Inimigos Íntimos
60 Conspiração
POV Ken
Miyako atravessou o portal para sua casa e eu… Fiquei olhando para o monitor. Era nova aquela sensação de não ter um buraco negro dentro do peito. Um sorriso bobo e involuntário queimava as linhas divisórias entre lábios e bochechas. Era ridículo me sentir tão radiante, afinal o mundo real estava lá, esperando para me colocar a júri, apedrejar e punir como deveria ser. Eu estava com medo, mas deveria estar apavorado. Tudo o que fiz, a forma como invadi e revelei arquivos pessoais das pessoas, culpando Izumi, isso é um crime grave e terei que responder pelo mesmo. Contudo, ainda sim, eu estava feliz.
Como prometido a Miyako, o primeiro passo seria desativar as Torres, Anéis, Espirais e essa base, destruí-la de modo a não restar nada que possa ser reultilizado futuramente. Seria um longo processo, talvez levasse uma semana ou mais. Estiquei o corpo e me espreguicei. Mirando o painel de controle, cogitei abrir comunicação e procurar por Wormmon, sabia que deveria ter uma conversa com ele, mas estava conflitando com meu orgulho, todavia, Miyako tinha razão, Wormmon esteve comigo todo esse tempo, desde quando falha minha memória, suportou minha ira, se prestou a ajudar, mesmo se opondo aos planos, aconselhou… Ainda julgo bizarro estar a considerá-lo como um ser realmente vivo, pensante. Mas, aqui a conjuntura é outra, então talvez Miyako tenha razão…
Eu precisava começar de algum ponto, creio que este devia ser Wormmon... Mas, as memórias dos momentos com Miyako vinham a mente e me faziam devanear, enquanto girava lentamente jogado na cadeira giratória, olhando para o nada. Posso pressupor o quão gratificante será, recomeçar ao lado dela… Recomeçar… Recomeçar… Talvez tenhamos que nos mudar de país no futuro, após terminarmos os estudos, afinal meu nome é famoso no país e… Eu posso lidar com escândalos, ela é forte o bastante para isso, mas se vamos ter filhos, não quero que eles paguem pelos meus erros, sofram perseguição na escola, na sociedade em geral…
— As coisas são mais complicadas do que parecem, mas vou dar o meu melhor por você Miyako, por nós! — sem querer verbalizei o pensamento.
Uma gargalhada debochada, começou a ecoar pela sala de controle. Pulei da cadeira a procura da fonte, mas o local estava vazio. Cogitei a possibilidade de ser um Digimon com a capacidade de ficar invisível, como já vi em estudos, alguns possuem essa capacidade. Aturdido com o riso alto e incessante, busquei os óculos sobre o painel, com eles seria capaz de encontrar qualquer presença oculta. Analisei cada canto, mas não identifiquei ninguém.
— Mostre-se para mim, covarde! — ordenei enfurecido.
— Me mostrar a você? Para que tanto desconforto se somos velhos conhecidos? — o timbre era feminino.
— Como velhos conhecidos? Que Digimon é você? — indaguei confuso.
— Não sou um Digimon, sou sua consciência. Estava rindo do quanto você é patético. — Neste momento uma pequena aranha vermelha e roxa desceu em um fio, posando em meu ombro. — Até pouco tempo era o imperador, obstinado a dominar este mundo, moldá-lo a sua visão, conquistar outras dimensões desconhecidas, mas tornou-se o cachorrinho da digiescolhida, fazendo qualquer coisa por um carinho na barriga.
— Como se atreve! Criatura asquerosa. — sem pensar duas vezes acertei o local com um tabefe, mas quando removi a mão não tinha nada.
— Aqui! — surgiu no outro ombro, começando a gargalhar novamente. — Não pode se livrar de mim,.Faço parte da sua mente. Sou aquela voz que te joga na realidade e, sei que não quer me ouvir, está se divertindo no seu conto de fadas com a garota, mas ela não te ama, está jogando com você.
— NÃO É VERDADE! — vociferei colérico, punhos cerrados. — Miyako se arriscou por mim, abriu meus olhos, me mostrou o que eu não conseguia ver. O quanto vivo como uma projeção do que eu invejava em Osamu. E mesmo, mesmo com tudo que fiz, ela me AMA.
