Inimigos Íntimos

36 Lighdramon- compreendendo o poder da amizade


POV DAISUKE

A chegada de Yamato e Iori-kun, seria tipo o nosso reforço, porém Taichi-kun não queria que fossemos atrás de Agumon para derrotá-lo e libertá-lo, ele estava temendo por seu parceiro e eu entendi seu ponto, entretanto.

— O que você está dizendo, seu imbecil? — Yamato-san dá um passo a frente, encarando o castanho.

— Eu não quero que machuquem Agumon, ele não sabe o que está fazendo, não tem culpa de nada, não machuquem ele...— Taichi-kun estava totalmente desequilibrado, se contorcendo e esbravejando.

— NÃO SEJA IDIOTA! — o loiro deu um soco no olho de Yagami, o derrubando. — Você conhece o Agumon, pensa que ele quer ser protegido e viver uma vida de escravidão? Pensa que ele quer ficarem sendo usado por Kaiser para matar sua própria espécie? Pare de choramingar como uma mocinha, está falando por si mesmo e não pelo seu parceiro, porque ele ia preferir morrer pelas nossas mãos, a sair por aí matando e escravizando inocentes.

Foi um longo período de silêncio; Taichi-kun ainda caído no chão, encarava o loiro, segurando o local onde recebeu o golpe. Ishida ofereceu-lhe a mão para que se levantasse, o castanho hesitou por alguns momentos, mas aceitou a ajuda do amigo.

— Estou sendo tolo.— murmurou se levantando. — Agumon precisa ser libertado do poder das trevas, não importa como for. Vamos fazer o que tiver que ser feito! — Taichi-ku, assegurou convictamente.

— É assim que se fala! — Yamato-san lhe deu um tapa no ombro.

Eu não entendo, não consigo, não entra na minha cabeça; esse momento, essa conversa. O que tirar de tudo isso? Como compreender a relação deles?

Entramos nos carrinhos-vagões da locomotiva e os recém chegados, abriram suas mochilas, Mimi-chan haviam enviado um exagero de comida e caixinhas de água e suco, os Digimon se fartaram recuperando sua energia, nós também comemos, mas havia um gosto amargo em nossa boca.

Koushiro-san nos mandava e-mails a todo momento, nos deixando informados sobre as áreas conquistadas por Kaiser, aumentando assustadoramente.

— Koushiro-kun, informou que Kaiser está indo para o sul.— declara Iori-kun.

— Então é para lá que nós vamos! — Taichi ergue o punho em determinação.

— Gabumon, você está pronto? — Yamato-san questiona ao parceiro, que assente.

Como? Então vamos lutar? Vamos atacar nosso amigo, é isso?

— Não podemos atacar o parceiro do Taichi-kun, não tem como fazer isso. Vamos nos virar uns contra os outros, vamos ferir e até matar amigos, agora? — esbravejo indignado, cerrando os punhos.

— O que não podemos é deixá-lo ser escravo de Kaiser e ajudar aquele louco a destruir o mundo que ele lutou para proteger. — Takeru-kun responde naturalmente.

— Nada feito! Não tem como; deve ter outro meio. É isso que Kaiser quer, vocês não veem? Hoje destruímos Agumon, depois Hawkmon ou seja lá qual for, ele se diverte enquanto nosso grupo caí e se destrói!

— Eu concordo que Kaiser joga conosco, brinca com a nossa amizade, mas não devemos nos acovardar e deixar Agumon sofrer. — rebate Takaishi.

Saio de onde estou e o seguro pelo colarinho.

— E para isso vamos matá-lo? — vociferei contra sua face.

— Se for preciso, SIM! — Ele gritou de volta e começamos a lutar, enquanto Hikari-chan e Iori-kun, tentavam nos separar.

— Deixem eles...— opina Taich e Yamato, mas nós paramos e os encaramos.

— Amigos de verdade, se enfrentam ás vezes, isso é normal. Nós também somos assim, então aconselho que vocês não hesitem em lutar entre si. — explica Taichi-kun.

— É uma forma de chegar a um acordo. — Yamato-kun, completa e eles se olham por um tempo.

— Como assim? — pergunto confuso.

— Eu não entendi nada.— Takeru-kun garante.

— Um dia vocês vão entender...— declara Taichi-kun.

— É, foi assim conosco também. — Yamato-san emenda.

