Inimigos Íntimos
34 Segue o Fluxo
POV Koushiro
Estou aqui no meu quarto, olhando pela vidraça embaçada, a chuva forte que cai lá fora, o céu completamente escuro, sobre a minha cama, Motimon dorme, completamente ferido, exausto, após quase ter sido eliminado por seu amigo e companheiro de batalha. Ichijouji Ken, ou Digimon Kaiser, usou nossos parceiros para nos dar um recado.
Eu sabia, eu sempre soube, de certo não tinha como provar minhas teorias, mas tudo parecia ligado de alguma forma. Quando Hawkmon foi capturado as nossas vidas desabaram, coincidência? Paranoia de alguém que foi rejeitado pela namorada? Poderia ser, mas a minha teoria era quase sem furos.
Sequestrar Hawkmon e nunca mais mandar noticias, bem seria uma forma de se vingar da Miyako-san, por ela ter batido em seu rosto e ferido seu orgulho, mas se era uma vingança apenas, porque não ceifou a vida do Digimon ali na frente dela? Seria tão doloroso ou mais do que vê-lo sequestrado e em mãos inimigas.
Se ele não matou Hawkmon de pronto, em uma cena bizarra e pavorosa para traumatizá-la, algo a mais havia nisso, uma chantagem talvez? No entanto Taichi apresentou o ponto de que se matasse o parceiro de Miyako, Kaiser sabia que ele iria renascer na Cidade do Principio e tão breve estaria nos braços da garota. Ok, parabéns, foi uma excelente contra teoria,muito plausível.
Só que ninguém ouviu a voz de Miyako, aquele dia no celular, quando terminou comigo. Não só isso, mesmo desestabilizada pela perda de Hawkmon, ela jamais terminaria um relacionamento daquela forma. O fato dela estar fora de casa as duas da manhã, de Ichijouji estar falando algo comprometedor ao fundo. Tudo isso me parecia uma armação de quinta, dessas usadas em dramas mexicanos, mas questionar isso, me fez parecer o corno inconformado.
Não vou negar que meu coração ficou partido, vê-la no dia seguinte com aquele garoto, depois em todos os dias que se seguiram, fora a pressão psicológica de ser apontado e sofrer deboches. O problema era que, mesmo contra a opinião da maioria dos meus amigos, eu olhava para Ichijouji e só enxergava Kaiser, a forma debochada com que ele falou comigo e tripudiou da minha posição e como Miyako estava pálida, com olheiras fundas e visivelmente abalada, acuada, como um animal selvagem sendo domesticado a força.
Eu tinha que considerar o fato de que tudo aquilo também poderia ser real e que Miyako, em um momento de desespero e sensibilidade, acabou cedendo a admiração que sentia por Ichijouji, mas e ele? Porque o ídolo escolheria ela entre todas? Não desfazendo de seus atributos, mas porque coincidentemente isso tudo aconteceria, uma relação da noite para o dia, com direito a ele mudar de colegio, considerando a distância de Tamachi a Odaiba.
Minha cabeça fervilhava. Talvez eu quisesse ver ligações onde não existia , para preservar a imagem que eu tinha da Miyako? Já estava pesado tentar sustentar teorias, se todos estavam contra mim, dizendo que entendiam eu estar magoado, que não esperavam tal atitude vinda dela, mas que as pessoas tem fraquezas e talvez ela não queira mais ter nada a ver com todos nós, nem com o Mundo Digital, talvez tenha agido assim para desistirmos dela.
Todavia, Iori-kun veio a minha procura e disse concordar com o meu ponto. Para início, Kaiser é incontestavelmente, um gênio, com base nos dados de Engrenagem Negra, ele construiu o Anel Negro, segundo, que é um excelente lider, suas formações de batalha em campo, são bem boladas, exatamente como Ichijouji liderava seu time de futebol em Tamachi.
Com o apoio de Iori-kun, comecei a pegar vários vídeos e informações que consegui. Alguém como Ichijouji Ken, a cada dia se encaixava mais no perfil de Kaiser, além da maneira soberba com que ele me encarava em alguns confrontos que tivemos pelo colégio.
Quanto a Miyako, estava apática, sem vida, parecendo um corpo sem alma, ainda sofrendo hostilidades por parte dos estudantes, com essa mudança de relacionamento repentino, sua honra foi para lama, junto com o nome de sua família, coisa que ela jamais permitiria, nem por todo amor do mundo e nisso , mais uma vez, Iori-kun concordava comigo.
Sem contato conosco, nem com as garotas, parecendo querer evitar a todos, não respondendo mensagens, nem atendendo a ligações e fugindo de fazer o trajeto diário ate o colégio, com Takeru, Iori e Daisuke. E aí estava o ponto, Miyako não é de fugir, ela te magoa, se magoa, mas não recua, às vezes até exagera, mas não é covarde, as vezes até cruel e incisiva, mas nunca covarde, nunca…
Então eu poderia aceitar que ela estivesse mantendo dois relacionamentos, que seria meio impossível, uma vez que passamos quase o tempo todo juntos, quando ela não estava no colégio, estava no Mundo Digital, na loja dos pais, conectada comigo via redes sociais e a noite quando chegava em casa, ligava a webcam e fazia o dever de casa conversando comigo, em que momento sobrava para ela se envolver com outro cara?
Minha cabeça girava e doia, meu peito se apertava a cada vez que os via juntos, por vezes chegando a trocar selinhos em publico. Não! Aquilo era demais, Miyako jamais faria isso. Aquele imbecil só poderia estar a obrigando, contudo, não sei definir se era por ciúmes, mas minha impressão era de que a cada dia os dois pareciam mais ligados.
