Inimigos Íntimos
56 Projeção
POV Miyako
Subi para meu apartamento e cheguei bem depois do jantar, minha mãe assistia dorama na sala e meu pai estava em seu escritório, Momoe fazia as unhas e Chizuru e Mantarou com certeza estavam fazendo algum trabalho de escola e faculdade.
— Oi querida, seu jantar está no forno. — minha mãe avisou atenciosa.
— Obrigada mãe, mas eu tomei um chá com os Ichijouji, estou sem fome.
— E como foi lá? — Momoe pergunta me olhando por cima dos óculos.
— Bem, foi triste, sentem falta do Ken. — me limito a dizer o menos possível. — Se me dão licença estou muito cansada, preciso de um banho demorado. — de tudo não era mentira.
Fui para o meu quarto e deixei Poromon sair da bolsa, voando para seu cestinho e aconchegando-se.
— Vai entregar a gravação para Kaiser hoje?
— Vou sim...— olho pesarosa para o D-Terminal —, mas quero um banho antes.
Pego uma camisola confortável e uma toalha, seguindo para o banho; as memórias de toda a conversa está em minha cabeça, precisava encontrar Ken com urgência, mas não sabia como isso seria exatamente, afinal agora eu tinha finalmente aceitado meus sentimentos e não estava sabendo lidar com isso.
Fiquei um bom tempo debaixo do chuveiro, a água caia pelo meu corpo parecendo me relaxar, mas as borboletas davam voltas e voltas no meu estômago. Então se Ken é um louco e eu o amo isso me torna mais louca do que ele?
Justo eu que odeio esse país, essa cultura machista onde uma mulher violada que é vista como errada. Onde honra é posta a frente de sentimentos, onde uma mulher divorciada é mal vista e tratada como lixo e por isso depois que se casam elas ficam presas aos piores tipos de homens pelo resto da vida, se pedirem separação ainda perdem os filhos… Logo eu que pensava em lutar contra tudo isso, fui me apaixonar por alguém que me vestiu de empregada e me fez limpar o chão. Isso ironia, brinque comigo como se eu fosse sua marionete.
Por outro lado, Ken disse que estava perdido em seus sentimentos sobre mim, queria me ferir culpando-me por não abandonar seus pensamentos e raciocinado de acordo com sua mente maníaca e desequilibrada, isso faz todo sentido e portanto não consigo odiá-lo, como eu mesma disse já o perdoei.
Já o perdoei desde tê-lo visto fora de si aquele dia na sala de controles, desde ter entendido que a algo sobrenatural em suas ações, algo de muito bizarro… Cá estou, apaixonada, não protegi meu coração, não pude, agora só me resta lutar para resgatá-lo.
Sai dos meus conflitos interno com batidas na porta, desliguei o chuveiro e me apressei em me secar e me vestir. Me direciono para o quarto, quando entro e miro o cesto de Poromon, noto que ele já estava adormecido, não o culpo a tarde foi muito pesada e as emoções foram fortes demais.
Quando abri meu e-mail as coordenadas já haviam sido enviadas por Kaiser, não vieram com nenhuma mensagem, o que me deixou preocupada, mas não amedrontada. Antes de abrir o portal, caminhei até meu parceiro e selei um beijo terno em seu corpinho cor de rosa.
Respirei fundo e voltei para frente do PC, encarei o monitor por alguns segundos, sem idéia de qual das muitas faces de Kaiser me receberia do outro lado, poderia estar furioso por eu ter revelado tudo, poderia estar curioso para saber como foi a conversa, realmente não sei, não sou capaz de prever nada sobre alguém tão volátil.
Digitei as coordenadas e abri o portal, antes que eu entrasse Bakemon se materializou ao meu lado, como eu pensei seu mestre já o tinha mandado antes, ou seja ele já está a par da conversa pelas câmeras do Anel Negro do fantasma. Trocamos poucas palavras, dei as mesmas recomendações de sempre e passei pelo portal digital.
Para minha surpresa eu surgi no quarto de Kaiser, parei perplexa com a cena; Ken estava sobre a cama descabelado e abraçado aos joelhos, encolhido na cabeceira, pelo chão estava seu traje “real”, o sobretudo, as luvas, os óculos e mesmo seu preciso bracelete e se dispositivo digital.
