Inimigos Íntimos
11 Não me subestime
POV KOUSHIRO
Quando Miyako rompeu nosso compromisso eu, seriamente, cogitei a possibilidade de ir até a sua casa no mesmo momento, mas preferi ouvir seu pedido desesperado. Sim ela parecia desesperada! Não consegui dormir depois daquela ligação, me virei a noite inteira na cama, preocupado, com o coração apertado, pensando no que teria realmente acontecido. Aquela voz que a chamou para um banho… Eu estava tentando ignorar o quanto aquilo era doloroso, focando no quão era suspeito. Entretanto as emoções não me deixavam pensar direito, ainda não estão deixando.
Quis ligar para ela hoje cedo, mas fiquei em dúvidas e decidi que seria melhor conversarmos no colégio, teremos monitoria no laboratório e após podemos conversar. Infelizmente minha mãe percebeu a preocupação estampada em minha cara e me encheu de questionamentos, que infelizmente eu não podia, nem tinha como responder. Entendo a sua preocupação, se fosse ao contrário, também estaria preocupado com meu filho.
Me encontrava tão desligado, que o percurso de casa ao colégio me passou quase despercebido. Estava uma segunda feira cinzenta, fria, a garoa fina caía, o vento cortava meu rosto como finas agulhas. Nunca havia me sentido tão fragmentado assim antes. Queria tanto saber o que se passava, sentar frente a frente com Miyako, olhar dentro de seus âmbares expressivos e tirar dela todas as respostas.
Quando me aproximei da entrada do colégio, mesmo alheio ao mundo, uma movimentação estranha me chamou a atenção. Os estudantes estavam eufóricos, um burburinho havia se iniciado. Forcei minha visão cansada, e não consegui acreditar na cena a minha frente. Miyako tinha sua mão enlaçada com, ninguém menos que, “Ichijouji Ken” e ele pareceu sussurrar algo em seu ouvido. Então ontem a noite?
Meu mundo já não estava bem desde aquela ligação, mas ver aquela cena horrível foi a gota d'água pra me deixar destroçado. Eu simplesmente parei, em choque, olhando na sua direção, não? Não minha kouhai, minha amiga há cinco anos, minha namorada, a garota que aprendi a amar, aos poucos, com toda minha alma, não?
Não consegui ter reação alguma, travei no mesmo local e o que parecia impossível aconteceu, eles caminharam de mãos dadas, em minha direção e Ichijouji debochou da minha cara da maneira mais suja, covarde, mais baixa o possível e ela… Ela nem sequer levantou a cabeça, deixou que ele tripudiasse de mim na frente da escola inteira que permanecia em silêncio assistindo a cena, e simplesmente seguiu de mãos dadas com aquele idiota, sem olhar pra trás.
Eu não estava mais ali, senti como se o meu corpo tivesse sido queimado completamente, restando apenas as cinzas, lentamente levadas pelo vento. Creio que estava anestesiado demais para sentir o peso do olhar de piedade ou deboche que os alunos lançaram sobre mim. Teria ficado parado ali, olhando para o nada, se Taichi e Yamato não tivessem me puxado para entrar no colégio, arrastando-me para sala de aula, sem ousar dar alguma palavra.
Segui para a última carteira ao lado da janela, onde me sento frequentemente, me ajeitando sob ela, não tirando os materiais, apenas apoiando o cotovelo sobre a mesa e voltando meu olhar para o céu acinzentado. Aquilo parecia um pesadelo horrível, eu que sempre dei prioridade a tudo em minha vida, menos a romances permiti que as barreiras fossem rompidas pra ter meu coração esmagado assim.
Comecei a recordar meus momentos com Miyako. Porque sempre tem que chover em dias tristes? Me recuso a ter que viver esse maldito clichê. Como se eu tivesse alguma escolha, as memórias vão surgindo, foram tantos momentos desde que nos conhecemos, ela primária e eu indo para o ginásio e me lembro de ter ficado encantado com sua curiosidade e facilidade de aprender as coisas… Então se tornou digiescolhida, como nos aproximamos cada dia mais, a admiração que ela me tinha transbordava em seus olhos.