Miyako agora era outra pessoa, de uniforme novo, óculos, mochila e acessórios, levando obento para o “namorado’ todos os dias. Canalha! Ele a estava usando como a uma marionete, transformando-a em alguém que ela jamais faria esforços para ser e eu? Eu estava impotente, tremendo de ódio, dele, de mim mesmo por não conseguir uma solução para salvá-la.
No Mundo Digital, organizei equipes de busca, a fim de encontrar a base de Kaiser e assim resgatar Hawkmon, livrando Miyako das garras daquele maniaco. Não tinha como minhas suposições estarem erradas, apenas o fato de Kaiser agir no Mundo Digital, enquanto Ichijouji estava no mundo real, não batia, mas poderia ser um holograma pré programado, ele já nos enganou assim antes. Poderia ser isso e ele se exibia por aqui levando Miyako a todos os eventos que frequenta, para mostrar que o relacionamento é real.
Entre pesquisas e suposições, um copulado de fatos inusitados começaram a acontecer, desde uma armação para acabar com a reputação de Daisuke, a fotos sensuais de Hikari e outras coisas. Foi um dilúvio naquele colégio e agora até quem duvidava das nossas suspeitas, começou a concordar. Como de uma hora para outra todos os segredos pessoais de todos foram a público? E os danos que isso causou.
Obvio que para disfarçar que seus alvos éramos nós, Kaiser expos outras pessoas. Agora a vida dos meus amigos estava um caos, conflitos, mágoas, vergonha, desavenças em grupo. Kaiser estava de parabéns, se infiltrou e foi na veia, no núcleo, afetou seus inimigos onde mais fere, na vida pessoal.
Na situação crítica em que se encontravam, meus amigos nem sabiam mais em que pensar, em que acreditar, mas minha teoria fazia cada vez mais sentido. Ichijouji sendo Kaiser, se aproveitou de ter Hawkmon em seu poder e o usou para chantagear Miyako, vindo para nosso colégio e baixando o máximo de informações a nosso respeito, atacando todos no ponto crucial, o calcanhar de Aquiles.
E a pergunta que girava em minha mente era, o que esse louco tem feito Miyako sofrer? O que tem aprontado? Confesso que cheguei a um ponto que eu não sabia mais o que pensar e a situação piorou ainda mais, mas provando minha teoria de uma vez por todas, as informações que foram liberadas todas vieram de uma conta inativa que eu tinha, que foi criada com meu notebook, constando meu IP.
Toda tempestade caiu sobre minhas costas, quando fui chamado a diretoria, vi Ichijouji no canto da janela de sua classe, ele me olhava com um sorriso largo e vitorioso. Para mim, ele nunca fez questão de esconder sua identidade, nunca vestiu a máscara do doce e gentil, queridinho da mídia japonesa.
Tive que escutar calado, as acusações que me fizeram, as provas que a policia encontrou. Vi o desespero nos olhos dos meus pais, se os pais dos alunos resolvessem processar nossa familia, nunca teriamos condições de pagar tantas indenizações por danos morais, fora a desonra para o nome da família.
Antes que tudo tivesse terminado eu recebi uma mensagem no meu celular, com o nome de um aplicativo que eu tinha iniciado um projeto para rede do colégio, para melhor contato entre todos, até uma forma de tirar dúvidas e criar fóruns, bastava estar dentro da escola e já estaria conectado, mas desisti do projeto por ser muito invasivo e acabar baixando dados pessoais.
Eu criei aquilo, não com má intenção, mas minha criação foi usada contra mim, foi aprimorada e virou um vírus, um aplicativo espião, quando as pessoas conectam os celulares aos seus computadores, os dados eram baixados. Não tinha como eu me defender nem que eu quisesse, perdi muito com isso, fui expulso do clube de informática, perdi indicações a bolsa integral, agora com o histórico manchado terei que estudar fora do país se quiser ter chances de fazer uma boa faculdade.
Aquele crápula, tinha ido longe demais, estava coagindo minha garota, manipulando-a e sabe lá Kami, o que mais estava fazendo a ela, destruiu a vida dos meus amigos, que estavam aos pedaços, sem saber como se reerguerem e agora? Agora jogou a culpa toda em cima de mim, humilhando minha família, não podia aceitar isso.
Minha cabeça deu curto circuito e quando me dei conta, já tinha saído da diretoria e invadido a classe de Ichijouji, o arrancando da sala, pelos cabelos. Nunca pensei que um dia eu bateria tanto em alguém, mas eu não conseguia parar, até que vários garotos do conselho disciplinar e mesmo os professores, me seguraram começando a me levar para a diretoria. Uma multidão se aglomerou em volta dele, preocupados. Se soubessem que cobra traiçoeira, se esconde por de trás do rostinho de anjo que eu desfigurei.
OK, minha vida estava praticamente destruída, meu histórico manchado, minha família querendo procurar um psicólogo para mim, o colégio inteiro querendo me matar. A teoria geral era de que eu fiz tudo aquilo com a pretensão de incriminar o Ichijouji, mas fui descoberto antes, para eles eu não superei o rompimento com, Miyako, e meio que enlouqueci, sedento por vingança, ironia, não?
A unica coisa boa, foi que em meio a toda aquela bagunça toda, ela correu para mim, ou tentou, ergueu sua mão delicada em minha direção, a outra estava em punho sobre seu peito e no seu rosto havia uma expressão de preocupação, compaixão e carinho. Ela poderia ter corrido para ele, que estava ferido, jogado no chão, mas correu para mim, gritou que acredita em mim. Aquilo foi de uma importância tremenda.