Fomos tragos de volta a realidade quando o D-3 de Iori-kun começou a apitar e o mesmo alegou ter detectado um Digimental. Fiquei confuso, pois não sabia que haviam outros. De repente nosso vagão passou diante de uma caverna com um símbolo redondo, enorme, paramos e descemos para averiguar que o sinal vinha daquele lugar.

— Deve estar aqui em algum lugar. — afirma o mais novo do grupo, seguindo os sinais.

Ao longe vi uma cratera no chão e tive a impressão de que pudesse estar alí.

— Pode estar aqui. — Corremos todos para a o local e lá estava, era um Digimental negro com detalhes em azul e um chifre dourado. — Um Digimental!

— É um Digimental da amizade...— cantarolou Taichi.— Prova de amizade, como as minhas brigas com Yamato.

— É, nós brigávamos por qualquer coisa, lembra? — Indaga o loiro, com voz nostálgica.

— Desde quando brigar é prova de amizade? — Pergunto horrorizado, não faz sentido algum.

— De quem será esse Digimental? — Iori-kun questiona.

— Será que existe mais Digiescolhidos? — Hikari-chan fala.

— Ele pode ser meu.— teoriza Ishida.— como aconteceu no caso do Takeru e da Hikari.

— Então vá lá, erga o brasão. — incentiva Taichi, e o loiro desce para tentar levantar o Digimental.

Yamato puxa com toda sua força, mas não surte nenhum efeito.

— Iori, tenta você. — sugere Taichi.

— Certo!— o mais novo do grupo também se esforça em vão.

Todos fazem tentativas fracassadas e logo pedem que eu vá tentar, mas não creio que seja meu, já não sei se somos mesmo amigos ou um grupo obrigado a estar juntos para lutar, não sei definir se entendo sobre amizade, mas com a insistência do restante, pulo na cratera e tento puxar o Digimental… Forcei, forcei e nada aconteceu.

— Ah, eu sabia que não era meu! — assim que eu disse, todos ouvimos um ruído agudo, ensurdecedor. — Aí, que barulho é esse? — tampo os ouvidos, atordoado.

Eram um enxame de Flymon, voando em nossa direção e lançando seus ferrões vermelhos. Todos nos desesperamos, desviando dos ataques.

— Daisuke...— pede Veemon.

— Certo… Digimental Up…

— Veemon, armor shinka… Flamedramon, a coragem flamejante! — ele salta contra os inimigos, já os atacando. — Punho de Fogo!

Os inimigos nos atordoam novamente com ataques sonoros de alta frequência, a impressão era que meu cérebro iria explodir dentro da minha cabeça.

— Patamon! — ouço a voz de Takeru-kun, em desespero. — Ele sumiu.

Olho para onde o vi pela última vez e o parceiro de Takeru não estava mais lá. Volto meu olhar para cima e me choco com o que vejo; Patamon estava sendo levado. Foi como eu disse, Kaiser agora queria outro do nosso grupo.

— PATAMON! — Takeru gritou a plenos pulmões, grande era seu desespero e eu pude sentir.

Takeru, Flamedramon e eu, corremos em desespero tentando alcançar o Flymon, mas o pior estava por vir. De trás das montanhas, MetalGreymon pulou em nossa frente, o impacto de seu corpo truculento foi tão grande que o chão tremeu, nos fazendo cair.

A risada debochada, de Kaiser é ouvida e logo Flymon entrega-lhe Patamon

— Finalmente meu experimento, a Espiral Negra, foi um sucesso. Sente-se honrado em ser o segundo de seu grupo a tornar-se meu escravo?— dirigi a palavra a Patamon, que se debatia assustado nas garras de Flymon.

— O QUE!? TIRE AS MÃOS SUJAS DE CIMA DELE, SEU NERD, MANÍACO DE MERDA!

— Tome cuidado com suas palavras, fada loira, assim eu terei o prazer de escravizar seu parceiro e mandar que ele o mate bem lentamente.

Flamedramon se postou em posição de ataque, mas eu o impedi.

— Não, se atacar pode ferir o Agumon, também o Patamon.

— O que você está dizendo? Temos que salvar o Patamon! — Takeru esbraveja em minha frente, como se me desse ordens.

— Olha como você fala comigo.— protesto, afinal estou protegendo o parceiro dele.

— Não podemos ficar aqui parados. — ele vem para cima de mim e nós começamos a brigar.

