Inimigos Íntimos
10 Subjugar (revisado)
Notas iniciais
Kaiser Pov
Despertei revigorado. Orgulhoso da forma como cada peça foi movida no tabuleiro, de acordo com os planos. A conjuntura se encaminhava perfeitamente para o mais degustável caos e isso me deixava em êxtase. No mundo real, os trâmites legais da minha transferência para a faculdade mediana dos digi-obtusos estava no processo final. Como o governo quem financiava meus estudos e sustentos para que eu continuasse a trazer títulos esportivos, em questão de gastos, iriam obter grandes vantagens, mas não conseguiram compreender o motivo de trocar o “luxo pelo lixo”.
Quando os motivos de um jovem, supostamente apaixonado e seduzido por uma garota egoísta e, que o quer por perto, forem perscrutado pela mídia, a imagem da Gralha seria mais violada do que os nomes dos K-idols naquelas Fanfics bizarras que ela costumava ler. Não haveria um lugar que ela poderia ir sem que olhares, apontamentos e câmeras não estivessem voltadas para si. Daria à ela um pouco do brilho do “genial Ichijouji Ken” e ver quanto tempo ela iria aguentar. Isso seria memorável!
(...)
Horas depois, na base...
— Não siga com esse plano, Ken-chan. Sei que se sente afrontado, que os últimos acontecimentos arranharam seu orgulho, mas não deve se guiar pelo ódio. — E mal se iniciava o dia e já veio Wormmon bancar o Grilo Falante. Sua sorte foi que meu humor estava bom demais e decidi fazer troça de seus “nobres apelos”.— Eu sinto que aquele garotinho que um dia eu conheci; triste e sozinho à procura de um amigo para brincar… Aquela criatura que emanava bondade e meiguice, ainda existe aí dentro.
— Você sente? — Murmurei freando o passo e dando uma pausa dramática — Ah Wormmon, você tem toda razão! — era incrível a inocência da criatura em cair na misancene.
— Tenho? — questionou oscilante e seus grandes olhos brilharam esperançosos.
— Tem uma ova! Passa fora daqui e fica longe do meu campo de visão, antes que eu o trancafie em uma dessas celas e o use como cobaia. Se bem que nem pra isso você serve! — Completei a pandeguice do momento pisando firme em sua direção, o fazendo rastejar-se aligeirado a tropeçar entre choramingos.
Decerto tive boa dose de divertimento com o ocorrido. Assim que Wormmon desapareceu pela escuridão dos corredores, adentrei ao complexo de celas rumo ao parceiro de Inoue. Os prisioneiros fizeram a costumeira algazarra ao me achincalhar de todas as formas. Vermes obtusos, não compreendem as dimensões dos meus estudos e que deveriam estar honrados em serem partes disto.
— Miy-a-ko-chan? — Poromon ciciou oscilante, piscou apreensivo ao se conscientizar de seu cárcere.
— Lamento frustrar suas expectativas... — sorri amplamente. — Inoue ainda não chegou. Talvez mais tarde?
Em um ímpeto admirável, eu devo admitir, a criatura rosada buscou forças para flutuar dentro de sua cela e atritar contra o vidro de contenção. Os grandes olhos averiguaram todo o ambiente transparecendo seu apavoro.
— Isso é uma monstruosidade! — exclamou referindo-se às minhas valiosas cobaias determinadas em numerosas celas de contenção, semelhante à dele.— Você é pior do que imaginamos!
— Gentileza sua. Vou me aprimorando com o tempo. — trocei o deixando com ar enfurecido.
— Eu não sou seu alvo, não é? — resmungou encolerizado.
— Bingo! — Debochei usando a fala de sua parceira. — Você agora é mais valioso do que todas as raridades que tenho aqui. É meu passe VIP para entrar nos bastidores da vida medíocre dos digi-obtusos.
— Não se atreva! — indignou-se.
— Pois eu me atrevo. Atrevimento é o que faz a roda da evolução girar. Agora sugiro que aproveite a estadia e descanse para o emocionante reencontro com sua parceira.
— Não, não… Deixe Miyako-chan fora disso! Você não entende, ela tenta parecer forte, mas se você oprimi-la ela vai... — Parou de falar quando observou meu sorriso a se alargar.
— Então ela tenta parecer a “foderosa”, mas não passa de um castelo de cartas? Conte-me mais. — enfiei as mãos nos bolsos e girei nos calcanhares me aproximando do vidro da cela. — Eu já esperava por isso. Devo dizer que o computador de uma pessoa conta muito sobre ela. Sei que em meados de seus 12 anos Inoue fez tratamento com o psicólogo a fim de trabalhar sua crise de pânico. Então, não foi totalmente eficaz?