Depois daquele episódio eu tive uma discussão com Yamato e Taichi, não acreditei que os dois chegaram a duvidar mesmo de mim e algo que nunca imaginei aconteceu, todos estávamos de cabeça quente e acabamos trocando alguns socos e nos acusando.
— Você ficou enlouquecido com essa história de levar um chute da Inoue. Tentamos te ajudar, mas eu não te reconheço mais.— Vociferou Yamato curvando-se contra mim.
— Está mesmo me dizendo que acreditou que fui eu quem fiz isso? — Objetei enfurecido, ultrajado.
— Você queria provar a todo custo que Ichijouji e Kaiser são a mesma pessoa. — Pontua Taichi.
— Eu não posso acreditar que sai da minha casa para isso. Minha vida está um lixo, estou de castigo e odiados por todos, preciso de apoio dos meus amigos e não que duvidem de mim. — Eu não queria mais brigar e sentei no chão, desanimado.
— Por favor gente, vamos todos nos acalmar e pensar com calma. Os dias têm sido complicados para todos, mas tentem observar o que estão falando.— Joe-senpai, entrou na sala de karaoke que alugamos para conversar, sem nem cumprimentar, ele já foi tentando amenizar o clima.
Hikari e Sora estavam sentadas juntas em uma das poltronas, ambos com olheiras profundas, a mais nova estava completamente alheia ao assunto e a ruiva que sempre se impõe, sustentava o queixo com a mão, o cotovelo apoiado sobre as pernas cruzadas e o tronco flexionado, o reflexo da decepção. Daisuke, Takeru e Iori não sabiam o que dizer e Mimi acabara de chegar com o mais velho.
— Credo, gente! Olhem para vocês, estão piores que pano de chão.— Comenta Mimi indignada.
— Como não estaríamos, muitos aqui fomos enganados por anos.— Choraminga Daisuke.
— Se está se referindo a mim, saiba que eu nunca pedi por seu interesse e não lhe devia satisfação sobre as minhas preferências. — Prontamente Hikari responde, ríspida e seca como nunca pensei vê-la.
— Você não foi a única aqui a enganar alguém, deixar que as pessoas ficassem acreditando no que você não é.— Daisuke retruca a altura, mais uma vez eu fico impressionado.
— Deixar as pessoas? Eu não tenho culpa das suas fantasias e ilusões idiotas.— Protesta feroz, a irmã de Taichi.
— Idiotas? Eu gostava de você desde os onze anos e você sempre com meio sorriso, poderia ter me chamado em um canto e dito que nunca ia acontecer…
— Tem alguém aqui que não foi enganado, magoado? Se o Koushiro-kun jogou essa merda no ventilador, talvez tenha nos feito um favor.— Sora, finalmente se pronuncia.
— E você não está fora da lista de quem enganou. — Acusa Yamato.
— E de quem foi enganada também. — Contrapõe incisiva sua ex futura namorada.
— Não vamos começar novamente com isso. Ficar nos acusando não vai resultar em nada.— Taichi toma a palavra. — Gente, todo mundo aqui está sofrendo de alguma forma.
— Pela exposição que sofremos, pessoas boas foram prejudicadas também. — Hikari afirma cheia de rancor.
— Fomos expostos, mas também não estávamos rezando.— Takeru que até então estava calado começa a falar.— Se não fosse essa exposição estaríamos construindo mais castelos de mentiras. Eu quero dizer, cada um aqui é ciente do que fez, não é? Se vocês se arrependem ou não, vai de cada um, mas sabem que fizeram algo que não deveriam ter feito. Sim, estou falando por mim também.
E um longo momento de silêncio foi feito, Taichi escorregou para o chão, sentando-se ao meu lado e Yamato fez o mesmo se postando do lado oposto ao castanho.
— De qualquer forma, não fui eu, estou afirmando.— Me defendi pela milésima vez.
— Eu acredito em você.— Joe expõe sua opinião. — Estou mais fora disso que todos aqui, então creio que a minha visão seja menos afetada. Tudo o que o Koushiro-san, disse faz muito sentido. Olhem só para todos você, para o nosso grupo agora. Quem aqui tem condições de atravessar portal e ir lutar pelo Mundo Digital?
— Onde você quer chegar? — Indaga Taichi, arqueando uma sobrancelha.
— Ele quer chegar no ponto, que Kaiser se aproveitou de ter Hawkmon em mãos, chantageou Miyako, se aproximou de nós e nos ganhou no nosso jogo.— Esclarece Iori com convicção. — Não os culpo por duvidarem de Koushiro-senpai, ninguém aqui está pensando direito.
— Corações machucados, mentes fracas.— Takeru completa e ambos trocam um olhar e um menear de cabeças.
— Eu proponho que todos nós tenhamos umas duas semanas de férias uns dos outros e pensamos bem em tudo o que houve até agora.— O mais velho da turma sugere.
— Eu nunca acreditei que tenha sido você, mesmo, cabeça de catchup vencido.— Yamato provoca.— Como o Joe-san, disse ninguém aqui está raciocinando direito, mas você nunca faria isso.
E assim fizemos, eu estava suspenso do colégios mesmo, várias reuniões foram feitas com meus pais na instituição de ensino, tivemos muita sorte que ninguém quis processar, mas o clima entre nós ficou muito estranho, meus pais sentaram-se comigo para uma conversa.
