Inimigos Íntimos

17 Controvérsias


Pov Miyako

Gemi baixinho, abrindo lentamente os olhos, minha visão estava embaçada, pisquei algumas vezes para me acostumar com a claridade que entrava em meu quarto. Nossa, dormi tão bem essa noite, não me lembro de ter sonhado com alguma coisa, foi um sono pesado, sem sonhos, mas também, era de se esperar, eu me encontrava exausta, o dia anterior foi o horrível. O sol ainda não clareou, creio que deva ser de madrugada, ótimo, assim posso dormir mais um pouco.

Viro meu corpo, deitando de lado, fechando os olhos novamente, inspirando e respirando tranquilamente. Que engraçado, sinto um perfume amadeirado pelo ambiente, e o único que tem esse cheiro é aquele bastardo. Imbecil, ele me atormenta tanto, que acabo sentido o seu aroma espalhado pelo meu quarto, no travesseiro, principalmente. Também, dormi a noite passada em seu quarto, acho que seu cheiro ficou gravado em minha mente.

Relaxo meu corpo, sinto que vou mergulhar novamente em um sono, estou meio consciente, como se estivesse entre o sonho e a realidade, tanto que sinto o colchão se afundar com um peso ao meu lado da cama, e uma respiração quente em meu pescoço. Um arrepio estranho percorreu pela minha pele, quando sinto uma mão percorre pelas minhas pernas expostas… Hãn? Como assim? Eu estou sozinha no meu quarto ou era para estar. Um pesadelo, é isso?

A sensação é estranha demais, sinto que não estou sozinha na cama, será que… Não, não pode ser verdade, estou tão paranoica, que a minha cabeça acha que aquele lunático está deitado aqui ao meu lado. Soltei um gemido baixo, ao sentir a mão, sorrateiramente, subir pela minha barriga, chegando até um de meus seios, o apertando por cima do sutiã. Como assim? Mas, ontem eu havia deitado completamente vestida e agora estou praticamente semi nua?! Isso não é um pesadelo, é real demais, não posso acreditar

Meu Kami amado! Não estou sozinha na cama! Imediatamente abro os olhos, não consigo mover meu corpo, estou paralisada pelo pavor. Minha pele fica arrepiada, me sinto tão trêmula e meus batimentos acelerados, sem falar que todo o ar do ambiente pareceu ter sumido. Eu queria gritar, me levantar e correr, mas não conseguia. Então mechas dos meus cabelos foram movidas, expondo parte do meu pescoço para a “ele”, senti sua respiração quente percorrer pela minha pele e sua boca seguiu para a minha orelha sussurrando:

— Oi digiescolhida, teve uma boa noite de sono? — Não, não pode ser, não Kami, você só pode estar contra mim. Esse lunático teve a cara de pau de invadir o meu quarto no meio da noite! Arregalo os olhos, abro a boca, respirando ofegante, prestes a gritar, porém, ele foi mais rápido em tapar os meus lábios com a sua mão. — Shhh! O que você vai dizer para a sua família se fizer um escândalo? Que eu sou o Homem Aranha e escalo paredes? — Babaca, invade meu quarto, desrespeita minha casa e ainda vem debochar da minha cara.

Sinto que a sua outra mão volta a deslizar pelas minhas pernas, chegando até o meu bumbum fazendo movimentos circulares com as palmas e os dedos e afundando-se no recheio, apertando com força, enquanto ele chia entre os dentes. Isso é a treva! Ontem ele me humilhava, dizia coisas horríveis ao meu respeito, fazendo-me passar por situações constrangedoras, e agora está deitado na mesma cama que eu, abusando de mim e não posso sequer me defender!

Meu Kami socorro, o que eu vou fazer? Se eu mordo a sua mão, é capaz de ficar bravo e querer aplicar alguma punição severa Hawkmon, fazendo ele sofrer alguma tortura horrível como a daquele dia. Vontade não me falta, mas preciso me controlar, não posso colocar a vida do meu Digimon em risco, se ele quer punir a alguém, que seja a mim e não ao meu parceiro.

Kaiser retira a mão que tapava a minha boca, deslizando-a pelo meu pescoço, passando as pontas dos dedos pelos ombros e costas, contornando a parte de trás do sutiã, provocando ainda mais arrepios em minha pele quente. A outra mão que apalpava o meu bumbum, seguiu para a minha barriga, fazendo círculos por toda a extensão, até chegar o cós da minha calcinha, rodeando-a lentamente.

Um pavor começa a subir no meu corpo, meu Kami, eu nunca fui tocada dessa forma tão íntima por alguém, aliás, nunca havia ficado de roupas íntimas na frente de qualquer garoto, que sempre me viu dessa forma foi minha mãe e irmãs. Esse desgraçado já me viu nua duas vezes, só de pensar que ele já deu banho em mim, passou essas suas mãos imundas pelo meu corpo, como está fazendo agora… Ai que ódio!

Eu tento me virar, só que ele me impede, colando ainda mais os nossos corpos; minhas costas sentem o calor de seu peito, sua respiração subindo e descendo freneticamente, assim como meu bumbum sente um impacto diferente... Um momento, ele… Ele está apenas de roupas íntimas e excitado?! Não, isso não tem lógica nenhuma, num dia meu corpo é tábua de passar, meu cabelo é seboso, eu não presto pra nada, sou um lixo, uma tonta e no outro ele fica excitado me tocando dessa forma? É pegadinha?