— Na-na-não foi o que eu quis dizer. Veja bem, Miyako se sobressai em campo de batalha e sabe liderar, ela só é meio impulsiva, mas...— Poromon não sabia como continuar, sua impressão era de estar piorando a situação da garota e não deixava de ser verdade. Aquilo só melhorava o meu dia. — Eu não vou dizer mais nada!
— Não vai? Que pena, agora que estava ficando bom. Não precisa se preocupar, o que você não contar sobre sua parceira eu descobrirei na prática. Vou testar seus limites, brincar com seus medos, ruir suas defesas, levá-la ao declínio. E acredite, ela vai tentar se controlar para te proteger. Torça para ela conseguir, a hospitalidade por aqui pode cair o nível.
Dito isso, dei as costas alheio aos seus protestos e choramingos, mas antes de deixar o complexo, ativei uma carga de eletricidade para fazê-lo dormir até a chegada de Inoue.
Tinha muito a se fazer até o momento certo de recebê-la para as negociações e, confesso que estava quase impossível lidar com a ansiedade. A sensação de vitória e o prévio deleite em experienciar minha supremacia sendo reconhecida por Inoue me deixava hiperativo, inquieto e sem a capacidade de concentração. Isso era completamente novo.
(...)
O brilho do monitor principal preencheu todo o ambiente e quando se dissipou... lá estava Inoue confusa e acuada… Por segundos os âmbares curiosos arregalaram-se a contemplar a vasta tecnologia. Envaideceu-me com sua admiração genuína, mas quando notou o fato, trancou a expressão em uma carranca dura de desaprovação. Aquilo me rendeu um riso interno.
Confesso que fui atingido de surpresa pela forma como ela estava vestida; um pijama de estampa infantil, que certamente já viu dias melhores, gasto e transparente nas saliências de suas formas. O ar pareceu ficar escasso repentinamente, ainda mais quando o cheiro de sua loção corporal veio a tontear meus sentidos. Enfureci com minha postura detestável, mas não pude deixar de analisar cada detalhe exposto. Todos os planos juntamente com o raciocínio lógico embaralharam-se e travaram. E qualquer tolice improvisada saiu da minha boca.
Sua zanga explodiu no momento em que apercebeu-se de que seus trajes de batalha não foram configurados. Estampou uma expressão ultrajada e abraçou a si mesma num misto de frio e constrangimento. Ousou levantar a voz e me cobrar explicações. Eu já não estava pensando direito, pois a conjuntura desviou muito do estruturado. Aqueles trajes, a fragrância e toda profusão hormonal que eclodiu em meu âmago me encolerizava por ressaltar a tola humanidade que me impedia de progredir racionalmente. Mediante de sua audácia me vi forçado a responder à altura e mostrar quem manda.
Mesmo alterando a voz, a gralha foi audaz o bastante para refutar exigente como se estivesse em vantagem. Talvez ela soubesse que tinha me desconcertado; sexto sentido, intuição feminina ou qualquer coisa assim? Contudo, eu não poderia deixar que ela continuasse a se sentir confortável nessa atitude. Investi num ataque corporal, sem machucá-la, somente para mostrar a realidade dos fatos e dar um drama a mais ao momento.
Isso sim funcionou, prensada contra a parede a tigresa destemida foi reduzida à uma simples gata escaldada. O tom altivo tornou-se gaguejante, o peito palpitante e o olhar tremulante e assombrado. Estávamos face a face, os corpos friccionados exatamente como o fatídico ocorrido na cachoeira. Ela, antes corajosa, agora desfalecia, trêmula.
Imensurável, era o sabor de senti-la perdendo a altivez. Seu medo era quase palpável e parecia ser absorvido pelos meus poros me causando um prazer exacerbado. Subjugá-la era delicioso e, eu queria mais. Bruscamente furtei-lhe o dispositivo digital. Contudo, aquela proximidade e todo deleite em domá-la inflamou em sensações impudicas correndo em calafrios por minha pele e comichando a região pélvica. O que me fez lembrar de seus poucos trajes e me conscientizar do quão prensados estávamos, era como se eu pudesse saborear seus ôfegos.