Aproximei-me hesitante, afinal tinha contado tudo aos pais dele e portanto esperava qualquer reação, pois conhecendo bem a peça, eu já tinha certeza que ele encontrou seus meios para bisbilhotar aquela conversa, poderia estar com ódio de mim? Sim, mas então porque deixar suas coisas tão preciosas jogadas de qualquer maneira pelo chão?
Ajoelhei-me sobre a cama e engatinhei até ele, tocando-lhe os cabelos.
— Ken? — chamei em um fio de voz, temerosa do que viria como resposta. — Fala comigo. Está zangado por eu ter conversado com seus pais? — mas a resposta não veio, me deixando agoniada. — Fala comigo. Pode me xingar ou sei lá, mas não me deixa aqui sem resposta, por Kami.— implorei impaciente.
Mas não adiantou muito, parecia não querer falar comigo, nem olhar pra mim, bom ele tinha suas razões eu o expus para sua família, contei tudo o que fez nesse mundo, comigo, com meus amigos, talvez agora fosse nosso ponto final, talvez quem me mandou aquelas coordenadas tenha sido Wormmon em sinal de preocupação.
— Então é isso… — mordi o lábio inferior, tentei conter as lágrimas.— Eu precisava falar, Ken, fiquei encurralada e também… Depois de toda nossa conversa sobre seu passado eu fiquei tão abalada, tem toda nossa situação e… Quando me vi diante do interrogatório deles eu so, eu desabafei tudo, tudo. Eu precisava aliviar meu peito estava pesado, não conseguia mais dormir, nem respirar eu… — respirei fundo, a dor em meu peito aumentou era como se adagas venenosas o perdurasse e o ardor do veneno fluísse pelas minhas veias. — Oh certo! Você deve achar que sou uma traidora, então vamos voltar ao que estávamos antes? Eu devo ir embora? — um minuto a mais e ele não disse uma palavra sequer.
Eu deveria ir embora? Prometi aos pais dele que daria o meu melhor e agora eu deveria simplesmente atravessar aquele portal e ir para casa. Já tinha me levantado da cama e dado algumas voltas pelo quarto.
Eu definitivamente não estava pensando direito, pelo dia agitado, a emoção e o peso daquela conversa com os Ichijouji e a possibilidade de ser mandada de volta para casa. Seria injusto, mas esperado. Então que ele me xingasse, desabafasse, que quebrasse todo o quarto em uma de suas crises costumeiras, que fizesse o que tivesse de fazer enquanto eu ainda estou aqui e poderei acalmá-lo, porque depois…
Em pensar que as coisas entre nós podem ter chegado ao fim me sinto fracassada, sinto-me em falta com Wormmon, com os pais dele, comigo mesma. Existe nesse local, em volta dele, dentro de seu coração uma escuridão uma dor, algo que eu gostaria de ser capaz de mudar, ao menos eu poderia tentar mais.
Meu olhar percorreu por todo aquele ambiente mal iluminado, local onde já estive por incontáveis vezes vivi bons e maus momentos, derramei muitas lágrimas, blasfemei contra Kaiser e vivi momentos intensos. Um inconformismo colossal crescia dentro de mim, renascia a mesma sensação que tive no dia em que Ken rompeu comigo e me empurrou para dentro do portal.
Ir embora assim e voltar a minha vida depois de tudo que vi e vivi aqui, não dá, não aceito, é impossível. Até porque eu… eu morreria se tivesse que fazer isso. Com esse pensamento eu paro de andar de um lado para o outro sigo em direção a ele parando onde o criado mudo não me deixa seguir adiante.