— Parem com isso, não é hora para brigas. — Hikari-chan nos separa,

Kaiser gargalha se deliciando com a discórdia que está causando.

— Isso mesmo, seus ratos imundos, briguem, se matem, comam as carcaças uns dos outros. Onde está mesmo a união inabalável do grupo? — debocha da nossa situação.

— Não vou deixar você usar o Patamon como seu escravo. — grita Takeru-kun.

— Nem eu o Agumon. — berra Taichi-kun.

— Hmm! Quanta convicção! Quero ver vocês tentarem pegar de volta. — Kaiser desafia, um sorriso sarcástico e vitorioso em sua maldita cara.

— Você vai colocar essa coisa em mim?— choraminga Patamon com voz trêmula.

— Exatamente, Patamon, agora você vai experimentar essa maravilhosa invenção, que eu criei.— ele avança contra Patamon, com o objeto em mãos, enquanto o pequeno se contorce.

— PATAMON! — Takeru-kun se lança em direção aos inimigos, recebendo um ataque de MetalGreymon, mas sendo salvo por Taichi-kun, que o empurra.

Neste momento Garurumon surge e resgata Patamon, o devolvendo para Takeru.

— Obrigado! — o loiro agradece Garurumon.— Patamon você está bem?

— Só um pouco babado. — o pequeno se refere a ter saido da boca de Garurumon.— Desculpe ter te deixado preocupado.

— O takeru-kun arriscou a vida para proteger o Patamon...— murmuro alarmado.

— Você faria o mesmo por mim, Daisuke? — Flamedramon pergunta e eu realmente, não sei o que responder.

— Ah… Sim... talvez...— dou a resposta mais estúpida que eu poderia ter escolhido.

— Talvez? Por favor diga que sim. — meu parceiro faz um apelo desesperado.

— Ah, hoje não foi seu dia de sorte, Patamon; mas tudo bem, ainda não vi tudo que o meu novo brinquedinho pode fazer. Vamos começar a festa MetalGreymon, mate todos.

Yamato avança com Garurumon, contra MetalGreymon e uma batalha se inicia.

— Agumon, acorda, você tem que lutar contra isso,— Garurumon tenta despertar o amigo, que desfere patadas e golpes de torpedos em direção a ele.

— Vamos tirar essa Espiral Negra de qualquer maneira.— Garante Yamato-kun.

— Mas eu vou ter que atirar. — protesta Garurumon.

— Não temos escolha. — informa o loiro.— Não se segure, dê o melhor de si ou todos sairemos perdendo, inclusive Agumon.

— Concorda, Taichi? — pergunta Garurumon.

— Concordo! — Taichi-kun autoriza.

— Nós também vamos ajudar.— Iori-kun informa e faz seu parceiro evoluir.

Takeru e Hikari fazem o mesmo e uma luta foi travada, todos atacando MetalGreymon, tentando atingir a Espiral Negra.

— Broca de Ouro. — Digmon lança seu ataque, mas o oponente desvia.

— Jóia do Nilo! — Nefertimon golpeia, mas é em vão.

Garurumon tenta um ataque corporal, chegando a morder a Espiral, mas não conseguindo resultados ele ataca com a “Rajada Uivante”, MetalGreymon, ruge de dor.

— Sentimos muito, Agumon, mas não temos outra escolha.— Yamato justifica, mas o oponente ataca com suas patas pesadas.

MetalGreymon urra algo, gira seu corpo acertando sua calda em Garurumon e Digmon, os arremessando contra as montanhas, enquanto acerta torpedos contra Pegasmon e Nefertimon, os fazendo trombar entre si e caírem atordoados com o impacto.

— Daisuke, por favor, faça alguma coisa...— Taichi-kun implora, mas eu estou perdido, não sei como reagir.

— Daisuke, nós não vamos lutar? Não vamos ajudar nosso amigo? — questiona Flamedramon.

— Mas é o Digimon do Taichi, o MetalGreymon. — respondo incerto.

— Olha o que você disse, Daisuke. — Fladramon soa magoado, regredindo a Veemon.

— Eu… Eu...— fiquei em crise, em choque e os ataques de MetalGreymon cada vez mais violentos.

— E o que vamos fazer? Continuar fugindo de MetalGreymon, até quando? Quando ele nos matar e acabar com Mundo Digital? — pondera Veemon.

— Vai ser o fim, ele vai destruir tudo...— murmurei impotente.