O gosto e empenho que ela tinha em aprender tudo, eram os mesmo que eu possuía em ensiná-la, não demorou muito para que estivesse lado a lado como companheira de pesquisas, dando suas opiniões, expondo suas teorias, já não era mais minha kouhai, nossos conhecimentos estavam conectados.
Foram tantas tardes, risos, brincadeiras, descobertas e sábado no festival eu a acompanhei até em casa e ela estava com Poromon adormecido em seus braços, antes de abrir a porta nós trocamos um último beijo, com cuidado para que seu parceiro não acordasse. Será que ela me culpa, por ter ficado sem comunicação e não ter mandado reforços? Mesmo assim, as peças não se encaixam.
E se…
E se Poromon ainda estiver vivo e em posse de Kaiser e ele quem… Mas nesse caso e poderia crer que Kaiser é…
— Koushiro-kun? — Sou tirado dos meus pensamentos, por Mimi, a olho piscando algumas vezes. — É hora do intervalo, onde está o seu obento? — Pergunta, já arrastando a carteira ao lado e unindo-a a minha.
— Obrigada, Mimi-san, mas eu não tenho fome. — As palavras apenas saem, minha mente parece ainda estar longe. Intervalo? Se eu for ao refeitório eles vão mesmo estar lá?
— Mas vai comer sim. — O tom de Sora é imperativo, mas quando a encaro assustado, ela se atrapalha. — Na-não pode deixar de comer, em momentos difíceis precisamos deixar nosso corpo forte. É, eu só acho… Pode comer o que eu trouxe, se quiser.
Eu devia estar péssimo mesmo para estar sendo tratado daquela forma. Negativei com a cabeça e peguei o meu obento, Mimi-san sorriu, batendo palmas duas vezes. Sora virou a mesa da frente e a encaixou a minha, colocando seu almoço sobre ela, não demorou muito e Taichi chegou com Yamato, o loiro se sentou ao lado da ruiva e Taichi arrastou mais uma mesa e sentou-se como se estivesse a cabeceira de uma mesa de jantar.
Começamos a comer, mas eu não conseguia, não descia, o estômago estava embrulhado, fiquei de cabeça baixa, apenas remexendo com os hashis a comida o almoço inteiro.
— Ah, pra mim já chega! Não vamos ficar aqui e fingir que não tem nada acontecendo. — Yamato socou a mesa, furioso e Sora apenas colocou a mão em seu ombro em um pedido silencioso de calma.
— E o que quer que eu faça? Vá lá encher o cara de pancadas e pegar minha garota de volta? — Afastei a comida e respondi sarcástico.
Yamato bufou, mas não conseguiu responder, me levantei, olhando pela janela, fitando o movimento que os alunos faziam. Senti o peso da mão de Taichi pousar em meu ombro.
— Eu não sei o que te dizer, sinto muito. Você sempre sabe o que me falar em quase todos os momentos difíceis da minha vida, mas eu não tenho sua inteligência ou habilidade com as palavras.
— Para com isso, cara. — Foi a única coisa que consegui dizer, com o olhar fixo fora da janela.
— A culpa foi toda minha… — Mimi-san choramingou, quando voltei meu olhar para ela, notei que também não tinha tocado em seu almoço, as lagrimas escorriam por sua face. — Se a Palmon não tivesse sido sequestrada e eu não pedisse ajuda, Poromon estaria com a Miyako e ela não teria enlouquecido e… Bem, e feito isso tudo!
— Não diga bobagens Mimi-san! — Taichi esbravejou, mas depois baixou o tom. — Ninguém teve culpa, você não podia deixar sua parceira nas mãos do Kaiser.