— Eu não consigo entender porque um garoto tão bom como você, faria algo assim? — Minha mãe começou. — Sabemos que adolescência é fase da rebeldia e temos consciência pela decepção que você sofreu em relação a Miyako-san, mesmo assim, eu me recuso a acreditar. — Seus olhos já estavam marejados.
— Então não acredite, mãe. Eu não tenho como provar, mas mesmo parecendo absurdo, não fui eu.
— Não faz mesmo nenhum sentido. Então se abra, conte sua teoria, o que de fato você pensa estar acontecendo?— Insiste meu pai.— Eu também me recuso a crer que meu filho quase levou colegas a beira de suicídio, somente para tentar incriminar um rival amoroso.
Eu comecei a contar tudo desde o começo. Como meus pais sabiam sobre o Mundo Digital e os Digimons, expliquei sobre o Kaiser e minhas investigações, todas apontando para Ichijouji Ken. Eles ouviram com seriedade e entenderam o meu ponto até mesmo concordando, entretanto alertaram que tinham que aplicar algumas medidas, o psicólogo foi exigido pelo colégio e um longo período sem usar a internet.
Sem ter como conversar com os meus amigos e continuar minhas investigações, sem contato com Tentomon e os demais Digimons, fiquei lá jogado na cama, fitando o teto. Miyako correu para mim, eu não tinha me esquecido disso, ergui a mão e pude sentir seu toque confortador.O que me levou a temer o que estaria acontecendo com ela, se disse que acredita em mim, então é mais uma prova de que minha teoria é verídica.
Ficando ao meu lado, Miyako pode ter despertado a ira de Kaiser, agora eu temia por seu bem estar. Mais uma vez eu sofria por ser impotente, saber o que se passa, mas não ter como provar, nem ajudar, essa impotência toda já estava me enlouquecendo, minha mente parecia que ia explodir, tanto que aceitei de bom grado, os remédios prescritos pelo psicólogo.
O tempo se passou e como combinado, a galera se reuniu no mesmo lugar de sempre, o karaoke que nunca usavamos para cantar, mas as paredes eram acústicas e ninguém ficaria a par do que acontecia lá dentro. Óbvio que todos ainda estavam avassalados pelas tragédias que lhe ocorreram, mas agora as mentes já estavam mais frescas e começaram a ponderar com mais sabedoria os fatos.
Colocamos as cartas na mesa, todos nós, pedidos de desculpas foram trocadas e um entendimento foi alcançado. Os demais começaram a abrir a mente para a possibilidade das minhas teorias estarem corretas, tudo seria perfeito se não fosse o furo sobre Kaiser estar agindo enquanto Ichijouji estava no nosso mundo.
Infelizmente, com as mentes mais abertas para a possível realidade, o choque veio unânime ao imaginarem a amiga nas garras do inimigo, se questionando internamente, por quais atrocidades ela deveria estar passando.
— Se isso realmente for verdade, Miyako-chan, está em sérios apuros. — Hikari proferiu pensativa. — Mais apuros do que nos envolvemos até hoje.
— A pergunta é...— Começa Mimi e já olhamos apreensivos.— Se o namoro é uma fraude, os beijos que trocaram foram cenograficos?
— Mimi-chan, não foram beijos, foram selinhos.— Sora a corrige, ruborizada.
— Mesmo assim. Será que parou por ai? — A castanha insiste.
— Mimi, por favor, não seja indiscreta. — Joe a repreende.
— Eu só estou falando o que todo mundo pensou, mas ficou com frescura de dizer. No começo eles eram estranhos, mas agora parecem tão cúmplices e afinizados e se Kaiser só usou o namoro com Miyako, para se aproximar e nos destruir, bem ele conseguiu, ninguém tem cabeça para ir ao Mundo Digital e lutar contra ele, para que precisa manter o relacionamento, poderia terminar, voltar para Tamachi e até usar a agressão que sofreu de Koushiro-kun, como pretexto.— O que Mimi disse fez total sentido.
— Então o que vocês estão sugerindo? Que o soberbo do Kaiser esteja mantendo uma relação de verdade, com a Miyako? Contem outra piada.— Daisuke cerra os punhos ao vociferar.
— Calma gente, uma coisa de cada vez. Ainda estou aceitando a possibilidade de Ichijouji, ser sim o Kaiser. Pensar além disso já é pedir demais.
Eu tinha que admitir, aquilo que Mimi falou abriu um leque de possibilidades das quais eu não tinha pensado antes. Talvez o interesse de Ichijouji, em Miyako, não seja uma encenação e ele realmente deseja algo a mais. Não poderia, será?
Conversamos sobre vários assuntos, a reputação de Daisuke ainda estava ruim devido as fotos e lingeries encontradas em seu ármario, Iori desabafou sobre a culpa que sentia por ter deixado a garota que ele gosta sofrer vários tipos de perseguição, Hikari compartilhou a notícia de que a professora irá responder processo em liberdade até o julgamento e pode pegar prisão domiciliar devido a falta de evidências do crime, Sora, Taichi e Yamato, conversaram entre si e estão se falando e levando a vida como amigos, Takeru ficou feliz que ao menos uma das garotas quis ouvir sua versão dos fatos e ainda voltou a sair com ele, Mimi e Joe, tinham suas diferenças, mas o fato é que ele estava a ajudando a controlar seus hábitos de ansiedade e ela já nem se importava mais com a opinião do povo do colégio sobre seus tratamentos psicológicos.
Foi uma tarde longa e cheia de desabafos, mas embora aquilo fosse vergonhoso e doloroso, nos permitiu sermos transparentes e reforçar nossos laços de amizade. Agora cada erro, cada falha que descobrimos em nós mesmos, passara a ser de conhecimento uns dos outros.
