Inimigos Íntimos
65 O direito de recomeçar
Notas iniciais
Pov Ken
Tudo resumia-se na mais completa penumbra… não era algo ruim, nem bom. Era inércia… uma entorpecência mental e corporal, uma bolha temporal a conter percepções e sentimentos. Talvez uma inconsciente reparação de arestas. Em determinado momento, um sutil aroma de chá fresco invadiu minhas narinas e a percepção corporal foi sendo reativada. A cama sob meu corpo, o edredom a me aquecer.
Morosamente, meus olhos se abriram a encontrar a familiaridade do meu quarto. Uma súbita nostalgia melancólica me atingiu, contudo havia uma instintiva confiabilidade a me dizer que tudo estava melhor agora. Era estranho me sentir acolhido e confortado no lugar onde foi palco de tantas agruras.
Aturdido, me forcei a sair da cama e, ao andar pelos corredores de casa, o cheiro de café da refeição vespertina vinha me cativar. Ao colocar os pés na copa, meu pai abandonou seu jornal, minha mãe secou as mãos no avental e ambos se olharam e encararam-me. A exacerbada comoção era quase palpável, mas dessa vez ela me alcançava.
E pela primeira vez eu sentia que estava enxergando sem uma viseira e uma alta dose de egocentrismo que cultivei e fiz proliferar como fungos nas umidades, dentro de mim. Num piscar de olhos, eles se acercaram de mim e me envolveram em um abraço acalorado, protetor.
Do meio de toda minha confusão mental, eu entendia que aquele não era o momento para tocar em feridas, mesmo que com o intuito de curá-las. Meus pais também tiveram essa percepção; me guiaram até a mesa e me serviram a refeição. E nós ficamos ali, três pessoas fragmentadas, calados e emotivos, com tanto a dizer, mas a aguardar o momento certo. Nós ficamos ali, deixando o silêncio agir sabiamente…
…
Eu não tinha muita noção de tempo. Arrastava-me da cama para a sacada repetidas vezes. Ao mirar o computador, era como uma espada a me perfurar o peito. Entre fitar a movimentação da rua e o lustre do quarto, as imagens dos meus diversos assuntos pendentes iam tomando forma e voz dentro da disformidade dos meus pensamentos.
E finalmente eu pude chorar por todos os que eu feri, por todos os danos que causei. A percepção e compreensão me abatia a cada momento. O sono já não existia, a fome me abandonou e eu queria sumir da existência, queria me encolher em posição fetal e chorar até me desmaterializar junto com as lágrimas.
E por um tempo foi o que eu fiz; não dormi, não comi… Eu destruí a vida de muitas pessoas; matei e torturei seres vivos. Eu não merecia existir, minha existência só trouxera ruína. Eu remoí as minhas desqualificações e tentei encontrar o vazio, um lugar onde eu me fundisse ao nada e não afetasse mais este mundo.
Então eu os fiz chorar de preocupação, vi os olhares de desespero e entendi. O que eu fiz está feito e não havia como apagar, mas eu não podia simplesmente deixar de existir e causar um estrago ainda maior. Era isso que Miyako queria; que eu voltasse e encarasse meus erros. Foi por isso que Wormmon se sacrificou, para me dar uma segunda chance.
Era egoísmo querer me trancar e chorar, eu mancharia a memória de Wormmon, destruiria os sentimentos dos meus pais e da Miyako. Eu teria passado por esse mundo só para destruir e não arcaria com as consequências. No fechar das cortinas, eu seria o maior dos covardes.. Seria mais cômodo ficar aqui no meu quarto sem comer e sem dormir até que minha agonia findasse para sempre, mas eu não estava disposto a me dobrar a isso.
Naquele momento eu entendi que já bastava de lágrimas e auto piedade, era hora de me levantar e lutar para reparar os meus erros. Aterrorizava-me com as monstruosidades que cometi e sobre o quanto isso me parecia o certo a se fazer para alcançar o objetivo de refazer o mundo à minha maneira. Reconhecia que toda aquela agonia estava me impedindo de agir.
À partir daquele momento, me levantaria, me forçaria a ingerir alimentos e recuperar energias e, me organizaria para um novo começo. Bastava de lágrimas, bastava de amargura. Eu já tinha expurgado meus demônios, agora precisava continuar a mantê-los distantes.
…
Meus pais pareceram surpresos quando os convidei para uma conversa. Já fazia três dias que eu havia despertado daquele sono entorpecedor e minhas idéias estavam perfeitamente lúcidas. Eu já começava a entender que durante toda minha vida, após a morte de Osamu, eu estava em uma bolha negra que manipulava as informações à minha volta.
Era efetivo o fato da negligência dos meus pais, a objetificação e relação parasitária da sociedade inerente à minha imagem, mas a cortina trevosa ao meu redor, certamente ampliava toda a minha visão. O que já era ruim, me parecia muitas vezes pior, revoltava-me mais, angustiava-me e me deprimia imensuravelmente.