— Não pode ser assim, você tem que acreditar em Agumon e Garurumon, em todos! — Taichi gritou para mim.

Garurumon e Yamato já estavam de pé e tentavam atacar a Espiral, incessantemente, Takeru, Hikari, Iori… Todos dando o melhor de si.

E o que eu fiz até agora? Eu não sei como lidar com amizade, me acovardei diante da pergunta do meu Digimon, o magoando. Estou perdido enquanto todos estão se esforçando, porque eu sou um ignorante. Eu não entendo nada sobre ter amigos e ter que fazer escolhas que os machucam para o bem deles.

Todos entenderam, mas eu, eu não tenho mais acreditado na amizade, desde que Kaiser quebrou o castelo de ilusões que era o nosso grupo, as máscaras caíram e o clima ficou insustentável.

Está errado, eu estou errado, os amigos tem direito de ter seus segredos, suas falhas. Amigos erram, fazem escolhas idiotas, eles discutem, se magoam, se enfrentam, mas quando precisa estão ali, prontos para ajudar. Não estamos ligados por obrigação, estamos ligados para nos entendermos e nos ajudarmos a evoluir.

Yamato e Taichi, eles brigaram muito, ainda brigam, mas no final eles têm um elo maior que as diferenças. Nosso grupo tem isso, Kaiser não vai tirar isso da gente; eu nunca vou desistir da amizade, como todos aqui não estão desistindo, porque Agumon ia querer isso, ou ser libertado ou morrer com honra. Como não entendi antes? Como quase deixar que isso acontecesse com Patamon?

— Eu sou um ignorante! — berro com todas as minhas forças, tirando o que estava preso no meu peito.

Para minha surpresa, uma luz azul brilhante, toma todo o local e o Digimental da amizade, surge em minha frente.

— Digimental! — meus amigos exclamam.

— É seu, o Digimental, é seu, Daisuke. — Veemon parece extremamente feliz.

— Meu? — ainda estou incrédulo.

— Se você tem o Digimental da Coragem e agora o da Amizade, o que isso pode significar? — Iori-kun, observa curioso.

— Daisuke, por favor, estou esperando. — pede Veemon.

— Sim, eu nunca me senti tão pronto… Digimental Up…

— Veemon, armor shinka… — Veemon gira sob o símbolo azul, da amizade, sendo atingido por raios e rajadas de luz, atrás de si surgem imagens de Gabumon, Garurumon e todas as demais evoluções. De um raio reluzente em azul, surge uma criatura cor azul turqueza, quadrúpede, trajando uma armadura negra com detalhes dourados, revestindo todo o lombo, parte das patas, deixando pescoço a mostra, mas contendo uma espécie de couraça negra sobre a cabeça, onde adornava um imponente chifre prateado. — Lighdramon… A força da Amizade.

— Lighdramon, você é demais, conto com você! — o encorajei e ele partiu para cima do oponente.

— MetalGreymon, ataque com todo seu poder! — Kaiser ordenou.

Lighdramon atacou com “Trovão Azul”, mas não surtiu efeito, a Espiral continuou intacta.

Então entendi que funcionaria se trabalhássemos junto, todos nós, e assim fizemos; montei Lighdramon e Yamato já estava montado em Garurumon, tentando trazer Agumon de volta. Acho que isso nos ajudou, porque por alguns momentos ele parou de nos atacar e foi nossa deixa para avançarmos com tudo, enquanto os outros nos davam cobertura.

— Rajada Uivante! — dispara Garurumon, bem perto da Espiral.

— Lamina do Trovão! — Golpeia Lighdramon e sua lâmina consegue romper a Espiral; a mesma se desfaz em dados.

Todo vibramos, comemorando que a Espiral Negra se partiu, Kaiser abriu a boca indignado e fugiu como um covarde em um Airdramon, Agumon voltou ao normal, fraco e desorientado. Taichi se lançou contra ele o sufocando em um abraço emocionado.

— Tá doendo...— Agumon choramingou.

— Como é bom ver você, Agumon. — algumas lágrimas caiam dos olhos de Taichi-kun.

— Então vocês conseguiram me salvar. — respondeu Agumon, com voz fraca, mas feliz.

— Sim, mas tenha muito cuidado, eu quase morri de preocupação.— o castanho aconselhou.

— Sim, vou tomar. — respondeu o amarelado, ambos se encararam com lágrimas nos olhos.