Infelizmente aquilo não nos levara de volta ao Mundo Digital, a maioria estava de castigo e proibido de chegar perto do PC, mesmo de acessar a internet. Os Digimons dos novatos e de Hikari e Takeru, não foram levados para a nossa sessão desabafo, afinal muitas coisas que foram tratadas alí seria complexo de explicar para eles.
O que fazer sobre Miyako e Kaiser? O que fazer sobre o Mundo Digital? Nada, estávamos impotentes, todos mal podiamos nos vermos ou nos falarmos.
(...)
Como não podia mexer no computador, criei uma agenda com anotações sobre essa situação. Kaiser era ou não, Ichijouji Ken? No colégio ele continuava a frequentar normalmente, sempre de mãos dadas com Miyako, sempre juntos em todos os intervalos, entrada e saída, entretanto o mais bizarro eu acabei vendo em um programa de fofocas sobre vida de famoso, da TV; eram muitas cenas dos dois saindo e se divertindo, indo em sorveterias, confeitarias, lojas de roupas e brinquedos, em parques de diversão, parque aquático, praia, shopping…
Isso não faz sentido algum. Se Ichijouji é Kaiser, porque está se divertindo desenfreadamente com Miyako, por aí, em vez de aproveitar a ausência dos Digiescolhidos no Mundo Digital? Não faz sentido.
Outra coisa que não se encaixava, era o fato da Miyako decidir fazer fotos para linhas de roupas de banho e outras mais, isso não combina com ela. Muitos fatos não estavam se encaixando, não batiam , não tinham respostas e nem suposições sobre tais fatos, até que em uma tarde recebi a visita do meu ex cunhado Inoue Mantaro, com as informações tragas por ele, tudo fez sentido.
Com as descobertas sobre os Bakemons e sobre a verdadeira situação da Miyako, agora era conseguir uma solução para libertá-la, mas como? Kaiser não era burro, não deixaria Miyako a par das coordenadas definitivas de sua base
Não quis preocupar Mantarou, com tudo o que eu tinha em mente, mas se a maioria dessas coisas estão sendo feitas por Bakemons, o que Kaiser tem feito com Miyako, todo esse tempo? Meu Kami!
Mais algumas semanas se passaram e agora as nossas reuniões para ir ao Mundo Digital, eram feitas na casa da Mimi, ampla e sem curiosos por perto, o mesmo esquema de sempre, os novatos iam e eu dava suporte no mundo real.
O incrível foi saber que durante, um mês, Kaiser não agiu, pelos relatos dos nossos aliados, ele nem sequer deu as caras. Foi um alivio por um lado, mas por outro, ele estava com Miyako e com suas funções paradas, porque? Eu daria tudo para saber o que estava acontecendo, mas meu pressentimento era péssimo.
Era definitivo, agora meus amigos já não tinham mais dúvidas sobre a identidade de Kaiser, armamos um plano para ir a casa dele e contar toda a verdade para os seus pais, mas antes pensamos em uma forma de conseguir furtar seu D-3, assim não teria mais como ele abrir o portal.
— Podemos pegar ele no final da aula, prender no banheiro e encher a cara dele de porrada, depois roubamos o D-3.— Sugere Yamato socando a palma da mão.
— Eu concordo, estou louco para chutar a bunda daquele idiota.— Daisuke-kun ergue o punho.
— Calma gente, se se meterem em mais encrencas, podem ser expulsos. — Pondera Iori-kun.
— Além disso, acho pouco provável que ele venha para um local cheio de inimigos e traga a chave do reino? — Takeru-kun se atenta a realidade e todos se sentam pensativos.
— É melhor mesmo, todos nos reunirmos, até a Miyako-san, e irmos na casa dele levando os Digimons e contarmos a verdade aos seus pais. — Concluo.
— Não sei se ela vai querer ir.— Mimi-chan despeja sem cerimônias.
— O que você quer dizer? — Perguntei receoso e ela suspirou.
— Já contou pra ele, Takeru-kun? — Sora fala direcionando seu olhar para o loiro.
— Não, eu não creio que seja boa idéia.— O loiro encolhe os ombros.
— Por favor, não me escondam nada. Tudo é importante. Entendem? — Afirmo de forma nervosa.
— Bem...Esse sabado passado eu encontrei a Miyako-chan e o namorado no terreo do nosso predio, parece que ele foi jantar na casa dela e sabe aquelas dúvidas sobre os selinhos no colegio serem cenograficos? Eu sinto muito, não são, flagrei eles no maior amasso.
Parei com a boca aberta e sem reação.
— Puta que pariu! — Vociferou, Yamato, espalmando a testa.
— Eu sinto muito...— Takeru-kun sussurrou para mim.
— Não morre ai. Essa quinta os dois foram ao dentista, Ichijouji, estava com o rosto inchado e Miyako-chan, estava ao seu lado toda carinhosa. — Mimi-san revelou mostrando as fotos e filmagens em seu celular.
— Se ele é mesmo Kaiser, isso significa que...— Hikari-chan não conseguiu terminar a frase.
— A Miyako-san, jamais faria isso. — Defende Iori-kun, como seu amigo de infância.— Tem que ter uma explicação óbvia para isso.
— Pessoas que estão sendo forçadas a algo, não trocam amassos no terreo do predio.— Taichi-kun é quem expõe sua opinião.
— Então ela passou de vítima a traidora. É isso? — Pergunto mais para mim mesmo. — Ai Kami-sama, é muita informação.