— Pff! Ela te ama? Ama alguém que a fez se passar por promíscua e interesseira, que destruiu seu namoro, a vida de seus amigos, feriu o precioso parceiro Digimon? Ela não te ama, apenas se aproveitou do fato de serem íntimos para estudar suas fraquezas e contra-atacar na hora certa. Uma vez no mundo real, você será trancafiado em uma clínica para doentes mentais e apodrecerá, farão lobotomia em você.
— Não podem fazer isso por eu ter exposto os segredos das pessoas nas redes sociais. Sei que vou responder por isso, mas não será um veredito tão extremo.
— Divulgar informações e violar uma garota. Invadir a privacidade dela, colocando câmeras em seu quarto, chantageá-la para ser sua namorada.
— NUNCA FIZ NADA SEM PERMISSÃO! JAMAIS FARIA.
— Depois de perturbar a mente dela? Chama isso de permissão.
— MIYAKO ME AMA, ME AMA, ME AMA! Ela não fará tais acusações, pois, já me perdoou.
— É no que você quer acreditar, mas no fundo você sabe a verdade. Assim como seus pais nunca te amaram... Você deve se lembrar das palavras da sua mãe “Por que teve que ser o Osamu?” ou seja, ela preferia que você tivesse morrido. Que maldade, você era só um garotinho frágil, que já sofria por viver à sombra do irmão, sofria pela sua perda e ainda teve que ouvir aquilo!
Levei as mãos a cabeça, uma dor lacerante começou a crescer desde a nuca se enraizando pelo crânio, como se fosse me matar. Um frio intenso tomou o local, ou meu corpo.Quando percebi; meu rosto já estava banhado por lágrimas de incredulidade e desespero.
— Eles se arrependeram, me querem de volta, vão me ajudar a recomeçar, independente do que eu fiz. Eu não quero mais pensar no passado, prometi isso para Miyako. — estava lutando para não ter que viver das amarguras passadas, realmente queria dar uma chance aos meus pais e a mim mesmo, mas...
— Sim, é claro, pensar no passado te faz ficar revoltado e querer reagir, não é? Ela não quer isso. Essa garota quer te levar para o território dela, onde você é vulnerável e uma vez lá, meu querido, seu digivice será tomado e seu destino será a camisa de força! Já vejo as manchetes, “O jovem que usou sua genialidade para coagir e violar uma garota indefesa, além de divulgar informações pessoais dos amigos e ex namorados da moça” — caçoou aranha se divertindo com o fato.
— NUNCA A VIOLEI! — salientei a verdade.
— Pode ser, mas e se ela disser que sim? Quem irá provar o contrário? Sua palavra não vai ter valor.
— Ela nunca faria isso.
— Será mesmo? Motivos ela tem de sobra, mas você quer acreditar que ela o ama, não é? O que você não percebe é que está fazendo justamente o que ela quer, abandonando a batalha e tudo o que tanto se dedicou a conquistar. Vai ser triste rememorar isso quando estiver no quarto de um manicômio e sabendo pelos jornais, que sua amada voltou com Izumi, que vão se casar e ter filhos.
— PARE COM ISSO! — esbravejei irritadiço, minha cabeça a ponto de estourar.— Ela tem razão, Kaiser não existe, esses óculos, o cabelo, isso é uma projeção de Osamu, quero encontrar meu coração, descobrir quem realmente sou e não viver como outra pessoa para ter autoaprovação.
— Essa garota sabe jogar muito bem, essa conversa de autoaprovação, foi genial! Quem diria, no começo ela só sabia chorar, até desmaiava de medo, agora o vence com sagacidade. Escute bem, Osamu está morto e enterrado, se você quer usar o cabelos assim, os óculos, se isso te passa segurança, use. Você deve escolher quem quer ser, se Osamu era o mais forte, impiedoso, seja como ele, não há mal nisso, só não seja um perdedor. Não caia no jogo dela.
— Não, Não, não… Não é um jogo, ela não é assim, jamais faria isso.
— Ah, logo você que desprezava as fraquezas humanas, se transformou em um fraco só por estar nos braços dela. Vai jogar seu império fora por uma Dalila traiçoeira? Você se lembra o final da história, não é?
Não queria mais ouvir nada. Sai da sala rumo ao quarto e tranquei a porta, me jogando sobre a cama. Não poderia ser verdade, eu não poderia estar sendo enganado. Realmente faria tudo por ela, mas não era só isso, no fundo eu queria ouvir dos meus pais… Ouvir que tenho importância para eles, que reconhecem o mal que me fizeram e me querem independente de títulos e troféus. Então eu entendi tudo… Todo esse tempo essa era minha maior fraqueza e Miyako descobriu. Um ser humano patético, idiota, medíocre, que no fundo sempre quis algo que os pais não puderam, não quiseram dar.