Uma de suas mãos segue para um dos meus seios, apertando por cima do pano novamente, afundando e girando os dedos em torno do mamilo. Dei uma arfada condenadora, não acredito nisso, não posso me render a essa investida! A outra mão desliza entre as coxas, chegando até a minha intimidade, apalpando com as pontas dos dedos por cima do tecido; mordo o lábio inferior, evitando de soltar um gemido, não posso estar gostando disso. Não, meu Kami! É errado, tudo isso está errado demais!

— Seu pervertido, o que pensa que está fazendo? Sai de perto de mim, eu te odeio! — Sussurro com dificuldade, respirando ofegante, enquanto me mexo tentando sair dos seus braços, só que, quanto mais eu me desesperava, mais o aperto aumentava e sua ereção era pressionada contra meu bumbum, tão quente, latejando, me fazendo arder todinha. Ah não creio nisso.

— Pervertido, eu? Você adora isso. — Esfrega sua ereção contra minhas nádegas. — Escreve sobre isso, esse é o seu desejo… Sua devassa, eu só estou realizando. — Ele sussurra em meu ouvido, deslizando a pontinha da língua por toda a extensão, me fazendo arfar e gemer baixinho com esse contato.

Sinto que tudo está esquentando ainda mais, minha pele começa a suar, ficar escorregadia, facilitando ainda mais os movimentos das suas mãos pelo meu corpo. Respiro um pouco de ar, não, isso não pode estar acontecendo, se fosse antes, quando era a sua fãn girl e olhava as suas fotos sem camisa depois dos treinos, tudo bem, mas agora tudo mudou, não posso ficar nesse estágio de excitação, não posso! Acorda Miyako, ele é o cara que te humilhou, falou coisas horríveis para você!

Minha mente diz não, meu corpo traidor diz que sim. Isso tudo é muito mais forte do que eu, essas sensações eu nunca experimentei, é tão errado e bom ao mesmo tempo; droga, estou lutando ao máximo para não ceder a tentação, pois, é bem isso que esse lunático deseja, quer que eu ceda para ficar jogando na minha cara o quanto sou fraca, e não vou dar esse gostinho a ele, não mesmo.

— Tá gostando hãn?! Eu sei que está, por mais que esteja se fazendo de valente, seu corpo não te deixa mentir. — Sua boca seguiu para o meu pescoço, local no qual distribuiu várias mordidas famintas.

Um gemido condenador escapa dos meus lábios, eu não conseguia sentir dor da intensidade das suas mordidas, somente um prazer que era, então, desconhecido por mim. Não consigo pensar mais em nada, minha mente está ficando cada vez mais nublada, ficando concentrada apenas nos gemidos que saem dos seus lábios contra minha pele e movimentos feitos pelas suas mãos.

Kaiser gira o meu corpo, pousando as minhas costas na cama e rapidamente fica por cima de mim, sem alterar qualquer movimento das suas mãos e boca, só os tornando ainda mais intensos. Gente, isso está parecendo um capítulo de uma das minhas fanficitons, se for, eu sei onde isso vai acabar e não é nada bom.

Ele ergue o seu rosto, seus orbes índigos opacos, transbordavam luxúria, a boca estava fechada, a língua molhava os seus lábios inchados, tornando-os interessantes, apetitosos… O que? Não! Não posso pensar isso a respeito desse imbecil! Ahh Kami, eu não sei mais de nada, meu corpo está em ebulição, quase explodindo, meu mamilos estavam tão inchados que chegavam a doer, as queimações no meu baixo ventre se tornaram intensas, ansiavam por libertação.

Fecho os olhos, respirando ofegantemente, sentindo os seus lábios macios entrarem em contato com os meus, deslizando sua língua quente para dentro da minha boca. Paraliso, não entendo mais nada, ele me humilhou e agora está me beijando como se nada estivesse acontecido, que cara mais pirado, bipolar! E o pior de tudo, é que estou embarcando em sua piração, ao ceder, acompanhando o ritmo dos seus lábios.

A mão que estava em minha calcinha seguiu para a cintura, me agarrando com força, deixando os nossos corpos ainda mais colados, de forma que a sua ereção fica pressionada em minha intimidade, empurrando, me deixando ainda mais desejosa. Nossas línguas sedentas se chocaram, senti meu corpo inteiro vibrar com esse contato, tanto que acabamos gemendo ao mesmo tempo. O que é isso? Que sensação é essa? É tão errado, mas ao mesmo tempo é delicioso demais.

Minhas pernas enlaçaram em sua cintura, assim como as mãos em seus cabelos, puxando-os com força, buscando ainda mais contato; enquanto isso, a sua mão segue para os meus seios, se juntando com a outra, apertando, me torturando, deixando-me ainda mais sedenta, e louca por todo esse contato.

Kaiser pareceu ter gostado dessas reações, tanto que continuou a me provocar com sua ereção, indo e vindo por toda extensão da minha vulva, tão intenso e desconcertante, os nossos corpos começaram a se balançar ainda mais. A impressão que dava era de que estávamos fazendo sexo, a minha intimidade jorrava fluidos, tanto que um pouco começou a vazar pelas minhas pernas; e não era só comigo, dava para sentir que a sua cueca estava molhada com os líquidos pré-gozo.

— Ken-kun… — Sussurro quase num gemido inaudível. Kaiser pareceu não ter gostado de ser chamado pelo seu nome original, tanto que parou os movimentos. Ah, não, desgraçado, porque você fez isso?!

— Não me chame assim, é Kaiser-sama para você, Inoue. — A voz dele estava afetada pelo desejo, descontrolada, completamente ofegante. — Chama, vai...

— Kaiser-sama… — Arquejei, ofeguei, buscando ar profundamente e fiz o que me ordenou e ele pareceu satisfeito, retomando os movimentos colocando ainda mais intensidade. Kaiser ataca meu pescoço, mordendo com ainda mais força, meu Kami, sinto que vou explodir a qualquer momento. A temperatura no meu quarto está a mais de oito mil, os lençóis embolados, metade foi parar no chão e o mundo está girando e girando...

