Inimigos Íntimos
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Notas iniciais
Era tempo de batalhas pesadas, Kaiser havia implantado diversas Torres Negras e o efeito nocivo delas estava se espalhando rapidamente pelo Mundo Digital. O local ao entorno das grandes colunas escuras estava enegrecendo, apodrecendo solo e vegetação, absorvendo toda a força vital local.
— Quero fazer algo, Wormmon, não posso ficar em casa repousando e não tenho coragem para oferecer ajuda aos Digiescolhidos. — Ken cerrou os punhos, observando de longe a contaminação das trevas se estendendo gradativamente.
— Eu posso ajudar, Ken-chan. Não quero que você pense que sou inútil. Confia em mim, eu sou seu parceiro. — a pequena lagarta esverdeada pontuou com convicção em seu tom infantil.
— Eu confio em você, amigo… não sei se confio em mim. — mirou o digivice negro em sua mão.
Era negro? Não mudou de cor e, desde quando a bondade era negra? E se em seu âmago ainda existisse um tirano sanguinário só esperando para retornar mais insano e letal. E se Wormmon digievoluisse e surgisse um ser das trevas mais poderoso do que o Kimeramon?
Envergonha-se em ter que admitir para o amigo, que ainda possuia duvidas em seu coração, mas Wormmon entendia e não o sufocaria, ele faria o que já fizera por tanto tempo, o esperaria.
Naquele dia, munido de HDs e uma grande mochila, Ichijouji vagou com seu parceiro pelos escombros da antiga base e coletou o maior número de informações que pode, ao retornar para casa resolveu investigar atentamente os males que o acometeram enquanto Kaiser, desconfiava que havia um Digimon por trás de tudo aquilo.
E parando para raciocinar, não se lembrava de ter mesmo pensado no projeto do Kimeramon, como exatamente foi ter aquela idéia e começou mesmo a questionar se ela tinha sido mesmo sua ou se foi levado a pensar que era e acabou executando o plano de outro, como uma marionete.
Não pode deixar de lembrar do desdém que sofrera por parte do digimon quimera, ele se recusou a obedecê-lo como se esperasse por um mestre a altura. Cada informação que resgatava o fazia crer que fora um mero pião, um precedente para algo maior, afinal mesmo que estivesse curado, a corrupção das trevas se alastrava pelo Mundo Digital.
Então era isso, ele foi manipulado esse tempo todo para construir as torres negras e o Kimeraon? E agora era descartável e por isso nada mais lhe aconteceu? Por quê? Quem faria tal coisa? Seria a tal aranha gigante.Seja quem ou o que fosse não passaria impune, ois o fez perder muito.
…
— Você precisa contar a verdade para ele quanto antes, querido.— Sra. Ichijouji aconselhou preocupada.
— De qual verdade vocês estão falando? — o casal é surpreendido por Ken, que saira das investigações em seu quarto para tomar um pouco de água, encontrando os pais conversando sentados na mesa da cozinha.
— Bem… sente-se conosco. — Sr. Ichijouji convidou, puxando uma cadeira para o jovem se sentar. — Onde está seu parceiro?
— Adormeceu vendo televisão.— revelou com um meio sorriso e os pais o acompanharam no divertimento, brevemente.
— Eu não quero que você se sinta mal ou se culpe até porque de nada adiantaria — começou o patriarca e Ken enrijeceu o corpo, esperando pelo pior. — Estou oficialmente afastado das minas funções na polícia, continuarei a receber normalmente, mas diante das investigações a respeito do seu caso…—confessou enfim.
Um silêncio incomodo preencheu o ambiente. Ken se manteve firme se lembrando das palavras de Miyako de não fazer um discurso vitimista, afinal foi recomendação do próprio advogado escolhido por seu pai para representar seu caso, que ele enviasse uma confissão para a polícia.
Respirou fundo e segurou a vontade de corar, gritar e se culpar, pois isso só traria mais dor e desespero e seria um desrespeito com a decisão de seus pais em permanecer ao seu lado.
— Serão tempos difíceis… Eu agradeço por tudo o que estão fazendo por mim e peço desculpas.
— Não se preocupe, no fim a culpa não é somente sua. — Admitiu a mãe, pontuando as fases de negligência familiar que levaram as coisas onde estavam.
— Em breve as pessoas vão começar a perguntar, sabe? Os vizinhos… Sobre o meu retorno e as férias estendidas do meu pai. Sei que uma hora meu caso vai explodir.
