Inimigos Íntimos
23 Recuperação
POV Kaiser
Após aquele incidente nas dimensões sombrias, Inoue não volta ao normal, mal consegue dormir ou comer, não quer ficar sozinha, me vi obrigado a mandar Bakemons não só para substituí-la, mas a mim também e meus planos de deixar os digimbecis ocupados, foi gloriosamente bem sucedido, porém, eu também estou com o tempo todo tomado e não sei o que fazer para cuidar desse problema. Uma semana se passou e ela parece outra pessoa, nem menciona seu parceiro, amigos ou família, fala pouco e mal se levanta da cama.
Detesto me sentir completamente impotente e tento pensar em uma forma de fazer com que Inoue volte ao normal, mas o fato é que ela tem tomado muito do meu tempo, está sempre agarrada em mim, com medo até da própria sombra e isso me deixa exausto, as vezes preciso dopá-la para conseguir ter algum tempo de sono, mas não poderei fazer isso para sempre. Definitivamente entendi o quanto exagerei naquele castigo e que agora estou pagando pelos meus erros.
A deixei dormindo e segui para minha sala de controles, pesquisei tudo o que pude a respeito de traumas muito fortes, também dei atenção a expansão do meu território, que por sinal estava ameaçado, os Digimons continuavam se unindo contra mim, os megas surgiam cada vez com mais frequência e eu sabia na necessidade de desenvolver um Anel Negro mais potente, contudo, minhas exaustão não me deixava raciocinar corretamente e… Ela? O que eu poderia fazer a respeito dela?
Me perdi em minhas pesquisas e meus dedos chegaram a doer, minha visão embaçar, li tudo o que encontrei sobre o assunto e minha cabeça ainda doía. Devo confessar que, um lado meu estava apreciando o fato dela não se lembrar da existência de mais ninguém, dormir tão agarrada a mim como se nada no mundo importasse, mas por outro lado… Ela estava doente, muito.
Me ajeitei em minha cadeira e descansei as mãos sobre o teclado, quando movi minhas pernas pude sentir algo quente contra meus pés, quando voltei meu olhar para o chão, não pude acreditar na visão que tive.
Quando foi que ela chegou aqui? Eu tinha a colocado para dormir. Meu Kami! A minha sala de controle estava gelada, o chão principalmente e Inoue deitada como se fosse um animal de estimação contra os pés de seu dono. Ela vestia apenas uma camisola longa de manga comprida, mas de tecido fino.
Me abaixei de pronto e a recolhi daquele local, seu corpo estava frio, os cabelos gelados como se estivessem molhados, eu realmente já não sabia mais como me comportar diante daquela situação, era só o que me faltava, ela além de estar dessa forma, pegar uma gripe forte.
A ergui em meus braços e segui com ela para a o quarto, depositando-a sobre os lençóis e cobrindo-a com o edredom, verifiquei se seu sono estava pesado e me dirigi para um banho. Era para ela ser minha escrava e de início, tudo ocorreu dentro dos planos, mas não sei como as coisas foram ficando dessa forma.
Durante o banho eu penso em várias coisas, meu império ameaçado pela minha falta de capacidade de me concentrar no desenvolvimento de um Anel mais potente e ela… A garota que eu odiava? Eu queria desgraçá-la de todas as formas e agora ela nem sabe quem é e eu não sei o que fazer com ela.
Isso quer dizer que um dos planos deu certo? Então porque eu a quero de volta? Essa pessoa que está aqui não parece nada com a garota que conheço e enfrento a quatro anos, aquela que teve a ousadia de debochar de mim em nosso primeiro confronto. Isso deveria ser uma vitória? Então o que eu faço com ela? Porque não sinto realização alguma?
Saio dos meus devaneios e finalizo meu banho, me seco e visto um pijama, escovo os dentes e sigo para minha cama, ela já está virada de forma que ocupa quase a cama toda.
É um fracasso ter que admitir para mim mesmo, mas eu a queria de volta e não essa criança amedrontada que dorme sobre a minha cama agora, tão vulnerável e completamente indefesa. A ajeito em seu lugar, enquanto me lembro de como ela costumava ser petulante, atrevida, é como se estivesse possuída por outra pessoa, fico pensando como posso trazê-la de volta.
Me deito sobre a cama e ela se aconchega em mim, deitando a cabeça contra meu peito. Essa semana me parece que seus pesadelos diminuíram, mesmo assim ainda acorda com muita frequência.
