este homem.

Neste instante, entendo. Ela também sabia que Ceran estava morto. E provavelmente não se interessa ou se importa se ainda corre vida debaixo da pele. A razão por trás do ato é simples: Este homem foi assassinado. E quem fez isso, pode ainda estar presente em algum lugar.

— Precisamos sair daqui agora. – Ela completa se levantando rapidamente. Fecha os olhos por alguns segundos e vejo suas sobrancelhas se juntarem em esforço. Uma gota de suor escorre em sua têmpora. Em pânico, também tento iniciar meu transporte. Assim como ela, nada acontece. Novamente.

Estamos presos. É como o episódio com os Yong pela manhã. Porém milhares de vezes pior.

— Algo está fazendo com que meu teletransporte não funcione. – Vee reclama como se a culpa fosse minha. Ela sempre acha que eu estou em seu caminho. Na maioria das vezes, está certa. Mas hoje, não.

— Algo não. – Respondo pela experiência – Alguém.

— Alguém? Ninguém tem magia para bloquear outra pessoa de... se isso é verdade, estamos mortos. Mortos! – Sua voz desce uma oitava e se torna estridente.

— Silêncio! Eu disse que alguém pode estar fazendo isto, mas se fosse intencional conosco, já estaríamos mortos. Tenho 90% de certeza que quem quer que esteja fazendo isto, não está mirando em dois desafortunados que estavam no lugar errado e na hora errada. Vamos nos esconder em algum lugar e bolar um plano para sair daqui o mais rápido possível.

Nos dirigimos para a margem do campo de teletransporte coletivo e nos escondemos atrás de uma caçamba de lixo. Na sombra, éramos invisíveis. A não ser que o assassino possua blockvision.

— O que vamos fazer? Você tem um plano, certo? – Vee sussurra amedrontada. Envergonhada do momento de fraqueza. – Você é o mais inteligente e sagaz. Já tem um plano pronto, correto?

— Não, claro que não. Situações delicadas devem ser analisadas com frieza e calma. Não se bola um plano com risco de vida em segundos. Seria extrema burrice. Primeiro: você sabe onde estamos? Não me lembro deste campo, mesmo da época que andava por estas ruelas.

— Não faço ideia. Nunca vi um campo de teletransporte coletivo em tal lugar. Geralmente são alocados perto de comunidades ou centros comerciais. De que adianta um neste local ermo e inóspito.

— Exato! Deve haver algo deste gênero pelas redondezas. Algum lugar com pessoas com capital o bastante para não precisarem de transporte público. Ou alguma razão para não usá-lo. – Meu cérebro trabalha o mais rápido que consigo, nas limitações da falta de magia. — Então precisamos encontrar este lugar e...

Sou interrompido pela mão de Vee tapando minha boca sem cerimônias. Quase reclamo, quando também ouço. Minha vizinha está arrepiada e tremendo. Percebo que estou suando muito, mas o frio corre em minhas veias como se a ausência de calor fosse algo tangível e oleoso.

O que ouço são passos. Não sei a quantidade, mas percebo que são várias pessoas. Eles não podem nos ver, e não somos burros para tentar vê-los Quantos já morreram por serem curiosos demais? Eles vêm de outra entrada, não a que utilizamos. Os passos se transformam em vozes.

— Dantan Ceran. Não teve nem o trabalho de mudar ao menos o sobrenome para aparecer neste território. Morreu pelo orgulho. – Ouço um deles falar em tom de escárnio. Sua voz é grossa e rápida, sua dicção é péssima. Uma barata sobe a perna nua de Vee, ela se contrai, mas não nos denuncia. Dou um peteleco e o inseto segue seu caminho. Vee não me agradece.

— O que vamos fazer com o corpo? – Uma voz feminina praticamente canta. Sua voz é delicada e sensual. Parece uma cobra seduzindo um rato para uma armadilha. Mordo o lábio. – Vamos deixar aqui mesmo? Como os outros? – E o motivo do cheiro putrefaço é esclarecido.— Os seguidores do Ceran... se acharem o corpo... hmm, vai ser uma delícia! – sua risada é sexy, vulgar e medonha. Esta mulher é louca.

