Não havia tempo para se arrumar, ela digitou rapidamente e breve foi sugada pelo portal, surgindo na sala de controle de Kaiser. Seu olhar o procurou com aspiração, mas não o encontrou e aquele S.O.S fez seu estômago se revirar em aflição.

— Ken! — Chamou incerta, com um mau presságio. — Ken?

— Miyako-san, que bom que você veio. — Wormmon entrou no local apressado, Bakemon voando atrás de si. — Abra o portal para Bakemon.

— O que está acontecendo? Onde está o Ken?

— Ken-chan está no quarto, parece muito doente, está tremendo, suando chamando por você, dizendo coisas sem sentido.

— Meu Kami-sama? Desde quando? Como aconteceu? Porque?

— Ele não está bem desde que te mandou embora, não fala com ninguém, se trancou naquele laboratório, mal comia ou dormia. Para piorar Digitamamon foi embora dizendo que abriria um restaurante e ninguém aqui sabe cozinhar.

— O Ken sabe.

— Mas no estado em que Ken-chan ficou, você deve imaginar que ele não foi para a cozinha.— Wormmon explicou o óbvio.

— Meu Kami!. — ela abriu o portal mandando Bakemon de volta. Era como se tivesse pressentido que algo ruim tinha acontecido.

Seguiu a passos largos pelos corredores, ouvindo Wormmon contando sobre como foi preciso que os Guardromons carregassem o rapaz até o local. Mal chegou à porta e já pode ouvi-lo tossindo, na certa deveria ser uma gripe muito forte, pensou ela.

Assim que passou pela porta o coração da garota parou, a impressão era de que não via o rapaz a décadas. Ken estava tão debilitado tremendo e tossindo debaixo de uma pilha de cobertores, os cabelos grudados de suor e rosto rubro, o nariz parecia um tomate maduro de tão vermelho.

Era irônico imaginar que há tempos atrás ele quem já cuidará de si em situação semelhante, mas no momento o importante era deixá-lo livre daquele entulhado de cobertores e preparar compressas, talvez até levá-lo para um banho. Sim, como foi com ela há meses atrás, a ironia era algo sempre presente entre eles.

— Meu Kami! Temos que tirar todos esses cobertores ou a febre vai piorar, Wormmon me pegue a maleta de medicamentos deve ter algum antitérmico, se não tiver mande Bakemon encontrar algum na minha casa e ligue o notebook que eu abro o portal aqui mesmo.

— Miyako, porque você não pode ficar do meu lado? — Ken murmurou em seu estado febril. — Eu vou ganhar essa guerra, ele já está quase pronto. Fica comigo… Miyako, fica comigo…

POV Kaiser

É irônico sentir como se na minha própria base não existisse mais lugar para mim? É assim que me sinto desde ter mandado Inoue de volta para sua casa. Tenho evitado minha sala de controles, pois sei que sentirei curiosidade de vê-la pelas câmeras que ainda estão em seu quarto e não sou masoquista para perder meu tempo prolongando minha dor.

Minha única alternativa era me concentrar na guerra… Aquele que se empenha a resolver as dificuldades resolve-as antes que elas surjam. Aquele que se ultrapassa a vencer os inimigos triunfa antes que as suas ameaças se concretizem.

Então sequei minhas lágrimas e segui rumo ao meu laboratório para verificar o progresso do projeto Chimeramon. Infelizmente estava muito postergado. Óbvio me envolvi completamente com Miyako e desatenta-me as minhas prioridades como futuro soberano deste mundo.

Tentei ao máximo me concentrar, mas acabei destruindo partes importantes de peças de alguns Digimons, causando ter que mandar que meus escravos conhecem outras, fora que os cálculos não batiam, as proporções e encaixes não combinavam e minha cabeça fervilhava dando voltas e voltas, de repente era como se minha genialidade tivesse sido drenada, eu não conseguia encontrar solução para os ajustes finais.

Enterrei os dedos nos cabelos, enfurecido comigo mesmo, meus ombros estavam doloridos como se o mundo pesasse sobre eles, meu estômago roncava anunciando que eu precisava me alimentar com urgência. Quando olhei as horas me dei conta de que já tinha passado mais de vinte e quatro horas que Miyako havia partido e eu estava alí, enfiado naquele laboratório, parado no meio do caminho sem progresso algum, buscando me anestesiar e falhando miseravelmente.

Sai daquele local escuro e cheirando a putrefação, pois as experiências de transformar dados em matérias estão em andamento. Me dirigi até a cozinha a fim de me alimentar, não que eu estivesse com fome, mas era necessário. Quando entrei no local foi como se eu pudesse ver Miyako sentada a mesa, rindo com os Digimons, mas breve a cena sumiu como fumaça.