Paulatinamente, sem perceber, eu a deixei entrar em minha alma, me abri e me expus para ela e agora… Agora ela tinha a cartada final para me tirar do jogo. Algo dentro de mim queria se agarrar aos nossos momentos de carinho, paixão, as declarações, mas as muitas vozes se bifurcavam e ecoavam. Colocando em uma balança; fazia sentido isso ser um golpe, afinal entre ela perdoar tudo o que lhe fiz, ou se vingar triunfantemente, a segunda opção era mais lógica e aceitável.
Amor? Por mim? Ela já repetiu inúmeras vezes o quanto sou doente, desprezível, opressor… Por que ela amaria alguém como eu? Alguém cujos pais não conseguiram amar. Alguém que se moldou, por anos, a imagem de outra pessoa. Talvez seja isso que eu sou agora, o que eu devo continuar sendo. Talvez não haja nada no mundo real para mim, além de acusações, julgamentos e penalidades. E se o sentimento que pensei que me auxiliaria a vencer tudo isso, for ilusão, um truque?
Encolhi-me em posição fetal e fiquei a pensar nas mesmas coisas, perdido em conflitos penosos, me odiando e odiando o mundo. Os bons momentos se mesclando às duras palavras, as rigorosas possibilidades. Aos poucos, fui submergindo em um mar de dor, medos, dúvidas, ódio, desespero e solidão. Por que eu dou o meu melhor se nunca é o suficiente para o mundo? Por que eu dependo de aprovação e amor de outros? Por mais que tente me enganar que não, minha humanidade exige, rugindo, arranhando, se libertando e me devorando de dentro para fora, como uma besta faminta. Essa dor, essas trevas, o desespero, a impotência! Eu odeio existir! Coexistir! Odeio o mundo e todos que existem neles, ou tento odiar, quero, preciso odiar…
Não sei por quanto tempo fiquei preso no quarto, não foi o suficiente para clarificar as dúvidas. Vi as várias mensagens que ela tinha enviado, mas não tive coragem de ler nenhuma, pois eu queria me enganar, queria que ela realmente me amasse e que isso não fosse um truque. Se eu a respondesse, com certeza iria fraquejar e acabaria com ela na minha cama, me convencendo a voltar para o mundo real. Durante tempos fiquei em estado de inércia, sem comer, dormir, torturado com os pensamentos de tristeza, traição e abandono.
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O comunicador apitou e, arduamente me forcei a alcançá-lo. Monitarmon informava que os digiescolhidos tinham destruído algumas Torres e se encontravam no restaurante de Digitamamon. Decidi dar um basta nas ponderações e mandar Gorimon atacá-los. Senti obrigação de me alimentar para me manter fiel ao meu propósito. Minhas estruturas estavam ruindo, ainda não sabia dizer se a conversa com a aranha fora real ou não, mas de um fato eu tinha certeza; não iria cair em armadilha alguma.
A base estava estranhamente deserta, fazia sentido, uma vez que era Wormmon o responsável pela organização dos escravos internos e este havia desaparecido. Ponderei que talvez ele tenha desertado, mas depois de tantos anos, porque o faria justo agora? Não era o momento de me prender a pormenores. Sem Digitamamon, Miyako e mesmo Wormmon, não tinha muitas opções de alimentos, na verdade não tinha nada preparado. Aquele insetinho esverdeado, mesmo não tendo habilidades para fazer nada na cozinha, certamente saberia quem recrutar para o encargo. Sem muitas opções, preparei um sanduíche medíocre e segui para sala de controle.
Sem muita paciência para digitar, acionei o comando de voz e pedi as coordenadas dos intrusos, prontamente os drones espiões transmitiram as imagens com excelente áudio e proximidade, sem serem percebidos. Ela estava lá! Óbvio que ela estaria com eles. Quando a vi, milhares de sensações embrulhou meu estômago, não pude continuar a comer. As lágrimas arderam, mas não me permiti derramá-las. Respirei e retomei as rédeas da situação. Uma discussão ocorria entre os escolhidos e Digitamamon.
Gorimon já estava a caminho, mas o que me chamou atenção foi Tachikawa ter chegado no local, acompanhada de um escolhido americano que chegou bancando o gentleman. Pelo relato de ambos, um portal se abriu nos EUA, mas como? Vetei todos eles, seria este um fato digno de atenção? Abri uma aba na tela principal do painel de controles e coloquei a observação em um bloco de notas para verificar mais tarde. Enquanto isso os inimigos não conversaram nada muito relevante, mas Gorimon fez sua aparição.
