POV Miyako

Abri os olhos lentamente, minha visão continuava turva, pisquei algumas vezes tentando identificar alguma coisa, só não conseguia, tudo ainda estava embaralhado. Meu corpo começou a tomar consciência. Senti a cama macia, sob mim e os lençóis perfumados, que me cobriam, meus cabelos estavam úmidos. Minha pele se arrepiou, o local era muito frio, ou talvez minha temperatura que estivesse desregulada, sei lá.

Rolei na cama, ficando de lado. Ainda não sabia identificar se aquilo era sonho ou realidade, onde eu estava afinal? Um perfume amadeirado, diferente e delicioso dominava todo o ambiente; Forcei um pouco a minha visão, luzes fracas ao fundo, fecho os olhos, sentindo a cabeça latejar, como se estivesse martelando sobre ela; meu corpo estava fraco, dolorido, pesado, como se eu não me alimentasse há vários dias.

Soltei um gemido, involuntário, quando meu estômago doeu muito, roncando de fome, provavelmente, então senti pulinhos do Poromon sobre mim.

— Miyako-chan? Você acordou? — Não era um sonho, era real, Poromon estava ali mesmo, abri os olhos vislumbrando meu parceiro, mas onde nós estávamos? Que lugar era esse?

— Poromon… — Minha voz saiu fraca, então as lembranças começaram a me assombrar. Mesmo sem forças eu me sentei e o abracei forte, quase o quebrando e cai em um choro desesperado. — Ah, Poromon, eu tive um pesadelo horrível, você tinha sido capturado por Kaiser e ele fazia coisas medonhas e…

— Miyako-chan? — Poromon me chamou, como se precisasse falar algo.

— Não, não meu amor, não fala nada, você está aqui e está bem…

— Mas, Miyako-chan… — Ele arregalou os olhos para a direção contrária a minha, como se tivesse visto um fantasma.

Girei minha cabeça para me deparar com Kaiser de pé ao lado da cama, me oferecendo os meus óculos.

— Tendo problemas com pesadelos “Miyako-chan”? Deveria parar de ver filmes de terror antes de dormir.

Automaticamente ergui a mão pegando e colocando meus óculos, tudo se clareou, pude olhar para cada cantinho do local onde eu estava e depois olhei para mim mesma, cabelos úmidos e uma camisa larga e um pouco comprida, na altura das minhas coxas; abri a boca, completamente apavorada, meu Kami, eu não estava usando roupas íntimas! Não consegui processar direito e o que processei me fez ter uma única reação.

— KYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

— Argh! Cala essa boca, sua gralha escandalosa! Não basta todo trabalho que já me deu, ainda vai ficar gritando nos meus ouvidos! Só está perdendo mais pontos, estou pensando em sair daqui agora e enviar todas aquelas fanfictions “hots” para o ex digicorno, principalmente a última, na qual a postagem foi feita quando ainda estava com ele!

— Não faça isso. — Essa ameaça me fez cair de vez na realidade. — O que ta acontecendo aqui? — Perguntei em um sussurro. Eu estava morrendo de vergonha, raiva, não sabia definir direito, ainda sentia-me chocada por estar alí. Espera, para o mundo, eu estava no quarto daquele maluco?

— Miyako-chan, você passou mal, teve uma crise de pânico, ficou com febre muito alta, desmaiou. — Explicou Poromon, ainda em cima de mim. Ele parecia tão feliz porque eu estava bem, parecia até mais saudável. O apertei em um abraço, não podia lembrar da cena horrível de tê-lo visto naquela cela, tão torturado.

— É, que bom que está bem agora… — Ouvi uma vozinha fininha, mas não encontrei o dono. Uma teia foi lançada em uma das pilastras do dossel da cama e Wormmon subiu usando-a. — O Ken-chan, cuidou de você e te deu banho e medicou. — Revelou com tom orgulhoso. Como é que é?

— Ba-Ba-Banho? — Arregalei os olhos, encarando Kaiser. — KYAAAAAAAAAAAAA! — Meu grito fez Wormmon cair de volta para o chão.

— Já mandei parar de gritar. Fiz porque não sabia o que fazer com você, sua inútil. Acha que fiquei olhando esse seu corpo magricelo?! Ora, por favor, se enxerga, garota! Tenho coisas mais interessantes para enxergar, não um esqueleto ambulante. — Cruzou os braços e olhou para o outro lado. Desgraçado, soberbo!

Refleti por um momento e entre tantas coisas horríveis e humilhantes, aquela era só mais uma, além disso aquele foi o primeiro contato que eu estava tendo com Poromon. Era extremamente constrangedor? Era demais, mas o importante era ter meu parceiro alí. E quando o abracei forte, tudo pareceu menos assustador, mas havia uma pequena coisa me incomodando mais que todas.

— Ichijouji-kun? — Chamei, quase em um sussurro.

— Já te ordenei como deve me tratar. Sabe que minha forma de te lembrar de ter um bom comportamento, sempre são ruins pra esse aí! — Apontou para Poromon, me fazendo apertá-lo forte.

— Kaiser-sama. — Corrigi imediatamente. Ai que treva!

— Assim parece melhor! O que você quer? Já tomou meu tempo, me deu trabalho, dormiu na minha cama, vai comer minha comida. Peça vossa alteza! — Nossa, como ele é antipático!

— Bem… Eu só quero a minha… — Travei com o que eu queria pedir. — Err… Onde estão minhas roupas?

— Estão para lavar, estavam banhadas de suor. — Falou seco, olhando e digitando em seu bracelete.

— E não tem outras?

— Ah, então a roupa que está usando não está do seu agrado? E o que quer my lady, alta costura francesa? — Rangiu os dentes. — Fique você sabendo que eu não sou mágico, não crio as coisas a partir do nada. Quando você vem para minha base o que muda é a configuração dos seus trajes, se eles estão molhados eu não tenho o poder de criar outro do nada. — Explicou, aborrecido.

— Tá bem, entendi. Eu só queria saber sobre a minha…

— Ah? — Parou de digitar e me encarou.

— Você sabe… — Eu não conseguia falar, era constrangedor, mas ficar alí já era estranho, sem calcinha era inaceitável.

— Não sei. Você não perguntou. — Se irritou andando até mim e parando abruptamente. — Pro diabo com esse mimimi. Fala de uma vez, garota.

— MINHA CALCINHA! — Ele pareceu engolir seco, dando alguns passos para trás. — Onde está a minha calcinha?