Puta que pariu! Por que, raios, ficar assim com ela é tão gostoso? Desperta as mais primitivas ganas e me faz devanear em rasgar essa pouca roupa e jogá-la sobre a mesa, provar o sabor dessa perturbadora loção em sua pele…
Respirei fundo e me obriguei a desvencilhar dela. Confesso que estava sem rumo, sem ar. Toda a capacidade de fazer meu cérebro funcionar estava concentrada em outra parte do corpo. Novamente eu revivia o paradoxo de sentir-me cálido e com calafrios. Era culpa dela eu não conseguir controlar a mim mesmo e não há nada que eu odeie mais do que não estar no controle.
Subitamente, lembrei de seu estimado parceiro e uma vez que já estava a uma distância considerável e de costas para Inoue, liguei um dos monitores para que ela visse Poromon e me causasse mais divertimento com seu dramalhão. Enquanto ela se focava na tela, correndo em direção à ela, me recompus retirando um lenço do sobretudo e secando o suor que me escorria pela face, afrouxando a gola da blusa e respirando controladamente.
Lembrei-me de ter segurado seus ombros… Eu usava uma luva que deixava os dedos a mostra, as pontas que tocaram a pele de Miyako pareciam formigar na ânsia de maior contato. Por sorte, ela estava aturdida e amedrontada demais para perceber o desconforto que me causou. A pouca luminosidade também era minha aliada aliviando-me, pois o desconforto em minhas calças ainda era salientado.
Ela murmurava para o monitor, como se o parceiro fosse capaz de ouvir. Me deliciei em ressaltar toda sua culpa pelo estado de Poromon. Joguei em sua cara a loucura e impulsividade características de sua personalidade selvagem e como isso seria a ruína dos que ela diz amar. Neste momento ela não conteve mais o pranto e, jogou a toalha se colocando à minha mercê.
Aquilo definitivamente estava me levando ao ápice do deleite. A sensação de causar medo, choro, sofrimento, de vê-la se desarmando e se diminuindo perante à mim. Eu queria mais… Aproximei-me lentamente enquanto ela permanecia petrificada a fitar a tela. Titubeante, questionava o que eu queria dela.
Deslizei os dedos delicadamente por seus cabelos e ela estremeceu confusa. As fragrâncias cosméticas misturavam-se ao odor de seu medo enquanto eu a colocava em seu devido lugar. Era como se ela fosse desmaiar a qualquer momento.
“Ah… Intrépida Inoue Miyako, tendo que ouvir minhas broncas sem poder responder, gritar, agredir-me ou mesmo fugir. Se você pudesse se ver naquele momento, reduzida a uma ovelhinha indefesa!”
Não resisti à tentação e enlacei um punhado farto de seus cabelos. E ela… Por Kami! Ela soltou um gemido anasalado num misto de susto e dor… Engasguei em meio às ameaças e senti um abalo abrupto. Uma violenta descarga de prazer me correu pela coluna e bifurcou por todo o corpo, meu membro vibrou dolorosamente. Estava passando dos limites, eu sabia, mas a sensação era tão prazerosa que não conseguia me controlar.
A soltei de súbito. “Está tudo bem,” eu assegurei para ela, mas aquilo servia para mim também e, era o que eu repetia internamente na tentativa desesperada de manter o foco nos meus planos. Ela se desculpou entre um choro copioso, dizendo que se comportaria e, suas promessas e a lamúria do timbre só pioravam meu estado.
Ela quis me encarar para salientar suas promessas, mas não permiti. Sabe-se lá qual era a expressão devassa que se estampava em minha face naquele instante. Eu definitivamente não estava orgulhoso disso, só era… era tão inevitável conter toda aquela excitação. Mudei completamente o foco do assunto para meu prisioneiro a intimando a vê-lo em seu cárcere, mas ela parecia petrificada.
Eu não tinha mais condições de ficar olhando tanta pele exposta e inalar o aroma que exalava dela, aquilo estava me distraindo, aturdindo. Tirei meu sobretudo e joguei sobre seus ombros e ela fez um movimento abrupto com a surpresa. Não podia permitir que ela julgasse ser gentileza e a puxei com indelicadeza. A conduzi pelos corredores e rampas, sempre seguindo à sua frente, sem permitir emparelhamento por motivos óbvios.
A partir da chegada no complexo carcerário minhas reações foram normalizando. Sentia-me grato por ser achincalhado pelas minhas cobaias, mas não podia permitir tanta desfaçatez e tratei de castigá-los até que se calassem, o que aumentou o horror de Inoue.