Sei que se ela voltar, vai ser como antes, perguntar pelos amigos, família, por seu parceiro e vai pensar naquele imbecil do Izumi, lembrar disso me enche de ódio. Queria que ela se submetesse a mim, fosse obediente, me aceitasse como imperador, talvez o centro de sua vida, compreendesse minha superioridade, mas agora que tenho tudo isso eu me sinto vazio, quebrado, como se tivesse a matado e essa fosse uma boneca sem alma.
Não me lembro de já ter me sentido tão exausto assim antes, contudo, é bom sentir a fragrância dos seus cabelos e sua respiração contra minha pele, não consigo evitar de deslizar meus dedos nos fios compridos, imaginando que quando tudo isso acabar e eu a trouxer de volta talvez sinta falta desses momentos…
(...)
Acordei, após um sono pesado e necessário, senti os dedos de Inoue correndo pelos meus cabelos e abri os olhos para encontrá-la sentada sobre os calcanhares, me olhando. Creio que isso seja uma evolução, ao menos ela não acordou gritando de panico ou não está encolhida chorando e talvez fale alguma coisa.
Duas semanas… E ela fica nesse quarto o dia todo, as vezes chora por horas, não fala comigo e nem com Wormmon, nem sequer reagiu a visita de seu parceiro, quando não está chorando fica sentada, abraçada aos joelhos, com o olhar preso no nada… Hoje ela fez algo diferente, talvez fale comigo? Talvez se lembre de tudo, mas esteja fazendo tudo isso para me castigar? Não, preocuparia seu precioso parceiro, apenas para me dar uma lição.
Esfreguei meus olhos e me sentei encarando-a, definitivamente ela não estava fingindo. Como sabia que ela não iria falar comigo, me levantei e fui fazer minha higiene matinal, contatei Guardromon para que trouxesse o café da manhã, o qual tomei em sua companhia.
Creio que estava na hora de seguir os conselhos de Wormmon e levá-la para minha primeira base, o local está revestido por uma cúpula refletora, bem codificada, sem qualquer possibilidade de ser rastreada ou encontrada por algum inimigo, situando-se em meio a uma densa floresta.
Não tenho muitas lembranças de como encontrei aquele local, me lembro de na época estar acompanhado por um garoto mais velho, de cabelos castanhos, mas as lembranças são vagas. O local se assemelha muito a uma casa campestre, estilo ocidental, rústica, embora em seu porão exista rica tecnologia o que me permitirá continuar meus estudos e planos.
Como o local é protegido e tem rica vegetação ao em torno, Inoue poderá ficar livre para explorar. Pelo que eu li, lugares com natureza bonita são recomendáveis para pessoa que se recupera de traumas. Deixarei Wormmon no comando dessa base, me passando todas as informações, o que me tranquiliza é saber que por um bom tempo os Digiescolhidos não darão as caras por aqui.
Informo minha decisão e passo as ordens para meus escravos, decidi levar o parceiro miserável dela, talvez tê-lo por perto desperte algo que a traga de volta, dado a isto decidi deixar seu dispositivo digital, guardado em segurança.
Pedi que Bakemon me trouxesse algumas roupas dela, mas as configurei para vestidos leves e compridos, não creio que seja uma boa idéia roupas que me lembrem o quanto suas curvas são perturbadoras, não quero ter que ficar devaneando com ela estando neste estado, parece algo muito deprimente.
Tudo preparado, peguei as coordenadas e a levei comigo até Devidramon, por via das dúvidas ordenei uma escolta, mesmo que todo perímetro já tivesse sido averiguado várias vezes.
Nos embrenhamos pela floresta, o parceiro de Inoue seguiu voando ao nosso lado, havia uma pequena cachoeira cuja passagem ficava após a queda d'água, apenas Devidramon e Hawkmon seguiram ao meu comando, o voo de meu escravo foi tão veloz, que nem nos molhamos muito.
Lá estava o local que há tantos anos eu não vinha, é como se fosse uma ilha, mas em vez de água em torno existe uma barreira de dados, como os limites de jogos, mesmo assim o local é tão amplo quanto um bairro de tamanho médio.
Ao centro de toda beleza natural encontra-se a base, ou ao que parece, uma casa de campo. Confesso que nunca cogitei a possibilidade de voltar aqui, ainda mais com Inoue, mas no momento é onde ela precisa estar, então que seja.
Devidramon pousou e eu desembarquei, a descendo em seguida e ela teve uma reação positiva, andou alguns passos para frente e girou, olhando maravilhada para todos os lados, em seguida deu uma risadinha sonora e saiu correndo em meio as flores, sendo seguida por seu parceiro.