Ele pigarreou, ficou alguns segundos em silêncio, parecendo pensar no que me responder, ai Kami, ai vem bomba...

— Ah, tá molhada ainda.

— QUEEEEEEEEE?

— Não grita no meu ouvido, demônio! Ta lavada, foi o que eu quis dizer.

— Jogou minha calcinha de renda na máquina de lavar?

— Eu não disse isso.

Não colocou na máquina de lavar. Kami amado, não é possível.

— Ichi… Kaiser-sama? Você não? Definitivamente não. Você lavou a minha calcinha? — Ele cerrou os punhos e investiu contra mim, achei que fosse socar minha cara.

— Eu não sabia que você preferia usar ela suja? Além de infantil, obtusa, imprestável também é porca? — Falou ríspido, fazendo Poromon se encolher no meu colo. — Não sei porque tanta preocupação e escândalo por causa de um, mísero pedacinho de pano, sem valor, fique sabendo que eu lavei coisas suas bem mais constrangedoras que a sua preciosa calcinha.

— Lavou coisas mais constrangedoras… KYAAAAAAAAAAAAAAAAAA! — Senti seu impulso contra mim e sua mão tampando minha boca. Poromon acabou caindo no chão.

— Cala a porra dessa boca. É, não que eu tenha achado interessante, mas eu vi cada pedacinho e, em alta definição. É irônico você ter ficado tão exposta pra mim em um único dia. Primeiro seus fetiches idiotas nas Fanfictions e depois esse seu corpinho” tábua de passar roupas”. Definitivamente seu dia não está sendo bom. — Eu já estava preparada para morder sua mão, com todas as forças, mas a voz de Wormmon, interrompeu o momento.

— Ken-chan, Miyako-san… A comida chegou.

— Ótimo! Fica caladinha e come tudo, antes que morra sem forças. — Tirou a mão da minha boca.

Então, ele acha que as coisas funcionam assim?! Me humilha, pisa em mim da maneira mais cruel, remexendo em todas as minhas coisas mais íntimas, ri e debocha das minhas idéias, desfaz do meu corpo e, agora, quer que eu coma sua comida, pra ficar jogando na minha cara?!

— Não quero a sua comida. — Resmunguei baixinho.

— Oi? Eu ouvi direito? Você NÃO QUER a minha comida? — Esperou a resposta, mas eu só consegui baixar a cabeça, encolhendo as pernas abraçando-as, aquele cheirinho estava delicioso, me matando de fome, tanto que meu estômago começou a roncar.

— Para com isso menina, você precisa comer. — Poromon voou em minha frente.

— É Miyako-san. A comida do Digitamamon é muito boa. — Wormmon incentivou.

— Minha cara, a questão é… EU NÃO ESTOU DANDO, DROGA, DE ESCOLHA NENHUMA… Vai comer a comida, caladinha, sem se fazer de ofendida. Não me interessa e pouco me importa, se está com o orgulho ferido pelas humilhações consecutivas que vem sofrendo. Vai comer tudinho, como uma boa escrava, caso contrário, quem paga pela sua rebeldia. é essa coisinha aqui. — Ele pega uma das asinhas de Poromon, o tirando do meu colo, jogando-o no chão, ao lado de Wormmon. Maldito, está jogando sujo comigo, tadinho, não precisava fazer isso com ele.

— Pensando melhor, acho que me deu fome. — Me ajeito na cama e um Guardromon traz a bandeja até mim.

— Muito bem, assim é melhor. Pode ficar com essa coisa inútil, que chama de parceiro. Amanhã você não vai a escola mesmo. Lembre-se que será vigiada o tempo todo. — Eu posso ficar com Poromon? Ouvi direito ou é efeito de ter tomado remédio de barriga vazia? Ou talvez ele fez coisas pervertidas comigo, enquanto eu estava febril e agora ta com peso na consciência? Se é que esse louco tem alguma consciência.

Com esse pensamento acabo dando uma olhada, desconfiada em sua direção; Kaiser revira os olhos, enquanto fala uma lista de coisas que eu não posso fazer e bla bla bla. Por dentro eu debochava, meu Kami, mas que voz mais enjoada e irritante! Hã… Espera? Eu ouvi direito, ou ele disse que não irei a escola e vou ficar aqui, mas e minha família? E…

— Não posso ficar aqui, o colégio vai ligar para minha casa e…

— Querida escrava, quem é o gênio aqui? — Ele arqueia uma das sobrancelhas, com ar debochado, enquanto o olho sem entender. — Inoue melhorada, pode entrar por favor.

E assim que termina sua fala, uma garota entra e ela é igual a mim, só que com algumas coisas diferentes, o uniforme escolar parecia ser novo, o verde era bem forte, a saia mais curta e a blusa e o casaco mais apertados na cintura; para, que óculos são esses? O que está acontecendo aqui? Esse maníaco me clonou? Engasgo com a sopa e começo uma crise de tosse. Ouço Poromon e até Wormmon fazendo exclamações, impressionados com aquela cópia farsante.

— Você me clonou? — Pergunto estarrecida.

— Pra quem andava com aquele nerd do Izumi, achava que você era um pouquinho mais inteligente, estou vendo que estava enganado. Claro que não, sua imbecil! — Ele começa a andar em círculos em volta da garota. — Essa daqui vemos algumas melhorias, tipo o uniforme é novo e de numeração adequada, nada daquela coisa larga e surrada, ah, e os óculos… — Tira os óculos dela e anda em minha direção. — Esqueci de mencionar a novidade. — Pega os meus óculos, os jogando no chão e pisando diversas vezes neles. — Olha como sou bonzinho, tenho um presentinho pra você.

Abri a boca em um “O” olhando e processando os fatos. Kami, ele quebrou os óculos que eu tinha desde dos doze anos e o pior de tudo, aqueles que estava me obrigando a usar eram super caros. Com que cara eu ia explicar isso para os meus pais? Ainda mais depois de tudo o que aconteceu, nossa relação já não estava das melhores, e agora mais uma novidade?!

Ai, sabe o que é pior de tudo? Esse desgraçado, maldito tem bom gosto, essa armação era dos meus sonhos, namorava uma naquele estilo há tempos, só não tinha dinheiro e nem condições de comprar um óculos daquele estilo, o design era italiano, delicado, com o formato quadrado, as lentes anti reflexo com um excelente trabalho de afinamento para um grau alto.

— Não posso ficar com eles. — Murmurei os segurando, embasbacada. — Não vou saber o que dizer aos meus pais.