Meu baixo ventre queimava e repuxava, a ansiedade percorria pelo meu corpo inteiro, puxando os seus cabelos, deslizando as minhas mãos pelas suas costas molhadas, pegando, agarrando desesperadamente qualquer parte dele. Só que de repente, senti um calafrio diferente de todos que já tive até hoje, de forma que consegui sentir calor e frio ao mesmo tempo, para logo após uma queimação tão intensa, como se estivesse com febre, tanto que meu corpo começa a tremer muito.

O mundo começou a girar ao contrário, senti uma vontade louca de gritar bem alto, me libertando de toda essa queimação que sentia, mas não podia, precisava me conter ao máximo para não fazer qualquer barulho estranho.

— Kaiser-sama… — Disse seu nome novamente, um pouco mais alto só que dessa vez foi com muito mais intensidade, minhas pernas apertaram-se fortemente em torno de seus quadris, libertando o gemido que ansiava sair da minha garganta.

— Hmm... Inoue… — Ele geme o meu nome contra meu pescoço, com tanto fervor, tão erótico, como se estivesse se libertando do mesmo estágio que eu me encontrava.

Fecho os meus olhos, toda aquela ansiedade some, dando a sensação de leveza, como se o meu corpo estivesse flutuando em uma nuvem. Sinto as minhas pernas ficarem ainda mais molhadas, creio que os nossos fluidos tenham vazado pelas roupas íntimas. Uau, isso foi tão intenso, nunca havia sentido nada parecido, mas ao mesmo tempo foi errado, não deveria ter me rendido as armadilhas desse lunático. E se alguém abrisse a porta e nos pegasse no flagra?!

Fico apavorada pensando nessa possibilidade, o que eu diria para os meus pais?! Sinto que a minha cabeça está rodando, aos poucos fui abrindo os olhos novamente, a claridade entrava pela janela, já havia amanhecido. Respiro fundo, recuperando o meu fôlego, meu corpo está todo suado e grudento, as cobertas estão quentes demais, tanto que decido as afastar um pouco.

Coloco a mão no lado para onde Kaiser havia quedado ao sair de cima de mim, e para a minha surpresa ele não se encontrava mais ali, o mais estranho de tudo era que não era quente,. Me sento na cama, olhando para os lados, aí me dou por conta de que o usava o pijama e o quanto ele estava intacto, como se nunca tivesse sido retirado.

— Kaiser-sama? — Olho para todos os lados, coço meus olhos e ele não pode ficar brincando de se esconder, meus irmão tem hábito de invadir meu quarto a procura de coisas emprestadas. — Kaiser… Sama? —Tem alguma coisa errada! Há poucos minutos ele estava aqui!

Me levanto da cama cambaleando, pegando os óculos do criado mudo e os colocando, olhando diretamente para o computador e vendo a tela desligada, bem como havia deixado ontem a noite. Que feitiçaria é essa? Fico de joelhos, verificando em baixo da cama, e nada, é como se ele tivesse virado fumaça. Me arrasto lentamente até o meu closet o abrindo e verificando, estava tudo normal, ando até as cortinas as remexendo e nada. Ora! Não é possível, não posso estar ficando louca! Ou posso?!

Paro em frente ao espelho, vendo o meu reflexo, notando o quanto o meu rosto está suado e as minhas bochechas estão coradas. Até aí tudo bem…Deslizo meus olhos pelo pijama, parando nas calças, com uma sensação estranha de umidade, é como se a minha calcinha estivesse encharcada.

Será que foi um sonho que eu tive com o Kaiser? Ou foi real? Ai que treva! Até nisso esse lunático me persegue! Coloco as mãos sobre a boca, será que alguém escutou eu chamando por ele? Só posso ter atirado pedra na cruz, não é possível gente! O cara só me faz mal, me destrói, pisa nos meus sentimentos, tudo para que? Eu acabar tendo sonhos eróticos com ele! Só posso ser masoquista mesmo! Que ódio, que vergonha de mim mesma. Como posso ser tão imunda? Nunca vou me perdoar por isso.

Bufo irritada! Já comecei mal a minha manhã, o que mais de ruim pode acontecer?! Meu D- Terminal apita, informando uma nova mensagem. Caminho em direção a escrivaninha, o pegando, me deparando com uma “novidade” de Kaiser, falando no diabo, ele decide mostrar o rabo.

“Bom dia sweetie! Espero que tenha tido uma boa noite de sono. Como uma boa namorada hoje você está encarregada de preparar meu obento, espero que fique bom. Olhe dentro do seu porta jóias, o Bakemon deixou duas escutas acopladas em brincos dourados com coração de esmeralda, quero que os coloque e aguarde meu contato.

Digimon Kaiser.”

Um momento, eu li direito a frase “você está encarregada de preparar meu obento”? Não, fala sério né, ontem eu fiz o seu lanche e ele teve um chilique por ter visto um fio de cabelo meu em sua comida, e hoje quer que eu prepare seu almoço? Idiota! Vontade de encher de pimenta, só de vingança, fazer a sua boca arder, pegar fogo, a ponto de precisar tomar um monte de água. Mas, não vou fazer isso, estarei me igualando a ele e isso é algo que eu não sou.

Pego meu uniforme e sigo para o banheiro, tomar um rápido banho e sair para a aula. Retiro as minhas roupas, colocando-as no cesto de roupas sujas, me deparando com a minha calcinha completamente encharcada, confirmando a sensação que havia tido antes. Não creio, isso é muito mais humilhante do que todas as coisas horríveis que ele me disse ontem, como posso sentir esse tipo de coisa por alguém que me despreza e odeia tanto?!