— É Mimi-chan, não tem que se culpar, eu prometi reforços, mas não fui capaz de resolver o problema da comunicação, se alguém aqui tem culpa, essa pessoa sou eu. — Conforto minha amiga e acabo expondo como me sinto.
— Qual é o problema com vocês? Estão se culpando, procurando justificativas para a trairagem que a Miyako fez? — E todos voltamos nossa atenção para Yamato, ele a chamou sem honorífico, estava evidentemente furioso, creio que nem eu apresentava tanta fúria. — Poromon foi pego em campo de batalha, poderia ter sido qualquer um dos nossos parceiros, o que não justifica apunhalar ninguém pelas costas.
— Pare com isso, Yamato-kun. — Sora-san o interrompe. — Não está honrando o seu brasão agora! Não julgue sem que possa saber todos os lados da história. — Diante do que ela disse o loiro se levantou e saiu, emburrado, da sala.
Se tem uma coisa que Yamato não gosta de ver é um amigo passar por algo que ele considera injusto, é da personalidade dele. Já o que Sora falou me deixou intrigado.
— O que você quis dizer com “todos os lados da história”? — Fui direto.
— É que só sabemos o seu lado, mas depois do que houve não conseguimos falar com a Miyako-chan e, bem o Ichijouji…
— Não é segredo pra ninguém que a Miyako-chan era fã girl do Ichijouji! — Mimi-san rasga o verbo.
— Mimi-chan! — Taichi e Sora-san a repreende.
— Desculpa, saiu, mas é verdade e isso muito antes de namorar o Koushiro-kun. Só estou dizendo que se ela estava abalada com a perda do Poromon, possibilidades de ele nem está mais vivo, talvez o único lado do Ichijouji nessa história, tenha sido entrar em contato em um momento de fragilidade.
Cruzei os braços e me sentei, começando a teorizar. Foi repentino? Sim, mas o que a Mimi-san falou faz algum sentido. Talvez eu não quisesse aceitar por causa da dor. Miyako não estava bem, estava assustada, carente e se do nada seu “ídolo” buscou contato, ela pode estar usando isso como fuga da realidade, mas não é o perfil dela, Miyako não é covarde, não se esconderia na fantasia, ela é determinada, se bem que nunca a conheci sob efeito de uma grande perda.
— Ainda sim é tão surreal isso, ontem uma hora da manhã a… — Me dei conta das minhas palavras e me contive, não podia contar o que houve “totalmente”. — Ela me ligou terminando.
— É mesmo surreal. Ninguém muda de colégio, ainda mais sendo um tão renomado, assim de uma hora pra outra, por algo que começou online. — Mais uma vez Mimi-san foi sincera e direta. — Ah não ser que já tenha começado antes… — Quando se deu conta do que disse ela cobriu a própria boca com uma das mãos.
— Vamos parar esse assunto, remexer só vai piorar e não levará a lugar algum. Cada um tem sua maneira de lidar com a dor e dessa forma as vezes magoa outra pessoa. — Taichi tentou nos tirar do assunto, mas o que acabou dizendo pareceu se estender bem mais do que o caso relacionado a mim.
— De qualquer maneira a Miyako-chan, não está feliz com a escolha que fez, mas talvez não tivesse outra opção. — Sora-san bradou pensativa.
— É verdade, qualquer fã girl estaria feliz ao lado de Ichijouji. — Declara Mimi-san, analisando.
— Você, sabe que seus comentários não estão ajudando em nada? — Taichi a repreende, mas estavam ajudando sim, se Miyako buscou conforto para esquecer o que houve e ainda está infeliz…
— Talvez ela não tenha opções… — Repeti as falas de Sora-san, a olhando. — Antes da Mimi-san me chamar para o almoço eu estava pensando… O Poromon foi sequestrado e agora esse súbito namoro e se a Miyako-chan estiver em apuros?