Não pude deixar de ficar hipnotizado com a visão dela correndo em meio as flores, seus cabelos longos, lilases esvoaçando e contrastando com todo aquele verde e o colorido das flores, ela abriu os braços e girou lentamente sob uma chuva de pétalas coloridas, cujo uma forte rajada de vento causou, aquela cena pareceu passar em câmera lenta, seus movimentos graciosos, o balançar de seu vestido e o sorriso lindo que se desenhou em seus lábios.
Parece que foi mesmo uma boa idéia, aquela expressão apática já se foi de seu rosto com o primeiro contato com o local, tenho certeza que se ela gastar suas energias explorando os arredores, a noite vai dormir feito um bebê e isso vai me dar tempo para voltar aos meus planos.
A deixei livre, enquanto subi as escadas e me sentei em uma cadeira na varanda, um fragmento de memória me abateu, ouvi a voz de um garoto chamando meu nome, dizendo como aquele local era incrível. Fico pensando se esse garoto das minhas memórias de fato existiu ou é mera imaginação. Balancei a cabeça negativamente, saindo.
Entro no local, deixando Inoue em companhia de seu parceiro, vasculho todo o local, verificando quais alterações precisam ser feitas, sigo para o meu quarto e arrumo algumas coisas no guarda roupas, em seguida vou para onde Inoue ficará com seu parceiro, organizo suas coisas.
Me perdi por um tempo na organização e quando me dou conta o sol já está se pondo, saio a sua procura e a encontro sentada em uma pedra às margens de um pequeno lago, Hawkmon está pousado em um galho ao seu lado.
Ela parece estar compenetrada na paisagem, o sol alaranjado reflete nas águas trêmulas e a brisa calma balança seus cabelos. Não consigo interromper o momento, o Digimon pássaro voa até mim, não causando reação alguma em sua parceira.
— Ela não falou nada, mas parece ter reagido positivamente. — Ele diz o obvio, me deixando irritado.
— Isso eu percebi, seu imbecil! — Sou ríspido.
— Então já usou toda sua genialidade para bolar um plano para trazer minha parceira de volta? — Soa tão atrevido e petulante quanto a parceira.
— Você a conhece bem, sabe essas bobagens de músicas, comidas e filmes preferidos. Eu li que essas besteiras, tragas naturalmentes para o cotidiano, podem ter bons resultados.
— Então quer mesmo trazer ela de volta?
— Não, saí da minha base porque estava a fim de tirar umas férias com vocês dois.
— Porque você quer a Miyako-chan, de volta? É muito trabalho somente para pisar, humilhar e destruir a vida dela, não faz sentido.
— Era só o que faltava, eu ter que explicar meu motivos para um monte de dados idiota. Não se dê mais importância do que tem, fique sabendo que aqui pode parecer inofensivo, mas tem um porão tão confortável quanto a sua cela.
Não fiquei para esperar que ele retrucasse, o que tenho tenho certeza que faria sem pestanejar, segui até Inoue e a chamei, tirando-a de seu transe.
— Vamos entrar, está ficando frio.
No entanto ela me olha, mas não se levanta, afasta seu corpo e me olha colocando a mão sobre o lugar que vagou, assinalando para que eu me sentasse ao seu lado. Engoli certa quantidade de saliva e não soube bem o que fazer, ela fixou seu olhar em meu rosto, esperando pela minha reação.
Talvez isso ajude em alguma coisa, vai saber. Melhor tentar, talvez ela fale algo.
Respirei fundo e caminhei até a rocha, me sentando ao seu lado e ela enlaçou nossos braços, segurou minha mão e aconchegou a cabeça no meu ombro. Respirei fundo, olhando de canto para ela, só queria saber o que estava pensando naquele momento; o silêncio era quebrado apenas pelo som do vento balançando a relva, aos poucos a paisagem alaranjada e se tornando rosa, violeta até adquirir o azulado da noite.
Ela soltou um longo suspiro, ainda silenciosa, enquanto as cores se transformam, senti meu peito apertado, quente, com uma sensação que não sei explicar, não posso compreender, aquele gosto de nostalgia, misto a sensação de ter seu corpo assim tão próximo, sua mão segurando a minha, tão forte, são coisas muito simples para causar um impacto tão forte. Porque? Porque estou me sentindo assim?
— Não quero ser chato, mas estou ficando com fome? Tem comida nesse lugar? Não vai me dizer que é você que faz?
Sou tirado dos meus pensamentos, pela aquela ave insolente. Quem esse verme pensa que é para debochar de mim? Só não o arrastei para o porão, porque eu também estava com fome. Aproveitei que Inoue estava com a mão enlaçada a minha e a puxei, levantando-a e levando-a em direção a casa.