— Diga a verdade, oras. — Andou de volta para perto da cópia abrindo a mochila que a mesma levava. — Mostre que trabalhou para isso. — Tirou um rolo e o abriu, enquanto um sorriso se alargava em seu rosto. — Bem fotogênica você!

Choquei, cara, aquela pessoa ali naquele cartaz não era eu e sim a cópia, tinha tirado uma foto para aquela marca de óculos. Tenho certeza de que isso foi enquanto passava mal e esse maníaco dava banho em mim. Droga! daqui há algumas semanas essa foto ia estourar por aí e eu estava totalmente ferrada.

— Seu novo uniforme, sapatos e mochila, foram comprados com parte do seu cachê pelas fotos, o restante está na bolsa, use para comprar roupas íntimas de qualidade, se eu sou obrigado a ficar vendo, que sejam agradáveis aos olhos e não aquelas peças de má qualidade... — Que imbecil! Que ódio, como ele ousa desdenhar das minhas roupas intimas?

— Meu Kami...— Eu estava chocada demais com aquilo. Já estava sendo foco de olhares e fofocas e agora ia aparecer de guarda roupa renovado, assim do nada e todos iam pensar que… Ai Kami! Que vergonha!

— Eu sei. Não parece aqueles filmes ridículos, clichês dos anos 80, onde a nerd começa a namorar o popular e fica linda? Imagine quantas Fanfictions farão sobre isso. Não faça essa tromba eu sei que gosta dessas tramas idiotas.

— Não é verdade.— É a coisa mais horrível do mundo, ficar totalmente exposta para alguém. Todas aquelas coisas vergonhosas que você guarda só para si, sendo usadas para te humilhar o tempo todo. — Toda garota já gostou desses besteirois estilo Hana Yori Dango. Viu no meu computador?

— É sim, o computador de uma pessoa nunca mente. — Ele acabou coçando os olhos e soltando um longo bocejo. — Vai ficar chocada quando ver os podres dos seus amiguinhos, principalmente daquela pata choca sem luz. Essa, eu quero gravar a sua cara quando ver. — Bocejou mais uma vez, se referia a Hikari-chan, o que mais ela pode esconder de tão grave? — Por hoje é só, estou indo para o mundo real, seu D-3 vai comigo, coma, durma, não tente nenhuma gracinha, não mexa nas minhas coisas, se não, você já sabe.

— Hey! Espera, e essa cópia? E sobre os meus amigos, e…

— Hoje não Inoue, já tomou muito do meu tempo. — Deu as costas, acenando para que o “clone” o seguisse e saiu andando, me ignorando, não aguentei e pus língua, ia mostrar o dedo do meio, mas não quero ensinar essas coisas para os Digimons. — Eu vi isso! Tá brincando muito com a sorte. — Ele parou e eu pensei “lascou”. Ficou parado por algum tempo, mas deu de ombros e foi embora. Ufa!

Respirei aliviada, junto com os Digimons. Tenho que controlar os meus impulsos, já vi o que isso causou, mas é mais forte que eu, quando dou por mim já respondi, já agi e… Ah, vou comer e descansar, é o que me resta, eu sei que deveria me preocupar mais com o que ele vai aprontar amanhã, mas meu corpo está dolorido e fraco.

Saio dos meus devaneios e Wormmon e Poromon estão me encarando.

— Então é isso, acho que eu não tenho nenhuma escolha.

— As coisas não estão tão ruins assim. — Wormmon comentou otimista.

— Vamos dormir juntinhos. — Poromon voou até mim, esfregando seu rostinho ao meu.

Comi tudo o que Guardromon tinha trago, bebi o suco, depois fui ao banheiro; uau, era enorme. Como aquele cara gosta de ostentar. Parecia banheiro de revista, tinha uma banheira grande e opção box, tudo na cor marfim e com plantas falsas, decorativas. Dá pra ver o quanto é narcisista pelo tamanho do espelho que havia em uma das paredes. Sobre a pia havia uma sacola com meu nome, dentro da mesma tinha uma toalha idêntica a uma das que eu tenho em casa, azul bebê, cheia de desenhos de cupcake com olhinhos e boquinha. Meu Kami, não só isso, havia também uma escova de dentes lilás e rosa igual a minha, se não estivesse na embalagem diria que era ela. Esse cara me assusta demais.

Decido tomar um banho, parece estranho, sim, mas o banho pode melhorar a sensação de cansaço no meu corpo. Abro a porta e aviso Poromon e Wormmon que conversavam sobre a cama, como se fossem dois amiguinhos. Tiro a camisa e abro o chuveiro, acabo usando shampoo e condicionador para lavar meus cabelos, que estava com cheiro de cachorro molhado. Muitas coisas loucas me ocorreram durante aquele banho. É como se minha vida não me pertencesse mais, não faço escolhas, não traço metas, vivo cada momento prezando pelo bem estar de Poromon e… Parece ser tudo o que eu tenho agora.

Eu levanto a cabeça e tento parecer forte, tenho que ser forte, mas estou tão assustada, me sinto um animal de estimação. Odeio todo prazer e diversão que minha dor e humilhação causam naquele lunático. Quando passo sabonete pelo meu corpo, me lembro que ele me viu nua, mais uma vez, me deu banho e ainda debochou da minha formação física. Idiota! Do jeito que é soberbo nenhuma garota deve ser boa o bastante, tábua de passar roupas, imbecil!

Me enxaguo e desligo o chuveiro, enrolo meus cabelos em uma das toalhas e uso a outra para secar meu corpo, acabo andando até o espelho e me olhando por alguns minutos. Todo mundo sabe que garotas de revistas e televisão são cheias de efeitos. Será que o meu corpo é tão ruim assim? Nunca gostei de ir em parques aquáticos, praias, cachoeiras, acho que depois do que ouvi eu gosto menos ainda. Idiota, insensível falar mal do corpo de uma garota é baixo até pra ele.

Me olho por mais algum tempo e dou de ombros. Não importa a opinião deste imbecil. Termino de me secar e me visto com a roupa que estava antes. Escovo os dentes e guardo a escova no armário, vejo que a dele está lá, me dá uma vontade de mergulhar ela na água do vaso sanitário, depois colocar no lugar, mas melhor não arriscar.

