Inimizade
1 Capítulo 1
Notas iniciais
"Mas que merda...". Foi essa a frase que passou, de uma forma ou de outra, pela cabeça dos alunos que agora se entreolhavam, consternados com a decisão do diretor.
xxxxx
Quem quer que visse aquela cena, diria certamente que os dois garotos que andavam lado a lado em uma trajetória costumeira até o colégio eram como água e óleo: um deles soava como o típico rapaz que conquistaria com facilidade o coração de uma legião de garotas e o outro, o tipo de que as garotas tentariam se afastar.
Fosse como fosse, a estranha dupla seguia calada num clima de poucos amigos. Tentando começar uma conversa, o maior dos dois deu uma risadinha e começou:
— Por que é que tá com essa carranca tão feia, hein, meu chapa? Tendo dias ruins?
O outro então logo vestiu o melhor de seus sorrisos.
— Não sei do que você está falando, caro desconhecido — respondeu, arrumando com uma das mãos uma mecha de cabelo castanho que lhe caía por cima dos olhos.
O primeiro riu de novo — parecia ter um sorriso largo eternamente estampado em seu rosto, apesar de suas roupas e acessórios não combinarem com ele.
— Não tente me enganar com esse truquezinho! Já vi você usando ele para sair de furadas. Aposto que isso tudo é por causa daquele sujeito esquisito que de quem você vive comentando.
Parecia ter acertado em cheio. O menor, de cabelos castanhos, deixou o sorriso se desfazer no mesmo momento.
Raito Yagami. Era esse o seu nome.
Estudante que era dono de talentos invejáveis e de um imenso carisma — e, ainda assim, de um nem tão imenso coração —, não conseguia entender como é que fora se envolver com uns tipos tão desagradáveis.
O primeiro deles era aquele que agora estava ao seu lado.
Era o sujeito mais estranho que já havia conhecido. Quando o viu pela primeira vez, tomou um susto de quase cair pra trás: ele tinha uma aparência assustadora, umas pernas finas que pareciam ser maiores do que deveriam e também era mais alto do que o comum para aquela idade (ou talvez até um adulto).
Usava um penteado esquisito, espetado, e, apesar de trajar o mesmo uniforme que Raito, conseguira convertê-lo em algo de gosto no mínimo questionável (algo que alguns considerariam punk, outros considerariam gótico).
Puxou assunto com Raito como quem não queria nada, se apresentando como Ryuk.
Na ocasião, Raito levou a mão a um dos bolsos das calças, onde havia uma pequena quantia em trocados. Esfregou-os por instinto, temendo que o garoto com cara de trombadinha fosse saqueá-lo.
Contudo, o tal Ryuk nada fez e nada percebeu — Raito concluiu que devia ser uma dessas pessoas assaz interessadas em conversas com desconhecidos, do tipo que puxa conversa com os outros dentro de ônibus. Como sua presença não era tão incômoda a ponto de tirar-lhe do sério, conformou-se bem com ela.
O estranho era que, por mais que tivesse tentado mudar a rota que tomava, o garoto punk-barra-gótico-barra-fosse-lá-o-que-fosse sempre conseguia achar o mais novo "amigo". O fato chegava ao ponto de ser assustadoramente estranho, mas Raito já tinha alguns planos bolados, caso se fizessem necessários.
Além do mais, Ryuk nunca seguia até o fim ao seu lado: virava uma esquina antes de chegar ao colégio. Dizia sempre que escolas eram "lugares muito chatos".
Depois disso, não via mais a peça durante o resto do dia (para seu alívio).
O problema é que, quando conseguia se livrar da desagradável companhia, logo se via afligido por uma outra.
Essa outra, era, por sinal, era bem pior e mais inoportuna do que a primeira. Essa não se limitava a sondar-lhe com conversas desagradáveis, ela fazia questão de confrontar-lhe de frente: se havia algum debate em sala de aula, os colegas de classe poderiam ter certeza que este seria tomado por questionamentos, respostas, réplicas e tréplicas dos dois; se os dois ficassem encarregados da limpeza da classe, haveria alguma espécie de disputa, mesmo que indireta; se os dois se cruzassem em algum lugar do pátio, se encarariam até quase saírem faíscas.
Era um sujeitinho enjoado, que denominava a si próprio de Ryuzaki.
Andava estranho, falava estranho (com um sotaque inglês que Raito achava chato), sentava estranho — era, por fim, estranho num todo.
O seu nome também não era verdadeiro. O verdadeiro era outro, um engraçado e incomum. Talvez tivesse vergonha dele ou alguma coisa assim, mas isso Raito não sabia e nem fazia questão de saber.
O fato é que os dois não se suportavam.
E Ryuk, que não era bobo nem nada, bem sabia disso, mas gostava de ver a reação de Raito, que ele considerava bem engraçada, quando falava naquele assunto.
Seria aquela a hora em que Raito tentaria escafeder-se, como de praxe.
"Acho que é hora de nos despedirmos" — disfarçou Raito, se referindo ao ponto onde o caminho dos dois se separava.
— É, cê tá certo... — suspirou Ryuk, ainda com um sorriso no rosto. — Bem, até qualquer hora dessas. Boa sorte com seu problema!
Acenou-lhe e não demorou a tomar seu rumo.
Quando já estava longe, Raito ainda pôde ouvir a escandalosa risada do outro, como um estampido.
"Ah, como queria poder me livrar desses dois..." — pensou o moreno, sentindo que uma dor-de-cabeça estava prestes a começar.
xxxxx
— Eu não vou. — afirmou, resoluto.
O mais velho então olhou bem no fundo dos olhos do menino de cabelos brancos, e, tão decidido quanto ele, rebateu:
— Você vai, sim.
— Não quero.