Diante dessa percepção era hora de confessar meus pecados. Eu era ciente de que Miyako já havia esclarecido muito do que eu tinha a declarar, mas queria clarificar meus sentimentos e arrependimentos. Assim era o mesmo para os meus pais, cada um desabafou extensivamente. Creio que era certo para eles que a minha hora de sair de casa se aproximava e ambos temiam que fosse tarde demais para serem ativos como pais.
Realmente, eu declarei o desejo de tomar as rédeas da minha vida, de descobrir meios para reparar todos os danos que causei tanto no Mundo Digital, quanto neste mundo. Eu queria sim sair de casa e me estabelecer no meu canto, contudo, considerando que eu me declararia o culpado por todas as divulgações de informações pessoais e por incriminar Izumi, certamente iria precisar de um bom advogado, seria expulso da universidade e todas as marcas que desejavam minha imagem para merchandise, eu precisaria do apoio dos meus pais, agora mais do que nunca.
Eles sabiam bem sobre a tormenta que estava por vir. Eu passaria de ídolo exemplar; ao pior dos delinquentes, aquele cujos filhos seriam castigados pelos pais se pronunciassem o nome, uma desonra, uma aberração. Eles se mostraram complacentes e dispostos a ficar firmes ao meu lado, declarando orgulho pela minha coragem de expor e me colocar à julgamento.
Não tinha como voltar o tempo e me dar toda atenção que uma criança e adolescente realmente precisava. Não tinha como ir ao passado e dizerem a si mesmos que um filho tinha partido, mas o outro ainda estava vivo e a clamar silenciosamente por eles. Não tinha como dizer para retrocederem e protegerem uma criança de holofotes e dizer para ela não querer estar à frente do seu tempo, abandonar as brincadeiras para impressionar os adultos com demonstrações de genialidade. Não tinha como, pois isso era passado…
No entanto… Meus pais e eu estávamos na mesma situação. Não podíamos mudar o passado, mas podíamos dar o nosso melhor no presente, para construir um futuro. Optamos por perdoarmos uns aos outros e nos perdoarmos com a finalidade de seguirmos em frente. E creio que, pela primeira vez em muito tempo aquela casa foi preenchida por sentimentos nobres.
Envolvido pelo abraço dos meus pais, cercado pelo apoio deles, eu sentia que estava pronto para recomeçar.
...
Por mais que a conversa com meus pais tivesse me feito extremamente bem, ainda sentia um vazio dentro de mim. Eu sabia que para seguir em frente precisava me perdoar, mas quando pensava sobre Wormmon e Miyako, tudo se complicava. Sobre Inoue…
Ela tinha chegado recentemente dos EUA, meus pais contaram floreadamente sobre uma tal missão que ela foi realizar com os demais Digiescolhidos. Covardemente mantive o celular desligado. Conversar com meus pais já tinha sido emoção demais por momento. Eu sabia que Miyako era ansiosa e imaginei sua pressa em querer vir me ver e conversar, mas… Sentia que ainda não estava preparado para vê-la.
Foi surpreendente mas não invasivo quando meus pais me chamaram a atenção sobre isso. Contaram-me que foi ela quem me trouxe do Mundo Digital, com ajuda dos amigos e permaneceu ao meu lado, tratou minhas feridas e conversou comigo enquanto eu estava adormecido. Inoue chegou a pedir ajuda de Izumi para entender o que fazer nessa conjuntura. Eu imaginava o quanto isso foi difícil para ela e também me sentia envergonhado em ter recebido a ajuda dele.
Meus pais a admiravam, a estimavam, mesmo com seu jeito sincero e algumas vezes indelicado de colocar suas verdades. E eu? Eu a amava, mas depois de tudo eu não sabia se tinha o direito de querer os sentimentos dela. Com todas as complicações que me aguardavam eu não sabia se queria fazê-la sofrer mais do que já fiz. Desde o começo eu só causei agruras e agora, mesmo indiretamente, não iria ser diferente.
Em relação aos meus pais, era diferente, nós tínhamos assuntos pendentes, laços sanguíneos e querendo ou não, essa nova fase viria a servir de redenção para ambas as partes, mas Miyako… Miyako precisava terminar seus estudos, lidar com sua família e certamente ela ajudaria a reconstruir o Mundo Digital, o que exigiria esforço físico e mental.
Eu era nocivo a ela! A cada minuto era o que eu concluía. E na verdade, eu nem sabia dizer se ela realmente sentia amor por mim ou isso foi algum distúrbio causado pela nossa proximidade forçada e conturbada. Eu nem distinguia se eu sou seu amor ou sua doença pós traumática e na verdade nem ela deveria saber. O que significava que precisávamos de um tempo. Como dizer isso à ela?
…
Mesmo tentando me perdoar, minha mente parecia querer me jogar no abismo. A verdade era que fiquei tanto tempo me guiando como Kaiser, usando o poder das trevas como muleta, que agora não sabia como dar os primeiros passos e caminhar sozinho. Até coisas destrutivas podiam causar dependência, afinal.
As piores maldades que já fiz, assombravam-se em pesadelos. As trevas pareciam me reivindicar com todas as forças. No entanto, naquela manhã, acordei me sentindo diferente. Sentia-me esperançoso como se o sol fosse voltar a brilhar. E ao abrir os olhos tentando desfrutar um pouco mais daquela percepção, mirei meu digivice a emanar uma luz. Wormmon?