Enquanto eu tomava banho, esfregava bem o meu corpo, se foi sonho ou não, o fato é que tinha a sensação de que aquele bastardo tinha tocado em mim de alguma forma e queria tirar as suas digitais. Praguejava, o chamando de todos os tipos de nomes feios que existem nesse mundo, ai como eu te odeio Kaiser! Odeio demais!

Demorei uns dez minutos, depois disso desliguei o chuveiro e me sequei, vesti o uniforme rapidamente, pois provavelmente Mantarou-oniisan estava esperando para usar o banheiro. Sai seguindo para o quarto, colocando os tais brincos que o Bakemon havia usado no dia anterior; uau, como são lindos! E caros pelo jeito, assim como os óculos. Paro para pensar, nunca usei algo de valor tão alto, meus gostos sempre foram mais simples, adequados para o meu poder aquisitivo.

Saio do meu quarto, seguindo para a cozinha, a fim de preparar o almoço, meu e daquele nojento. Preparei a comida da forma como sempre faço, o que sobra normalmente meu irmão é quem utiliza para preparar a sua refeição. Procuro arrumar os obentos com a mesma quantidade de comida e nas mesmas posições, deixando tudo igual. Olho na geladeira e vejo que tem um bilhete da minha mãe, dizendo que havia torta de morango para levar de sobremesa; separei dois pedaços, colocando ambos em potes separados. Só quero ver que defeitos aquele imbecil vai colocar na comida. Dessa vez cuidei tudo bem direitinho, revisei bem, me certificando de que não haveria cabelos na comida.

— Pra que você vai levar dois obentos hoje? — Me virei e tomei um susto com Chizuru parada na porta da cozinha, escorada no batente e com os braços cruzados frente ao peito.

Chizuru é mais velha que Momoe e mais nova que Mantarou ela está com dezoito anos, cursando faculdade de enfermagem, possui os cabelos castanhos escuros na altura dos ombros, é esguia, alta e usa óculos.

— Bom dia oneesama , um é para mim e outro para o Ken-kun. Quero demostrar para ele como são os meus dotes culinários. — Minto para ela, enquanto terminava de ajeitar os obentos em uma sacolinha. Minha vontade de responder era: “sou escrava de um lunático e tenho que fazer comida para ele.”.

—Ai Miya, na boa, o que está acontecendo com você? Na semana passada estava tudo bem entre você e o Koushiro-san, e de repente, de uma hora para outra, tudo misteriosamente termina e você aparece com outro namorando, pior, alguém famoso ainda por cima. Pode se abrir comigo, não vou contar a ninguém os seus problemas. — Poucas vezes vi Chizuru falar tão séria como agora, normalmente era quando eu aprontava na infância. Senti o meu coração se apertar, ah, minha irmã, tem tantas coisas acontecendo comigo, queria tanto poder te falar tudo, mas infelizmente não posso.

— Está tudo bem comigo oneesama, eu só percebi que confundi as coisas com o Koushiro-kun, achei que ficando com ele conseguiria esquecer o Ken-kun, só que isso não aconteceu. Quando recebi uma chance dele, não consegui resistir e acabei cedendo aos seus encantos, percebendo que era dele que eu gostava. — Me senti tão mal falando essas palavras falsas e levianas, isso não é da minha essência, não estou honrando nenhum pouco o brasão do amor.

— Nossa Miyako, cada dia mais fico impressionada com a sua frieza em relação a essa situação; a forma como você se referiu ao Koushiro-san, foi como se ele fosse lixo perto do seu “namorado famosinho.”. Não percebe o quanto essas suas atitudes estão fazendo mal para todos nós? — Engoli seco as suas palavras duras, tive que respirar fundo para não começar a chorar ali mesmo, elas foram como uma adaga em meu peito, perfurando o meu coração, de forma que me fez sangrar por dentro. — Nem digo pelo Izumi-san, mas sim pelos os nossos pais! Eles estão tristes Miya, cada dia que passa você aparece com uma novidade, nos passando a impressão de que você está deslumbrada com o sucesso do Ichijouji-san. — Ela se aproxima e toca em um dos meus brincos. — Brincos de esmeraldas e ouro, peça única entalhada a mão. Meu Kami! Quem é você Miyako?

Não tinha o que argumentar, Chizuru conseguiu desarmar todas as minhas defesas com as suas palavras. Minha garganta ardia e doía, a vontade de chorar aumentou ainda mais, respirei fundo, peguei os obentos e sai da cozinha sem olhar para ela, se isso acontecesse eu ia desandar a chorar; lhe desejei um bom dia e um ótimo trabalho, recebendo um suspiro decepcionado de volta.

Peguei as minhas coisas no sofá e sai de casa, caminhando o mais rápido possível para fora do prédio, evitando de cruzar com Iori-kun e Takeru-kun. Derramei algumas lágrimas pelo caminho, é tudo culpa minha, se eu não tivesse sido impulsiva naquele dia e ter batido naquele desgraçado, hoje estaria tudo bem, Poromon em minha casa, os meus amigos de boa, sem problemas com sua intimidade exposta. Todos nós temos segredos profundos, só que a forma cruel e humilhante que Kaiser está expondo cada um deles é horrível, na segunda Hikari-chan e Taichi-kun foram os prejudicados, ontem não sei quem foi a sua vítima, será que hoje ele irá aprontar? Quem será o próximo a ser exposto?