— Está sugerindo que Ichijouji Ken, possa ser, na verdade o… — Taichi começa, mas quem completa é Iori-kun, chegando com o resto dos digiescolhidos.
— Digimon Kaiser, faria todo sentido. Tem que ser um gênio para criar Torres Negras, Anéis Negros e devastar mais da metade do Mundo Digital. Isso explicaria o comportamento indecoroso da Miyako-san, expondo sua honra, a dela e mesmo da família Inoue. — E todos nos calamos para ouvir o que o mais novo tinha a dizer. — Ichijouji é uma figura pública, obviamente não vai demorar para que surjam especulações sobre sua mudança de colégio, surgirão fotos, vídeos e como ela vai encarar os pais e vizinho?
— Está exagerando Iori-kun, também não é pra tanto. — Taichi usou um tom que sugeria que Hida tivesse ido longe demais em algo simples. — Não podem acusar o cara de ser um tirano, louco só porque a Miyako apareceu namorando com ele do nada.
Era sim uma teoria louca, mas fazia sentido.
— Não creio que seja este o caso. Se fosse, acho que Kaiser a levaria para o Mundo Digital em tempo integral e não viria para o mundo real, além disso Ichijouji Ken tem sido visto em muitos eventos ultimamente, ele não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. — Takeru-kun expressou sua opinião.
— E como Ichijouji teria contatos da Miyako-san? — Indaguei em voz alta, mas foi uma pergunta mais para mim mesmo.
— Bem… — A voz baixa e receosa de Hikari, foi ouvida. — Não estou acusando, nem defendendo, mas quero lembrar que no dia do jogo do Daisuke-kun, a Miyako-chan gritou por Ichijouji, da arquibancada.
— Mas isso é normal, toda fã grita por ele. — Mimi-san se intromete.
— Só que ele olhou, mas não foi só “olhar”, Ichijouji parou onde estava e olhou diretamente para ela, e por um tempinho considerável. Talvez a tenha achado bonita e se interessado.
— Fala sério! — Pela primeira vez Daisuke-kun abriu a boca. — Eu que não sei o que pensar sobre essa doidera toda. Daí o cara se apaixona no jogo e saí lá de Tamachi pra vir estudar perto dela e fora a questão dela já ter um “namorado”. — Coçou a cabeça aborrecido. — Nada disso faz sentido.
— Mas faz sentido o Ichijouji, estar distraído no dia do jogo. — Relembrou Taichi. — Não leve a mal Daisuke, você joga muito bem, mas pra dar um carrinho no Ichijouji Ken, algo estava o distraindo.
— Não querem que eu acredite que desde aquele jogo, que inclusive foi quando começamos a namorar, a Miyako-chan tem mantido contato com Ichijouji, pelas minhas costas?
— Talvez no começo fosse só um ou outro e-mail e ela pensou que não daria em nada, nem deu importância, quando as coisas ficaram mais intensas ela deve ter notado que amava os dois e não queria perder nenhum. — Teoriza Mimi, naturalmente.
— Mimi-chan isso é… — Sora-san parou em meio a sua fala parecendo ponderar algo. — Bem, porque não? Ela bem poderia gostar do Koushiro-kun, devido há tantas coisas que possuem em comum e ao mesmo tempo gostar de Ichijouji, mas não creio que isso a levaria a um comportamento…
Sora parou no meio da frase, creio que também não está convencida que esse namoro seja normal, que Miyako tenha me traído, me enganado, mas não quer tentar defendê-la diante de tantas evidências incriminadoras e com isso me incentivar em minha teoria. Se bem a conheço, embora pense que há algo errado ela não quer me ver obcecado em descobrir.
— Sei que é doloroso Koushiro, mas Takeru tem razão, Ichijouji é ocupado demais no mundo real, para ser o Kaiser no Mundo Digital. É difícil, mas terá que aceitar que o que viveu com a Miyako-chan para ela não teve a mesma importância que para você e não existem teorias que possam provar o contrário. — Taichi foi duro, como meu pai seria, como um irmão, sei que ele queria me ver seguindo em frente e esquecendo minhas suspeitas, que pelo que entendi a maioria julgou impossível.