Enfim, seco o banheiro, estendo a toalha e volto para o quarto. Wormmon já tinha saído e Poromon me esperava na cama. Observei cada detalhe do local, as cortinas longas, o lustre, luxuoso, cujo as luzes estavam apagadas deixando o ambiente sob a iluminação do abajur. Me deitei, recolhendo meu parceiro junto ao peito e me deixei relaxar um pouco. Como eu poderia dormir em um local assim, estranho? Não sei, mas estava exausta, esgotada e a cama era muito quentinha e confortável, então apaguei.

(...)

Acordei preguiçosa, murmurando, enquanto me esticava na cama macia, Poromon continuava dormindo, bem quentinho, ressonando tranquilamente, como se estivesse quietinho em seu cestinho. Noto que ao seu lado havia um comunicador, mais um item que vou incluir na lista de bizarrices que andam acontecendo em minha vida; depois de tudo que venho vivendo ultimamente, posso dizer que estava feliz de acordar ao lado do meu parceiro.

— Bom dia Miyako-chan. — Não havia notado que ele abriu os olhinhos, me cumprimentando feliz.

— Bom dia meu amor! — O abracei, dando beijinhos. — Será que é dia? Esse lugar é tão escuro. — Me levanto, colocando os pés descalços, no chão frio e ando com ele, até uma parede cobertas por longas cortinas azul marinho acetinadas, abrindo as mesmas. — Que estranho… Nada por perto, não vejo árvores, nem montanhas, só um céu acinzentado.

Me deu um arrepio ao olhar para aquele lugar, tão mórbido, e fechei as cortinas na hora. Onde esta base estava afinal? Antes que pudesse fazer mais questionamentos, o comunicador apitou e eu corri para atender, era Wormmon.

— Vocês acordaram? Podemos entrar?

— Sim, acordamos. Você está com quem?

— Com o Guardromon.

— Podem entrar, sim. — Como sou burra, se fosse Kaiser com ele, não pediria permissão, já entraria como se o quarto fosse dele. Mais ein? O quarto é dele, que treva!

A porta se abriu e Wormmon entrou, seguido por Guardromon, que trazia roupas limpas dobradas. Até que enfim tiraria aquela camiseta nojenta dele, não queria nada desse imbecil no meu corpo.

— Trouxemos as suas roupas. — Wormmon anuncia alegre.

— Obrigada! — Pego as peças e começo a me vestir, Poromon fica com uma gota na cabeça, Wormmon cai para traz e Guardromon se vira para o lado contrário. — Ah, qual é gente? Se aquele imbecil já me viu sem roupa, não vejo motivos para me envergonhar na frente de vocês.

Termino de me vestir e vou até o espelho do banheiro dar uma olhada, abro as gavetas do armário do banheiro e procuro uma escova de cabelos, encontrando uma na cor preta, me sento na lateral da banheira e começo a me pentear.

Gente quão bizarro isso me parece, aqui nesse banheiro, escovando os meus cabelos, enquanto tem uma cópia minha entre meus colegas de classe agindo normalmente, como se nada estivesse acontecendo. Kami, eu passei a noite inteira aqui e, o pior de tudo era o cheiro dele espalhado por todo ambiente, eu realmente queria dizer que ele fede a bode velho, chulé, mas não é verdade, seu cheiro é bem agradável. Mas o que eu estou pensando? Pro diabo Kaiser e seu perfume de gambá.

Me levanto nervosa, praguejando a mim mesma e Poromon e Wormmon invadem o banheiro.

— Tá tudo bem aí, Miyako-chan? — Poromon pergunta preocupado.

— Err… Aquele desgraçado, pavoroso, lunático. Como ele ousa? Ta me fazendo de sua boneca, me obrigando até a vestir o que ele quer. Se eu pudesse quebrar aquela cara arrogante dele… — Sapateio pelo banheiro, esbravejando como uma criança e sou cortada por uma risadinha de Wormmon. — O que? Vai debochar de mim também, lagarta?

— Desculpa Miyako-san, mas é que vocês dois podem ser bem parecidos algumas vezes. Talvez por isso teimam em se odiar. — Ele continuou a rir.

— O que? Eu não sou nada parecida com aquele demente. É como comparar Bruce Wayne e Tony Stark, Star Trek e Star Wars. — E os dois monstrinhos me encaram com olhar curioso. Claro, eles não conheciam o que eu estava falando. — Ah, deixa pra lá, vamos logo comer alguma coisa, que só posso embora mesmo, quando aquele lunático chegar.

Assim Wormmon foi nos guiando pelos corredores frios e mal iluminados, por todo o caminho, noto que haviam portas estranhas fechadas, me deixando louca de curiosidade. Quais coisas sinistras Kaiser esconde atrás delas? Aproveito para ficar agarradinha com Poromon e tento não pensar naquela cela imunda.

Passamos por uma sala, cuja a porta estava semi aberta e nela havia vários pequenos Digimons esverdeados com a cabeça em formato de TV, estavam agitados entre si.

— O que está acontecendo Monitamons? — Wormmon correu até eles.

Monitamons

Nivel: Nenhum

Tipo: Braun

Com o hobby de observar Digimons para onde quer ele que vá, é um Digimon ninja, que se encontra sempre a observar alguém. Enquanto ele insiste que é um ninja, as coisas que ele faz são mais atos de um perseguidor. Se alguém ver um deles, é melhor esse alguém acreditar que hajam uns trinta deles em torno dele. Embora livremente use ninjutsu como "Kadan", no qual cria uma bola de fogo, "Suiryu", uma pistola de água, "Kazaguruma", vento, e "Densen", descargas de raios, nenhum deles tem grande poder. Mas o que deve ser observado não é a sua força de combate, porém a sua capacidade de "partilha de informação". Isso permite que ele registe a informação adquirida e a compartilhe com o seus colegas Monitamons, então observações de Monitamon boas, bem como más e vergonhosas, espalham-se mais rápido que a luz.

Fire Shot (Kadan): Cria uma bola de fogo.

Water Dragon (Suiryu): Ataca-se com uma pistola de água.

Roda de vento (Kazaguruma): Eleva um vento.

Densen (Lightning Flash): Descarrega raios.

CyberRecon (Sakuteki): Reconhecimento

Konoha Kakure (Ocultação da Folha) : Esconde-se com uma folhagem.

— Parece que a base foi descoberta senhor. — A base foi descoberta? Não pode ser a galera, pois estão na aula. Seria Leomon, Orgemon e Andromon. Espera, chamaram essa coisinha de senhor? — Tem inimigos atacando pelo ar.

— Só essa que faltava. — Murmura Wormmon parecendo pensar no que fazer. — Miyako-san vá com Poromon e Guardromon para a cozinha, lá Digitamamon lhe dará algo para comer e não saia de lá.