Estava com tantos questionamentos em minha mente, que acabei me desligando do mundo e nem me dei conta de que já me encontrava perto da escola. Senti um pequeno choque nas orelhas, e em seguida a voz de Kaiser, me passando as primeiras orientações de como deveria agir a partir de agora. Me sinto como um robô, cada coisa que tinha de fazer, “coloque uma mecha para trás, arrume a postura, bla bla bla”, parecia que ele tinha um controle remoto em mãos para controlar cada movimento do meu corpo.

Quando eu o avistei na entrada da escola, imagens do sonho da noite anterior vieram a tona, senti que o meu rosto ruborizou ao me lembrar de como eram os seus toques pela minha pele, seu cheiro, suas palavras maliciosas sussurradas ao meu ouvido. Não, eu não posso me lembrar disso, é deplorável demais!

Cheguei perto de Ken, e ele desligou o seu celular, colocando-o no bolso. Sinto os olhares de todos em nossa direção, pareciam esperar alguma coisa acontecer e tinha medo disso.

— Beije-me. — Ele falou pausadamente e com ar de deboche. Oi? Eu ouvi isso mesmo?! Como ele ousa?

— Não posso fazer isso… — Arregalo os olhos apavorada. Não cara, mais flashbacks vindo a tona, não, não, não! Sai da minha cabeça, desgraça!

— Ah não? Saiba que os arquivos das suas Fanfictions estão bem aqui. Imagine se acidentalmente meu dedo escorregasse e enviasse todas para o Izumi… — Ai que treva! Ele não pode fazer isso!

Não deixo Ken terminar a ameaça, me lanço contra ele, unindo as nossas bocas num beijo rápido, mas o suficiente para provocar um rebuliço de sensações em meu corpo. Me senti tão quente, como se tivessem ateado fogo em minha pele, quando os meus lábios entraram em contato com os seus, eles tão macios e suaves, tão diferentes, muito mais além do que havia acontecido nos meus sonhos, e em qualquer devaneio que eu já tivesse com ele.

Me afasto dele, completamente atordoada, pisco algumas vezes tentando processar o que havia feito, o que deu na minha cabeça fazer isso?! Poderia ter beijado ele no rosto, seria muito mais fácil e menos constrangedor do que agora, toda essa gente assobiando e gritando em nossa direção. Meu Kami, eu beijei meu maior inimigo, aquele que só me faz mal, na frente da escola inteira, não, pior, na frente de quase todos os meus amigos, principalmente do Kosuhiro-kun, eu não pude evitar de sentir uma dor no coração.

Ken pareceu um pouco atordoado com esse contato, Kami, impressão minha, ou eu o deixei com o rosto corado? Não, só posso estar vendo coisas, devido aquele sonho maldito. Mas, uma coisa é certa, que ele se abalou, ah isso com certeza, mas tratou de se recuperar e me puxar para a parede. Ainda estava meio perdida por tudo que ocorreu nos últimos minutos, e por um momento, eu achei que ele me beijaria, só que não, retirou o celular do bolso, abrindo um vídeo para eu assistir.

— Todas as pessoas têm segredos, até o melhor dos corações possuem “maus hábitos”. — Isso foi muito enigmático. Sinceramente, tenho medo do que vou assistir nesse vídeo.

A estrela da filmagem foi a minha maior surpresa, tratava-se de Takeru-kun; os poucos minutos que aquele vídeo durou, foram o suficientes para me deixar completamente chocada. Coloco as mãos sobre a boca, jamais imaginei que ele seria tão aproveitador com essas garotas, todas muito mais novas do que nós, as iludindo com falsas esperanças de namoro, completamente ao contrário do que o seu brasão representa. Não conseguia crer que ele era um aproveitador, é difícil de acreditar, achei que o conhecia bem, mas estou vendo que estava bem enganada em relação ao loiro. Como Kaiser disse, a vida é cheia de surpresas.

Um burburinho se inicia na entrada da escola, as tais garotas iludidas por Takeru surgiram todas juntas, indo em direção em sua direção lhe dizendo diversas ofensas. Ele foi atacado por cada uma delas, recebendo vários tapas no rosto, a ponto de ficarem marcas e jogando o anel que ganharam de presente. A escola inteira ria da desgraça do portador do brasão da esperança, enquanto que eu e os meus amigos estávamos estarrecidos com toda essa situação.

— Nunca imaginei algo assim. — Sussurro horrorizada. Me faltam palavras para expressar o quanto estou chocada com tudo isso.

Me recupero um pouco e, ao mesmo tempo estremeço, ao sentir a mão de Kaiser deslizar pelas minhas costas, exatamente como em meu sonho, com as pontas dos dedos, parando na linha do fecho do sutiã. Fico arrepiada, por que diabos estou lembrando disso? Totalmente desnecessário!

Kaiser me afirma que tem muito mais segredos, dando a entender que esse não é nada perto do que ele tem guardado. O mundo inteiro é uma fraude, fato, sou obrigada a concordar com ele, e complemento que: a maior fraude de todas é você, Ichijouji Ken, quem olha para ti pensa que é um poço de doçura, mal sabe o diabo que se esconde por trás dessa máscara.

Enquanto a confusão com Takeru-kun continuava, o portão da escola se abriu, nos dirigimos para dentro, caminhando pelos corredores, chegando até os armários de sapato. Abro o meu e para a minha surpresa cai diversos preservativos coloridos no chão, bem aos meus pés. Ah, droga, isso é constrangedor demais! A pessoa que teve essa ideia de muito mal gosto deve estar rindo de minha vergonha nesse momento, e tenho quase certeza de quem é ela.