— Você sabe como foi difícil passar por tudo o que você me submeteu? Contudo eu fui capaz de te perdoar e estar com você, mesmo não estando de acordo com suas escolhas. — comecei a desabafar indignada, ainda sem certeza de que estava sendo ouvida, mas entendi que estava lutando desesperadamente para não sair de sua vida. — Estou te dizendo que foi difícil guardar tantas coisas somente pra mim e quando o assunto começou eu não me contive.— suspirei fundo, parecia estar dando murros em ponta de faca e é doloroso demais.— Não quero ter que ir embora e te deixar aqui nesse lugar escuro, frio e solitário. Perder o sono sem saber se você está se alimentando direito ou se está se entupindo de medicamentos furtados da sua mãe...— estendi a mão e coloquei sobre seus cabelos novamente. — Não quero enfrentar a dor de ter que ficar longe de você novamente, não ouvir sua voz, não sentir seus abraços. Eu sempre penso como você precisa de mim, mas acho que eu nunca disse...— engoli um pouco de saliva sem conter as lágrimas que me arderam os olhos e rolaram quentes pelas minhas bochechas. — Eu nunca disse o quanto eu preciso de você. Se você me pedir para ir embora e esquecer tudo eu não serei capaz, eu não quero ir, não quero ser descartada, não quero-
Paro em meio a minha fala quando o sinto se mover e segurar o meu pulso. Eu já nem tinha noção do que estava dizendo e tampouco uma gota de orgulho e do fundo da minha alma eu poderia me jogar aos pés dele e implorar para que não me tirasse assim da sua vida, mas travei com sua atitude, talvez se levantasse e tomado por ira me lançasse contra o portal novamente. Aquele segundo de silêncio pareceram anos.
— Obrigado. — Ken sussurrou em um fio de voz e meu mundo simplesmente parou, não era o que eu esperava ouvir. Como assim eu contei todos os seus podres para seus pais e ele me diz obrigado?
Continuei estática sem reação alguma fitando um ponto qualquer do quarto, sem coragem para olhá-lo e descobrir se era sarcasmo, mas ele me puxou, fazendo-me perder o equilíbrio e despencar em seus braços sendo sufocada em um abraço.
— Obrigado. — murmurou novamente contra a curvatura do meu pescoço, suas lágrimas quentes molhando minha pele, e me senti completamente perdida.
— Obrigado? C-Como assim? Eu não entendo. Pensei que fosse gritar comigo, quebrar tudo, me assustar, pensei que você fosse me mandar embora para sempre, me expulsar da sua vida.
— Nunca ninguém fez nada por mim, Miyako, nada dessa magnitude. Você os enfrentou corajosamente, disse tantas coisas que eu sentia e nunca pude dizer, não… Eu nunca quis dizer e fugi como um covarde pra brincar de Kaiser, não é? Eu sei que é assim que você pensa e está totalmente certa.
— Ken...— eu já nem sabia mais o que dizer e a voz dele também estava afetada pelo choro e emoção do momento.
— A forma como você colocou toda a minha situação e o comportamento dos meus pais durante esses anos, como se indignou, como jogou para eles que não tinham direito de julgar minhas ações, já que tinham parte da culpa. Obrigado. — abraçou-me mais forte e eu ainda não sabia como reagir. — Você foi incrível, eu sempre admirei sua força e obstinação. Nem eu mesmo fiz tanto por mim quanto você fez mesmo que eu só tenha te causado dor.
Afrouxou o abraço virando-me para ficar de frente para si, removendo meus óculos embaçados e os colocando no criado mudo. Seu rosto estava ruborizado, os olhos inchados, a face marcada pelas lágrimas. Seu olhar buscou o meu e aquela opacidade costumeira não estava mais lá, os índigos estavam brilhantes, intensos, melancólicos.
— Eu sinto tanto por ter te feito sofrer pelas minhas fraquezas, por ter te culpado pelo que eu comecei a sentir por você e querer te punir. Tudo sempre teve a ver comigo, com o que eu não entendia, com o que eu não conseguia ser, com o que eu não podia ter.
— Não, não… Não se desculpe. — coloquei a mão sobre seus lábios o impedindo de falar. — Eu já te perdoei e entendi que mesmo que tudo tenha tido um começo deturpado nós vencemos isso. Tudo o que importa é como estamos agora, o que sentimos, o que temos.
— O mundo foi horrível comigo e eu descontei em você por medo de mais uma rejeição. Isso foi covardia. Eu te submeti a dor e você me apresentou o amor. — cativou minha mão levando-a aos lábios, beijando-lhe o dorso. — Mesmo que você não possa me amar como eu espero, o que fez por mim já foi tão…
— Eu amo. — falei de uma vez e não doeu, não morri por dizer, não foi toda tortura que pensei que seria, na verdade foi libertador.