Apreciei seu reencontro com Poromon e todo o drama esperado, culpa, choro, promessas. Valendo-me do momento de extrema fragilidade, expliquei as regras do jogo ressaltando cada ponto. Obviamente tive que punir Poromon pela impertinência de sua parceira, o que a deixou mais inconsolável e culpada. Justamente como eu queria.
Retornei com Inoue para sala de controles e lá terminei de enterrar a espada em seu peito. Exigi que ela terminasse o relacionamento purpurinado com o soberbo do Izumi. Ela tentou relutar, mas sabendo que se perdesse pontos comigo o seu Digimon padeceria, obedeceu fragmentada.
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— K-Koushiro-kun… E-eu estava refletindo sobre o nosso relacionamento e... — fez uma pausa agoniante, como se estivesse buscando coragem. A apressei, impaciente.— Eu quero terminar o namoro!
De imediato eu não podia ouvir a resposta de Izumi, mas óbvio que ele a questionou o motivo.
— Eu confundi as coisas. Nunca gostei de você romanticamente. Julguei que seria bom namorar alguém em que eu confio e, que iria te amar com o tempo, mas não aconteceu. Eu sinto muito.
— Ative o viva-voz. — ordenei corroído em curiosidades.
— Nunca gostou de mim de forma romântica? Isso não faz sentido. Eu entendo que você esteja confusa e sofrendo pelo sequestro de Poromon, mas não tente se afastar. Sou seu amigo acima de tudo, quero te apoiar neste momento. Não se isole.
O abalo era nítido em seu tom. Ao mesmo tempo que eu gargalhava internamente imaginando suas expressões confusas, derrotadas, toda aquela baboseira que ele usava como argumento me enfurecia a cada momento.
— Se você me ama realmente, deve fazer o que estou pedindo.. Aceite nosso término, por favor.
— Não! Não dessa maneira, por telefone e sem uma conversa clara com você dizendo tudo isso olhando nos meus olhos. — suspirou pesaroso. — Eu vou até a sua casa. Isso mesmo, vou para sua casa agora.
Um pânico momentâneo me acometeu. Jamais me ocorreu que o desespero dele seria tanto.
— N-não, por favor, meus pais estão cansados do trabalho, já é muito tarde e eu não quero minha família envolvida nisso. Por favor não venha!
Respirei aliviado, Inoue se saiu muito bem.
— Você tem razão, mas eu… Eu não vou aceitar terminar até que possamos conversar pessoalmente. Você não pode me excluir da sua vida num momento assim, Miyako, você precisa de mim.
— Desliga! — Ordenei aborrecido. Odeio pessoas que não aceitam perder.
— Você precisa de todos nós! Vamos te amparar, te apoiar e pensar em um meio de recuperar o Poromon. Porque esses anos todos a gente passou por momentos bons e ruins e nosso elo é como o de uma família, podemos suportar tudo se permanecermos unidos.
Ela parecia estupefata demais para obedecer, eu não suportava mais ouvir tanta imbecilidade, tanto apelo. Parecia-me um bocado de frases-feitas sendo jogadas para obter resultado imediato e, o pior era que estava surtindo efeito na gralha. Sem delongas, tomei o aparelho de suas mãos e encerrei a ligação.
— Chega dessa baboseira de "unidos venceremos pois a amizade é mágica"! Discurso idiota! Nerd asqueroso!
Caçoei enojado.
— Asqueroso é você! — Sua fúria explodiu e num rompante ela se levantou lançando-se contra mim a fim de me desferir um tapa. “Bata, Inoue, vá em frente e me dê mais motivos para torturar seu Digimon!” Contudo, ela se deteve e rebaixou-se ao se dar conta de sua posição.— E-Eu sinto muito...
— Ah, sente, é? — travei um aperto em seu pulso e girando-a posicionei de costas contra mim,. Rosnei rente ao seu ouvido.— Sente muito, o que?
— Sinto muito, Kaiser-sama. — choramingou temerosa.
Virando-a para mim, deliciei-me com a imensa humilhação estampada em seus traços. As lágrimas fluíam silenciosas. Um momento completamente perfeito, apreciá-la destruída, quase a rastejar sob meus pés!
— Muito bem... Você é uma selvagem Inoue, mas eu até gosto disso. Será um desafio reprogramar suas atitudes e te fazer ficar fiel e obediente, como uma boa escrava deve ser. — Era real, não tinha como explicar o prazer que tudo aquilo estava a me proporcionar. Pressionei o indicador contra a ponta de seu nariz, troçando de sua posição.— Agora vá para casa e descanse para as surpresas de amanhã. Você está péssima!