— Tem razão, melhor forma de tirarmos isso a limpo é com a própria Miyako, cara a cara.— Sora-chan propõe.
— Como vamos fazer isso? — Pergunta Hikari-san.
— Vai ter a festa do Shin-kun, esse sábado. Se convidarmos, ela vai escorregar, então vou passar na casa dela, de mala e maquiagem e arrastar ela para a festa. — Mimi expõe seu plano e todos ficam em silêncio.
— E quando estivermos com ela vamos fazer o que? Levá-la para um canto e a interrogar? — Yamato-kun, cruza os braços com ar desdenhoso.
— Embebedar ela e arrancar as informações? — Daisuke-kun da outra idéia nada brilhante.
— Primeiro ponto, ninguém aqui tem idade para beber, portanto passem longe das bebidas, ouviram? — Joe-senpai usa de sua autoridade como o mais velho.
— Não creio que nada disso seja boa idéia, Kaiser pode se irritar e acabar torturando Hawkmon ou até transformando em seu escravo usando o Anel. — Digo pesaroso.
Tento me manter forte e ser coerente, mas tudo o que foi dito me doi demais, para piorar essa semana a turma toda os viu rindo e conversando intimamente, eu vi. Poderia ser encenação? Sim, poderia, mas eu vi o sorriso de Miyako, era verdadeiro, largo, sincero e dirigido a ele.
— Eu só acho, que se Ichijouji é mesmo Kaiser, talvez a convivência deles tenha mudado algo dentro da Miyako-chan.— Sora começa séria e todos paramos para ouvir o que ela tem a dizer. — Viram como ela agiu com a Hino? Eu não estou querendo dizer que ela deveria ficar quieta, nem é do feitio dela, mas ela humilhou, pisou e visivelmente, sentiu prazer nisso.
— Eu não me sinto bem em ficar julgando a Miyako-san dessa maneira, até porque isso são apenas suposições e ela não está aqui para se defender.— Iori-kun protesta mais uma vez.
— Eu mais do que ninguém entendo seu lado Iori-kun e ninguém aqui gostaria de tratar a Miyako-chan como criminosa, se fazemos especulações é porque precisamos de respostas, desculpe se soa rude e fere um pouco o contexto amizade. Saiba que cada suposição levantada aqui me machuca muito, mas...— Suspiro cansado.— Infelizmente é o que temos agora.
— Não me sinto confortável com isso, sinto muito. — Hida insiste em sua posição.
— Nenhum de nós se sente.— Taichi inicia.— Pensa que estamos bem com isso, que não queremos a Miyako-san de volta? Que não é revoltante ter que abrir brechas para teorias tão cruéis? Mas se de alguma forma maluca a Miyako-san acabou se apegando a Kaiser, bem… Eu realmente não sei o que dizer ou fazer. — Levo a mão sobre a testa
Ninguém mais tinha o que dizer sobre aquilo e como eu estava muito abalado, Joe acabou acatando a idéia, mas que conversariamos no standebay com a Miyako, durante a festa ou talvez somente as meninas conversassem com ela, não sei, minha cabeça estava doendo demais.
Andei conversando com Mantarou e ele relatou que Miyako não apresenta marcas de maus tratos físicos, mas essa conversa foi antes do tal jantar, ele disse que por um período de mais ou menos um mês, Bakemon a substitui e não havia nada que pudesse fazer, por medo de contar aos pais de Ken e ele prender ela no Mundo Digital para sempre.
Eu estava com um péssimo pressentimento, de sexta para sábado eu mal comi e não dormi, a todo momento as palavras dos meus amigos ecoavam em minha mente. Miyako sempre foi fã de Ichijouji, mas sendo ele Kaiser e estando aprisionando seu parceiro eu não creio que ela… Não, Kami! Não pode ser, não posso acreditar, não tem como, mas teve uma fase em que ela estava muito mal, pálida, abatida, com olheiras, e se adquiriu Síndrome de Estocolmo?
É uma síndrome onde o oprimido em maioria dos casos um sequestrado, cria uma simpatia, um falso amor por seu opressor, é uma forma do cérebro convencer a pessoa de que está tudo bem e pode negociar com o algoz. Se isso estiver acontecendo, a que passos anda a relação deles? Ai Kami, a culpa é toda minha, se eu tivesse agido desde o começo, mas… Agora pode ser tarde demais.
O dia amanheceu e eu não sentia vontade nenhuma de sair do meu quarto. Taichi e Yamato invadiram o local e me tiraram da cama.
— O que é isso? Saiam daqui seus pederastas, estou só de cueca.— Puxo o lençol me cobrindo e eles começam a gargalhar.
— É nerd até na hora de ofender. — Taichi-kun brinca, jogando minhas roupas.
— Anda logo ae, temos que alugar os smokings.— Fala Yamato, já no corredor.
— Não sei se eu vou mesmo.— Respondo me vestindo rapidamente e começando a forrar a cama.
— Ah, cara, sei que é difícil, mas você não pode fugir, nem se esconder, se algo estiver rolando mesmo, temos que descobrir. — Taichi pontua.
Eu sabia que eles tinham razão, não adiantava me esconder, minha vida já estava um inferno e eu nem conseguia ser racional, piadinhas, cartinhas, ódio público na no colégio, futuro destruído, castigo, psicólogo e agora minha ex namorada pode estar apaixonada pelo inimigo, um cara louco e macabro. A galera sempre diz que sou o cérebro da equipe, mas meu coração está magoado demais para que eu possa funcionar corretamente.