— Você? — parou por alguns segundos, estarrecido com minha declaração.
— Amo… Eu te amo demais, como você espera, talvez até mais. Eu não quero apenas o seu bem estar, não tenho apenas preocupação. — segurei seu rosto entre as minhas mãos, seus olhos estavam arregalados e a boca semiaberta.— Eu sinto sua falta, ficar sem te ver, sem te tocar é quase uma dor física. Eu te amo demais, Ken, preciso de você.
Ele surpreendeu-me com um beijo cálido, profundo, tão intenso que era como se eu pudesse sentir sua alma, mesmo complexa e cheia de conflitos. O correspondi intensamente como quem anseia provar a declaração feita a pouco, nossas línguas passearam uma pela outra saboreando o gosto salgado das lágrimas que interferiam no ato.
— Você? Você realmente, más e seu parceiro Digimon, Izumi, seus amigos? Todo o resto? — questionou ofegante ao separarmos o beijo.
— São importantes é claro, mas eu nunca senti nada tão forte assim na vida. Preciso de você tanto quanto preciso do ar que eu respiro e não me importo o quanto isso soa brega. — sorrimos juntos. — Sabe aquele filho que você queria me dar?
— Aquilo foi só...— sorriu desviando o olhar, mas o segurei pelo queixo forçando-o a me encarar.
— Eu quero. Quero que você me faça um filho. Quero ficar nove meses imaginando uma pequena mistura de nós dois, conversando com a barriga, comprando roupinhas e planejando a decoração do quarto. Deixar minha genética misturada com a sua como presente para o mundo, uma prova viva do nosso amor.— acariciei seu rosto ruborizado, tenho certeza que o meu também estava vermelho. — Quando o tiver em meus braços quero você do meu lado e nós vamos brincar com as pequenas mãozinhas e procurar traços um do outro naquele rosto minúsculo. Ele vai nos transformar em idiotas babões e crescer cheio de amor e atenção, pois nunca repetiremos os erros dos nossos pais. — e quando eu disse “os nossos pais” queria dizer os deles, porque os meus são maravilhosos.
Ken apertou-me em um abraço forte e caiu em uma intensa crise de choro, eu também me derramei em lágrimas. Sei o quanto aquele era um assunto delicado para ele devido a toda sua história de vida, mas não era jogada para emocioná-lo, eu realmente me sentia assim, por mais louco que fosse.
— Eu também te amo tanto, desde sempre e acho que se eu soubesse antes, se eu tivesse entendido. Meu Kami, você é louca, nós somos loucos. Você quer mesmo ter um filho meu? Quer mesmo ficar do meu lado?— fitava-me intensamente estudando cada palavra, cada gesto meu.
— Não há nada que eu queira mais nesse mundo, mas eu não quero ficar ao seu lado. — ele separou o abraço e me encarou confuso. — Quero que fique do meu. Como poderia eu, pensar em ter um filho em meio a inimigos. É porque se ficarmos aqui escravizando Digimons seremos inimigos deste mundo e uma hora a de surgir quem nos confronte. Não posso viver assim, não posso submeter uma criança a essa vida e não a desejo pra você.
— Mas você viu como as coisas no mundo real estão complicadas. Lá eu não sou nada, a não ser um troféu para escola, para os meus pais. Você viu.
— Não importa, Ken. Seus pais estão mudados, sua falta fez que enxergassem os erros, estão sofrendo e arrependidos, querem você de volta sem julgamentos, não importa como for, querem ficar ao seu lado.
— Não sei se posso perdoá-los, não sei se consigo, ainda dói muito.
— Eu sei que dói, mas direi o mesmo que eu disse para sua mãe. Você pode continuar nessa dor que você já conhece ou escolher ao menos tentar perdoar. Ken, eu sei que não se supera esse tipo de coisa da noite para o dia, mas sua vontade e tentativa já faz a diferença.
— Vi a mensagem que gravaram para mim. — baixou o olhar, acabrunhado.
— E o que me diz?