Suspiro pesaroso e puxo uma cadeira me sentando no local deserto. Fico perdido olhando para o nada. A vivacidade e eloquencia de Inoue preenchia todo esse lugar, o calor dela, sua energia, o cheiro adocicado de seus produtos de cabelo, aos poucos aquela garota foi se tornando tão familiar, criou uma rotina com essa base.

— Ken-chan, você está bem? — desperto de minhas lamentações internas com a pergunta de Wormmon que sempre parece surgir do nada.

— Onde está Digitamamon? Preciso de comida.

— Tenho uma notícia ruim. Digitamamon foi embora, disse que vai abrir um restaurante próximo a um lago.

— Eu não ligo. Me arrume algum outro que o substitua.

— Eu sinto muito, mas aqui na base não temos ninguém que saiba cozinhar.

— Já procurou entre os prisioneiros? Temos câmeras por todas as partes, eles não tentarão me envenenar.

— Já pensei nisso e procurei, mas nenhum deles entende do assunto ou preferem morrer a servi-lo.

Bufo irritado com o inconveniente e me levanto vendo se ainda tem ao menos frutas. Como algumas maçãs e faço um sanduíche simples, não estou em condições de cozinhar, mas a julgar pelos fatos, terei que fazer isso em breve, mas não hoje.

Após me alimentar, sigo para onde eu não queria ter que entrar, meu quarto. Ao passar pelos corredores me lembro de estar com Miyako entre beijos, abraços, risos e tropeços nessas mesmas passagens a caminho da alcova. Cada canto me lembra dela, como previ que aconteceria.

Quando entro no quarto sinto seu cheiro sufocante, impregnado em todo ambiente, as memórias começam a me assombrar por partes… Lembro-me de quando ela veio para a base pelas primeiras vezes e passou mal, me deu tanto trabalho! Depois aquela fase em que a levei para outra dimensão como castigo e quase a perdi, posteriormente dormimos juntos tantas vezes mais, incontáveis….

Sigo para o banho e enquanto me livro das minhas roupas as lembranças continuam cortando meu peito. Aqueles dias na segunda base foram tão mágicos e tudo fica se repetindo a todo momento. Se eu pudesse voltar o tempo e aproveitar mais, vivenciaria cada instante com intensidade máxima, cada adormecer e despertar ao lado dela, cada refeição, sentaria ao seu lado novamente para ver um tolo por-so sol… Aquele pôr-do-sol que eu menosprezava na época, nunca pensei que o desejaria tanto, só para tê-la ao meu lado sentada naquela pedra, segurando minha mão.

Me arrependo de ter deixado que ela fosse para sempre, mas não queria ter que passar a vida a ouvir sobre o futuro que roubei dela, sobre a vida com seus amigos e família e sei que tê-la ao meu lado se lamentando por isso me causaria mais angústia.

Sua escova de dentes ainda está aqui ao lado da minha, sua toalha de banho também está no suporte, os produtos para cabelo. No quarto ainda tem roupas dela nas minhas gavetas, sobre a minha penteadeira encontram-se seus hidratantes, minha escova de cabelos tem fios lilases.

Sento sobre a cama enquanto seco meus cabelos e afirmo para mim mesmo, devo vencer logo essa guerra e expurgar os Digiescolhidos daqui. Preciso limpar esse quarto e sumir com tudo que pertence a ela, mas amanhã, hoje estou exausto.

Me recolho a minha cama, mas todas as vezes que fecho meus olhos é como se Miyako estivesse aqui. Sinto seu calor e a procuro involuntariamente só encontrando o vazio. Parece que perdi o único lugar onde eu encontrava paz. Irritado por não poder dormir corretamente, pego o edredom e saio do quarto dirigindo-me ao meu laboratório.

Adormece de mal jeito, desconfortável, sentado a uma cadeira giratória, inclinado sobre a mesa. Só um lugar frio, úmido, fétido para deixar minha mente longe dela.

Os dias que se seguiram foram todos da mesma forma. Eu disse que me livraria das coisas dela? Não fui capaz e tudo continuou exatamente como ela deixou, a escova, as roupas, os produtos de cabelo… Tudo como ela deixou. Desde então não consigo dormir naquela cama, isso se tornou impossível.

Com muita insistência minha pesquisa avançou, óbvio que eu não tive tempo para cozinhar e o estafermo do Wormmon, não encontrou quem pudesse substituir Digitamamon, eu deveria colocar um Anel Negro naquele ingrato e trazê-lo de volta, mas deixo a ideia de lado e vou me alimentando com sanduíches.