— Hmm! Inteligente Inoue. As cores diferentes são para você saber com qual dos dois vai usar? — Só podia ser essa garota idiota para fazer isso! Trinco os meus dentes de raiva, pelo jeito não foi o suficiente os tapas que eu dei nela naquele dia, já estava prestes a fazer uma transformação para Super Saiyajin e quebrar todos os ossos do corpo dela.

Ken percebeu que fiquei brava com esse comentário e ordenou que eu ignorasse Hino e seu grupinho. E não é que surtiu efeito, terminei de colocar os meus sapatos e levantei, ignorando-as, seguindo de mãos dadas pelos corredores com ele, me acompanhando até a minha sala de aula, confesso que aquilo teve um gostinho delicioso, fora que ela ficou furiosa e todos notaram que tinha sido armação.

Ele me deixou em minha sala, se despediu e seguiu para a sua, caminhando tranquilamente pelos corredores. Me sentei em meu lugar, o professor entra logo em seguida e começa a falar, só que, não entendo nada do que ele fala, é como se a sua boca só se mexesse e nenhum som saísse dela. Essa impressão foi em todos os períodos da manhã, não consegui prestar em nada, minha mente estava longe, pensando nas tantas coisas que está acontecendo em minha vida, e principalmente, no maldito sonho da noite anterior. Porque eu estou pensando nisso?! Miyako, acorda para a vida, estamos falando do Kaiser, não é nenhum príncipe encantado!

Bem, o sinal bateu e a hora do almoço chegou, Ken já me aguardava fora da sala, seguimos para o armário, peguei os nossos obentos e fomos para o refeitório, sentamos frente a frente, em uma mesa afastada de todos, mas ainda sim os olhares ainda seguiam em nós. Coloco as nossas refeições na mesa, ele veio questionar qual era o seu, empurro um em sua direção, só que ele acaba trocando e pegando o meu, como se isso fizesse muita diferença, afinal, a comida era a mesma.

Começamos a comer em silêncio, concentrados em nossos almoços, o que durou muito pouco, pois logo em seguida Ken veio me dizer que a minha comida estava horrível. e ainda fez “errc”.Como é que é? Tenho o trabalho de fazer toda a comida, ajeitar ela bem bonitinha nos nossos obentos e esse imbecil ainda tem a cara de pau de dizer que está ruim?!

Ah, não me aguentei e comecei a discutir com ele ali mesmo no refeitório, sem me importar com todos nos olhando, ora essa, mas que desaforo! Isso não se faz! Mandei que me devolvesse a comida, afinal, já que está péssimo, o livrava de comê-la e acontecer algo de ruim com vossa majestade. Eu já estava irritada e Ken fez o favor de me irritar ainda mais, brincando comigo, levantando o obento para o alto, me impedindo de pegar de volta. Me debrucei sobre a mesa, tentando alcançar, porém, ele me chamou a atenção com um fato, um tanto quanto constrangedor.

— Não quero ser chato, mas as pessoas ali atrás devem estar tendo a perfeita visão da sua bunda. — Paro imediatamente e viro para trás, olhando as outras mesas, os garotos com os hashis parados perto da boca, com os maxilares caídos, pude jurar que alguns deles babavam. O que? Ai que treva! Como não me dei por conta disso?!

— Kyaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! — Grito e imediatamente me sento. Meu Kami, que vergonha!

Sabe o que é mais bizarro de toda essa situação? É que Ken começou a rir do meu constrangimento. Não era uma risada debochada, ou maldosa, mas sim, algo muito mais leve, diria até divertido; seu rosto era completamente diferente da qual estava acostumada a ver, era uma expressão muito mais amena, descontraída. Fiquei chocada com sua reação, e o pior, o quanto ele fica bonito sorrindo.

Ele percebeu que eu estudava os seus movimentos, tanto que acabou cessando o riso, colocando algumas mexas de cabelo para trás da orelha e voltando a comer a refeição. Fiz a mesma coisa, tentando, na verdade, depois desse lado desconhecido dele, parece que o meu estômago começou a dar voltas, de nervosismo. Escutei ao fundo uma pancada na mesa e a voz de Sora-san ao longe, no mínimo Yamato-kun deve ter discutido com alguém.

Finalizamos o almoço e recolho os obentos, sinto que as pessoas ainda nos observavam; ai Kami, como isso é constrangedor! É difícil me acostumar com tanta exposição, sempre fui uma pessoa super discreta e preservava muito isso, menos quando Daisuke me fazia raiva, mas não é o ponto. agora como tudo mudou, é muito complicado. Coloco na mesa as caixinhas com a torta de morango, espero que dessa vez ele não venha desdenhar, dizendo que está ruim, caso contrário, vai encarar as consequencias, pode ofender a mim, mas nunca a minha mãe.

Explico para Ken o que era e quem fez, ele deu de ombros abrindo a caixinha e dando a primeira colherada; sorriu debochado, dizendo que não estava nada mal. Ora essa, se tivesse dito que era eu quem tinha feito a torta, certamente viria uma enxurrada de criticas a mim. Não consegui mais me conter, perguntei a ele o porque então me tinha como escrava, se afinal, eu era uma inutil?!

— Porque é divertido, oras. Não tenho que ficar lhe dando explicações. — E lá eu tenho cara de palhaça, por um acaso? Tem algum nariz vermelho? Não né!

— Você é doente. — Fiquei com vontade de revirar os olhos, porém, me limitei a dar uma colherada da minha sobremesa em silêncio. Kaiser não pareceu muito satisfeito, inclinou o seu corpo, de forma que deixou os nossos rostos próximos.

