Inimigos Íntimos
19 Paradoxo
Eu apago as luzes
Me escondo até o amanhecer
Ow, apenas mais uma noite solitária
Você está disposto a sacrificar a sua vida?
POV Miyako
Caos e confusão, é com essas duas palavras que consigo definir como foi o início da segunda feira; quando os portões da escola se abriram, um alvoroço entre os alunos se iniciou, devido às informações que Kaiser espalhou nos celulares, referente aos segredos dos meus amigos. O problema da Mimi-chan eu já sabia, tanto que sempre procurei conversar com ela sobre o quanto era errado isso o que fazia, se quisesse perder peso, que fosse da maneira mais saudável e não dessa forma; sobre a Sora-san eu fiquei um pouco chocada, mas não surpresa, sempre achei que rolava alguma coisa entre ela e o Taichi-kun.
Eu não acreditava muito quando Kaiser me dizia que ficaria chocada com o segredo de Hikari-chan, mas agora, nossa, eu estou estarrecida! Caraca, jamais passou pela minha cabeça que ela, uma das pessoas mais certinhas que conheço, tinha há muito tempo um caso com a professora de educação física; por isso que enrolava tanto o, pastel Daisuke, sempre dando uma desculpa, quando ele tentava marcar algum tipo de encontro. Meu Kami, e essa de culpar o Koushiro-kun… Que dó me deu do ruivo, olhei em sua direção e o vi com o rosto petrificado e algumas lágrimas nos olhos, teimando em escorrer pela face.
A direção e os monitores apareceram para acalmar os ânimos dos alunos, os encaminhando para as suas devidas salas de aula; eu estava no automático, quando me dei por conta, já havia sentado em minha classe, e a aula se iniciado, com a professora de matemática explicando matéria. Não prestava atenção no que ela dizia, só via a sua boca se mexer, enquanto eu me encontrava longe, pensando, porque eu bati em Kaiser naquele dia? Eu deveria ter sido menos impulsiva, deveria ter me segurado, mas não adiantou, na hora não pensei que as consequências dos meus atos seria tão horríveis e prejudicariam os meus amigos.
Meus pensamentos são interrompidos por uma gritaria de alunos que se iniciou nos corredores. O pessoal da minha sala saiu correndo para saber o que estava acontecendo. Fiz a mesma coisa, seguindo aquela multidão, dando acesso ao corredor onde fica a sala de Ken; a cena na qual presenciei foi um tanto chocante, alguns garotos ajudavam Ichijouji a se levantar do chão, que estava com o rosto todo machucado, enquanto Koushiro-kun era xingado e vaiado pela escola inteira, o acusando de ser o disseminador da discórdia entre todos.
O que Kaiser tanto queria aconteceu, atingir ainda mais Koushiro-kun, como se não bastasse ter feito ele passar pela humilhação de ter perdido a namorada para outro cara, agora havia covardemente o culpado por algo que jamais faria. Meu Kami! Isso é errado! Ele é inocente, seria totalmente incapaz de fazer qualquer mal!
Meu coração se apertou ao ver a sua cara de tristeza, sendo acompanhando pela a mãe até a diretoria. Na hora eu não pensei em nada, somente corri em sua direção, ignorando todas as pessoas que passavam por mim, até mesmo Ken; eu queria apoiá-lo, mesmo estando tão longe, mostrando o quanto me importo e que acredito em sua inocência.
Gritei alto, para escola inteira ouvir, e queria falar ainda mais, que o grande culpado de tudo aquilo era o amado Ichijouji Ken. Entrelaçamos as nossas mãos, foram apenas poucos segundos, mas o suficiente para mostrar que estava ali ao seu lado; sentir o calor da sua mão macia me deu vontade de chorar, me fez lembrar de todas as coisas boas que vivemos um ao lado do outro. Porque tudo tem que ser assim? É tudo injusto demais!
Fiquei para trás, vendo Koushiro-kun sumir no meio da multidão. Senti um arrepio no corpo, aquela sensação de estar sendo observada, e aí me dou conta de que Ken ainda estava ali no corredor. Viro-me em sua direção e me deparo com ele me encarando, com tanta raiva e ódio, de uma forma tão demoníaca, como se fosse me matar ali mesmo na frente de todos; seu olho estava roxo e um pouco de sangue escorria de seus lábios, nossa, o ruivo fez um estrago e tanto em seu rosto.
Engoli seco, caminhando para onde ele estava. Porque você faz essas coisas, Ken? Juntei toda a minha coragem e tentei me concentrar em ajudá-lo, só que não conseguia, não por ele que se encontrava ali, mas sim por Koushiro-kun, que aquele momento se encontrava na sala da diretoria, definindo qual seria o seu destino de agora em diante e… Eu temo por o que possa acontecer com ele, pela retaliação injusta que irá sofrer pela escola inteira, sem poder sequer se defender.
Não pude ficar muito tempo com Ichijouji, minha professora tratou de levar todos os alunos para a sala de aula, com a alegação de que havíamos perdido muito tempo e que a matéria estava atrasada. Antes de ir para o corredor em direção a turma, olhei para a direção de Ken e, meu Kami! Tive que me segurar para não desmaiar ali mesmo, palavras não precisam ser ditas, só a forma como os índigos dele transbordavam ódio diziam tudo: a minha impulsividade havia gerado consequências, não seria somente Hawkmon a ser punido, eu também seria, e temo por qual insanidade esse lunático tenha em mente.
POV Kaiser
Ver aquele verme do Izumi se rastejando para fora da escola com os seus pais foi a melhor cena do fim desta manhã, saboreei com muito gosto todos os julgamentos lançados em sua direção, os alunos o ofendendo a pior maneira possível; é meu caro, nunca deixe de lado uma joia tão valiosa como aquele programa, deu um tremendo vacilo ao não apagar as informações do seu precioso sistema, agora já era, pagou pelos seus erros e isso foi lindo demais.
Enquanto eu estava na enfermaria, sendo tratado, mandei um de meus Bakemons entrar na sala da diretoria e gravar toda a conversa que aconteceu entre a diretoria e a sua família, sinto que vou ter um material e tanto para me divertir durante um bom tempo, aliás, não só isso, Inoue também será a minha diversão; se ela acha que vou deixar barato a sua ousadia de me afrontar perante escola inteira, está bem enganada, vai sofrer amargamente as consequências de seus atos.