— De fato.— concordou a mãe. — Sua avó tem uma pequena pousada nas termais, talvez você não se lembre, pois faz muitos anos que fomos passear por lá, quando…— ela parou, mas ele sabia que ela diria que era quando Osamu estava vivo. — Enfim; ela nos conseguiu um emprego por lá e…
— Vamos morar no interior? Como uma fuga? A senhora deixou seu emprego, suas amigas?
— Família vem antes de amigos. Alguns amigos te rodeiam em momentos de glória e te abandonam quando você mais precisa, te viram as costas, lançam palavras cruéis. Você e o seu pai são o que realmente importam para mim. — assegurou com um sorriso.
— Até mesmo o mais destemido guerreiro deve saber a hora de recuar e deixar suas tropas recuperarem as forças, elaborar estrategias… Talvez precisemos recuar e não precisa ser para sempre.
— Mas… como eu posso ir para a calmaria das montanhas e deixar a Miyako sozinha. Ficarei resguardado dos cochichos, apontamentos e ataques, das especulações e ódio coletivo, mas tudo vai recair sobre os ombros dela.
Houve um longo silêncio constrangedor. A família sabia que mesmo se Ken inocentar Inoue em entrevista, a perseguição recairia violenta sobre a garota.
— Então… Case-se com ela e leve-a conosco. — simplificou a mãe como se fosse algo completamente obvio.
Ken engasgou cuspindo a água que estava bebendo. Aquilo era um absurdo! Como poderia pedir que ela desistisse da faculdade, dos sonhos para o futuro para ir para o interior consigo e sua família? Entendia que com a sua formação no ensino médio ambos poderiam conseguir um emprego, mas… Isso seria um adeus a vida universitária.
— Se vocês quiserem futuramente podem passar um tempo em outro país, por lá não precisa ser jovem para fazer faculdade e é completamente normal as pessoas fazerem faculdade até depois dos 40 anos e evoluírem nas carreiras.— incentivou o detetive.
— Casar… Isso é meio extremo, eu acho… Ela iria rir da minha cara… Não iria? — considerou coçando o queixo e arrancando risadas dos pais.
— Filho, se essa garota te ama o quanto aparenta, ela vai aceitar sem pensar. Vocês são muito jovens e o afastamento dos estudos pode ser visto como um período sabático, que muitos tiram quando estão indecisos sobre o que querem cursar.— explicou recebendo apoio da esposa. — Será o período exato para lidar com os trametes das investigações e, tendo em vista que você é réu primário e o seu estado mental, não corre o risco que você carcere.
— Eu realmente não sei se quero propor isso a ela assim tão de repente, eu…
— Não a ama? — questionou a matriarca.
— AMO! — respondeu prontamente, sem qualquer dúvida. — É que… Tudo está acontecendo ao mesmo tempo, no mundo real, no Mundo Digital e ela também está exausta e tem a família dela também.
— Ei, calma! Foi só uma ideia, já que você mesmo diz que a jogou nesse turbilhão de perseguições e gostaria de protegê-la. Faça tudo de acordo com seu coração e quanto a família dela… esse será um confronto inevitável.
…
Uma mudança temporária para o interior não seria uma má ideia. Pensando bem, um casamento também não. Queria mesmo salvá-la, mas não gostaria de dizer a ela que a única forma de fazer isso seria atando-a a sim para o resto da vida, embora divórcios se tornem cada vez mais comuns.
Terminou de ajeitar tudo o que precisava em uma das suas antigas bases, a que existia dentro da bolha dimensional. Após ter se reencontrado com Miyako e conversado com ela, decidiu que usaria aquele local para suas investigações e também para quando precisassem se encontrar.
Existiam muitos materiais que gostaria de mostrar a ela, as gravações alteradas do dia da transformação de Shurimon era uma delas. Não podia negar que sentia certo desconforto em lidar naquele local ao se lembrar de Kaiser, mas precisava ser mais forte do que isso.
Combinaram o encontro como o anterior, mas dessa vez ele a esperou no porão e quando ela se materializou em frente ao PC, seu coração congelou ao vê-lo sentado na cadeira de Kaiser, talvez ele tivesse voltado a ser como antes?
O pensamento logo se desfez quando ele a cumprimentou meio desajeitado e cedeu o lugar para que ela se sentasse, assim ela o fez. Ken foi prontamente colocando as filmagens recuperadas e mostrando que a manipulação sofrida foi muito além de mental.
Ela arregalou os olhos ao mirar as filmagens e ouvir as palavras horrendas que saíram de sua boca, levantou-se na defensiva, socando a mesa.