Na verdade, nem todos julgaram a minha teoria tão absurda ou uma tentativa desesperada de não desapegar de tudo o que vivi com Miyako, houve uma pessoa que me procurou no final da aula, Hida Iori.
— Eu a conheço desde que éramos crianças, nós sempre assistimos ha muitos tokusatsus juntos, como sua casa tinha uma TV e muitos irmãos em um determinado dia da semana ela ia pra minha casa assistir Kamen Rider Ryuki. Um dia combinamos de irmos aos estúdios, na verdade ela ganhou dois ingressos em um jogo, poderíamos entrar no camarim e tirar muitas fotos, conhecer todos os cenários, mas eu peguei catapora naquela semana e ela não quis ir.
Eu fiquei atento ouvindo as palavras daquele que quase nunca se manifesta, havia carinho e nostalgia nelas
— É bem a cara dela não ter ido sem você.
— É sim… Koushiro-san, sabe o que me preocupa? Miyako é imatura o suficiente para agir por impulso, ela não liga muito para a própria imagem, mas se preocupa extremamente com as pessoas que ama, isso me faz reforçar o que eu disse antes, ela não mancharia seu nome e do família dela assim. Dizer que é por carência, por estar agindo tomada pelo desespero não me desce na garganta. Acredito que seja bem mais que isso.
— É o que eu penso Iori-kun. A princípio até tive medo de estar criando teorias para me enganar, mas não consigo duvidar dela, eu sempre tive essa característica, quando o mundo me mostra o óbvio eu tento enxergar além.
Pov Narrador
O grupo de digiescolhidos se encontrava completamente abalado com o, misterioso, comportamento de Inoue, de fato a garota tinha uma admiração especial pelo jovem prodígio, estava evidentemente desestruturada com a perda se seu parceiro Digimon, mas não é era um comportamento aceitável de sua parte.
Ponderavam várias teorias em suas mentes, não queriam ter que julgar a amiga de maneira errada, mesmo Ishida demonstrando uma postura mais rancorosa e dura perante ao acontecido, também se recusava a crer no ocorrido, só não queria incentivar falsas esperanças a um certo, ruivo cabeça dura.
Sora se dividia entre preocupar-se com a violácea e com o gênio da informática, seus sentidos lhe diziam que havia algo obscuro por trás desse comportamento da amiga, não a sentia segura de suas ações, não percebia brilho em seus olhos, algo dentro de Miyako parecia não funcionar corretamente, entretanto ela sabia que deveria manter suas percepções mais para si, ao menos na presença de Izumi, temia que o rapaz ficasse afixionado por descobrir o núcleo de tanto mistério, sabia que o amigo obcecado por algo não era uma boa coisa, esquecia até mesmo de se alimentar.
Mimi estava obstinada em falar a sós com Miyako, a rosada sabia bem o que era fazer coisas sem pensar e acabar por se arrepender, achava que devido ao encanto que a violácea sentia pelo jovem prodigio Ichijouji, ela poderia sim ter se rendido em um momento complexo, em uma tentativa louca de viver um conto de fadas, mesmo assim queria ficar frente a frente com a herdeira do Amor e esclarecer as coisas, lhe dizer belas verdades e mesmo lhe dar um abraço e dizer que estará para ela.
Hikari não sabia bem o que pensar, conhecia os impulsos da amiga, sua paixão por ídolos, mas não conseguia saber se poderia colocar isso em uma balança junto com a relação dela com Izumi e a parceria com Poromon. Optou por se manter o mais neutra o possível, pois ainda não era capaz de entender o coração da amiga ou colega de combates.