Cada curativo que a enfermeira fazia no meu rosto me fazia sentir mais raiva de Inoue, quando ela finalizou, me deixou sozinho, “descansando”, afinal, havia sido dispensado das aulas da manhã para ficar em repouso. Quando a porta bateu, coloquei o travesseiro sobre o rosto e comecei a gritar, colocando toda a fúria que sentia para fora; a garganta e o peito doiam demais, não conseguia controlar mais nada, as lágrimas quentes, começaram a fluir dos meus olhos, escorrendo pela minha face.
Porque de novo estou agindo como um verme? Eu consegui o que eu mais queria, derrubei Izumi, o humilhei perante a escola inteira, coloquei os alunos contra ele, nem todos, Inoue foi a única que ficou ao seu lado; me humilhou em frente de todos ao correr atrás dele e dizer que acreditava que era inocente, deixando-me de lado, no chão, como se eu fosse um lixo.
Minha cabeça dói demais lembrar disso, tinha vontade de quebrar aquela enfermaria inteira, destruir toda essa escola, eliminando cada um dessa escória nojenta e ela… Ah, ela, eu a mataria lentamente, estrangulando o seu pescocinho fino, sufocando-a, fazendo agonizar de dor e finalizaria colocando uma adaga em seu peito, descarregando todo o aperto que essa maldita me fazia sentir.
Apesar de ter passado o final de semana longe dela, sentia que ainda precisava tirar um pouco o meu foco dela, pelo menos durante o dia, porque a noite, ah, ela iria sofrer as consequências de seus atos. Decidi a ignorar durante o intervalo inteiro, não conseguia olhar para o seu rosto, era insana a raiva que estava sentindo no momento.
Tentei parecer o mais natural possível, mas minha boca além de estar dolorida, sentia a comida amarga, difícil de engolir, a dor em meu rosto e principalmente na região dos olhos estava muito incomoda, mesmo tendo recebido cuidados na enfermaria, mas valeu a pena cada minuto desse espetáculo.
Os vermezinhos que me ajudaram até a enfermaria, nos abordaram quando estávamos ainda no refeitório, pareciam preocupados, me torraram a paciência com um monte de perguntas. Procurei responder com naturalidade, mas por dentro matava lentamente cada um deles. Com o canto de olho, dei uma espiada na mesa do Motomiya “pela saco” e seus dois inseparáveis amiguinhos, nossa, as caras de velório deles eram as melhores, um olhava para o outro, catatônico com os fatos acontecidos, oh, coitadinho, deve estar arrasado, devido a sonsa da Luz gostar da mesma fruta que a dele. Decepções acontecem, meu caro, você vai superar bem rápido.
O sinal do final do intervalo tocou, não estava com vontade alguma de voltar para as aulas e aguentar um bla bla bla infernal dos professores. Deixei Inoue na sala e antes que ela pudesse falar algo, já havia me distanciado, indo para minha turma pegar as minhas coisas e seguir para a diretoria, não queria ficar mais nenhum segundo dentro dessa maldita escola, preciso ficar sozinho, longe de qualquer ser humano asqueroso me incomodando.
Cheguei a sala da diretoria e informei a secretária, que precisaria falar com o diretor com certa urgência; antes que ela batesse em sua porta, o mesmo sai, fazendo uma cara surpresa ao me encontrar.
— Ichijouji-san, está tudo bem com você? Precisa de alguma coisa? Já estava me encaminhando a sua sala de aula para lhe chamar.
— Olá diretor Onizuka-san, eu estou me recuperando, mas ainda sinto que não estou apto a assistir as aulas da tarde. — Iniciei o meu teatro dramatizando uma cara de muita dor, o diretor e a sua secretaria pareceram sensibilizados com a minha situação deplorável, me deu vontade de rir das caras de pena que fizeram.
— Eu vou te dispensar das aulas da tarde, mas antes, quero que me acompanhe até a minha sala, quero conversar um pouco contigo. — Ele falou num tom de voz sereno, dando espaço para eu passar.
Entrei em sua sala e ele me indicou uma poltrona negra para me sentar, olhei com repulsa para aquele móvel, além de parecer desbotado e com alguns mínimos rasgos, muitas pessoas devem ter sentado ali, inclusive aquele verme do Izumi. Acabei ficando em pé, alegando que não precisava se incomodar, pois havia ficado deitado quase que a manhã inteira. Ele pareceu não se importar, deu a volta e sentou-se em sua cadeira.
Olhei com atenção para aquele ambiente, que diretoria mais chinfrim, bem, nada de muito surpreendente, vindo de uma escola que está tão atrasada no tempo e nas matérias do ano letivo, nada impressiona. Os móveis pareciam ter um pouco de poeira, assim como o chão de madeira, alguns riscos eram perceptíveis, mostrando o quanto não foi bem passado a cera. Hunf, vermes, se fosse em minha base, já teria castigado os meus escravos por tanta desordem em um só lugar.
— Diretor Onizuka-san, sobre o que você gostaria de falar comigo? — Perguntei fingindo curiosidade, sendo que eu já sabia o que era, no mínimo pediria para eu não comentar nada na mídia sobre esse acontecimento.
— Então Ichijouji-san, a situação que aconteceu hoje na escola refletiu consequências muito graves, além de você ter se machucado e mais todas as coisas que aconteceram, enfim achamos o culpado de toda a situação. Para minha maior decepção, quem foi que causou a discórdia foi Izumi-san. — Ele suspirou com cara chateado, enquanto que eu comemorava por dentro o sucesso do meu plano.
— Eu lamento muito pela situação que a escola está passando, diretor. Essas informações vazadas por Izumi-san causaram um caos e tanto, né. — Tentei ser o mais complacente possível, fingindo tristeza.
— Nossa e como, eu trabalho há muitos anos nessa escola e jamais passei por esse tipo de situação, nunca tive tantos alunos afastados e suspensos, hoje mais uma vez fui obrigado a suspender Yagami, por brigar na escola. A próxima confusão que ele se meter, serei obrigado a expulsá-lo, coisa que nunca fiz. Sinto que terei de começar a tomar medidas drásticas com esses adolescentes. — Argh, quanto bla bla bla, a voz chata desse inútil estava me dando sono, já sabia da suspensão do Yagami e do loiro metido a popstar, não precisava ficar repetindo os fatos.
— Se houver algo que eu possa fazer para ajudar…
— Ichijouji-san, eu sei que você é uma pessoa pública, os paparazzi irão te ver machucado. Por favor, peço para que não comente com ninguém da mídia sobre o que aconteceu, isso mancharia demais com a reputação da escola. — Analisei as expressões faciais do diretor, ele parecia desesperado, uma das mãos apoiava a sua cabeça, enquanto que a outra, os dedos batiam na madeira da mesa. As rugas do seu rosto se tornaram mais fundas, a boca se apertava e os olhos se arregalaram um pouco.