— Daisuke, parabéns, tomou a decisão certa, vocês foram ótimos! — Hikari-chan elogia acariciando a cabeça de Lighdramon.

Os outros também viera, agradeceram, mas eu ainda estava incrédulo. Nós conseguimos; todos conseguimos! Vencemos Kaiser, trouxemos Agumon de volta e aprendemos muitas lições, principalmente eu.

— Nós não conseguiríamos sem você. — Yamato atrapalha meus cabelos e eu já me sinto encabulado com tantos agradecimentos.

— Para gente, estou me sentindo no final do capítulo de Dora a Aventureira. — brinco e todos começam a rir.

— Qual parte a aventura de hoje vocês mais gostaram? — Hikari-chan imita a voz da Dora.

— Com certeza a cara que Kaiser fez quando Agumon foi libertado.— Takeru-kun responde entrando na brincadeira.

— Eu gostei dessa também...— Disse Hikari-chan, divertida.

— Nós também! — Todos dissemos, até os Digimons.

POV NARRADOR

Naquele dia, mais cedo, assim que descobriu sobre a fuga de Agumon, Kaiser procurou por todos os cantos da base, nas gravações de segurança e não encontrou nada, estava furioso, apesar de já ter entendido bem o funcionamento da Espiral, era questão de afronta pessoal que fosse Agumon o primeiro a usá-la.

— Ken-chan, você não precisa do Agumon. Eu sou seu parceiro. Se é sobre experiências para digievoluir, faça comigo. Eu quero evoluir por você.

— Você evoluir? Não me faça rir, seu vermezinho inútil… Espera? — Ele retirou seu chicote. — Você!? Você libertou meu prisioneiro, eu vou acabar com você!

A sorte do pequeno Wormmon foi que um alerta começou a soar de uma das câmeras de segurança, Kaiser se virou para ver os escolhidos acampando muito próximos a sua localização; o momento emocionante, de reencontro entre Taichi e Agumon, ouvindo o castanho dizer que levaria o parceiro para o mundo real. O gênio insano guardou seu chicote e pelo comunicador deu ordens para que a base fosse guiada para outro local.

— Você teve muita sorte, depois resolvemos isso...— rangeu os dentes e Wormmon estremeceu.

Kaiser saiu pisando firme e pouco após sua saída, Miyako entrou na sala. Ela estava procurando algo mais apropriado para vestir, já que ele lhe configurou uma camisolinha fina. Mesmo Digimon não entendendo essas coisas, ela sentia-se envergonhada.

Wormmon já havia saído também, ela se viu sozinha na sala de controles, sentou-se na cadeira e começou a ver o que acontecia no confronto entre os amigos e o gênio. Óbvio que ela estava torcendo para os amigos, viu quando Kaiser conseguiu transformar Agumon em MetalGreymon, se chocou com o tanto de território que ele conquistou.

Em muitos momentos ela roeu as unhas de ansiedade, chegou a jurar para si mesma que deveria manter distância daquele louco. Se puniu em pensamentos por estar vivendo aquele tipo de relacionamento com ele. Era decididamente um monstro, quanta destruição ele estava causando, quanta dor, ela sentia tanto nojo de sia mesma por estar em seus braços ainda pouco.

Ela presenciou o segundo confronto, a quase escravização de Patamon, o desespero de Takeru, a intervenção de Garurumon… Tudo estava um caos, ele? O maldito estava se divertindo, jogando com os sentimentos das pessoas que ela ama, brincando com vidas em jogo. Como ele pode ser tão monstruoso, tão baixo?

O momento em que todos lutavam contra MetalGreymon e Daisuke hesitou, ela o entendeu em partes, mas vibrou e pulou da cadeira, aplaudindo, quando o Digimental deu uma nova transformação para Veemon. Aquela libertação de Agumon, o momento dele com Taichi, mesmo o momento “final de Dora a Exploradora” como Daisuke havia descrito, ela se emocionou muito, desejou estar com eles, fazer parte daquilo, entrar na brincadeira.

Sua emoção durou pouco, pois logo Kaiser retornou a base. Parecia transtornado, tanto que nem notou sua presença, ela fez questão de sair da cadeira e se encostar em um canto escuro da parede, assustada com o estado do gênio, que parecia muito mais insano do que antes.

Uma imagem pausada por Miyako, estava no monitor central, onde os escolhidos comemoravam a vitória. Kaiser rugiu como um animal feroz, socando a tela a fazendo se quebrar, não satisfeito ele pegou sua cadeira e começou a quebrar a sala inteira com ela, gritando.