Os garotos, no geral, tentavam entender, as informações se misturavam, mas acabavam se colocando no lugar de Izumi e a possibilidade de passar por algo parecido, fazia com que suas veias queimassem de ódio, mas dela? Era certo? E se a teoria de Koushiro fizesse sentido e ela estivesse sob ameaças?
Naquele intervalo, Ichijouji havia ido buscar Inoue em sua sala de aula, juntos seguiram para o refeitório, sob os olhares e comentários, praticamente de toda escola. O gênio insano, fez seu papel de cavalheiro, puxando a cadeira para que sua dama se sentasse, arrancando suspiros das meninas e um bufar de ira de sua vítima. Ele estava provocando-a novamente.
Ken havia ficado na classe onde Takeru, Hikari e Daisuke estudavam e ele pode sentir o olhar de desconfiança que lançavam sobre si. Embora julgasse que a inteligência deles fosse muito inferior, para chegar à verdade, sabia que as especulações poderiam atrapalhar seus planos de vingança em relação a violácea, isso o faria ter interrupções quanto a se divertir com sua nova aquisição. Ele bem gostaria de dar um passo de cada vez, no entanto, sentiu que precisava dar algo para distrair os escolhidos, naquele mundo.
Um sorriso largo, estampou-se em seu rosto, enquanto se lembrava de tudo o que havia colhido nos computadores de cada verme daqueles. Miyako, que estava em sua frente, sentiu um calafrio correr por todo seu corpo.
— Me de licença ‘querida” preciso fazer algo importante.— Dito isso, ele se levantou e curvou-se em falsidade, saindo para onde tivesse privacidade.
A garota dos cabelos lilases, não gostou nada daquilo, algo estava errado, mais errado que todo aquele dia vinha sendo.
Ela olhou para o seu obento, mas não tinha fome, então fechou o guardando novamente, focando suas preocupações em Ichijouji, quando sentiu algo acertando em sua testa. Ela parou por um tempo, processando o que houve, levou a mão para tirar o bolinho de arroz pegajoso, fora arremessado contra si e tinha acabado colando em parte de seus cabelos e sujando uma das lentes do seu óculos. Incrédula, Miyako começou a se limpar, enojada e viu algo grudado, um pedaço de papel, ela pegou o bilhete e o abriu.
“VADIA”
Um grupo de garotas começou a rir, quando ela amassou o papel e algumas lágrimas desobedientes rolaram pelo seu rosto. Sua face ardeu, então se deu conta de estar ali sozinha naquela mesa, cercada de olhares de julgamento sobre si, queria sair correndo, mas temia encontrar qualquer um dos amigos e ter que dar explicações, pior, temia encontrar Koushiro e ser obrigada a encará-lo.
Aquilo parecia um pesadelo, era só queria sumir, correr pra bem longe e se esconder e sem se dar conta dos seus atos, foi exatamente o que fez, levantou-se, saindo disparada para o vestiário onde poderia se trancar e chorar sozinha, talvez para o resto da aula, mas para sua surpresa seu ex estava exatamente na saída do refeitório.
Koushiro havia sido convencido por Iori, a tomar ao menos um chá gelado e observar um pouco mais o rival, mas ambos haviam chegado e visto o que as garotas fizeram a Miyako e ficaram parados sem reação.
Inoue parou abruptamente, quando seus olhos se encontraram com os de Izumi, suas mãos, apertaram, forte, seu obento contra o peito. Ela não conseguiu dar mas nem um passo, ficando travada no mesmo lugar. O ruivo, por sua vez, ainda estava indignado com o que havia presenciado e notando que parte dos cabelos violáceos estavam sujos, se aproximou mais dela e retirou um lenço de seu bolso, estendendo para limpar suas madeixas, mas foi impedido no ato.
— Francamente Izumi-san, eu não posso virar as costas? Vejo está sabendo lidar com a perda. — Ichijouji debochou em tom baixo, enquanto segurava o pulso de Izumi.
— Pode enganar a todos, mas a mim você não engana, sei bem quem você é. Ainda vou te desmascarar.