— Eu jamais diria algo assim! — defendeu-se furiosa.— Mas essa manipulação é muito física para ser o poder das trevas.
— Sinto muito por ter e deixado levar por isso e tem mais…— ele mostrou supostas mensagens trocadas entre ela e Izumi, da época que Agumon escapou da base entre outras informações, mas a impediu antes que ela se defendesse. — sei que essas são falsas também.
Ficaram por muito tempo vendo provas quase substanciais de que Miyako tinha armado para levar Kaiser ao real, onde ele seria levado para uma instituição de tratamento mental, havia históricos de conversas entre Inoue e Sr.Ichijouji, e-mail do detetive para a suposta clínica, áudio de ligações.
A moça arregalou os olhos e congelou por instantes; sofrera todo abandono, a traição, a dor de ser usada, manipulada e descartada, porque primeiramente Kaiser sofrera o mesmo… Mesmo que Ken lhe falara sobre a manipulação sofrida, ela nunca imaginaria que tivesse sido tão cruel.
— Então você também passou por tudo o que passei e pior; sozinho? — seus olhos marejaram em entender o quão profundamente o rapaz fora quebrado.
— Sim… Primeiro eu estava num escuro e no frio sem fim, me afundando, sufocando sem ter como reagir, onde me agarrar. Você me resgatou aos poucos e me fez sentir acolhido, amado, importante, me dando forças para escapar das trevas…— e foi a vez dos olhos de Ken se encherem de lágrimas.— Muitas vezes eu senti que aquela sede de destruição e poder não era realmente minha e quando finalmente decidi ir contigo, veio esse mar de informações, eu só me lembro de entrar em surto.
— Eu entendo, entendo completamente. Quem pode ter nos causado tanta dor? Alguém que espreitava no escuro e deixou nossos sentimentos evoluírem para depois usá-los contra nós, o ápice do amor é semelhante ao ápice do ódio.
— Pensei exatamente o mesmo! Nosso envolvimento foi o combustível para arrancar de mim toda energia necessária para os planos dessa pessoa. Quando me senti enganado encontrei o topo da insanidade e perdi todo o receio de usar o poder das trevas.
— Você está com medo de ser manipulado novamente? — questionou horrorizada.
— Não, acho que não tenho mais importância, o que me faz pensar que o manipulador conseguiu o que queria.— concluiu sem medo de ser realista.
— Mas se era o Kimeramon, ele foi derrotado.— observou Inoue.
— E se forem as Torres Negras? — deduziu o jovem.
— Então… Estamos indo ao Mundo Digital incessantemente para derrubar as torres, tanto que estamos exaustos. — lembrou a atividade que incluia até mesmo os veteranos.
— Sobre isso… Penso que as Torres que vocês estão se esforçando para destruir são meras distrações e existem algumas que realmente precisam de atenção, mas estão escondidas.
— O que você quer dizer?
— Então, Izumi-san me mostrou o mapa de locais onde vocês destruíram Torres Negras e verifiquei que em certos locais outras desapareceram sem serem derrubadas e ao investigar pessoalmente vi que elas sugaram toda a vida local antes de sumirem misteriosamente. — revelou sério e Miyako endireitou a postura ao ouvir falar em Izumi.
— Você tem falado com o Koushiro-kun? — questionou desconsiderando toda a importância da informação fornecida.
— Bem…— coçou o queixo, embaraçado. — Durante a sua viagem para os EUA, ele esteve aqui em casa para conversar e acabamos nos desculpando e chegando a um acordo, desde então estamos trocando muitas teorias e informações.
Ela sorriu balançando a cabeça negativamente, aquilo era mesmo a cara de Izumi, desfazer as inimizades por um bem maior. Por mais insano que fosse, ela sempre imaginou que se a situação fosse outra, o dois se dariam muito bem e ver isso acontecendo era gratificante.
— E sobre a missão nos EUA, como foi? Izumi contou que ele e os veteranos foram salvos por vocês, mas não deu detalhes.
— Bom… Aqui está muito frio e já vimos tudo o que tinha para ver. Vamos para o quarto, eu te conto como foi a viagem e você me conta como foi a conversa com Koushiro-kun e sobre suas descobertas recentes. — sugeriu se levantando.
— Por mim, tudo bem. — sorriu sentindo a face arder.
Não entraram em nenhum contato íntimo desde que se acertaram, ambos estavam com a cabeça cheia e ocupados demais em recuperar o Mundo Digital, mas ficar sozinho com ela naquele quarto lhe enchia de ideias, ainda mais depois de seu pai ter falado em casamento.
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