— Não se preocupe quanto a isso diretor, no que depender de mim a mídia jamais saberá dessa situação que aconteceu na escola, porém, devo lembrá-lo que, certamente devem ter vídeos sobre Izumi-san me batendo, espalhados pela internet inteira, e quanto a isso provavelmente teorias se iniciaram e todas elas em relação ao fato dele não aceitar que, Inoue me escolheu.
— Bem, certamente os sites de fofocas já devem ter colocado essa especulação na internet e não pudemos fazer nada quanto a isso. Aliás, alguns alunos já haviam me relatado que, há alguns dias atrás vocês já tinham se encarado nos corredores e que ele estava prestes a bater em você. Isso é verdade? — Me questionou relaxando um pouco os ombros, encostando-se na cadeira. Argh, quando é que esse cara chato vai parar de falar?! Estou começando a ficar com dor de cabeça da sua vozinha irritante.
— Sim, isso é verdade. — Confirmei a informação e ele balançou a cabeça negativamente, parecendo estar ainda mais decepcionado. Ah, Izumi, sua moral está cada vez mais baixa, isso me deixa ainda mais feliz. — Err… Diretor Onizuka-san, a minha cabeça está doendo bastante, será que eu poderia ir para casa? — Fingi uma expressão de dor, colocando as mãos na cabeça e fechando os olhos.
— Ah Ichijouji-san, claro, eu só queria te fazer um pedido e acabei falando demais, desculpa pelo meu desabafo. É que aconteceu tantas coisas hoje, mas enfim…
— Vou atender ao seu pedido, não se preocupe. Posso me retirar? — Cortei impaciente, antes que começasse a falar ainda mais.
— Eu quero te pedir mais uma coisa, você gostaria de ser presidente do clube de informática? — O diretor se levantou e caminhou em minha direção, pousando uma das mãos em meu ombro. Já disse o quanto detesto que fiquem me tocando? Tá aí algo que eu não esperava, ocupar o cargo daquele imbecil nesse clubinho de merda. — Eu sei que a sua agenda de compromissos é super apertada, mas é o único que tenho total confiança de que exerceria esse cargo…
— Eu aceito! — Respondi com convicção, dando um sorriso satisfeito, afinal, essa seria mais uma forma de humilhar Izumi e aqueles digidiotas. Certamente lá era o ponto de encontro para o Mundo Digital. Agora não será mais.
— Saiba que não negaria o meu pedido. Está dispensado! — O diretor deu um sorriso orgulhoso; apertamos as nossas mãos, como se estivessemos selando um contrato, e depois ele me soltou, deixando-me sair de sua sala para finalmente ir embora.
Ainda bem que os corredores estavam vazios enquanto que caminhava sobre eles, retirei um tubinho de álcool em gel do bolso e passei em minhas mãos, desinfetando os germes nojentos daquele homem. Já teve gente demais me tocando por hoje, tudo o que eu quero é ir para casa e ficar bem longe de toda essa gentinha asquerosa.
O trajeto de metrô foi tranquilo, devido ao horário ser mais cedo, tinha poucos pessoas dentro dos vagões, ainda sim ficaram me cuidando, ainda mais pelo olho roxo que chamava a atenção. Cheguei em casa e como sempre tudo em silêncio, não sabia se aquela mulherzinha insuportável ainda estava no restaurante onde trabalha, também pouco me importo com isso. Fui diretamente para o meu quarto, abri o portal e segui para o Mundo Digital, iria tomar banho e me ajeitar por lá, afinal, como as horas passam de forma diferente, conseguiria me ajustar e preparar tudo o que precisava para dar uma lição inesquecível a gralha, ela iria aprender a me respeitar de uma vez por todas e nunca mais ousaria me humilhar.
As horas foram passando, deixei Inoue fosse para a sua casa, continuei lhe ignorando, não mandei mensagens durante o resto do dia, imagino que, com essa atitude, deve estar morrendo de medo do que está sendo guardado a ela. Dou um sorriso de canto, digitando as últimas coordenadas, dando os preparativos finais para o grande espetáculo desta noite; ah, minha cara gralha, hoje você vai ver que o mundo não é cor de rosa, é cinza e cruel, sobrevive quem se alia com o mais forte, e não com fracos como os digiescolhidos.
Mandei a mensagem para seu D-terminal e ela nem me respondeu, abriu o portal e em um piscar de olhos surgiu em minha sala, tremendo e com os olhos assustados, oh, pobrezinha, pelo que vi nas câmeras de Bakemon, nem conseguiu se alimentar direito, de tanto pavor que está sentindo.
Não tinha muito o que dizer, preferi não gastar saliva, e também estava sem paciência, deixaria para falar bastante quando o show começasse. Por hora, peguei a coleira que se encontrava na mesa e segui em sua direção, a passos largos; Inoue se encolhe, caminhando para trás, batendo na parede. Seu corpo tremia, parecia que ia desabar ali mesmo.
— O que é isso? — Sussurrou trêmula.
— Nós vamos dar um passeio a luz da lua, minha querida. — Alarguei um sorriso.
— Sabe que eu não tenho motivos para fugir, já que mantém meu Hawkmon em cárcere.
— De fato, mas talvez as coisas possam mudar, então não vamos arriscar. Seja como for, acho melhor que aceite caladinha. — Me aproximei ainda mais e seus olhos transbordavam horror e humilhação.
Abri a coleira e a prendi em seu pescocinho fino, enquanto ela parecia a beira de um desmaio. Segurei a corrente com firmeza e ordenei pelo comunicador, que um Devidramon ficasse a minha espera. A puxei, arrastando-a pelos corredores escuros, ora ela tropeçava entre os pés, ora tossia muito e respirando ofegante.
Chegando no nosso transporte, a ergui montando-a nas costas de Devidramon e em seguida fiz o mesmo, ordenando para onde ele deveria seguir. A noite estava muito bonita e o clima agradável, uma lua gigante e algumas estrelas enfeitavam o céu, até nisso esse mundo se parece com o nosso. O espetáculo seria perfeito.
Chegamos em uma de minhas arenas, Devidramon fez seu pouso perto de uma das entradas, eu desembarquei a segurando, para em seguida, soltá-la no chão. Puxei sua coleira, como se fosse um animal, para que me seguisse. Entrando em uma das portas, passando pelos corredores mal iluminados, com várias celas e braços estendidos, vozes e gemidos clamando por socorro, pedindo para que ela os libertasse.