— Eu não tenho a intenção de te enganar, você quem está se enganado se acha que pode fazer algo contra mim. Eu já te dei minhas sinceras lamentações pela sua perda. Mantenha distância da minha namorada. Olhe em volta, o colégio está cheio de garotas, conheça alguma ou entra no Tinder, essa aqui, não te pertence mais!
Koushiro estreitou os olhos e perguntou entre os dentes:
— Seu… Não fale como se ela fosse um objeto e te pertencesse por direito. O que você está fazendo a ela, seu…
— O que eu estou fazendo? Quer mesmo saber? O que você não teve a capacidade de fazer! E quer saber mais? Ela está gostando, afinal, com quem mesmo ela namora?
Naquele momento Koushiro só conseguiu se lembrar da frase que ouviu quando Miyako rompeu o compromisso, aquele maldito chamado para um banho, estava prestes a desferir um soco em seu rival, quando um burburinho se iniciou, todos os celulares começaram a apitar com mensagem e Hikari passou correndo, em prantos, indo em direção ao vestiário, seguida por Mimi e Sora.
Iori aproveitou a deixa para puxar Koushiro para longe de Ichijouji, ambos trocaram olhares como se declarassem guerra, enquanto Miyako que sempre fora elétrica e atenta, estava apática, sem vida, como se sua alma tivesse sido retirada de seu corpo, ela olhava a caçula Yagami passar chorando, olhava para a cena entre Izumi e Ichijouji e não esboçava reação alguma, estava trêmula e acuada, como um animalzinho indefeso, o que não passou despercebido aos olhos do mais novo entre os Digiescolhidos.
— Nós ainda não terminamos, Ichijouji! — Izumi falou em tom ameaçador.
— Que coisa feia Izumi-senpai, um aluno do terceiro ano, ameaçar um novato do primeiro, assim.
Koushiro já estava distante demais para responder. Ken se voltou para Miyako, que baixou os olhos imediatamente, ela sabia que o gênio insano, era bem capaz de torturar seu Poromon ainda mais, devido aquela cena, só a mera possibilidade já a fazia entrar em desespero.
Ken se aproximou e retirou um lenço de seu bolso, fazendo o que Izumi pretendia fazer, limpou os cabelos lilases e lhe disse em sussurros.
— Que atrevimento foi esse, Inoue? Sabe que vou te punir por isso, não é? — Ela que sempre fora corajosa, acabou por se encolher, involuntariamente, causando mais diversão ao seu algoz. — Por enquanto, só pegue seu celular e descubra como sua amiga e companheira de batalha, fica desinibida na frente de um espelho.
Miyako pegou seu celular e não pode acreditar no que viu, eram várias fotos de Hikari fazendo diversas poses em frente ao espelho.
— Não pode ser? Meu Kami! — Ela não sabia se sentia-se espantada ou penalizada, afinal Hikari sempre fora considerada um exemplo de comportamento, educada, refinada, boa em afazeres domésticos, delicada ao conversar.
— Surpresa? Eu encontrei muitas coisas interessantes no sistema de vocês e pretendo expor para o mundo a verdadeira natureza de cada um. Eu só quero ver como a Mary Sue da luz, vai fazer sua parceira evoluir estando desestruturada.
Inoue já não tinha mais o que pensar, a escola inteira estava em polvorosa, com celulares nas mãos, Taichi acabou saindo no soco, com alguns garotos que fizeram piadas sobre a irmã.
Calmamente, Ichijouji, enlaçou suas mãos e seguiu andando a passos leves pelos corredores, a guiando até sua sala, com um sorriso sereno em seu rosto e ela não sabia dizer se a insanidade de Kaiser em suas risadas diabólicas a assustava mais, ou aquela visão.
O colégio estava um verdadeiro caos e Ken se deliciava com sua capacidade de atingir seus inimigos onde eles menos imaginam, aquilo era só o começo.
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