Fiz minha higiene matinal, tomamos um café exagerado, preparado pela minha mãe. Taichi e Yamato parecem já estarem de boa um com o outro, nem tocam mais em assuntos desconfortáveis e ficam se zoando e tentado me zoar, mas sei que estão sem graça com a minha situação.
Passamos o dia no shopping, comemos por lá, jogamos e escolhemos as roupas, a hora se aproximava e eu ainda estava receoso. Um nó se formava em meu estomago, a inquietação crescia, aquele mau agouro e vontade de fugir para casa, era como se eu soubesse que fosse ser atropelado por um caminhão, pego por uma locomotiva.
Cada um foi para sua casa e combinamos de nos encontrarmos por lá, deu a hora marcada e eu ainda não queria ter que ir, mas pedi as chaves do carro do meu pai e fui. Nem me lembro da estrutura do local, entrei em modo automático e procurei nossa mesa, ela estava lá, linda!
A partir daquele momento tudo o que fiz foi automático, cumprimentei a todos, parabenizei Shin-kun e tomei meu lugar, sem conseguir parar de olhar para ela. A noite seguiu entre músicas e brincadeiras e ninguém parecia ter coragem de dar o primeiro passo e chamá-la para o standby, se eu fizesse seria estranho.
Dada um certo momento a galera saiu para a pista, Takeru-kun a chamou, talvez perguntasse algo durante a dança, mas pelas coreografias que fizeram, creio que ele também não tinha coragem.
Estava decidido a ir embora, quando Mimi me tirou para dançar, eu deveria ter pressetido o pior, mas aceitei e no meio da dança ela me fez trocar com Takeru. Miyako e eu congelamos por um tempo, mas eu a conduzi a dançar, bem… Ela estava alí comigo novamente, depois de tanto tempo, o mesmo perfume, o mesmo calor e só Kami sabe o quanto o meu coração disparou, sem querer eu a puxei para mais perto e ela recuou, separou abruptamente e coreu.
Eu já não estava pensando direito e as idéias se embaralharam, eu precisava saber, precisava ouvir dela, ouvir tudo, mas quando cheguei ao topo das escadarias, a vi escorregando e quebrando o salto, machucando o pé. Eu sabia que dentro da boate tinha atendimento, mas insisti com os seguranças que eu a levaria.
A ergui no colo e vi as pessoas fotografando e gravando, seria um escândalo, a namorada de Ichijouji Ken, em uma festa sem ele e com o ex, mas na hora eu nem pensei, não queria a expôr de forma alguma, mas queria ficar sozinho com ela e foi a pior coisa que eu fiz.
Quando estávamos sozinhos e eu já tinha cuidado do seu ferimento, notei o quanto ela estava nervosa, olhando o celular toda hora, insistindo que queria voltar com a Mimi-san, mas a ignorei e segui para levá-la em casa. Imprudente? Sim, se Kaiser estiver tendo alguma relação com ela, pode castigá-la ou sabe-se lá o que, mas na hora eu não pensei.
Ocorreu que a tempestade se agravou e eu tive que encostar o carro. Minha cabeça estava a mil, os questionamentos vieram com força e ela se mantinha olhando para o lado oposto e de repente me bateu uma revolta imensa. Porque com a gente? Porque comigo? Olha quantos planos nós tínhamos e olhe agora, que abismo que parece existir. Estamos aqui sozinho e eu queria que ela desabafasse e me pedisse ajuda, mas ao contrario disso, ela apenas parece querer fugir. Será por medo dele?
Nessa hora eu já não tenho nenhum controle e me inclino sobre ela, afundando a cabeça contra seu pescoço e inalando seu cheiro… Como eu sinto saudades, é tanta que chega a ser doloroso as vezes, também sinto mágoa e ódio, ódio de Kaiser pelo que fez a ela e de mim mesmo, por não ter impedido.
Ela se encolhe e tenciona completamente o corpo. Eu tento dizer para que ela não tema que estamos apenas nós, revelo que já sei de tudo e promete salvá-la, mas estamos tão perto que não me contive e acabei por beijá-la ou tentar.
Nunca vou esquecer a expressão de repulsa no rosto de Miyako, quando ela me afastou e tentou abrir a porta, sem sucesso, o seu rosto dizia coisas que eu preferia não ter entendido. Estava confirmado o que os demais disseram e eu não sabia como iria conviver e superar aquilo.O que Kaiser fez com você?
(...)
Naquela noite eu não consegui dormir e os dias vindos após esse, eram frios e chuvosos, para confirmar de vez a minha tese., Ichijouji, desapareceu, na internet fotos e filmagens minhas com Miyako-san, viralizaram e muitos nos culpavam pelo desaparecimento do ídolo.
Agora a turma toda estava convencida, Kaiser e Ichijoji, eram a mesma pessoa e Miyako-san… Eu não sei explicar, mas ele manipula as pessoas, manipulou um país para que pensassem que é um rapaz doce e gentil, como não faria isso com uma garota?
A semana foi uma confusão imensa, imprensa na porta, policia fazendo perguntas, até me interrogaram sobre a nossa briga, interrogaram Miyako. Não pude deixar de sentir pena, ela estava péssima, muito abalada, quase sem vida, pálida e com olheiras fundas, sempre olhando para o celular e fugindo de conversar com as garotas. Eu disse que seria melhor que elas não insistissem, pois algo muito grave poderia acontecer.
Foi com muita vergonha que busquei coragem para contar aos outros o que aconteceu no carro, depois que confessei, esperei as opiniões e deduções sobre o caso, mas recebi um silêncio de horror e compadecimento, bem, exceto por Yamato.