— Não sei o que dizer, o que pensar ou sentir. Confesso que pareceram sinceros, mas...
— Se não for por eles faça por nós. Eu quero você comigo, quero acabar os estudos, me formar, entrar na faculdade. Quero um filho seu sim, mas quero construir um futuro confortável para ele, no mundo dele, entende? — tento trazê-lo à realidade. — Quero que ele vá a escola, conheça seus avós, tios, cresça junto com sua “espécie”.
— Depois de tudo o que eu fiz, como você acha que seus pais e amigos vão lidar com sua escolha? — confesso que este é um ponto complexo.
— Não me importa se vão me julgar. Se me odiarem eu vou sofrer, é claro e é uma possibilidade, mas vou sofrer mais se ficar sem você. Deixa esse mundo em paz, Ken, vem corrigir os erros do presente e construir um futuro ao meu lado.
— Concertar os erros, piff! — bufou frustrado. — Você quer dizer confessar tudo o que fiz e livrar Izumi. Seria um verdadeiro escândalo, a queda do gênio, do mito, já vejo as manchetes.
— Mas é o certo a se fazer. Todos passamos por uma fase difícil, você tem razão, vai ser um escândalo, mas vai passar.
— Diante desse escândalo sua família vai te permitir ficar ao meu lado?
— Minha família não é tão tradicional e se você se redimir vão te achar corajoso e digno de um voto de confiança.
— Vai ser apontada e apedrejada por ficar ao meu lado, sabia?
— Mais do que já fui até hoje? — sorri melancólica. — A diferença é que agora eu estou escolhendo isso.
— Porque Miyako? Porque se sacrificar tanto por mim? Fora desse mundo eu não sou nada, não terei nada para lhe oferecer, serei menos que um verme.
— Claro que é. Você é o garoto esperado por seus pais, que como eu, não querem um ídolo do momento, querem a pessoa que você é, com suas falhas e fraquezas. Um garoto que sabe ser doce quando quer, que cozinha muito bem.— ele esboçou um tênue sorriso em meio as lágrimas ainda abundantes.— Como você mesmo disse, chega de brincar de Kaiser, certo? Não quero ter que viver em um mundo sem você e jamais ficaria aqui. O que você tem a me oferecer? Um futuro ao seu lado, não posso fazer nosso filho sozinha, certo?
— Você entende o que está me pedindo, garota?
— Para desistir do seu império? É muita audácia da minha parte, não é? Mas eu te amo, não posso desistir de ter você comigo nunca e não quero te deixar aqui. Quem vai te abraçar quando as trevas te sufocar, quando você se sentir inundado pelo mar negro, quem vai te trazer de volta? Não tenho um império para oferecer, mas tenho meu amor, meu calor e a promessa de um futuro dedicado a nós. Vem comigo?
— Eu tenho muito o que pensar. Tudo que eu construí aqui. — Nesse momento ele desvia o olhar para um ponto específico sobre a cama e eu percebo algo que não tinha notado até então, era uma foto do falecido irmão. — Não poderei ser igual a ele. — lamentou-se alcançando-a.
— Por Kami, Ken, do que você está falando. — puxei a foto das suas mãos e observei detalhadamente.
Então minha visão se iluminou, os cabelos de Osamu, os óculos e mesmo a postura altiva, era exatamente como Kaiser, não, Kaiser era exatamente como ele. Meu Kami, a negligência dos pais, o assédio de todos em cima do primeiro irmão e sua perda… A maneira arrogante com que Osamu passou a agir com Ken, isso criou um transtorno de querer ser o outro. Kaiser nada mais era do que a recriação de Osamu na mente perturbarda de Ken.
— Meu Kami!. —levantei-me pegando um dos sobretudos no chão, as luvas e os óculos e colocando sobre a cama. — Ken vista isso. v ordenei incisiva.
— Como assim? — questionou confuso.
— Veste seus trajes, faça seu penteado habitual, me deixe falar com Kaiser. — apelei seriamente e ele franziu o cenho.
— Você está ficando louca, Miyako? Está fazendo piadas comigo? — seu tom soou magoado, ofendido.