— Você ainda não viu nada… — Aí eu fui obrigada a revirar os olhos, sempre esse mesmo bla bla bla de que eu não vi nada, meu Kami, o que mais ele pode fazer de mal?! — Mas vai ver, ah se vai… — Ele estava tão perto, que conseguia sentir o seu cheiro amadeirado, lembrando-me do aroma que havia sentido no meu quarto, fazendo-me engasgar com a torta.

A forma lasciva como ele me olhava, parecia como a do sonho; meus olhos se perderam nos sua boca, a língua úmida limpava um pouco de doce que estava ali. O ar faltou nos meus pulmões, meu coração começou a bater muito rápido. Imagens do sonho vieram com força total, seus lábios juntos aos meus, passando pelas minhas bochechas, orelhas, queixo e pescoço… Impressão minha, ou o refeitório ficou quente? É como se o meu corpo prendesse fogo, principalmente aquele maldito comichão que me subia pelas as pernas.

Fiquei tão perdida em devaneios, que nem me dei por conta de que o sinal do fim do intervalo havia tocado e o professor Fujiyama se parou ao nosso lado, dizendo que éramos para parar de flertar e retornarmos a sala de aula. Peraí, flertando? Isso é sério mesmo?! Não, isso não pode ter acontecido, não com ele! Não era flerte, era só… Ai que treva, que situação bizarra.

Nos levantamos rapidamente, olho em volta e vejo que só faltava nós para voltarmos a sala de aula, que constrangimento meu Kami. Recolho os recipientes, colocando em minha mochila, e seguindo para o armário para guardar. Como estávamos atrasados, não teria tempo dele me levar a minha sala, tanto que acabamos nem nos despedindo, sabia que a sua ultima aula era música, então o esperaria na saída dela.

Entro na sala e o professor já se fazia presente, parecendo que tinha recém chegado. Ainda bem, fico pensando na advertência que tomaria por conta de ter perdido tempo com aquele idiota no refeitório. Um burburinho começa entre os alunos, enquanto eu passo pela classe, falando sobre o que rolou no almoço, procuro não dar bola para o que eles falam, sento em meu lugar quieta, e a aula se inicia.

Os horários da tarde passaram voando, mas não prestava atenção no que os professores falavam, minha mente seguia longe, muito mais do que de manhã. Gente, o que está acontecendo hoje comigo? Tudo está estranho desde a madrugada, quando tive aquele maldito sonho com Kaiser, tá difícil olhar para ele e não lembrar, deveria pensar nas coisas horríveis que me disse ontem, e não no seu cheiro ou muito menos nos selinho que tive de dar mais cedo.

Ai Kami, porque comigo? Ele é mau, ta aprisionando meu Poromon, ta expondo os meus amigos, tá destruindo a minha vida e eu estou aqui entorpecida com seu maldito perfume! Universo porque você me odeia? Tem coisas que não consigo entender, quanto mais me questiono, mais dúvidas eu sinto em relação aos meus pensamentos.

Fico tão perdida em meus conflitos internos, que nem me dou por conta de que a aula havia se encerrado e todos já tinham ido embora, deixando-me sozinha. Levanto e arrumo os meus materiais, guardando-os na mochila, para em seguida colocá-la nos ombros e sair caminhando pelos corredores, em direção a sala de música.

Aguardo Ken, parada na porta, enquanto isso olho para fora e vejo que o tempo estava fechado, parecendo que um forte temporal cairia a qualquer momento. Ainda bem que as aulas acabaram, e que sempre ando com uma sombrinha na mochila, dá para dar uma corrida até em casa. Mas, e ele? Será que veio prevenido como eu? Ah, que eu estou pensando! Deixa que se lasque! Se fosse ao contrário, ele me deixaria andando na chuva.

Afinal, se a aula já acabou há um considerável tempinho, porque esse imbecil ainda estava dentro da sala?! Abro a porta e entro, me deparando com ele olhando para a janela, algumas gotas de chuva caíam lá fora e parecia que a sua mente andava longe, como se estivesse em um conflito interno. É inevitável não reparar o quanto ele parece tão lindo assim distraído, parece outra pessoa, não aquele demônio que aterroriza a vida das pessoas.

Paro atrás dele, e o chamo, dizendo que o esperava no lado de fora e que tinha demorado para sair. O seu rosto, o olhar vazio e perdido, ele parecia… Confuso?! Piscou algumas vezes os seus olhos e falou a palavra “música”, ah claro, a turma dele ensaiava a canção Heart String para uma apresentação e pelo o que estou vendo, ela o abalou muito , para estar nesse jeito. Porque será? Que tipo de pessoa será Ichijouji em sua vida familiar? Qual será sua verdadeira história de vida por detrás da máscara de ídolo? Passei as pontas dos dedos pelo belo piano que a escola possui, pego as partituras, dando uma olhada nelas, e claro, aproveito para lhe dar uma alfinetada, bem como sempre faz comigo.

— Essa música? Heart String, deve ser mesmo incrível para abalar um coração de pedra como o seu. — Desdenho com vontade de rir da cara brava que fez.

— Não diga bobagens. Não fiquei abalado, é só… Ah, não é da sua conta! — Ok, não está mais aqui quem falou. Mas que ficou abalado, ah, isso pode ter certeza que sim.

Ken veio me apressar para irmos embora, argumento sobre a chuva e vejo que consegui desarmá-lo, pois não veio prevenido. Ora, que milagre o grande imperador do Mundo Digital andar desprevenido, deveria deixar ele andar na chuva para pegar um resfriado, mas, como sou uma pessoa de bom coração, informei que o levaria até a estação.

— Guarde seu bom coração, sua generosidade para outro, eu dispenso. — Nem assim ele tem um pouquinho de humildade para aceitar ajuda, quanta arrogância hein!