Chegamos ao topo da arena, vários Digimons já ocupavam as arquibancadas e os Anéis Negros ainda estavam ativos. Inoue olhava horrorizada para tudo aquilo, o rosto estava pálido, a boca, assim como o corpo, tremiam violentamente, como se a qualquer momento fosse ter uma crise de pânico. O espetáculo ainda não havia começado e ela já estava assim, imagina quando a carnificina começar e ver quem é a estrela principal, vai ter uma crise e tanto.
Sentei na minha cadeira especial, adoro ver do topo o que esses vermes eram capazes de fazer e me divertir; ela estava em pé, parecia esperar por alguma coisa, então ordenei para que se sentasse no chão. Inoue me olhou incrédula, piscou algumas vezes os olhos, tentando compreender se era aquilo mesmo.
— O que está esperando? Sente-se. — Ordenei e ela acatou assustada. Dei um sorriso de canto e ordenei pelo comunicador, que o espetáculo começasse.
Mexendo em meu bracelete, fiz questão de desativar os Anéis de muitos da plateia e de um dos que lutavam por sua vida. Inoue iniciou uma crise de choro, jogada naquele chão como se fosse um lixo sem valor. Eu gargalhei bem alto, os gritos de dor e desespero destes seres imundos me fazem sentir um prazer extremo, a arquibancada estava em polvorosa, pedindo para que aquilo tudo parasse, os que tentaram fugir só se deram mal, acabaram virando dados, como aqueles inúteis que se digladiavam na arena.
Depois de ver três vermes daqueles, sendo eliminados, o próximo a ser jogado na arena foi a estrela principal da noite, o seu amado parceiro, seu desespero foi tanto, que ela se levantou e fez menção de correr até ele, mas a puxei forte pela corrente, fazendo com que caísse sentada perto de mim novamente.
— Quietinha aí. — Ordenei firme.
— Ele não vai ter chance alguma lá, por favor, eu quem errei se tem que punir a alguém que seja a mim.
— Não se preocupe com isso, querida. — Joguei seu dispositivo digital aos seus pés. — Agora, sugiro que evolua seu parceiro, antes que as coisas comessem a esfriar por aqui.
Neste momento o chão da arena se abriu, revelando o, enorme reservatório aquático, logo abaixo. O parceiro de Miyako começou a voar atordoado. Da água emergiram três Seadramons, os mesmos que um dia já lutaram ao lado deles, agora sob o meu comando.
— Não pode ser verdade. — Inoue murmurou em meio às lágrimas.
— Ah, pode sim e será batalha de vida ou morte. Se eu fosse você faria seu parceiro evoluir agora e se defender. — Provoquei e dei uma gargalhada sonora. — Seadramons, ataquem agora!
Os Seadramons iniciaram vários ataques de gelo contra a ave, que só conseguia voar se desviando. Um dos golpes acertou-lhe a asa esquerda o impedindo de continuar o voo. Com isso Inoue não viu outra opção, agarrou seu digivice e ordenou a evolução.
— HAWKMON… DIGIMENTAL UP…
A luz da evolução atingiu a ave e ela evoluiu para o quadrúpede de armadura. Holsmon estava pronto para se defender, mas parecia não querer lutar contra os amigos.
— S55 e S56 se afastem e deixem que o S54 cuide dele. — Tornei a luta mais justa. Agora aprendi a enumerar meus escravos, assim fica mais fácil na hora de passar as ordens.
A luta se iniciou e, eu ri quando Inoue mandou seu parceiro atacar somente o Anel. Holsmon se esquivou o quanto pode dos ataques lançados por seu inimigo, e com as “Asas da Tempestade” conseguiu de fato libertar S54 do Anel, mas como eu disse era luta de vida ou morte e o perdedor não podia sobreviver então...
— Parabéns pela vitória, contudo… Seadramons eliminem o perdedor.
Inoue que tinha se levantado para vibrar sua vitória, caiu de joelhos contra o chão, olhando aterrorizada, os Digimons da mesma espécie, acabando com a vida daquele que antes fora seu amigo e parceiro de batalhas. O azul da água se tingiu de carmim, para logo em seguida o perdedor se desintegrar e virar dados, juntando-se aos eliminados da noite. E ela deve nunca ter visto antes um Digimon sangrar, de fato isso faz partes de algumas experiências que ando fazendo.
A arena ficou em silêncio, horrorizada com o final do espetáculo. Holsmon regrediu a Hawkmon, e imediatamente foi aprisionado por Guardromons. Os Seadramons submergiram e o reservatório se fechou novamente, o Anel foi reativado e meus escravos foram saindo calmamente, como se nada tivesse acontecido, deixando o local vazio.
— Monstro… — Ela ousou choramingou me afrontando.
— O que você disse, não entendi corretamente. — Me abaixei para olhar em seus olhos e lá estava aquela garota selvagem e desafiadora, de nariz empinado que tem estado no meu caminho por todos esses anos. — Eu pensei que você estivesse começando a entender como são as coisas por aqui.
— O QUER DE MIM? O QUE QUER QUE EU ENTENDA? VOCÊ É UM LOUCO, INESCRUPULOSO, TEM TUDO E QUER AINDA MAIS, SE DIVERTE COM VIDAS, JOGA COM OS SENTIMENTOS DAS PESSOAS E DIGIMONS… MONSTRO, ASQUEROSO EU QUERIA QUE O MUNDO PUDESSE VER COMO VOCÊ REALMENTE É.
A puxei com firmeza, pelo braço e encarei seus âmbares revoltados.
— Como eu sou? Você acha que sabe, mas não sabe de nada, ninguém sabe. Se preocupa com o que eu causo a você e aos seus, amiguinhos idiotas, mas não entende o que faz comigo? Você não é melhor do que eu.
Me levantei a puxando comigo, a noite estava apenas começando e eu tinha algo especial para presentear a minha, querida escrava e fazê-la enxergar como as coisas realmente são. A arrastei de volta para Devidramon a jogando sobre suas costas e montando em seguida.
O Mundo Digital é bem mais do que Inoue descobriu em suas pesquisas limitadas com Izumi, ele não é apenas um reflexo do mundo real, em dados, é um lugar complexo que dá brecha para várias outras dimensões. Existe um local específico, que fica entre o Mundo Digital e um mundo sombrio repleto de criaturas que não sei se posso definir como Digimons, poderia até ser, mas esses não parecem ter capacidade de raciocínio.
O local para onde estou levando Inoue, é uma linha tênue entre os mundos, ela pode ver essas criaturas e eles podem vê-la, mas é como se fossem hologramas, não podem tocá-la, porém, essa parte ela não precisa ficar sabendo, eu quero que conheça a verdadeira treva e entenda que, aqueles inúteis que chama de amigos, familiares e ex namoradinho, mesmo seu parceiro Digimon, nenhum deles poderá ouvir seus gritos de pavor e fazer algo para salvá-la.