— Mas Wormmon, eu quero saber o que ta acontecendo.

— Quer Poromon na brasa, na chapa, no espeto, ao molho ou bem passado?

— OK. O Capitão entendeu a referência! — Ergo uma das mãos imitando Capitão America e saio seguindo Guardromon, mas não resisto ao trazer um daqueles Digimon TV conosco.

— Senhorita me solta, eu não posso ir.

— Que não pode o que. Sou convidada VIP do seu mestre, deixa ele saber que não quis me ajudar. — Jogo uma mentirinha básica e não é que o papo colou e o Digimon… Er… Monitarmon veio conosco para a cozinha. — Pode transmitir o que está acontecendo lá fora?

Ele começa a transmitir o que está acontecendo, Wormmon é pequeno e de aparência meiga, mas não se engane, sabe comandar muito bem os escravos de Kaiser. Para defesa direta ele usou Guardromons e Tankmons, praticamente protegiam o corpo da base, lançando ataques sem parar, posicionados em torno da mesma. Enquanto pelos céus ele ordenou um exército de Flymons e Waspmons irem à caça dos rebeldes.

Me sentei na cadeira, observando em choque. Eram apenas cinco Airdramons, no ataque, devem ter descoberto a base por um mero acaso e como são da resistência tiveram a “brilhante idéia” de atacarem. Já lutamos lado a lado, o Esquadrão Airdramon tinham um humor sarcástico e peculiar, mas eram guerreiros orgulhosos, eu costumava chamá- los de Esquadrão Squirtle, piada a qual eles nunca entenderam.

— Monitarmons, cortem o sinal dos comunicadores deles. — Ouço a vozinha doce de Wormmon dando as ordens. — Não podem informar nossa localização, mesmo que nos movamos, se entrarem em contato com a resistência, não conseguiremos tomar distância.

Mesmo que nos movamos? Como assim? Essa base está em movimento é isso? Por isso nunca é encontrada, por isso as coordenadas para abrir o portal sempre variam, mesmo me trazendo ao mesmo lugar. A base é a mesma, mas o local é diferente. “Bingo”.

— Não temos escolha… — Mesmo através da tela eu pude ver os olhos de Wormmon lacrimejando. — Flymon, Waspmons, eliminem todo!

— NÃO! — Me levante gritando, como se ele pudesse me ouvir. Diferente de Kaiser, aquela criaturinha verde, não queria ferir sua espécie, mesmo assim o fez.

Com a ordem de execução, os ataques dos Flymons e Waspmons, em combinação, fizeram com que uma nuvem escura de fumaça surgisse no local e quando essa se dissipou o Esquadrão Airdramon já não existia mais.

Me joguei na cadeira e suspirei pesarosa, o monitor do Digimon se apagou e todos no local ficaram em silêncio Poromon voou se aninhando em meu braços. Eu queria chorar, mas estava engasgada. Essa é a verdade de uma guerra, ver amigos queridos, inocentes indo embora, todos vítimas desse maldito ditador.

Alguns minutos se passaram, eu estava sem qualquer reação, só pensando na batalha que havia acontecido. Nem me dei conta que, Wormmon surgiu na cozinha, nos olhava atentamente.

— Volte a seu posto, Monitarmon. — Ordenou para o Digimon TV e o mesmo acatou de pronto.

Um silêncio pairava no ambiente, ele me olhou esperando algum tipo de julgamento, mas não pude fazer nenhum, não sabia seus motivos para defender Kaiser e suas idéias loucas, mesmo assim sabia que ele era diferente. Wormmon estava arrasado por ter tirado vidas em proteção a seu mestre. Era visível, isso me fez compadecer de sua posição.

— Então. Onde está a comida que você falou que é deliciosa… — Perguntei, mas para levantar a bandeira branca da paz e deixar claro que nossa relação não tinha mudado com aquilo. Poromon me lançou um olhar orgulhoso. Nossa relação? Que estranho dizer isso, ainda ontem eu conheci Wormmon, mas parece que faz tanto tempo. Ah, que seja, isso tudo é uma loucura mesmo.

O clima pareceu se amenizar um pouco, o cheiro da comida se espalhou pelo ambiente, olhamos para a mesa e os pratos já estavam ali, servidos, prontos para serem devorados. Em pouco tempo estávamos comendo um ramen delicioso, creio que o mais gostoso que já comi na vida.

A amistosidade foi quebrada por um sopro gelado, que passou pelo local, todos sentimos a aura maligna, carregada de Kaiser, antes que ele se fizesse presente. Credo, lembrar daquele cara era quase como falar no Lord Voldemort, todos se sentiam mal. Logo ele adentrou o local com seu coturno barulhento, ecoando pelo chão. Ainda bem que eu já estava terminando a sobremesa porque até perdi a fome com a sua chegada.

— Aproveitando a estadia, Inoue? — Já chegou cheio dos deboches. — Você foi a sensação do colégio hoje. — Até gelei só de imaginar o que aconteceu hoje, meu estômago deu uma reviravolta e tanto. — Seu amiguinho Motomiya “pela saco” foi mandado para casa… Ah, mas depois falamos nisso. Eu quero saber como você consegue ser tão relaxada?

— O que? Não entendi onde quer chegar?

— Você usou mais da metade do meu shampoo.

— Olha o tamanhos dos meus cabelos, que você não lavou e amanheceu com cheiro de cachorro molhado.

— Espera? Então o errado sou eu? — Perguntou olhando para Poromon.

— Não, desculpe por usar seu shampoo, não pensei que fosse se incomodar. — Desgraçado, mão de vaca, deveria ter posto super bonder naquele shampoo, assim ficaria com as mãos coladas para sempre nesse cabelo seboso.

— E não foi só isso. Deixou o ralo cheio de cabelos, apertou o creme dental pelo meio e deixou minha escova de cheia de cabelos. Como você consegue ser tão relaxada?

— Eu… — Me senti levando uma bronca da minha mãe. — Eu estava passando mal e…

— Essa é sua melhor desculpa? Pretendia se casar com aquele verme ruivo, sendo uma garota tão porca e desorganizada? Dei um livramento pra vida dele é isso? — Aí ele apelou. Eu nem pensei muito, estou em um lugar estranho, fazendo coisas estranhas e...Esse imbecil sempre vai arrumar algo para me humilhar. — A hora do recreio acabou! — Andou até a porta. — GOTSUMON! — Deu um berro que estremeceu toda a base.