Até aquele momento eu não tinha notado que meu dispositivo estava sobre a mesa do computador. Na verdade, eu pensei que os digiescolhidos o levariam por precaução. Porque eles não o fizeram? Aquilo não importava no momento. Wormmon estaria mesmo de volta? Estaria mesmo a chamar por mim?
Abrupto, saltei da cama e liguei o computador. Olhei as coordenadas no D-Terminal? Desde quando eu tinha isso? Bem, não importava. Sabia bem que era muita ousadia voltar naquele mundo depois de todo o mal que causei, mas a necessidade de ver Wormmon gritava incessante dentro de mim.
Emocionado e com mãos trêmulas, digitei as coordenadas, saquei o digivice e me senti transportado para o Mundo Digital. E lá estava eu, na Cidade do Principio, lugar onde nunca vi interesse algum até hoje. Na entrada já fui reconhecido e barrado por um Elecmon que se postou à minha frente, autoritário.
— Como se atreve a deflorar o solo sagrado deste lugar com sua presença odiosa? Volte para o seu mundo. — Elecmon bradou encolerizado.
— Eu compreendo suas reservas, mas eu não sou mais como antes. Tem a minha palavra. — Garanti incisivo. — Eu vim até aqui por um chamado. Eu quero fazer o possível para me redimir.
Elecmon semicerrou os olhos parecendo analisar a veracidade das minhas palavras.
— Mentiroso! — Alguns bebês iniciaram um alvoroço.
— Não deixa ele entrar! — Exigiu um dos pequenos.
— Imperador odioso! Não precisamos da sua ajuda e nunca vamos te perdoar, viva com a sua culpa! — Revoltado, um dos bebês explodiu e arremessou excremento contra mim, os outros começaram a fazer o mesmo. Felizmente eu desviei de todos.
O brilho do meu Digivice explodiu em luminescência e toda a agitação cessou milagrosamente. Quando o brilho se dissipou, estavam todos com as bocas abertas e olhos arregalados.
— Eu realmente não compreendo, mas não se deve contrariar a sabedoria antiga e, ela parece acreditar em você. — Elecmon me cedeu passagem e fez um aceno com a mão para que eu entrasse.
Assenti e adentrei com a sensação de que estava atrasado. Segui por entre a aglomeração de pequenos Digimons, que agora olhavam-me em silêncio. Ao longe, um ovo reluzia e era como se eu sentisse que Wormmon estava a me chamar.
Ofegante, alcancei o objeto e ajoelhei-me diante dele, não contendo o impulso de tomá-lo em mãos. Era caloroso e acolhedor, como experimentar a luz do sol a banhar a pele, depois de um longo período no escuro. Eu não consegui conter as lágrimas. Envolvi o ovo reluzente em meus braços, enquanto milhares de memórias me abatiam.
Como eu pude sentir solidão, se Wormmon esteve comigo desde que nos conhecemos? Como eu pude fazer com ele, exatamente o que os meus pais fizeram comigo? Eu queria amor, queria atenção e ele esteve comigo me dando um amor incondicional em tempo integral.
O calor emanado do ovo aumentou e o mesmo transmutou-se em uma pequena criatura verde-clara; a forma bebê de Wormmon, certamente.
— Wormmon? me perdoa! Eu fui tão horrível com você e você sempre esteve comigo em todos os momentos, tentando me fazer enxergar a verdade. Eu virei o mundo pelo avesso, por sentir defasado com algo que você sempre me ofereceu em abundância, incondicionalmente...
— Ken-chan… Eu sou Leafmon agora. Que bom que você veio me encontrar!
— Sim, eu vim, eu voltei para te pedir que me perdoe. Perder você daquela maneira me fez enxergar o quanto eu estava sacrificando todos que me amam. Obrigado por voltar à vida, por me dar a oportunidade de pedir que me perdoe por todo o mal que eu fiz a você e ao seu mundo.
— Não precisa chorar, Ken-chan. Eu acreditei em você, acreditei que você se libertaria e encontraria a si mesmo. Eu estou feliz em poder te encontrar novamente… O Ken que eu conheci, bondoso e gentil.
— Eu ainda não sei se sou realmente assim, mas se você ainda quiser ser meu parceiro e ficar ao meu lado, eu quero buscar essa bondade na qual você tanto acredita, todos os dias. Eu quero cumprir o meu dever como Digiescolhido e ajudar a reconstruir este mundo. Você me perdoa? Você ainda que ser o meu parceiro?
— Sempre… — Leafmon chorou emocionado, pulando das minhas mãos contra o meu peito. — Eu perdoaria sempre, eu serei seu parceiro para sempre! Eu não consigo pensar em nada mais maravilhoso!
Envolvi sua pequena forma e o molhei com minhas lágrimas. Um sentimento de gratidão preenchia todo meu peito. Sentia-me sortudo por ter um amor tão puro e grandioso quanto o do meu parceiro. Sentia-me com ganas de recomeçar imediatamente a reparar todos os erros cometidos.
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