— Surpresa? — lamuriou-se.
— É, isso mesmo Inoue. — fechei mais a distância entre nós, ela incomodou-se visivelmente, sentiu seu espaço pessoal invadido, mas não teve a ousadia de recuar— Lembre-se de que a sua vida me pertence. Eu sou muito possessivo com as minhas coisas, portanto não quero que você atenda ligações ou responda as mensagens dos seus amigos. Relembrando o fato de que tenho acesso a todas as suas redes e sistemas. — de subto, enfiei a mão no bolso do sobretudo que a vestia. A impressão era de que sua vida passou diante de seus olhos, dessa vez pensei que ela desmaiaria.. — Não vou permitir que você tenha contato algum com seus amigos. Não faça nada idiota, pois a cada passo que você der, eu estarei te observando. — a entreguei o digivice.
Quando Inoue estava prestes a atravessar o portal, obediente como uma andróide reprogramada, lembrei-me de um detalhe… Meu sobretudo ainda estava a vesti-la. Eu poderia apenas ter ordenado que ela o retirasse e jogasse em qualquer lugar, mas não contive o ímpeto de brincar um pouco mais com seu medo..
— Espere! — Péssima decisão! Tive segundos de sobra para desistir, enquanto dava vagarosos passos até parar rente a ela. Mas a excitação de saborear seu pavor novamente me venceu. Aproximei os lábios de seu ouvido para lhe desferir mais ofensas e, observei sua pele eriçar.
Enquanto a desdenhava perdia-me secretamente em sua fragrância. Não me recordo desde quando possuo a habilidade atípica de farejar o medo nos meus inimigos, sei que isso sempre me causava deleite, mas nunca neste grau… É como se eu não estivesse no controle dos meus atos e me deixei guiar para suprir a sede de ampliação dessas sensações.
— Isto… — Segurei as bordas do sobretudo e o deslizei morosamente pelos ombros e braços de Inoue, as pontas dos meus dedos roçavam contra a sedosidade de sua pele. — Fica comigo. — Eu a depreciava ao passo que segurava o ímpeto de colar nossos corpos e explorar mais de suas formas, afundar as narinas contra sua nuca, orelha e pescoço e inalar o máximo do seu cheiro. A ânsia de morder sua carne corria pelos meus dentes… — Ordenarei que caprichem na lavagem.
O monitor brilhou e ela desmaterializou-se. Era justo, afinal foi uma ordem minha. Respirei fundo e desabei sobre a cadeira buscando o ar com dificuldade, sentindo a calidez flagelar todo meu corpo. Quando apercebi-me já estava com o nariz enterrado naquele sobretudo a inspirar mais do cheiro deixado por ela. Não resisti a apertar o torturado membro petrificado que doía a cada pulsar. Dessa vez foi impossível lutar contra os instintos primitivos e me vi obrigado a buscar um alívio profano.
A retrospectiva de cada momento desde sua chegada à base me aguçava mais. As infinitas possibilidades e devaneios sobre tudo o que eu desejei fazer com ela. A memória corporal de esmagar-lhe as formas… tudo isso ia me alucinando enquanto eu dava ao meu corpo o toque que tanto carecia. Não demorei a culminar no mais intenso ápice, e alí fiquei largado como um trapo. Sem forças, sem capacidade de raciocinar, remoendo, envergonhado e enojado de tal atitude.
...
Lá estava eu, chegando na nova universidade. Ganhei uma carona do meu pai, inclusive, creio que não mencionei que recentemente discutimos devido à minha decisão de largar o futebol e mudar para uma instituição de ensino inferior. A verdade é que desejava sair de casa desde os 15 anos e não saí até hoje devido às crises da minha mãe. Não que lhe tenha alguma estima, mas não faria bem para minha imagem se ela cometesse alguma loucura.
Mesmo à contragosto, creio que ele decidiu ver de perto minha nova escolha. Durante a fatídica discussão, talvez eu tenha ferido seu orgulho ao dizer que a fonte não iria secar, pois eu não recusaria participações em eventos, publicidade e que inclusive já tinha apresentado um projeto de app inovador para uma renomada empresa. Esse App prometia memória ilimitada, seu nome era Buraco Negro, realmente cumpria sua promessa, mas trazia para o Mundo Real o efeito de Torres Negras. Uma vez aprovado e divulgado além de render alta monetização vai elevar meu prestígio e me dar liberdade de trazer escravos para realidade.