— Então temos que ficarem aqui engolir que a Inoue ta transando com o vilão? — Socou a mesa do estabelecimento onde sempre nos reunimos.
— Ninguém pode saber se isso está acontecendo, Yamato, se acalme. — Sora repreende.
— Desculpa Sora-chan, mas se Miyako ficou mais de um mês com Kaiser, tendo um Bakemon em seu lugar e o Takeru-kun os viu trocando amassos, agora ela repudiou o Koushiro. Para mim já estã claro! — Taichi surpreende ao apoiar o loiro.
— Ai amiga, o que houve com você? — Hikari suspira pesarosa.
— Não tem mistério, o cara é louco, mas é gostoso, deve ter atentado ela, seduzido e ela não resistiu.— Mimi-chan, se expressa a sua maneira.— Desculpa Koushiro-kun.
— Eu juro que estou mais perdido do que freira em lua de mel...— Começa Daisuke. v Miyako era fã de Ichijouji, ela termina com Koushiro e começa a namorar com ele, só que ele é o Kaiser, logo Miyako lutava contra Kaiser, que FERIU E CAPTUROU HAWKMON, mas ela agora namora com ele. Namora aquele… Aquele...— Ele estava indignado, nem sabia o que xingar.
— Eu estou indo, deixei Upamon sem comida e ele já deve estar com muita fome. Até mais.— Iori-kun, não quis opinar, saiu contrariado, Joe tentou segui-lo, mas foi inútil.
No sábado, os novatos me ligaram no fixo e me pediram para encontrá-los na casa da Mimi-san, a principio eu não queria nada, nem sei se queria viver, mas depois eu fiz um balanço interno. O mundo de Tentomon corre perigo, vou ficar aqui me lamentando e desistindo de tudo enquanto crianças lutam sozinhas?
Definitivamente não, tenho um pai e uma mãe que me amam e estão fora desse quarto preocupados comigo e sem saber o que fazer, tenho amigos que precisam de mim, meu parceiro conta comigo e todos juntos temos um império para derrubar. Quebrado? Magoado? Confuso? Sim, eu estou, mas não estou pronto para desistir de nada e nem dela. Kaiser que se prepare.
Tomei um banho, me vesti, fiz um lanche e me despedi dos meus pais.
— Mãe, pai, estou indo na residência dos Tachikawa, volto em breve. — Ele se olharam e se despediram, já sabendo do que se tratava.
Quando cheguei, todos os novatos estavam no local e os Digimons ansiosos para entrarem no portal, preocupados com os acontecimentos. Fomos para o quarto de Mimi-san e em se computador, verifiquei o perímetro, posicionamento seguro e pedi a Tentomon para levar uma das TVs, portais, para a melhor área. Tudo pronto, os novatos atravessaram o portal com seus parceiros, aí a loucura começou.
Porque loucura? O local onde os novatos foram, estava em chamas, por todos os lados, poços de lavas borbulhavam e por mais seguro que tenha sido a localização que escolhi, não fora tanta. Não consegui mandar reforços pois a comunicação com a resistência foi cortada.
Um inferno de fogo se iniciou, Meramons saltaram para o ataque e devido ao local ser quente, eles estavam muito fortes e nada funcionava. Enquanto os novatos lutavam para acabar com os inimigos de fogo e destruir a Torre Negra, De repente a conexão foi cortada e eu perdi imagens deles e fiquei nervoso querendo saber o que houve, preocupado e sem poder fazer nada, comecei a tentar reestabelecer contato.
Finalmente um e-mail de Iori-kun, chegou, mas as noticias eram aterrorizantes.
“Kaiser sequestrou o Agumon, do Taichi-kun. Agumon passou pela evolução das trevas e se tornou SkullGreymon. Já estamos voltando.
Hida Iori.”
— Ai Kami, Kaiser quer destruir o Mundo Digital, SkullGreymon!— Disse mais para mim, mas Mimi-chan chegava com um lanche e acabou ouvindo e fazendo o maior escândalo.
Os novatos voltaram e conversamos sobre o que houve, parece que Kaiser está aprontado algo horrendo. Ligamos para Taichi e contamos sobre o que se passou com seu parceiro e ele ficou furioso, prometendo ir com os novatos, pela manhã, procurar Agumon.
Não demorou muito e recebi um e-mail, endereçado a mim e a Mimi-chan, contendo um video com a tag #nãomexamcomasminhascoisas… Não pude crer no que meus olhos me mostraram, além de levar Agumon, aquele louco sequestrou Palmon e Tentomon e os jogou na cela com SkullGreymon, Mimi-san acabou desmaiando.
Felizmente eles não foram mortos, SkullGreymon recebeu alta voltagem de choque e desmaiou, voltando a Agumon, nossos parceiros voltaram a Tanemon e Motimon, em anexo veio o local onde poderíamos encontrá-los. Poderia ser armadilha? Sim, mas não podíamos deixá-los lá morrendo.
Entramos no portal, nas coordenadas enviadas e os encontramos, não era armadilha, não teve mais luta. Aquilo foi uma vingança, Mimi-san tirou Miyako-san de sua clausura e eu… Bem, sabe-se lá o que esse louco pensa. Amparamos nossos parceiros e retornamos para casa afim de cuidar deles.
Agora estou aqui, na minha casa, Motimon dorme tranquilo, amanhã será a busca a Agumon, o Mundo Digital está um caos, meu mundo está um caos, mas vou continuar lutando, Kaiser ainda vai cair.
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