Dizem que quando você fica emocionalmente debilitado, seu sistema imunológico enfraquece, creio que isso aconteceu comigo. Começou com uma simples dor de garganta e eu deveria ter tomado um anti gripal, mas estava focado demais em Chimeramon e pronto! Não tardou para meu nariz estar irritado, escorrendo, uma tosse se iniciou, tudo isso me deixava mais irritado, pois eu estava a um passo de criar meu parceiro Digimon ideal.

— Ken-chan, você precisa tomar um remédio, tem que descansar. — recomenda o impertinente do Wormmon, como se eu fosse um bebê.

— Não preciso que haja como minha babá.Saia daqui, está me atrasando.— respondo seguido por uma crise de tosse.

Estava frio, muito frio, regulei o aquecedor para o máximo, mas aquela porcaria deveria estar estragado. Eu vestia um sobretudo grosso, me enrolei no edredom que levei para dormir no laboratório, mas nada fazia o frio passar, para piorar meu ouvido também começou a doer.

— Ken-chan, você está doente, porque não chamamos a Miyako-san para cuidar de você? — a lagarta obtusa soltou a pérola.

— PORQUE? —Soquei o teclado fazendo com que ele saltasse de susto. — Porque ela me odeia, me despreza, só viria aqui se fosse obrigada e não é mais! — confesso desabafando toda minha mágoa e sinto algumas lágrimas entrometidas escaparem.

— Isso não é verdade. A Miyako-san tem carinho por você, se chamarmos ela vem, pode te fazer uma sopa quentinha e…

— CALA A MALDITA BOCA! — Me exalto tentando me levantar da cadeira, mas me sinto tonto e uma crise de tosse se inicia, quando me dou conta tudo a minha volta começa a girar e escurecer.

— Ken-chan… Ken-chan… — ouço o chamado de Wormmon se distanciando e perco completamente a consciência.

(...)

Abro os olhos abruptamente sem saber onde estou ou o que está havendo, é como se eu acabasse de sofrer uma queda muito bruta. Minha garganta está doendo muito e tento respirar pela boca, pois meu nariz está completamente entupido.

Tusso algumas vezes e me viro para o lado, percebo que estou em minha cama, mas não tenho ideia de como vim parar aqui. Ergo o braço de encontro ao criado mudo e tateio até encontrar o interruptor do abajur, o acendendo.

Esfrego os olhos irritado com a claridade, procuro na gaveta do criado mudo um lenço para assoar o nariz que está muito irritado. Sobre o móvel observo xaropes, anti térmicos e um aparelho para fazer inalação. Não me lembro de ter tomado esses medicamentos, nem de como vim parar na cama.

Forço minha visão para ter certeza de que estava mesmo vendo os óculos de Miyako dobrados ao lado do meu. Será uma alucinação? Mas não estou febril. O alcanço o apalpando para ter certeza e quando me dou conta de que era mesmo real eu viro para o lado e… Não pode ser…

Congelo olhando para ela adormecida de barriga para cima, o braço direito erguido e inclinado acima da cabeça, apoiado sobre a travesseiro, respirando pesadamente. Meu coração dispara, ainda não consigo acreditar que seja verdade. Como ela veio parar aqui? E porque?

Como se respondesse a minha pergunta seu celular desperta com uma música agitada, ainda sem abrir os olhos ela estica a mão e o alcança, resmunga lamentosa e se senta abrindo os âmbares e me fitando.

— Então? — murmurou sonolenta.

— Porque você… O que veio fazer aqui? — talvez a pergunta tenha soado grosseira.

— Você estava ardendo em febre e há dias não comia algo decente. — respondeu fracamente, procurando por seus óculos.

— Porque isso importa? — entrego-lhe seu óculos e ela o coloca. — Se eu adoecer, se morrer, as coisas não ficam mais simples para os salvadores desse mundo?

— Ficam sim. — responde se levantando e andando até o interruptor ligando a luz. — Mas eu não quero que você fique doente e nem morra. — ela anda até o criado mudo que está do lado que eu estou e começa a ler os rótulos dos medicamentos. — Mesmo você tendo me jogado pra fora daqui e nem sequer respondido os meus e-mails.

— Seus e-mails?

— Você não viu? — Ela me oferece um copo com água e uma pilula.

Tomo o remédio e toda a água do copo, devolvendo para ela que coloca sobre a bandeja. Não respondo sua pergunta, fico olhando enquanto ela anda pelo quarto os horários dos medicamentos. Os cabelos presos em um coque falso, o vestido era um dos que tinha ficado aqui junto com as minhas roupas.