Focando no que realmente importava naquele momento, secretamente convoquei uma coletiva de imprensa, como se fosse um anônimo que descobriu sobre a mudança de “Ichijouji Ken”. Assim, quando desci do carro, uma algazarra já se instalava no local. Os alunos apartados da novidade, aglomeravam-se curiosos. A reitoria não tinha palavras para se desculpar.
Diplomaticamente, aleguei não estar ofendido e sugeri que a instituição abrisse as portas para os repórteres. Obviamente a reitoria glorificou a iniciativa, pois seria publicidade gratuita e positiva para instituição. Por mensagens de texto no celular, descobri que Inoue já havia chegado. Preparei-me para saborear mais um de seus momentos de surpresa.
Articulei perfeitamente o momento, ordenei que viesse me receber. Do centro de todo caos a avistei perdida a procurar por alguém que não conhecia. Qual não foi seu choque ao ouvir minha voz. Prontamente ficou petrificada e segurei em sua mão a levando para o núcleo de tudo.
Aturdida, com o espaço pessoal violado, exposta e certamente partida pela queda de seu ídolo, Miyako estava pálida e gélida. Os burburinhos maliciosos tiveram início, pois até ontem era namorada de Izumi. Mantive a pose do ser idealizado por ela e aquelas fangirls imbecis. Respondi todas as dúvidas e deixei os repórteres e a ”plateia” emocionados.
Quando toda a baderna se dissipou e restamos apenas nós dois, Inoue se julgou no direito de me condenar. Um despropósito, afinal, as pessoas me idealizam, veem em mim o que querem ver, pedem para serem enganadas e eu ainda tinha de responder por isso?
Passeamos por todo o Campus, enquanto eu fazia questão de lhe mostrar no celular as primeiras notícias que já surgiam online. Como já ressaltei, a mídia sensacionalista caiu matando em cima da pobrezinha a acusando da minha escolha duvidosa. No grupos de fangirls dos quais ela já fizera parte, as ofensas eram as piores possíveis. A inveja e malícia eram palpáveis.
Toda garota quer ser famosa, não? Dei isso à ela e agora Inoue estava jogada aos lobos. Ofenderam suas roupas, seu corpo, cabelo, fizeram memes e montagens e até mesmo invadiram seu perfil pessoal, onde a achincalhavam e até ameaçavam. Isso num curtíssimo período de tempo.
— Você não tem noção do que fez? — indignou-se arrastando-me para uma sala desativada no último andar do pavilhão onde estávamos. — Não prejudicou somente a mim, mas minha família foi exposta e terão fotos stalkeadas e vazadas, meus amigos e não somente os Digiescolhidos.
— Consequência dos seus próprios atos. Você deveria saber que uma ação provoca reação que influencia todo o meio, quiçá todo universo.
O local era uma sala de música antiga e abandonada com poeira a se acumular, me causando ardência nos olhos e início de rinite alérgica.
— Então pra você está tudo bem ruir com a privacidade de desconhecidos, só para me mostrar a culpa por minha impulsividade?
— Sua afirmação é procedente. — respondi sem circunlocuções.
Ela maneou a cabeça negativamente.
— Um ser superior jamais desceria tão baixo apenas por uma mera vingança. — cuspiu enfática.
— Mais um acréscimo para sua conta. Eu jamais desceria, Inoue, mas você passou de todos os limites e me fez decair, então, meus parabéns. Eu poderia dizer que você criou um monstro, mas como você insiste em alegar que eu sempre fui… Pode-se dizer que você soltou as correntes do monstro e o trouxe para próximo dos que você ama. E agora?
— Eu que pergunto, e agora? O que mais você quer de mim? Já não poderei respirar sem ser observada e julgada. À essa altura minha família já me prepara uma bronca colossal, provavelmente estão decepcionados comigo.— pausou tentando conter as lágrimas.— E agora, seu monstro?
— Não pretendo dar spoilers… — fui interrompido com a abrupta chegada de Izumi.
— Miyako-san? — adentrou a sala de uma só vez, como se fosse o herói de armadura indo ao resgate da donzela indefesa. Estava suado, desgrenhado e ofegante.
Inoue pareceu levar um tiro, seu rosto mudou de cor. Confesso que também fui pego de surpresa.
— Koushiro-kun? Como me encontrou? — questionou incerta.
— Isso não importa. Precisamos conversar sobre ontem, sobre… — olhou-me desacreditado. — Sobre tudo!
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