Após um bom tempo voando em Devidramon, a lua some do céu e o ambiente se torna sombrio, a neblina começa a ficar densa e algumas nuvens púrpuras podem ser vistas, as cores dos nossos corpos desaparecem, ficando apenas cinza. Nisso, a respiração de Inoue começa a ficar pesada, não só a dela, a minha também.
Devidramon pousa sobre uma rocha e de repente estamos em meio a um pântano que exala um cheiro putrificado, a vegetação em volta era apodrecida, as árvores mortas, algumas estavam quebradas, os uivos das criaturas se misturando com o vento gélido. A querida digiescolhida está petrificada de medo. Oh, onde está a sua valentia de alguns minutos antes? Parece que ficou na dimensão do outro mundo.
— Por Kami! Que lugar é este? Isso não é o Mundo Digital.
— De fato, esse não é o Mundo Digital que você conhece. Eu espero que consiga sobreviver a uma noite neste local. — Informei, retirando-a do lombo de Devidramon a jogando em meio a lama que borbulhava, parecendo ter vida.
— Não… Por favor, não pode fazer isso comigo, não vai mesmo me deixar aqui sozinha. — Ela suplicou, agarrando uma das minhas pernas. — Kami, por favor… Por favor…
— Ora, porque deseja vir comigo? Eu não sou o monstro na sua vida? Te deixarei aqui para que Izumi venha de resgatar em seu cavalo branco. — Anunciei, enquanto andava de volta ao meu transporte e ela se arrastava pela lama pútrida, choramingando para que eu mudasse de ideia.
— Por favor. Me perdoe pelo que eu fiz, pelo que eu disse, não me deixe morrer aqui. Não quero acabar em um lugar como esse.
— Ah, não? — Me abaixei e ela se jogou contra mim, envolvendo os braços na minha cintura, afundando a cabeça contra meu peito. — Então sugiro que corra e se esconda, as criaturas daqui devem estar loucas por uma refeição. Boa noite querida, talvez eu venha te buscar pela manhã. — Me soltei de seu abraço e a joguei de volta na lama, de forma que o impacto de seu corpo contra ela causou um ruído aquoso, viscoso.
Montei Devidramon e ordenei que levantasse voo. Inoue ficou lá, esgoelando por mim com a sua voz irritante, as roupas e os cabelos ficaram impregnados com aquela lama horrenda e, para seu azar uma chuva poluída começava a cair daquelas nuvens pavorosas. Seu choro e seus gritos foram música para os meus ouvidos. Agora ela vai aprender a se comportar e ver que deve ser obediente, caso contrário, fará mais visitas a esse lugar como punição.
Rumamos de volta a base, assim que chegamos eu segui para minha sala de controle, liguei as câmeras de alguns drones que deixei para vigiá-la. Ela ainda estava lá jogada, chorando desesperada em meio a lama e a chuva.
Me sento em minha cadeira e a observo ficar em alerta com o uivo de uma das criaturas, está tão assustada que não consegue se levantar, se apoia nos troncos e raízes levantadas e engatinha pela lama, o peito subindo e descendo pela respiração alterada. Inoue fica em alerta, parecendo finalmente entender que deve lutar para tentar sobreviver.
Mesmo estando separados por um véu dimensional, as criaturas sentem sua presença e começam a se agitar, iniciando uma caçada. Ah, garota, as coisas não precisavam ter chegado a isso se você entendesse como elas realmente funcionam, pra que tanta teimosia em me desafiar?! Poderia ser mais obediente, tudo seria bem melhor para nós.
Seu esconderijo parece ser descoberto e ela corre por entre as árvores mortas, tropeçando nas raízes e caindo várias vezes, chegando até machucar os joelhos. As criaturas a perseguem, rugindo, uivando, surgindo em sua frente fazendo com que corra em outra direção, a assombrando, parecendo se divertirem com o seu horror.
— Ken-chan, o que está acontecendo? — Sou tirado da minha observação, por Wormmon, que invade a minha sala. — Isso é muita loucura, em algum lugar daquele pântano pode ter um portal aberto e no desespero a Miyako-san pode passar para aquele mundo ou uma daquelas coisas pode… — Ele voltou seu olhar para o meu casaco e seus olhos se arregalaram.
Temi repetir o gesto, mas olhei para onde Wormmon fixava seus olhos e me surpreendi com um pedaço de garra de alguma criatura. Kami, ele pode ter razão! Um portal pode ter se aberto ali e agora Inoue pode estar realmente em apuros, eu queria muito castigá-la, mas não quero que ela morra, não… Um arrepio percorre pelo meu corpo, não quero que ela morra!
Me levantei imediatamente e contatei Devidramon, juntamente com alguns escravos, não sabia o que poderia encontrar por lá. Já havia se passado três horas desde que a deixei, precisava me apressar. Partimos em alta velocidade pelos céus do Mundo Digital, quanto mais rápido chegaríamos aquela dimensão, mais rápido Inoue estaria salva. Um desespero enorme me abateu eu tinha pressa de chegar e ao mesmo tempo medo do que iria encontrar e as piores imagens passaram pela minha cabeça.
Chegamos no pântano e dois escravos ficaram comigo, ordenei a um grupo de Kwaguamons se separarem para procurá-la. Começamos a busca e não havia nem sinal de Inoue, um pontada dolorosa queimou em meu peito. E se Wormmon tivesse razão? E se ela cruzou o portal para aquele mundo bizarro? E se foi pega, devorada por algo? Eu nunca deveria tê-la abandonado neste lugar amaldiçoado.
Os escravos retornaram para o ponto de encontro e nenhum a havia encontrado, eu já não sabia o que fazer, mandei que procurassem novamente, erguessem cada tronco, precisava encontrá-la de qualquer forma. Senti as lágrimas queimando nos meus olhos, escorrendo pelas bochechas, eu sei que tudo o que tenho sofrido é por culpa dela, toda essa dor, angústia, essa insônia e… Só não tem que terminar assim.
A segunda busca foi feita e ela não foi encontrada, parecia que o lugar ficava mudando o tempo todo, eu sabia que era impossível, mas meu desespero me fazia ter essa impressão. O que eu podia fazer? Não tinha como voltar sem ela, eu nem queria isso.
— INOUE… — Chamei várias vezes sem obter nenhuma resposta, comecei a andar novamente pelo local.