Realmente a comida seria um grande problema, por hoje eu trouxe Cup Noodles, é só colocar água e pronto, mas amanhã eu teria trabalho com isso, nunca me vi tendo que cozinhar e Digitamamon me serve por lealdade e não usa um Anel, não quero que ele saiba a localização deste local. Droga, vou ter que me virar com receitas. Que humilhante!
Sigo com Inoue para dentro e ela se senta em uma das poltronas, coloco a água para esquentar e arrumo a mesa, ouço o Digimon mexendo na televisão e colocando em um desenho animado. Fico imaginando a que nível eu caí, mas a culpa foi minha, por ter escolhido um castigo daquele porte para ela, agora, mais do que nunca vou fazê-la se recuperar e esquecer que passei por isso.
Organizei a mesa, de maneira simples e os chamei para o jantar.
— Sério mesmo, vamos comer Cup Noodles? É assim que quer trazer a Miyako-chan de volta? Que brilhante!
— Escuta aqui, seu verme imundo, ridículo! É nosso primeiro dia aqui, fui organizar nossas coisas, vou fazer comida, se é o que você quer saber, mas não hoje.
— Você vai cozinha pra nós? Penso que Cup Noodles é mais seguro.
— Como se atreve? Não precisa comer da minha comida, você é um pássaro, porque não vai lá fora e procura umas minhocas, frutas? — Era só o que faltava, esse idiota petulante, só está vivo por causa da parceira e fica brincando com a sorte.
— Eu vou comer, mas só para que a Miyako-chan, não coma sozinha.
Estava a ponto de quebrar o pescoço daquele imbecil, talvez fosse melhor ter deixado ele em sua cela, o encarei semicerrando os olhos e ele fez a mesma coisa, de forma que o clima carregou, chegando a sair faíscas.
Neste momento ela deu uma risadinha, o que nos fez parar e olhar em sua direção, já havia terminado sua refeição e parecia se divertir com a discussão. Voltei minha atenção para o alimento e terminei rapidamente, o Digimon idiota, fez a mesma coisa.
Depois do jantar, a acompanhei até seu quarto e mostrei onde tinha organizado suas coisas, onde ficava o banheiro, em seguida a deixei e fui procurar pela minha nova sala de controles, que ficava no porão, precisava de alguns reparos e ajustes, mas por hora estava bom.
Fiquei algumas horas organizando o local, recebi contato de Wormmon, com dados da base e em seguida dos Bakemon, relatando o dia no colégio e em casa, tudo tranquilo, ninguém desconfia de nada. Procurei e imprimi algumas receitas faceis para fazer no dia seguinte, pelo menos assim aquele vermezinho vai buzinar menos no meu ouvido.
Após finalizar minha atividades na nova sala de controles, subi para tomar um relaxante banho e enfim poder dormir, descansar de toda essa agitação do dia. Arrumei minha cama e me aconcheguei nela, já sentia meu corpo relaxando e o sono me roubando, quando ouvi um barulho.
Abri meus olhos e encontrei Inoue, parada na porta, com um travesseiro na mão, me olhando como se pedisse um lugar ao meu lado. A luz da janela aberta refletia nela, pude ver que vestia uma camisola longa, branca, de alça fina, que tomava a coloração azulada devido a cor da noite.
Me ajeitei na cama, dando espaço a ela, que sentou-se, colocando o travesseiro ao lado do meu, tirei seus óculos e coloquei sobre o criado mudo, nisso, ela toca meu rosto com as pontas dos dedos e se aproxima de mim, o seu toque quente, faz com que me arrepie da cabeça aos pés. Deslizo minhas mãos pelos seus braços e acaricio seus ombros, sentindo toda maciez de sua pele.
Uma brisa suave, entra pela janela fazendo as cortinas esvoaçarem e seus cabelos também, fazendo com que seu cheiro se torne marcante no ambiente. Nos aproximamos de forma que a pontinha dos nossos narizes se encostaram e sinto seu hálito doce; engulo um pouco de saliva, me prendendo em seus orbes âmbares brilhantes. Inoue, eu não posso te beijar. Você não está aí… Milhares de questionamentos sobre certo e errado se passam pela minha mente, mas jogo-os para longe, quando ela passa seus braços em volta do meu pescoço e me puxa para si.
Nada mais importa, nossos lábios se encontram naquele contato macio, escorregadio e intenso. Nossas línguas se buscam, se enroscam, se acariciam, e só consigo apertá-la forte contra mim, sentindo nossos batimentos descompassados. Não faça isso comigo Inoue, eu sei que você não está aqui, mas não consigo parar...
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