No início, Digitamamon quis enfrentá-lo, mas foi arremessado para longe, o que me deu brecha para ordenar que meus escravos o confrontasse e lhe colocassem uma Espiral Negra. Meus planos eram trazê-lo de volta para a base, eu precisava me alimentar bem para concluir os planos e sem ele por perto estava sendo difícil, mas houve uma interferência estranha no sinal, algo que nunca aconteceu antes. Dispensei o comando de voz e me dediquei a resolver o problema.
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Meia hora depois, finalmente consegui restaurar a comunicação e visualizar o campo de batalha. Gorimon estava sendo libertado, mas Digitamamon voltou para confrontar os digiescolhidos. Procurei uma posição confortável para assistir o desenrolar dos fatos. Tachikawa tentava convencer Digitamamon com palavras comoventes, mas ele a atacou sem hesitar, deixando Miyako enfurecida, então… Então…
— QUE SE FODA! EU… SOU… SOU AMANTE DO DIGIMON KAISER POR OBRIGAÇÃO! — berrei como se estivesse me libertando de um peso enorme. — QUE SE FODA VOCÊ! QUE SE FODA TODO MUNDO! QUE SE FODA TER A DROGA DE UM CORAÇÃO PURO, EU JÁ TIVE ISSO UM DIA E FOI ARRANCADO DE MIM, ASSIM COMO TUDO O QUE EU AMAVA… AGORA EU SÓ QUERO VINGANÇA!
Meus ouvidos foram aguçados para ouvir o que ela tinha a dizer. Pelo tempo que tive com ela, pela intimidade construída entre nós, eu sabia que ela estava prestes a falar tudo o que guardava dentro de si.
— Isso está prestes a acabar e você está do lado errado. Seu precioso mestre vai cair e este mundo será salvo. Eu não me importei de sacrificar minha honra para manipular aquele imbecil. Ele me prejudicou das piores formas e não hesitarei em dar o troco. Kaiser é um doente mental, um lixo rejeitado pelos próprios pais. Tenho nojo dos contatos que tive com ele, mas fico tranquila ao saber que ele vai definhar em um manicômio para sempre!
A partir desse ponto minha mente travou, tive vaga percepção do parceiro dela ter alcançado uma nova evolução. Sinceramente, eu quis morrer, escorreguei da cadeira para o chão, engasgado, precisava chorar, gritar, mas não conseguia, a pressão no meu peito era como se eu tivesse sofrido uma queda muito alta.
“Sentia nojo de todos os contatos comigo”
“Lixo rejeitado pelos próprios pais”
Ela fingiu tudo, toda entrega, as palavras, o “amor.” Eu me abri com ela e ela contou a todos minha história com meus pais, tripudiou, fez chacota da minha história, dos meus sentimentos.
Eu queria morrer...
Eu queria que o mundo acabasse…
Eu realmente não deveria existir…
E mais uma vez o local foi preenchido com a gargalhada macabra daquela aranha, que logo se fez presente, os olhos brilhando em amarelo intenso.
— Você ouviu da boca dela, agora você sabe.
— Eu sei e, EU QUERO DESTRUIR ESSA BASE, ESSAS TORRES, ESSE MUNDO, EXPLODIR TUDO E ACABAR COM ESSA DOR, ESSE ÓDIO!
— Morrer não é a melhor solução, vai sair de cena sem mérito algum? Você não tem força de ataque para explodir o Mundo Digital inteiro, e se morrer vai deixá-la livre para ser feliz com o digiescolhido da Sabedoria. — apontou a aranha e me fez ranger os dentes.
— NUNCA! — Vociferei. — Nunca vou permitir que fiquem juntos! Nunca vou deixar que ela seja feliz, aquela falsa, dissimulada! Ela me acusa de tantas blasfêmias, mas olhe só para sua postura. Desgraçada, vai me pagar por isso.
— Não se estiver morto.
— Não quero morrer! Vou transformar essa dor e ódio em força, trabalharei incessantemente para completar Chimeramon. Vou dominar esse mundo de vez, capturar os digiescolhidos, trazer aquela vadia de volta e matar um por um na frente dela, mas a deixarei viva para torturá-la todos os dias de sua vida!