Kami, estava tão frio, mesmo estando de sobretudo eu tremia, enquanto ela usava apenas aqueles trajes leves de manga curta e saia até os joelhos. O que eu fiz? Não me lembro de já ter me sentindo tão mal e culpado, assim antes.
POV Miyako
Não sei se tenho palavras para explicar o quanto estava me sentindo mal pelos acontecimentos naquela arena horrível. Kami se ao menos eu tivesse o poder de mudar as coisas. Eu descobri, hoje, que os escravos de Kaiser podem sangrar e isso me fez pensar em quais tipos de experiências que ele os submete.
Eu sei que afrontá-lo, ofendê-lo, não é uma decisão sensata, mas após ver aquelas lutas odiosas eu realmente não consegui me controlar e disse tudo que estava preso na minha garganta. Kami, será que Hawkmon também já foi usado para alguma experiência?
Eu estava muito chocada com tudo aquilo, após desabafar o que sentia, ele me jogou sobre o lombo de seu escravo e montou, dando as coordenadas para que ele seguisse. Eu pressenti que algo de muito pior estava prestes a me acontecer, mas nunca poderia imaginar que fosse tão grave.
A neblina começou a ficar densa e esverdeada, meu corpo se arrepiou e o clima pareceu congelar de repente, o cheiro parecia tóxico, estávamos em um local horrendo, parecia um pântano, as nuvens no céu eram púrpuras e amarronzadas, algumas tinham um tom meio roxo, árvores mortas e quebradas se estendem pela planície pantanosa, em algumas áreas havia uma gosma verde borbulhante.
Kami, a cada lugar que meu olhar explorava, encontrava um horror maior. O pior estava por vir. Não bastasse ter me colocado em uma coleira e me arrastado como um animal, Kaiser abriu a mesma e me tirou de cima de seu escravo, me jogando naquela lama podre.
Nunca me senti tão apavorada e enojada, parecia um mar de seres em decomposição, tudo aquilo em contato direto contra o meu corpo, senti tanto asco, repulsa e meu estomago se revirou. Ele declarou que pretendia me deixar ali, naquele lugar o qual explicou não ser o Mundo Digital que eu conheço.
Não podia ser verdade, ali, sozinha em meio ao gelo da noite, aquela podridão, ao ar toxico? Realmente ele não podia estar falando sério, Kami! Meu desespero foi tanto que eu me humilhei e implorei, rastejei para que não me deixasse, mas ele fez questão de me lembrar das minhas palavras e me jogou de volta em meio toda aquela podridão, me deixando sozinha, jogada à própria sorte.
Quando cansei de chorar e esgoelar, vi que ele havia mesmo partido, estava mesmo com ódio de mim. Comecei a ouvir ruídos estranhos vindo em minha direção e não vi outra opção a não ser correr. Não havia lugar seguro, meu pé prendia em raízes nojentas que pareciam ter vida.
Kami, parecia que eu estava sendo lançada de um lado para o outro, perseguida por criaturas monstruosas de olhos brilhando em vermelho, ora em verde fluorescente, a baba escorria de suas bocas abertas, que expunham as presas afiadas. Eu corri o máximo que pude, caí várias vezes, acabei me ferindo, me enrolei em teias de aranhas, enormes e acabei caindo de cara naquela lama nojenta.
Me levantei com dificuldades e fui segurando em alguns troncos, tinha que me esconder, mas de repente eu pisei em algo que parecia vivo e com o susto acabei andando alguns passos para trás e caindo em um precipício… Tudo era vazio, escuro e parecia nunca ter fim, mas do que a gravidade eu sentia algo maligno me puxando para baixo.
Abri meus olhos e estava completamente enrolada em algo que parecia um casulo, era uma película transparente, não muito resistente pois consegui rasgar aquela coisa com as unhas, mas isso me fez cair na água gelada. Não tinha mais ideia de onde eu estava. Lutei para não me afogar naquela e consegui sair daquele local.
Notei que estava em Odaiba, mas algo estava errado, tudo estava envolto em névoa, não havia nenhum sinal de vida, Torres Negras e morcegos estavam por todos os lados, minha primeira ideia foi de correr para casa.
Cheguei no meu prédio e não havia ninguém, chamei o elevador, mas este parecia não funcionar, então eu subi as escadas e abri a porta da minha casa, me deparando com os corpos dos meus pais e irmãos, caídos, sem vida sobre o carpete.
Eu tentei gritar, mas não tinha voz, tentei correr mas não consegui e quando olhei atrás de mim encontrei meus amigos, suas peles cinzas e olhos vermelhos e ele tinha ódio, tinham sede do meu sangue, começaram a me acusar, me perseguir. Corri para longe, sem rumo, sem forças e cheguei no terraço.
Odaiba estava devastada, silhuetas monstruosas circulavam pelas ruas, entre os destroços dos prédios, havia fumaça, morcegos e Torres Negras, mas não havia mais um humano sequer com vida. Desci pelas escadas de incêndio e caminhei pelas ruas tingidas de vermelho, pilhas de corpos se estendiam, homens, mulheres, crianças, bebês...
E eles voltaram para me perseguir, meus amigos e seus parceiros Digimons, dessa vez Hawkmon e Koushiro-kun, estavam entre eles, assumiram formas horrendas e começaram a correr atrás de mim, mas eu não tinha mais forças, não tinha para onde ir...
POV Kaiser
Ouvi algo que pareceu uma tosse e segui em direção ao ruído, senti que meu sobretudo agarrou em algo, achei que tinha sido em algum galho, mas para minha surpresa era a mão de Inoue que o puxou pela barra. Um misto de muitos sentimentos me abateu na hora, surpresa e alívio em saber era ela quem estava ali, completamente suja pela lama, mesmo seu rosto e talvez tenha sido por isso que foi tão difícil encontrá-la ou talvez tenha estado do outro lado, em outra dimensão, mas o que importava é que estava alí e viva. Me abaixei imediatamente.
— Inoue, passamos aqui tantas vezes, como? Não importa. — Ela se agarrou a mim chorando como uma criança.
— Me tira daqui, por favor. — Implorou em meio às lágrimas. Era tudo o que eu queria fazer, sair o mais rápido o possível daquele lugar horrível.
— Eu estou aqui agora. Tudo vai ficar bem. — Limpei seu rosto usando minha luva para tirar o excesso de lama. Encarei seus olhos, transbordavam lágrimas, senti meu peito se apertar. — Eu estou aqui, você entende? Não seus amigos, não Izumi, nem sua família ou seu parceiro. Eles te deixariam morrer, nem saberiam o que houve. O mundo é assim, é cruel e assustador, é preciso ser o mais forte, mais inteligente. Me diz que entende?