— Não queremos uma guerra. – A primeira voz responde, porém noto um tom mais gentil. Como se estivesse a ponto de ceder qualquer vontade da mulher, mas tentando a convencer de sua opinião deturpada. – Pelo menos, não agora.

— En-então vamos levar o c-corpo, senhora? – Outra voz, também feminina, pergunta. Porém, o tom é completamente diferente da primeira mulher. Este é exatamente igual ao de Vee quando viu o corpo. Ela está com medo, pior, está apavorada. Como se em resposta a minha constatação, ouço um estalo, sinto a onda de energia (muito mais fraca em comparação às anteriores) e depois o grito.

Estou paralisado. Vee está paralisada. O grito foi interrompido subitamente e sei, aquela mulher está morta. Viro lentamente a cabeça para minha vizinha e digo, sem emitir som algum: “Precisamos sair daqui, agora!”. Vee está chorando, percebo que lágrimas também percorrem minha bochecha. “Como?”, a boca dela se move e suas sobrancelhas se juntas arqueadas.

Não temos como fugir agora, não sem sermos vistos. Nós dois sabemos disso. Ficamos quietos e imóveis.

Esperamos.

— Alguma de vocês tem mais algo a dizer? – A voz sensual volta a cantar, não está alterada, irritada ou demonstrando que se importa com o seu mais recém assassinato.

A resposta é o silêncio.

— Ótimo! – ouço a mulher dar algumas palminhas e voltar a rir. – Lotus, amor, vamos levar o corpo?

— Claro, senhora. Você e você, carreguem. – O homem de voz grossa, Lotus, dá as ordens. Por algum motivo acredito que são outras mulheres. Mas desta vez, nenhuma delas se manifesta. Matou a garota e fez exatamente o que ela perguntou. – O que deseja fazer em seguida, querida?

— Pegue o casal de ratinhos, Lotus. – Não preciso de explicação, sei quem são os ratos.

— Vee, corre! – digo agarrando sua mão e me direcionando as ruelas que entramos. Não chegamos a dar nem dois passos quando a onda bate com tudo sobre nós. Não sei como, mas por algum instinto estúpido, puxo Vee de encontro a mim e a protejo do segundo impacto com o concreto. Todo o oxigênio é expulso de minhas estruturas saculares dos alvéolos pulmonares. Pela força e dor, provavelmente fraturei uma costela

— Will? Will! – Vee está me sacudindo, um fio de sangue escorre de sua testa até seu pescoço. Pelo menos eu não fui o único afetado.— Por favor, não nos mate! – Ela grita olhando para o outro lado. Não está falando comigo. – Por favor! Estou implorando! Não vamos dizer nada, não vamos! Não vimos nada, eu juro! – Ela está chorando. Nunca a vi implorar por nada. Sempre gostou de se sentir superior.

— Que lindo. Um casal de ratinhos acasalando no lixo. – A voz canta risonha. Ela está adorando a cena. – Que pena que foram descobertos.

Nem um de nós é burro para responder os insultos. É melhor sair vivos e humilhados, do que como Ceran. “Morreu pelo orgulho”. Me recupero e digo a meio fôlego:

— Senhora, se permite dizer... – aguardo sua aprovação, me lembrando do que ocorreu com a menina. A mulher percebe e se deleita. Recebo sua aprovação. – Estávamos indo para nossas unidades habitacionais quando nos chocamos com algo, acredito ser algum desenvolvimento de ki muito poderoso. Somos vizinhos e caímos nas proximidades juntos. Não conseguimos nos teletransportar novamente, estávamos procurando uma saída quando nossos caminhos se cruzaram. Não estamos aqui de propósito. A senhora poderia nos deixar ir, por gentileza? – Por dentro estou gritando, porém entendi que com esta mulher, a bajulação é a melhor arma.

— Mas que criatura mais adorável você é... Will? – A mulher canta e se aproxima de nós. Agora tenho a visão completa do cenário.