POV Wormmon
Eu já tinha me recuperado do ataque de fúria do Ken-chan, estava preocupado com a substituição de Digitamamon, sai a procura de algum digimon com habilidades culinárias. Quando regressei, minhas fontes, noticiaram que Miyako-san estava na base há dois dias. Eu não quis atrapalhar nada entre os dois, mas a situação não parecia ruim.
Ken-chan esteve bem deprimido, confuso, eu pude sentir isso, pois, por mais que seja estranho, é como se tivéssemos uma ligação. Eu soube que Miyako-san cuidou dele o alimentou, tratou com carinho e cuidados.
Ainda me lembro quando ele a chamou para a base pela primeira vez. No começo eu tive muito medo de como isso poderia acabar, humanos são muito complicados. Mas depois entendi que ela era a resposta. Ken-chan estava sempre tentando chamar atenção dela de alguma forma, que não eram nada boas.
Eu tinha razão, Miyako-san foi capaz de ver debaixo do manto de Kaiser, o Ken amável e gentil que eu conheci, infelizmente sempre guiado por uma autoestima massacrada, falta de confiança e muita carência, mas ela se sensibilizou, quis ajudá-lo, confortá-lo, e o amou, como eu o amo… Não exatamente igual, como eu disse, humanos são complexos.
Mas o amor da Miyako-san é poderoso, eu espero que o meu tenha tanto poder quanto o dela, afinal, se quisermos salvar o nosso Ken-chan e protegê-lo das trevas, teremos que ser fortes, mais do que somos agora,
Eu não gosto de espioná-los, mas estava na sala de controles quando ambos entraram em demonstrações de afeto. Fiquei com vergonha e me escondi embaixo da mesa. Ouvi quando Miyako-san falou sobre Ken-chan deixar o manto de Kaiser e, ir para o mundo humano reconciliar com os pais e me enchi de alegria quando o vi concordando, afirmando que desativaria as Torres, Espirais, Anéis e a Base.
Ela conseguiu! Eu sabia! Eu senti isso quando a conheci, Miyako-san vai trazer meu Ken-chan de volta e ajudá-lo com seus medos. Meus olhos se encheram de lágrimas emocionadas.
Saí da sala enquanto eles estavam distraídos, se beijando. Fui para a sala dos Monitarmos para colocar o novo cozinheiro no sistema, mas quando abri a porta eles estavam todos soltando faíscas, em choque.
— O que aconteceu com vocês? — questionei temeroso.
— A base foi invadida, estamos sendo repro-gra-ma….— sua voz robótica arrastou e falhou, findando-se.
— Invadida? Onde? Por quem? — mas antes que eu tivesse alguma resposta, meu corpo foi suspenso no ar por, ataduras? Minha boca foi tampada e tudo ficou escuro.
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Acordei na sala de material de limpeza, meu corpo estava todo preso com ataduras, pendurado como se estivesse em um casulo. Usei o ácido de minha saliva para romper as ataduras próximas a boca e lancei uma teia puxando uma ferramenta pontiaguda arremessando-a contra a corda que me mantinha suspenso.
Resmunguei com a dor do impacto do meu corpo no chão duro. Arrastei-me até outra ferramenta pontiaguda e esfreguei-me nela até romper as ataduras, conseguindo me libertar.
Sai da sala de limpeza e, tudo parecia calmo até demais, passei na sala dos Monitarmons, mas eles estavam tranquilos, como se nada tivesse acontecido.
— Monitarmons? — chamei e, todos me deram atenção. — A base não foi invadida? — questionei curioso e eles se olharam como se não soubessem do que eu estava falando.
— Atacada? Eu não vi nada. — um respondeu.
— Nem eu
— Nem eu.
Suspirei e saí da sala, senti que se entreolharam confusos, mas eu quem estava completamente aturdido com a situação. Segui para a sala de controles e não acreditei; Ken-chan estava com o manto de Kaiser novamente, comandando um ataque contra os digiescolhidos, incluindo a Miyako-chan, mas o pior estava por vir, do corredor mesmo eu puder ver:
Na tela principal do monitor, Miyako-san disse palavras tão horrendas que até eu senti a dor do Ken-chan. Não fazia sentido, ela não diria aquilo. O que estava acontecendo afinal? Por que o Ken-chan estava conversando sozinho? Quem me prendeu na sala de limpeza e porque? Seja como for, aquela cena decretou o retorno de um Kaiser bem mais impiedoso e com sede de sangue e destruição.
— Que Yggdrasil nos ajude!
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