— ESSE JOGO NÃO ACABOU, SEUS VERMES! VOCÊS VÃO ME PAGAR POR ESSA HUMILHAÇÃO!

Jogou a cadeira para o lado e começou a socar cada tela onde as imagens surgiam, cortando os punhos, os destroços ultrapassando as luvas e entrando em sua carne, mas ele não se detinha por nada. A mesa, bandeja, copos, jarro com água, tudo o que havia naquela sala estava em destroços.

Um monstro… Alguém muito, muito louco e descontrolado, era o que Miyako via em sua frente. Um animal selvagem, raivoso, louco para dilacerar tudo a sua frente. Quando já não havia mais o que quebrar e ele já tinha gritado todo seu ódio, a garota tremia de medo, quase desmaiando onde estava.

— Foi a amizade…— a vozinha de Wormmon soou ao fundo.

— O que? — Kaiser soou rouco.

— Eles acreditam na amizade, isso é o que os torna mais fortes. — emendou Wormmon.

— AMIZADE É O CARALHO! — puxou seu chicote e desferiu um golpe contra o inseto. — A CULPA É TODA SUA, SEU VERME, VOCÊ LIBERTOU ELE…

Começou a bater incessantemente, com força, Wormmon nem tinha voz para implorar para que parasse, um brilho de regressão e o pequeno atingiu sua forma anterior, quase a ponto de perder sua vida.

Entretanto, havia algo a mais, Kaiser emanava uma assustadora aura púrpura, que ficava mais forte no topo de sua cabeça, as linhas de luzes que seguiam por seu corpo pareciam... raízes? Aquilo estava sobrenatural demais, assustador demais; era como se algo o possuísse de alguma forma.

Miyako arriscou tudo, não conseguiu mais ver aquela atrocidade e se jogou contra Kaiser e segurou sua mão; em partes teve sorte que a mão do gênio já estava dolorida, o braço cansado de sustentar as chicotadas. A princípio ele petrificou ao sentir o toque dela.

— Por Kami, pare com isso! Você vai matá-lo! — rogou em um pranto desesperado, agarrada a ele com todas as suas forças.

A aura púrpura foi se dissipando, os olhos do gênio perderam o brilho avermelhado e foram ganhando um tom azul, embaçados como sempre. Ele parecia tão confuso, como uma criança que fez uma enorme bagunça com as coisas dos pais e só agora se deu conta ou começava a se dar.

Ele permitiu que Miyako lhe tirasse o chicote da mão ensanguentada, e juntos, os corações descompassados, eles escorregaram para o chão, coberto pelos destroços dos monitores e outros objetos. Ela o abraçava forte, muito forte, como se o quisesse trazer de volta.

Kaiser separou o abraço e a olhou nos olhos, suas lentes refletiam o brilho de algumas telas que ainda estavam inteiras. Ele a olhou de uma forma, como se tudo tivesse acabado e ela fosse a unica coisa agora, embora soubesse que ela não era dele de fato, seu coração estava com seus amigos, ela estava ali, agarrada a ele, estava alí para ele.

Sem se importar com suas mãos ensanguentadas, ele acariciou as maçãs do rosto de Inoue, por onde as lágrimas ainda faziam seu percurso, enlaçando seus cabelos, com suavidade e a puxando para um beijo tão profundo, desespero, como se fora um pedido de socorro.

Os âmbares de Miyako se mantiveram abertos por alguns minutos, ela tentava processar o misto de sensações e a insanidade do momento. Ichijouji Ken, não era só um egocêntrico, sádico, soberbo, lutando para atingir a grandeza suprema e moldar o mundo a seu bel prazer, não importasse os meios… Ichijou Ken, não era só aquela explosão de luxúria e ira, que lhe aquecia de ambas as formas, a fazendo por vezes querendo espancá-lo ou ser tomada selvagemente… Aquele garoto tinha um mar de mistérios dentro de si

Ela fechou seus olhos e se deixou mergulhar naquele beijo, submergir na insanidade da alma do gênio, já era tarde demais para dizer que não se deixará envolver, que estava amedrontada, comovida e curiosa. Já era tarde demais para ela; então também desligou sua mente e deu a ele o conforto que aquele beijo implorava, ali mesmo, naquela sala caótica, mal iluminada, manchada de carmim...