— Você quer tomar um pouco de chá? Vai fazer bem para garganta.

Não consigo responder nada, a puxo pelo pulso e a abraço, de maneira que ela está de pé e eu permaneço sentado na cama, com a cabeça enterrada em seus seios. Não posso acreditar que ela está mesmo aqui, a aperto tão forte como se servisse para averiguar que não é mais uma alucinação.

— Você está mesmo aqui? — questiono entre lágrimas e soluços, não me sinto envergonhado ou humilhado por isso.

— Estou, estou mesmo aqui. — Ela acaricia-me os cabelos e deita sua cabeça sobre a minha.— Você quase me deixou louca de preocupação, senti tanto a sua falta. Idiota.

— Sentiu minha falta? — Eu realmente fiquei confuso, ainda temia ser uma ilusão. — Mas você disse que eu era desprezível.

— Eu sei, eu sei...— ela também soluçou algumas vezes o que me fez entender que também estava chorando. — E me arrependo muito de ter dito tudo aquilo.— juntou nossas frontes, acariciando meu rosto, sentando-se sobre as minhas pernas.— Nos divertimos tanto aquele dia que eu me senti culpada, fiquei mais zangada comigo mesma e descontei em você.

— Ficou zangada por ter se divertido? Você disse que queria esquecer dos problemas que estava sofrendo com sua equipe.

— Sim, os problemas que surgiram graças a situações causadas por você e que era de seu conhecimento que existiriam.

— Eu lamento, só queria ter você somente pra mim não importava como, mas quando te ouvi dizendo que eu roubei o futuro que deveria ser seu e de Izumi, eu enlouqueci, doeu muito ouvir essas palavras.

— Eu retiro, retiro tudo. Na verdade não me lembro de já ter tido um dia tão feliz quanto aquele e depois concluí que era errada me sentir assim ao seu lado, me julguei uma traidora dos meus amigos, meu parceiro, dos meus princípios e descontei em você. Eu sinto muito, muito mesmo.

Nos abraçamos fortemente e foi tão íntimo e aconchegante, ficamos assim até que seu peso começou a ser incômodo sobre minhas pernas, afinal eu ainda me sentia fraco e ela pareceu se conscientizar e desfez o enlace, me fitando nos olhos.

— Mas agora você está livre, nada mais te prende a mim, mesmo assim…

— É...— sorriu em meio às lágrimas. — Mesmo assim eu vim, porque eu me importo com você, mesmo que não concorde com suas escolhas malucas e erradas. Eu não posso simplesmente seguir com a minha vida como se você nunca tivesse passado por ela.

— Então você…— Tentei perguntar, mas ela cobriu meus lábios com os dedos.

— Não sei. Não me pergunte isso, só me deixa ficar e cuidar de você sem obrigação de dar um nome às coisas.

— Sim, eu deixo… — peguei sua mão levando-a aos lábios e beijando-a.— Eu não quero ficar sem você, é vazio demais, estranho, frio. Não precisamos dar nomes a nada. Eu quero que você venha cuidar de mim.

Ela se atirou nos meus braços me beijando, eu gostaria de dizer que correspondi intensamente, mas a verdade é que breve precisei respirar, pois meu nariz estava entupido, fora que a afastei quando tive uma maldita crise de tosse.

— Não me beija, você vai ficar doente.

— Eu não me importo, nem em ficar doente ou com o gosto de xarope, sopa e falta de escovação desde sabe-se lá que horas. — Miyako soa brincalhona, me dando beijos seguidos, apenas selando os lábios aos meus sem se aprofundar.

— É uma declaração muito romântica.— a acompanho na zombaria.

— Romance é meu segundo nome. — pula para fora da cama correndo para apagar a luz. — Mas agora temos que dormir. Precisamos nos recuperar deste dia agitado. — volta para a cama se deitando no mesmo lugar onde estava antes, colocando o óculos sobre o criado mudo.

— Amanhã você vai para aula? — pergunto enquanto desligo o abajur.

— Não, amanhã é domingo, mas tenho que estudar para a semana de testes. — Informa dando um longo bocejo.

—Ok. — me acomodo no local onde estava antes, evitando muito contato para não passar gripe para ela.

— Ken...— chama sonolenta.

— Hm?

— Faz conchinha?

Meu coração acelera com o pedido dela, não penso duas vezes, ela se vira para o outro lado e eu a abraço, de forma que dividimos o mesmo travesseiro e meu rosto entra em contato com seus cabelos macios, posso sentir todo calor do seu corpo, e eu queria que esse momento perdurasse para sempre.