A mulher que está no comando é alta, morena com longos cabelos ondulados. Assim como sua voz denunciava, usa pouquíssimas roupas de cores chamativas. Seu corpo parece que foi produzido artificialmente, e ela não parece esconder este fato. O carrega com orgulho. Seus dentes são brancos e alinhados, nariz e queixo angulares e definidos. É estonteante. É artificial.

Já Lotus é o oposto: baixo, gordinho e um pouco careca. Está suado e usando um terno surrado. Sua pele é da cor de café e o cabelo que ainda não caiu já está grisalho. Seu rosto é redondo e sua barba está por fazer. Ele olha com adoração para a mulher artificial.

Além dos dois, existem mais três jovens de branco. O tecido é pesado e grosso em suas peles. Porém noto que todas têm cicatrizes no rosto. Uma delas é loira e baixa, outra morena e rechonchuda e a outra é mulata e alta. A última parece ter as cicatrizes mais severas. A loira e a mulata estão carregando o corpo de Dantan Ceran. Do outro lado do campo, uma mulher loira está caída numa poça de sangue.

— Seus olhos são maravilhosos, seu cabelo divino. Se fizermos você praticar alguns exercícios e arrumar umas roupas melhores... nossa! É isso que vou fazer! – Vee me agarra com tanta força que sinto minha mão formigar. Estou petrificado. – A garota irritante pode substituir a inútil e ficamos sem mais nenhuma baixa. E ainda ganho um presente delicioso.

Preciso bolar um plano rápido. Fecho os olhos e me concentro, deixo o pensamento fluir e tento encontrar alguma saída que não envolva ser sequestrado por essa assassina ou morrer. A mão de Vee aperta cada vez mais meu braço. Abro os olhos e vejo que ela encara a mulher morta fixamente. Ela sabe que se não fizermos nada, este será nosso futuro.

Lotus começa a se aproximar de nós dois e Vee faz a maior burrada de sua vida. Utiliza dos desenvolvimentos de força, agilidade e impacto e cria uma onda de ar para afastar o homem. Foi muito inteligente a combinação e o efeito, mas a ação demonstrou grande falta de sabedoria. Agora estávamos mortos. Sabia que esta garota me levaria a ruína algum dia.

— Qual parte do “não se bola um plano de risco de vida em segundos” você não entendeu?! – digo enquanto Lotus se levanta e a gargalhada feminina percorre o campo.

— Desculpe, eu só... não quero terminar como ela. — Olho exasperado para minha vizinha e em meio a pressão do momento também tenho meu momento de burrice.

Se não tenho nenhuma magia, irei usar o próprio ki puro e básico. Pior do que está, não vai ficar. Reúno toda a força e desespero que tenho e, com calma, concentro tudo em meu centro. Faço como na prática com force temp e pela primeira vez, sinto o formigamento. Estendo a mão e sem acreditar, despejo tudo sobre meus inimigos imediatos.

Todos, incluindo a mulher artificial, são lançados contra a parede oposta com a mesma intensidade, senão maior, que nos atacou anteriormente. É claro que meu objetivo não é nocautea-los, muito menos matá-los, precisava desnorteá-los para alcançar somente um objetivo.

— Vee, teletransporte! Agora! – E como imaginei, quem quer que estivesse bloqueando nossa desmaterialização, ocupou-se em se recompor de minha pequena explosão e nossa desmaterialização e viagem ocorram normalmente.

Dessa vez não fechei os olhos.

Assim que me materializei em frente a minha unidade, tudo o que comi durante o dia foi despejado no chão com brutalidade. Porém, não estava vomitando por causa do teletransporte.

— Como você fez aquilo? – Vee está do meu lado quando termino. Sua voz, pela primeira vez, não está em tom acusatório. Estamos imundos, feridos e ainda com lágrimas de medo. – Não me importo como. Você viu? Viu a cara dela?

— Sim. Vi perfeitamente. Infelizmente.

Quando nos desmaterializamos, a mulher artificial estava com um sorriso tão grande que parecia uma careta.

Seus olhos deixavam claros seus pensamentos e principalmente sua promessa.

Nos encontraremos novamente.

Notas finais
Então, o que acharam? Não deixe de deixar sua opinião nos comentários! Ela é muito importante pra mim... :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.