— Se não for, vai ser uma desfeita com o senhor Wammy.
Um momento de silêncio.
Era mesmo um teimoso.
—... E eu vou ficar decepcionado com você.
Viu os olhos de Nate voltarem-se para o chão, meio envergonhados.
— Está bem, eu vou.
Ryuzaki estendeu a mão para que o menor se levantasse do chão. Fazia algum tempo que tentava convencê-lo de ir para a escola e, finalmente, havia conseguido a proeza. O respeito que Nate tinha por ele era a forma como sempre acabava por conseguir o que queria.
O moreno também não gostava de ter de frequentar novos ambientes, muito menos aqueles com grandes aglomerações de pessoas (Ryuzaki considerava “grandes aglomerações de pessoas” um lugar fechado com mais de cinco ou seis pessoas), mas, pela consideração que tinha pelo senhor Wammy, deveria cumprir com sua palavra de participar regularmente das aulas, além de, por ser o mais velho do grupo, manter sob controle os três jovens que o acompanhavam (“Vai ser bom para vocês”, dissera enquanto dava uma piscadela amigável para Ryuzaki).
O senhor Wammy, é claro, havia se responsabilizado por eles: tivera o trabalho de sair da Inglaterra e deixar sua instituição tão somente para monitorar seus estudos e olhar por eles. Tinha mesmo muito empenho em ver seus pupilos conseguirem alcançar um futuro brilhante.
A proposta foi a de que passassem um ano de intercâmbio em uma escola japonesa e, como esperava, nenhum deles aceitou de pronto. O velho senhor levou um bom tempo para amansar os gênios difíceis que tinham e convencê-los a participar do projeto.
Assim que conseguiu a aprovação deles, preparou toda a parte burocrática (que era até bem fácil, pois suas larguezas adiantavam esse lado) e embarcou-os num piscar de olhos.
E foi dessa forma que chegaram àquele país que ainda lhes soava tão estranho e que, de certa forma, ainda não haviam se acostumado.
Talvez Nate fosse a pior vítima da repentina mudança: mesmo antes da viagem, não era do tipo que conseguia se entrosar muito com os outros, coisa que agora só havia piorado.
Ainda assim, Ryuzaki ainda tinha esperanças de que a nova escola lhe fizesse bem. Ia fazer o possível para tentar tornar o garoto que agora aprontava sua mochila um pouco menos “anti-sociável” (se bem que o próprio Ryuzaki o era, mas Nate conseguia ser mais ainda).
Contudo, aquele era só um de seus problemas.
— E Mihael? Onde ele está? — indagou Ryuzaki, finalmente se lembrando de que não vira o loiro naquele dia.
Ainda que não tivesse demonstrado, Nate sentiu-se um pouco incomodado com a pergunta.
—... Parece que foi na frente.
— Foi, é? Mihael parece mesmo estar mais animado desde que chegou aqui.
De fato, Mihael era o único deles que parecia estar gostando da mudança. Antes andava sempre emburrado, sempre resmungado e soltando farpas a torto e a direito, mas agora parecia tão... alegre.
Nate suspirou. Ele, que sabiamente temia por sua saúde física, não contava era que o motivo da alegria de Mihael não era nobre: parece que rapidamente encontrou um estranho grupinho em que se encaixava.
O problema é que o “grupinho” era composto por uns brutamontes bem intimidadores e, em pouco tempo, o loiro tornou-se o que podia se chamar de “O Terror do Fundamental [1]”.
“Bom pra ele”— pensava Nate. Finalmente Mihael estava conseguindo liberar seus impulsos violentos em mais alguém que não fosse ele.
E, se dependesse do grisalho, Ryuzaki não saberia disso tão cedo.
Os dois estavam prestes a sair de casa, quando uma terceira voz os chamou a atenção.
— Eu também não quero ir.
Ah, maravilha. O ruivo também era rebelde.
— Faça como bem entender — respondeu o mais velho.
— Não adianta insistir, eu... Você disse o quê? — Matt esperava no mínimo uma recusa.
— Eu disse que você pode fazer como bem entender. Acho que já tem juízo o suficiente para fazer isso.
Droga, Ryuzaki! Sempre o fazendo ficar sem-graça! E por que diabos Mihael resolveu sair mais cedo pra ir pro colégio?! Ficar em casa com aqueles dois esquisitões era o fim da picada!
... Ainda assim, a opinião de Ryuzaki era bastante importante para o ruivo deixar de lado.
— Bem... É isso mesmo... Vou ficar em casa. Porque eu quero.
— Ótimo. Te vejo quando chegar.
Assim se despediram. Agora Matt tinha a casa toda só para ele.
“Até que não é tão ruim... Não preciso ir pra aula. Posso ficar aqui... sozinho... o dia inteiro...”
... Droga, Ryuzaki. Droga, Mihael...
— Ei! Esperem por mim! Eu vou com vocês! Ah, por que ninguém se importa comigo aqui nesse lugar?!
Ryuzaki prendeu um risinho e esperou o ruivo alcançá-los. É claro que se importava com ele, mas aquela era a única forma de fazer com que Matt lhe desse atenção. Sabia que alimentar a rebeldia tanto dele quanto a de Mihael era uma má forma de se lidar com eles.
E, dessa forma, o peculiar trio partiu para mais um cansativo dia na terra ainda desconhecida.
Notas finais
- Olá, aqui estamos de novo o/
- Nunca fui fã de fanfics em colégios, mas achei que essa valia a pena e vou fazê-la com muito carinho ^^
- A proposta é ser uma historinha bem simples, até meio boba (me amarro em coisas bobinhas(?)) e alegre. Essa é só uma introdução curtinha, para ir apresentando as coisas com mais calma, então, espero que acompanhem ^^
- Hmmm... reviews?
Fale com o autor