— Eu entendo, por favor… — Ela estava fraca, quase sem voz, tentava responder em meio ao choro.
— Diz pra mim que você me pertence e que vai me deixar cuidar de você.
— Eu sou sua, vou deixar que cuide de mim.
— Boa menina. Vamos sair daqui! — A peguei em meus braços, o excesso de lama em suas roupas a fazia mais pesada. Tive dificuldades de segurá-la sobre Devidramon, enquanto o montava.
Eu estava profundamente aliviado, deixamos aquele lugar horrendo e quando nos afastamos notei que o dia começava a clarear, foram horas dessa tortura, não só para Inoue como para mim, mas ela parecia estar profundamente abalada, durante o percurso nem sequer abriu os olhos e se agarrou a mim como se sua vida dependesse disso.
Chegamos a base e Wormmon correu para nos receber, mostrando alívio, mas o ignorei, rumando para o meu quarto, precisava colocar Inoue em um banho e limpar toda aquela lama. Segui para o meu quarto e em seguida para o banheiro, liguei o chuveiro, ajustei a temperatura e a coloquei de pé embaixo d'água. Tinha guardado seus óculos no bolso do meu sobretudo, os coloquei sobre a pia.
— Vou sair e te deixar tomar um banho. Pode usar meu shampoo, use o tanto que precisar. Vou pegar toalhas e roupas. — Anunciei e sai para fazer o que eu disse.
Não vou negar, eu fiquei bem assustado com o estado em que ela se encontrava, admito, exagerei com este castigo, mas o que ela fez hoje me deixou com tanto ódio, a cena se repetia milhares de vezes na minha mente, doeu demais vê-la correndo para Izumi, me ignorando completamente e eu queria devolver a dor, mas exagerei.
Peguei as toalhas e uma blusa de pijama minha, a mesma que ela usou a primeira vez, nunca pensei que usaria novamente. A deixei no banheiro por um bom tempo para que se limpasse completamente, depois avisei que tinha deixado tolas e roupas, mas não obtive resposta. Esperei por algum tempo e ela não saiu, acabei ficando preocupado e entrando novamente, a chamei fora do box, mas ela não respondeu. Quando abri a porta Inoue estava na mesma posição em que a deixei, os olhos desfocados, embaçados. Kami!
— Inoue! — Chamei, mas ela continuou da mesma forma como se não tivesse me ouvido. — Para com isso, Inoue, reage. — Entrei no box, a sacudindo diversas vezes.
Ela não reagia, estava apática parecendo ter sofrido lobotomia. Droga, droga, o que foi que eu fiz? A abracei forte e escorregamos para o chão embaixo da água morna do chuveiro. Não me importei em me molhar, não me importava com nada mais. E se ela ficasse assim para sempre? Não! Eu precisava fazer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada, estava em desespero.
— Fala comigo garota… — Segurei seu rosto entre as mãos, seus olhos continuavam sem vida, então em um impulso eu selei nossos lábios.
Sua pele estava fria, mesmo sob a água morna, a princípio foi como beijar um objeto inanimado, quando pensei em separar o beijo senti que começou a me corresponder, movendo lentamente os seus lábios. Quando abri meu olhos, seu olhar tinha voltado ao normal.
— Inoue? — Desfiz o encaixe chamando baixinho pelo seu nome. Ela estava de volta?
— Fica comigo, não me deixa sozinha. — Se jogou nos meus braços chorando desesperadamente, me apertando com todas as forças. — Não me deixa sozinha nunca mais… — Dito isso ela cai em um choro desesperado, sonoro, quase infantil.
Isso me abalou profundamente, me desarmou, me fez sentir horrível, meu peito doeu muito mais do que nas vezes que penso sobre seus sentimentos por Izumi. Eu não só retribui seu abraço, a apertando com força, como também retribui as lágrimas. E mesmo em uma situação como essa eu não queria ter que chorar na frente dela, mas dane-se.
— Não vou deixar... Eu sinto muito... — Ficamos alí presos naquele choro, eu nunca me senti tão fraco e desprezível, como as coisas chegaram a este ponto? Não era momento para questionamentos, o cheiro daquela lama pútrida estava espalhada pelo local, ela precisava se banhar, até mesmo em álcool. Me soltei dela e fiz menção de me levantar, mas ela me segurou com força.
— Não me deixa sozinha, por favor. — Pediu novamente, como uma criança.
Droga! Como eu me meto nessas situações? Ela estava mesmo apavorada, não tinha como deixá-la, mas eu não podia dar banho nela novamente ou podia? Dei de ombros e comecei a abrir os botões de seu vestido, sem nenhum protesto. Respirei fundo e fiz o processo com o restante dos trajes até que ela estivesse completamente nua.
Comecei a esfregar seu corpo retirando todo resquício daquela lama nojenta, os mais difíceis de lavar foram os cabelos longos, depois de muito trabalho consegui. Confesso que estava chocado com a forma como ela se comportou, em nenhum momento não tentou se cobriu e deu um de seus chiliques, gritando. Eu realmente estaria com o corpo em chamas, se não estivesse tão preocupado. O que aconteceu com ela?
Não importava, por mais que a tivesse banhado ainda não era o suficiente. A tirei do chuveiro a enrolando na toalha, pelo comunicador ordenei que alguns escravos viessem limpar o banheiro e desinfetar tudo. Assim que a limpeza foi feita e os trajes sujos foram levados para longe, o local desinfetado, mandei que enchesse a banheira de álcool.
Enquanto isso Inoue permaneceu quieta, calada como uma boneca. Quando a banheira ficou pronta, a coloquei dentro dela, a mergulhei algumas vezes, com cuidado com o rosto e Wormmon chegou desesperado, falando besteiras.
— Ken-chan, para que tanto álcool? Você não está pensando em tacar fogo na Miyako-san?
— Ah? O que? Claro que não, seu imbecil! Depois o louco da trama sou eu. Já que está aqui, mande Bakemon trazer alguns produtos de higiene pessoal dela pelo portal, incluindo shampoo e condicionador que o meu acabou, hidratante também, se não esse álcool vai ressecar a pele dela. Mande que traga algumas roupas e peças íntimas também.
— Mas Ken-chan, só você pode abrir o portal para ele. — Wormmon me lembrou dos fatos, eu estava tão impressionado com a situação de Inoue, que me esqueci desse detalhe.
— Abra comunicação com Bakemon transmite as ordens, eu já vou abrir o portal. — Ordeno e ele sai rapidamente para cumprir o que foi solicitado.