Não consegui me controlar, esse impulso de dar uma alfinetada era muito mais forte do que eu, quando me dei conta, debochava de sua cara, rindo de sua pirraça, o mandando ir na chuva até a estação, enquanto que eu ia para a casa ficar bem quentinha. Fiz uma reverência, como se ele fosse um rei, e ia sair correndo pelos corredores, o deixando para trás, sozinho na sala.

Então, esse era para ser o plano inicial, mas foi cortado antes mesmo de eu sair da sala, Ken foi mais rápido e me pegou pelo pulso, puxando-me bruscamente, de forma que quase acabamos caindo no chão, porém, ele conseguiu me segurar forte, impedindo a queda. Esse contato deixou os nossos corpos muito próximos, os rostos a centímetros de distância, senti meu coração disparar novamente, todas as sensações que eu lutei o dia inteiro para não sentir vieram a tona. Estávamos tão perto, e… Gente, mais um passo, nós íamos nos beijar? Não creio, é coisa da minha cabeça, o pior é que por um momento, num lapso de loucura, desejei que isso acontecesse, seu hálito quente e refrescante me atiçava a ter esse tipo de pensamento.

Só que fomos interrompidos por uma gritaria que ocorria no andar de baixo. Despertamos do transe, nos recuperamos, pegamos as nossas coisas e descemos as escadas, seguindo para onde vinha a confusão, parando no topo da escada, observando Yamato-kun e a sua banda brigar por alguma coisa. Eles pareciam transtornados, completamente diferentes daqueles garotos que costumavam estar sempre brincando e rindo, num clima amistoso e alegre.

— Já contou a ela, Yamato? Pelo jeito não né! Sora-san, sabia que no final desse ano Yamato vai iniciar carreira solo e sair em uma turnê pelo país? — Coloco a mão sobre a boca, completamente chocada com essa informação. Caraca, nunca pensei que o loiro seria capaz de largar a sua banda e seguir carreira solo.

Ai Kami, que pena me deu da Sora-san, que vontade de ir até lá a consolar, a cara de desolada que fez foi de cortar o coração; ela e o Yamato-kun estavam saindo, dando indício de que começariam a namorar em breve, só que agora com essa revelação e a cara de decepcionada que ficou, o loiro vai ter que lutar e muito pelo amor da ruiva.

Estou horrorizada demais com toda essa situação, aliado com todas as coisas que aconteceram hoje, os irmãos digiescolhidos da Amizade e Esperança não honraram os seus brasões, agindo de forma tão… Tão fria, tão egoísta. Estou começando a acreditar nas palavras de Kaiser, as pessoas e o mundo são uma fraude, as aparências enganam.

Ele parece ter lido meus pensamentos, deu um sorriso largo e disse que “agora aceitaria a carona”, Bem, já que eu tinha dado a minha palavra e era raro ver o senhor gostozão aceitando algum tipo de ajuda, dei de ombros e comecei a andar em direção a saída e… Meu Kami amado, a chuva tinha aumentado muito e o vento soprava forte levantando a minha saia. Não tinha como segurar o guarda chuva e a saia ao mesmo tempo e Ken se divertia com a situação.

— Hoje você tirou o dia para exibir a calcinha para os garotos da escola. — Ele sussurra no meu ouvido, me deixando furiosa. Quando olho para o lado noto que o mesmo grupinho de rapazes do refeitório estavam olhando em nossa direção enquanto eu pagava de Marilyn Monroe.

— Imbecil, para de rir e segura essa desgraça! — Passei o guarda chuva para ele.

— Estou te achando muito atrevida hoje, precisando de uma punição. — Kami amado, quando ele falou isso foi tão… Ah, estou com serios problemas mentais, mas eu só consegui pensar as coisas mais pervertidas possíveis.

Pov Narrador

Miyako ficou atordoada com essas palavras de Ken, enquanto que ele, parecendo não notar o seu estado, colocou uma das mãos em sua cintura, colando os corpos, para caber embaixo do guarda chuvas. Essa aproximação causou um rebuliço de sensações que ambos lutavam contra, não queriam sentir, mas era impossível, as suas mentes fervilhavam com diversos tipos de devaneios em relação aos seus sonhos.

O vento foi ficando cada vez mais forte e a chuva piorando, o que dificultou e muito a caminhada dos dois adolescentes em direção a estação. Para a infelicidade deles, o guarda chuva se contorceu, levantando as suas hastes para cima e as quebrando, tornando-se completamente inútil para continuarem usando.

Eles se entreolham pensando “lascou, vamos ficar ensopados.”, porém, o destino pareceu ter sido um pouco bonzinho com o sofrimento da dupla, naquela mesma rua havia um parquinho, com vários brinquedos cobertos, um lugar perfeito para ambos ficarem protegidos até a hora da chuva passar, fora que, ficava no caminho da estação, facilitando a vida de Ken.

Miyako não pensou direito, pegou o garoto pela mão, como se estivesse lidando com uma criança, e o puxou correndo, em direção ao abrigo, Ken não estava na opção de reclamar naquele momento, era melhor se proteger da chuva e evitar de pegar um resfriado, depois pensaria melhor em qual castigo daria para a sua escrava pelo seu atrevimento.

Quando se deram conta, estavam em frente a um túnel fechado na cor amarela, com diversas entradas e escadas externas; aquele lugar seria perfeito para se protegerem da chuva, Inoue não pensou duas vezes quando empurrou a portinha redonda, para entrarem, abrigando-se do vento, porém, acabou se desequilibrando, e dessa vez, não teve como evitar e acabou caindo de costas no chão — que por se tratar de uma área infantil, era acolchoado — puxando Ken consigo e o mesmo acabou caindo sobre ela...