— Não estou, é importante, faça por favor. — pedi paciente olhando-o com carinho e ele levantou-se atendendo ao meu pedido.
Ainda com a foto de Osamu em posse, o puxei pela mão e o arrastei para o espelho do banheiro e ele me seguia em total confusão, o posicionei frente ao espelho de corpo inteiro e apontei para sua imagem refletida.
— Me diga o que você vê, Ken? Me diga quem é Kaiser? — ele mirou o espelho, completamente confuso, voltou seu olhar para mim e eu apontei a foto que tinha em mãos. — Esse penteado, os óculos, a arrogância de querer ser o melhor em tudo. ME DIGA QUEM É VOCÊ AGORA? — sua boca se abriu em um perfeito”O”.— A roupa que sugere nobreza representa como você via o tratamento que Osamu recebia. Isso que você está vendo no reflexo é uma reconstrução do que se perdeu, é o que você julgou que deveria ser para ser melhor, para ter valor. Então me diz com sinceridade, o que você está vendo no espelho?
Ele tirou os óculos, os quebrando em sua mão.
— Uma farsa! Essa roupa é uma farsa, esse mundo, essa vida, eu sou uma farsa.— soou firme e pensei que ele fosse quebrar o espelho, mas em vez disso ele ajoelhou-se diante dele caindo em um pranto copioso.— O que eu tenho feito todo esse tempo tentando ser alguém que nunca poderia ser? Deveria ter sido eu a morrer naquele acidente, eu não presto para ser como Osamu nem em um mundo onde ele nunca pisou, nem em um mundo que deveria ser só meu. PORQUE EU NASCI, PORQUE EU EXISTO, PORQUE TENHO QUE PASSAR POR TUDO ISSO? EU NÃO QUERO SER UM FRACASSO, NÃO QUERO SER UM PERDEDOR E NEM VIVER A SOMBRA DO QUE MEU IRMÃO PODERIA TER SE TORNADO… PORQUE? PORQUE?
Ken agarrava e puxava os próprios cabelos como se fosse arrancá-los, era como se eu pudesse sentir sua dor, sua agonia. Abaixei-me e o envolvi em um abraço tentando acalmá-lo, sei que foi maldade jogar a realidade assim de uma vez, mas quero que ele veja como está vivendo e tente descobrir quem realmente é.
— Shhh! Chora, coloque tudo pra fora.
— Eles queriam que fosse eu quem tivesse morrido, Miyako.
— Quem queria isso?
— Meus pais, eles não falavam diretamente, mas eu entendia, entendia tudo e sofria… Os vizinhos falavam que era uma pena o filho mais talentoso, o primeiro filho. Eu desejei com todas as minhas forças estar morto no lugar do meu irmão para não passar por aquilo…
— Amor, foi difícil e eu te entendo, mas você tem que tirar essa fantasia de Osamu que a sua mente criou e ser você mesmo, enfrentar seus pais, desabafar cara a cara com eles, os ouça, deixe que eles te ouçam.Por favor Ken, por você, por mim, por nós. — roguei com total desespero, o apertando forte em meus braços.
Só consegui ouvir seu choro, minhas lágrimas também não paravam de se derramar, meu coração doía como se estivesse sendo apertado em meu peito, a respiração estava dificultada. Senti tanta pena, mas precisava lhe mostrar a verdade, abri bem suas feridas para tirar o veneno.
Quando meus joelhos começaram a doer o induzi a se levantar e o guiei até a cama, onde nos sentamos e eu definitivamente tinha o destruído completamente por ter jogado em sua cara a óbvia projeção de Osamu na construção de Kaiser.
A dor em meu peito era tanta que comecei a me desesperar, me arrepender, talvez eu tenha pegado pesado demais, exagerado com ele, tem coisas que não se deve jogar na cara assim, mas já era tarde e aquele choque intenso de realidade estava acabando com Ken na minha frente, por minha causa e eu não sabia o que fazer.
O abracei mais uma vez e caímos sobre a cama, ele me apertou forte em seus braços sem conseguir conter as lágrimas e eu alí com o coração partido sem saber o que seria do nosso futuro de agora em diante, novamente imersa em sua insanidade, banhada em sua tristeza, perdida em sua instabilidade...
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