— Porque não usa o comunicador. — Sugeri com as mãos sobre os ouvidos.

— Porque a casa é minha e eu faço o que eu quiser e agora eu estou a fim de gritar para extravasar minha raiva, ou prefere que eu torture seu parceiro? — Nessa hora abraço, com força, Poromon e uma luz vermelha saiu do bolso do casaco de Kaiser, atingindo meu Digimon, o fazendo evoluir para Hawkmon. — Olha! Agora eu fiquei sentimental. — Kaiser cantarola debochado, em seguida olha para Gotsumon que acabara de chegar. — Porque você demorou, seu incompetente?

— Mas Kaiser-sama… — O Digimon rocha, tenta se explicar.

— Mas Kaiser-sama… — Repete debochado. — Pro diabo com suas desculpas, pedregoso. Leve o pássaro para a gaiola.

— Como assim mestre? — Coça a cabeça de pedra.

— Estou falando do prisioneiro, cérebro de cascalho! — Esbraveja, fazendo o Digimon rocha se encolher. — Anda logo!

— Não, por favor, não faça ele voltar para aquela cela. — Quando me dei conta já tinha pedido. Ele andou até mim e deu um daqueles sorrisos debochados.

— Você não acha que está abusando muito da minha hospitalidade?

— Não foi a intenção. Eu só quero que ele fique bem. — Esse teatro de humilde, quando tudo o que eu queria era mandar ele tomar naquele lugar onde o sol não bate.

— Tudo bem Miyako-chan. Eu estou muito bem. — Hawkmon passa as asas pelo meu rosto, acariciando-o.

— Você ouviu o passarinho. Já gastou todos os seus créditos hoje, Inoue, além de ter sido fraca para cumprir seus afazeres. Neste caso, seu, adorado parceiro, ainda continua naquela cela, mas dependendo do seu comportamento no futuro…

— O que? — Perguntei ansiosa. — Dependendo do meu comportamento, o que vai acontecer com ele?

— Isso só o futuro dirá, minha cara. Então se esforce ao máximo. Por hoje, é só. Gotsumon, pode levá-lo!

Me despedi de Hawkmon e o vi sendo levado pelos corredores. Senti um peso em meu coração, Kaiser era muito venenoso, eu precisava conter meu gênio forte de todas as formas para que Poromon não sofresse ainda mais.

— Se sente melhor, Inoue? — Ele me perguntou o que?!

— Sim, me sinto bem melhor. — Respondi incrédula. Agora está sendo gentil.

— Ótimo, prepare uma bandeja pra mim, com sanduíche natural e suco de laranja, uma tigela com frutas bem picadinhas, maçã, banana, mamão, laranja, mel e granola. Separe os grãos secos e deixe apenas os mais suculentos, odeio coisa crocante. — Enfiou as mãos nos bolsos do casaco e começou a andar, me deixando de boca aberta. — Traga para minha sala de controle.

— Mas eu não sei onde fica nada por aqui.

— Digitamamon vai te ajudar a encontrar o que precisa. Logo irá se acostumar, afinal aqui será sua segunda casa. Sua nova vida de empregadinha. — Riu sarcástico. — Venha Wormmon.

Filho de uma… Fiquei o olhando incrédula, mal eu melhorei, sendo que passei mal por causa dele e já está abusando de mim. Pior é que eu nem podia cuspir no alimento. Se eu faria? Claro que faria. Não sou Maria do Bairro, pra aguentar sofrimento sem pensar em vingança.

Bufei enfurecida e olhei o Digimon em forma de ovo, usando o avental do Kung Fu Panda, a minha frente. Que seja, tudo pelo meu Hawkmon. Lavei as mãos e preparei o sanduíche natural, em seguida a tigela de frutas, separei as granolas e cobri tudo com mel, devia ser com veneno ou no mínimo pimenta. Terminei de arrumar tudo na bandeja, guardanapos, talheres e segui Digitamamon até a sala de controle, afinal não sabia andar por aquele local sombrio. Chegamos na porta da sala e ele parecia estar se atualizando das ocorrências do dia, olhando as filmagens da batalha que ocorrera, focando principalmente na morte dos Digimons.

— Não seja tímida, pode entrar, querida escrava. — Falou retirando uma garrafa de álcool de dentro de uma das gavetas de sua mesa, junto com uma toalha. — Pode colocar aqui. — Apontou o local, enquanto retirava as luvas, desinfetando as mãos. Carinha esnobe!

— Já posso sair? — Pergunto ansiosa. Não queria ficar vendo ele comer.

— Claro que não. Tenha modos garota, não é assim que se pede. A forma correta é: tenho permissão para me retirar Kaiser-sama. — Ele fala num tom de voz baixo, quem olhasse de fora, diria que era meigo. — Seja meiga ao falar, tente ser como sua amiga dissimulada da Luz, bem submissa ou nunca vai ter um marido.

Idiota! Pelo visto andou lendo meus artigos para um site o qual escrevo criticando essa sociedade machista e hipócrita. Não estou em condições de questionar.

— Tenho permissão para sair, Kaiser-sama? — Me humilho e vejo o deleite em seu rosto.

— Deixe-me pensar um momento...— Coçou o queixo, arqueando as sobrancelhas. — Não. Deve ficar aqui até que eu termine, ser boazinha e perguntar se desejo mais alguma coisa.

Eu já deveria saber, respiro fundo, me controlei e fiquei lá olhando enquanto ele se servia, como fosse um nobre europeu, cheio dos frufrus, pegando os alimentos com as pontas dos dedos, mastigando quinhentas vezes. Agora a sala tem luz, que interessante, quando precisei estudar, não tinha. Meu Kami, como pode existir alguém tão ruim assim?!

Observo por mais algum tempo, ele termina o sanduíche e começa a comer as frutas então para, olhando incrédulo para a tigela, trincando os dentes com fúria.

— Mas o que temos aqui? — E com todo nojo do mundo, ele puxou um enorme fio de cabelo lilás. Ah, saco, estou ferrada! — Eu não estou acreditando nisso. EU NÃO ESTOU ACREDITANDO NISSO INOUE! — Em uma passada de mão ele se levanta jogando tudo para o chão e fazendo a maior bagunça. — VOCÊ TÁ BRINCANDO COM A MINHA CARA, GAROTA? QUER TESTAR MINHA PACIÊNCIA?

Fico sem reação, encolhida, apavorada. Meu Kami, é só um fio de cabelo, precisava disso tudo. Agora ele me mata ou mata o Poromon.