Neste período, a retirei da banheira de álcool e liguei o chuveiro novamente, colocando-a debaixo dele, Wormmon anunciou que o fantasma já estava pronto.
— Só um momento Inoue, vou abrir o portal e já volto.
— Não. — Ela me segurou pelo pulso, já iniciando um choro. — Não me deixe.
— Wormmon fica com você, preciso pegar produtos para o seus cabelos ou eles vão ficar ressecados por causa do álcool.
— É, Miyako-san, eu estou aqui com você. — A voz infantil de Wormmon bradou mansa e ela pareceu relaxar.
A deixei com Wormmon e fui até o notebook abrir o portal para Bakemon, ele passou me entregando uma mochila grande, com tudo que eu havia pedido, nem pedi relatório, afinal lá ainda era noite e todos dormiam, o mandei de volta e disse para atuar o melhor possível, não tinha como saber quando Inoue voltaria ao normal.
Peguei seus produtos de cabelo e deixei uma camisola e calcinha sobre a cama, rumei para o banheiro e lavei seus cabelos cuidadosamente, de forma que mesmo molhados eles recuperaram a textura sedosa. Coloquei a banheira para encher, novamente e dessa vez joguei bastante sais de banho e fiz espuma, quando já estava cheia a coloque dentro da água. Agora sim, não havia nem resquícios daquela lama nojenta.
A levei para fora do box e sequei seu corpo e cabelos a levando para o quarto, sentando-a, vesti a camisola e a peça íntima e, passei um de seus hidratantes pelo seu corpo, tragos por Bakemon, para que sua pele não ressecar, peguei uma escova para desembaraçar seus cabelos e ela continuou quietinha como uma boneca.Peguei o kit de primeiros socorros, no meu closet e cuidei dos ferimentos de seus joelhos Quando terminei a deitei, aconchegando-a sob o edredom quentinho.
Wormmon acompanhou o processo, mas quando o olhei de canto ele saiu o mais rápido que pode, nos deixando.
— Pode dormir, eu vou tomar um banho. — Eu já tinha tirado minhas botas e meu sobretudo que estavam sujos de lama e meus escravos já tinham levado, mesmo assim eu sentia que precisava de um banho e álcool também.
— Por favor, não quero ficar sozinha...
— É só por um momento, nada vai acontecer.— Ela não pareceu muito convencida e começou a se levantar. — Não, não. Volta, deita ai quietinha. — A coloquei de volta no lugar. — Tudo bem, eu não vou sair.
Inoue pareceu desconfiada, mas acabou cedendo e relaxando um pouco sua expressão. Como ainda não podia deitar na cama, puxei uma cadeira e sentei ao seu lado, pegando na sua mão; ela reagiu apertando com força, parecendo se assegurar de que eu ficaria ali, e jamais fugiria para qualquer lugar.
Cerca de uma hora se passou, durante esse tempo, os seus olhos se fechavam, quando parecia que ela iria adormecer, despertava e me olhava fixamente, perguntando se a deixaria sozinha; confirmei muitas vezes que ficaria ali ao seu lado, que não era para se preocupar com nada no momento. Kami, eu estava cansado, com dores no corpo, frio e sono, só queria que essa garota dormisse para poder ir me banhar e descansar.
Notei que ela começou a ressonar tranquilamente, me parecendo que finalmente havia dormido, desfiz o encaixe das nossas mãos e levantei seguindo para o armário, pegando meu pijama, para logo ir ao banheiro. Retirei rapidamente as roupas molhadas e fui para baixo d’agua quente, retirando toda aquela lama fedorenta do meu corpo; peguei o sabonete da prateleira e fui passando com pressa, usei álcool para desinfetar minha pele, sentia que precisava ser o mais rápido, pois temia que Inoue acordasse e tivesse outra crise.
Desliguei o chuveiro, peguei as toalhas e me sequei numa velocidade impressionante, em menos de dois minutos já estava devidamente seco e vestido a calça do pijama, estava prestes a vestir a camiseta, quando escutei alguns gritos escandalosos vindos do lado de fora, ah, merda, Inoue deve ter despertado e o que eu temia aconteceu.
Larguei a camiseta no chão e abri a porta do banheiro, me deparando com ela sentada e encolhida, numa crise de choro, igual na hora em que a encontrei naquele lugar deplorável. Na hora eu não pensei, apenas sai correndo em sua direção, me jogando na cama, puxando-a para um abraço, apertando com força o seu corpo contra o meu, sentindo o quanto tremia e o seu coração batia descompassado.
— Shh… Calma, eu estou aqui agora… — Sussurrei, enquanto passava as pontas dos dedos pelos seus cabelos, úmidos.
— Kaiser-sama, você prometeu que não me abandonaria…
— Eu sei, mas eu precisava Inoue, como poderia me deitar sujo ao seu lado? Fora que eu ficaria doente e não poderia cuidar de você. — Desencostei seu corpo e limpei as lágrimas que teimam em escorrer pela sua face.
— Promete que nunca mais vai me abandonar? — Ela funga diversas vezes, fazendo beicinho, parecendo uma criança.
— Prometo. — Dou um beijo em sua testa. — Venha, vamos dormir, você teve emoções demais por hoje. — Empurro seu corpo para que se deite na cama.
Ela acabou me puxando e se abraçando em minha cintura, entrelaçando as suas pernas nas minhas, me prendendo, de forma que não fugiria de maneira alguma. Sua cabeça repousou sobre o meu peito, coloquei meu nariz entre os seus cabelos, inspirando o seu cheiro, fechando os olhos, completamente entorpecido por aquele aroma delicioso. Minhas mãos seguiram para sua cintura fina, abraçando-a, sentindo todo o seu calor, fazendo o meu coração disparar e o estômago se revirar intensamente.
O que você está fazendo comigo, garota? Nunca me senti assim, todo esse turbilhão de sentimentos. Você me fere, me faz sangrar por dentro, me mata aos poucos e eu revido com todas as minhas armas, só para me sentir culpado depois. Não consigo mais evitar, nunca senti tanto medo de perder alguém, como foi hoje. Nem sei o que seria de mim se você ficasse mais algum tempo naquele lugar pavoroso, me sinto tão mal, só de lembrar o quanto você estava fragilizada quando a encontrei. Não quero pensar nisso agora, você está aqui, salva e protegida ao meu lado, só eu posso te dar isso Inoue, você precisa aceitar de uma vez por todas, esse é o seu destino.
Eu passei dos limites
E agora deixo Deus decidir
E eu não duraria essas provas
Então estou voltando pra casa.
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