— Eu… Eu sinto muito, não sabia… — Minha voz quase não sai, ele anda de um lado para o outro, totalmente possuído, parecendo o Kylo Ren, se tivesse “a força” eu já estaria morta.

— Sente muito uma ova. Você não faz nada direito, sua tapada, desengonçada, energúmena. Imagine só, cabelo na minha comida.

— Bem… Ao menos estava limpo. Lembra? Seu shampoo… — Ops! Acho que só piorei as coisas.

Ele deu uma volta pela sala, correndo as mãos pelos cabelos e voltou parando a centímetros de distância.

— O meu shampoo? O MEU SHAMPOO? O QUE HÁ DE ERRADO COM VOCÊ, GAROTA? — Trouxe uma das mãos aos meus cabelos. — Tudo é errado em você Você ter nascido foi um erro!. — Segurou com força e os bagunçou de forma desdenhosa. — É esse seu cabelo ridículo, seboso, fedido. Eu devia cortar essa porcaria toda! Que tal sonsa style da deprimida da Luz? Ia ficar igual a sua amiguinha, já desejou isso muitas vezes não é? Ser aquela para quem os garotos mandam rios de cartinhas e presentes idiotas? Ser como a duas caras da Luz? VAMOS FAZER UM CORTE NESSE CABELO HORRENDO DE CRENTE?

— Por favor, meu cabelo não… Já disse que foi sem querer. — Nunca, meu Kami, meu cabelo é tudo pra mim, não quero que seja cortado. Isso não.

— Olha aqui, vamos ver como fica. — Ele me puxa, me levando até outro monitor e coloca uma foto minha ao lado de uma da Hikari-chan e faz uma montagem de como meu cabelo ficaria com o corte que ela usa. — Olha que diferença! O que você acha an?

— Por favor, eu não quero fazer isso.

— Ah, vamos, admita para mim, estamos entre amigos. Já se expôs tanto desde nossos recentes contatos. Eu imagino a mágoa que você devia sentir vendo o mundo colocando essa mosca morta em um pedestal, carregando água na peneira para ela, enquanto, a pobre Inoue. só foi notada pelo nerd bundão do Izumi. — E se virou me olhando nos olhos, segurando meu queixo, me forçando a me manter com a cabeça erguida. — Admita para mim, Inoue, quantas vezes você já deve ter chorado por se sentir rejeitada? Ah, foram muitas? Coitadinha… Garotas como ela não saem escrevendo sobre ídolos. Não precisam. Coitadinha de você, era o patinho feio do grupo? Só que nunca vai virar Cisne. Bem no fundo você está feliz que ela tenha sido desmascarada, não é?

— Não, nunca…

— Ah, não minta para mim, querida. Eu sinto as muito bem as suas trevas, você é fácil de se corromper. Sabe como seria você no futuro? Uma escritora de romances ruins, beirando ao fracasso, mal resolvida, cujas personagens femininas sempre seriam o reflexo daquilo que você nunca teve capacidade de ser. Iria bancar a soberba pelas redes sociais, falando que nada a abala, mas quando desligasse o PC, iria se dopar de antidepressivos, para não ter que conviver com o fracasso que você se tornou.

Aquilo me deixou totalmente sem chão. Nisso ele tinha razão, minhas personagens são sim um reflexo do que eu gostaria de ser, mas isso não faz de mim uma fracassada ou faz? A Hikari-chan, Mimi-chan e Sora-san… Cada uma é diferente a seu modo, eu não sentiria inveja, eu sentiria? Eu não sei, talvez Kaiser tenha razão, todas sempre foram melhores e todos viram isso… Mesmo Koushiro-kun teve uma fase em que era visivelmente apaixonado pela Mimi-chan. E se eu fui a sobra? O prêmio de consolação? Se eu já me senti mal com todos cultuando a Hikari-chan, sim, que garota não se sentiria? Mas eu nunca a odiei, mas eu me odiei…

— Eu sei que deve ser duro para você. Afinal seu príncipe encantado era eu. Alguém que só te despreza, te rebaixa, debocha da sua insignificância. Se nessa sua cabecinha de vento havia alguma esperança para fugir de um destino de abandono, eu lhe arranquei todas. — Deu uma risadinha vitoriosa. — Você não vai chorar, vai? Pobrezinha, ela vai… — Não consegui conter as lágrimas, quando acho que Kaiser já me feriu de todas as formas, ele consegue ir fundo e encontrar algo a mais. — Só vai chorar enquanto limpa essa bagunça. Isso aqui ta um nojo. Como você, patinha feia!

Ou ele realmente me odeia com todas as forças ou ultrapassa os limites da loucura. Segui Guardormon para pegar alguns produtos de limpeza, baldes, pá, sacola. Minha cabeça girava, doía, me sentia tão pisada, nunca fui tão humilhada em toda minha vida. Me arrasto pelos corredores, carregando todos aqueles itens, não queria ter que ir lá e encarar esse idiota soberbo, mas, não me resta outra alternativa, não queria que Hawkmon sofresse alguma punição. Se fosse para ser punido, que seja eu então.

Voltei para a sala de controles e ele estava sentado sobre uma das mesas, pretas do local, braços cruzados e com um controle em mãos, analisando a expansão de seus territórios. Tentei ignorá-lo me focando em uma música dentro da minha mente. Desgraçado, me veria me abaixando, humilhada e limpando o chão de sua maldita sala.

— Sabe, Inoue, eu dei um jeitinho de meter seus coleguinhas todos em encrencas no mundo real, isso vai me render muito tempo livre, sem eles. — Se gabava de suas estratégias sujas, pra cima dos Digiescolhidos, eu estava com medo de pensar no que ele fez, mas não perguntei. — Está me ouvindo? — Continuei ignorando enquanto torcia o pano.

Funguei algumas vezes, tentava me focar mais na música na minha mente, precisava ignorá-lo ou não sei o que seria de mim. Droga, não essa música “Cyndi Lauper” agora não, eu vou chorar mais. Travei uma batalha interna contra o DJ na minha cabeça que insistia em repetir True Colors em um momento que eu precisava ouvir Eminem. Me perdi e acabei o ignorando de verdade. Lembrei o quanto essa música é importante pra mim. Como cada um especial pelas cores que possui e essas vibram de formas diferentes e mesmo que outras pessoas tentem apagá-las, nunca devemos deixar que isso aconteça, alguém vai te reconhecer e te amar por elas.

— INOUE? — Desperto dos meus devaneios, com Kaiser me puxando pelo braço. — Como ousa me ignorar?

Porque me perdi nos meus devaneios, nas frases de incentivos para mim mesma, na disputa entre Cyndi e Eminem. Se eu explicasse ele debocharia ainda mais de mim, obviamente… Porque na verdade eu só…

— RESPONDA LOGO SUA SONSA! — Ele grita nos meus ouvidos, quase me deixando surda. Minha cabeça girava entre a música, os questionamentos internos e sua insistência.

— Eu estava pensando como você poderia ter sido, poderia ser o Ichijouji Ken, com as cores que eu pintava e não esse monstro. — Pronto morri!

Não pensei bem, na hora só respondi por pressão e por entre muitas coisas aquilo tinha mesmo se passado em minha mente. Agora eu estava jogada à própria sorte. Senti seu aperto se afrouxar em meu pulso e acompanhei com o olhar seus dedos (agora sem luva) deslizaram dos meu braço até o meu ombro, seus olhos se fixaram nos meus, meu corpo tremia de pânico, acabei dando alguns passos para trás e minhas costas se chocaram contra parede fria, ele aproximou seu rosto, me deixando atônita, apavorada.

Uma de suas mãos apoiou-se contra a parede e seu rosto se aproximou ainda mais, senti ondas de horror percorrendo pelas minhas veias. Seja como fosse eu não baixaria os olhos novamente. Nossas respirações entraram em atrito e nos olhamos pelo que pareceu milhares de anos, então ele se aproximou ainda mais e eu espalmei as mãos contra a parede e sussurrou ao meu ouvido:

— Vai pra casa. Some da minha frente. — Sua voz saiu rouca, o tom extremamente baixo. Senti seu toque contra minha mão, na qual ele colocou o D-3. Estava quebrada e amedrontada demais para tentar processar qualquer informação e passei por ele, antes que o mesmo mudasse de ideia. Deixei tudo como estava, digitei minhas coordenadas e abri o portal.

Em um piscar de olhos eu estava no meu quarto, finalmente! Olho para cama e me deparo com a minha cópia e nem quis saber nada, apenas apontei para o portal, para que “aquilo” atravessasse e sumisse, e assim ela o fez. Enfim só, nem acredito nisso, em meu cantinho, com as minhas coisas, porém me sentindo´péssima como pessoa e amiga. Reflito enquanto visto um pijama confortável e quentinho.

Não vou mentir, realmente me incomodava sim em ver todas as atenções voltadas para Hikari-chan, mas nunca desejei o seu mal, nem ser igual a ela, só queria ser notada do meu jeito. O patinho feio do grupo? Será que isso é o que todos pensam de mim?! Será que Koushiro-kun teria se envolvido comigo se Mimi-chan tivesse lhe dado uma chance? Provavelmente não.

Olho para o cestinho do Poromon e sinto como se o amor dele fosse o único verdadeiro para mim e eu não soube cuidar. Ando até o espelho, me olhando de cima a baixo, analisando meu corpo; deslizo os dedos pelos meus cabelos, me lembrando da sessão de humilhações que passei nas últimas horas. Aquelas palavras me doeram demais, me destruiram, de forma, que eu nunca me senti tão desamável em toda minha vida. Tão miserável. Meus olhos correm para o meu brasão, me fazendo questionar se sou mesmo digna dele.

Amor? Tem a ver comigo? Ichijouji, Kaiser, seja o que for, tem razão em debochar de mim, a maioria do tempo eu só conheci o desprezo das pessoas, fui etiquetada como nerd e colocada em último lugar, só se aproximavam de mim por interesse, fora isso, era ignorada pelos corredores. Ganhar esse brasão seria mais uma piada da vida?

Retiro o brasão e coloco sobre a penteadeira, mas acabo esbarrando na caixinha de música que havia sobre a mesma, a fazendo cair se abrindo e começando a tocar “True Colors”. Não pode ser? Eu estava lembrando dessa música mais cedo, do que a letra diz. Seco as lágrimas com a barra da camisa do pijama e coloco o meu brasão de volta no pescoço.

Olho para a poltrona, próxima a janela, e vejo meu velho violão, que foi presente de quinze anos, do meu irmão. Eu lembro a letra? As notas? Será que eu posso cantar? Não penso duas vezes, retiro o instrumento do lugar e me sento. Uma chuva fina, cai lá fora, mas as gotículas que entram pela janela, não me incomodam em nada.

Decido esquecer, por um momento, tudo o que está em minha volta. Meus dedos dedilham as cordas do violão, iniciando os acordes, fecho os olhos, deixando me levar pela sensação de paz; minha boca se abre e articula as palavras da canção. Por mais que o mundo queira me deixar desanimada e querer fazer me sentir insignificante, não posso esquecer de quem eu realmente sou e de todas as coisas que fiz até hoje, não me importa títulos, rótulos e predileções, nunca vou deixar que ninguém apague as minhas cores.

Cores Reais

Você, com os olhos tristes
Não fique desanimada
Oh, eu sei
É difícil criar coragem
Num mundo cheio de pessoas
Você pode perder tudo de vista
E a escuridão que está dentro de você
Pode te fazer sentir tão insignificante

Mas eu vejo suas cores reais
Brilhando por dentro
Eu vejo suas cores reais
E é por isso que eu te amo
Então não tenha medo de deixá-las aparecerem
Suas cores reais
Cores reais são lindas
Como um arco-íris

Mostre-me um sorriso, então
Não fique infeliz, não me lembro
Quando foi a última vez que vi você sorrindo
Se este mundo te deixa louca
E você aguentou tudo que consegue tolerar
Me chame
Porque você sabe que estarei lá

E eu vejo suas cores reais
Brilhando por dentro
Eu vejo suas cores reais
E é por isso que eu te amo
Então não tenha medo de deixá-las aparecerem
Suas cores reais
Cores reais são lindas
Como um arco-íris

(Não me lembro
A última vez que vi você sorrindo)
Se este mundo te deixa louca
E você deu tudo o que você pode suportar
Me chame
Porque você sabe que eu estarei lá

E eu verei suas cores reais
Brilhando por dentro
Eu vejo suas cores reais
E é por isso que eu te amo
Então não tenha medo de deixá-las aparecerem
Suas cores reais, cores reias
Cores reais estão brilhando através de você

Eu verei suas cores reais
E é por isso que eu te amo
Então não tenha medo de deixá-las aparecerem
Suas cores reais
Cores reais são lindas
Como um arco-íris