Inimigos Íntimos
33 Manipulavel
POV Myako
Torci a cara e peguei a bandeja, seguimos pelo corredor, mas tomamos direções diferentes, mal parei na cozinha, coloquei a bandeja no lugar e voltei praticamente correndo para o quarto, escovei meus dentes e quando voltei, ele estava sério, sentado no futon, próximo a cama.
— Senta ai. — Indicou para que eu me sentasse sobre a cama e eu obedeci prontamente. — O que vou te contar vai ser complexo, mas eu espero que você não dê nenhum chilique.
— Meu Kami! Você me matou e fez um clone meu, que sou eu de agora?
— É quase isso… Bem, você se lembra aquele dia que teve aquela confusão na escola entre o idiota do seu ex namoradinho e eu? — Fechou a cara em uma expressão pavorosa.
— Sim, eu me lembro, aquele dia eu pensei que você fosse me matar.
— Até onde você se lembra daquele dia?
— Da batalha na arena… — Aquilo me fez ficar melancólica, lembrando dos companheiros de batalha que perdi daquela forma horrorosa. — Você me colocou uma coleira, como se eu fosse um animal, me fez ver aquela cena horrível.
— O que mais você queria?! Estava muito irritado com você, por ter me humilhado em frente a escola inteira.
— Não teve a ver com humilhar você, Koushiro-kun, foi injustiçado, acusado, apontado pela escola toda.
— Ah, claro, você correu para ele e me ignorou, me deixando como um rato inútil, enquanto aqueles imbecis se preocupavam se eu estava ferido, coisa que deveria ter sido feita por você!
— Isso não justifica fazer um espetáculo com vidas inocentes.
— Justifica, Miyako! — Se exaltou, cerrando os punhos com força. — Você me magoou e eu te magoei de volta e é isso que você não entende! Tudo que eu fiz até hoje foi por sua culpa.
— Ah, tudo? Vir para esse mundo, criar o Anel, tentar dominar e escravizar Digimons? — Quando me dei conta já tinha me levantado e alterado a voz.
— Não isso, mas todo o resto… Olha, essa conversa está indo por um rumo diferente, trate de se sentar ou não vou te contar nada.
E por mais raiva que eu estivesse, queria muito saber esse mistério todo, estava com medo, óbvio, mas tinha que ficar sabendo. Procurei respirar fundo e tentei me acalmar enquanto me sentava, Kaiser me olhava atentamente, esperando o aval para continuar falando.
— Depois da arena, do que você se lembra?
— De acordar no seu quarto, com você me… Me abraçando… ISSO NÃO FAZ SENTIDO NENHUM! Parece que acordei em outro universo, o jantar na minha casa e todas as outras coisas, até agora e essa história de tombo não me desce!
— Então… Digamos que não houve tombo nenhum, o que ocorreu é que eu exagerei um pouco com o castigo que lhe apliquei e sua mente ficou um pouco confusa.
— Exagerou? O que você fez comigo, seu louco? — Mesmo que eu tentasse imaginar, não conseguia, mas parecia bem sério.
— Bem, é melhor você não saber sobre o que “exatamente” foi o castigo, porque você pode acabar se lembrando e ficar abalada novamente.
— Você fez algo que me traumatizou psicologicamente?
Ele se remexeu desconfortável no assento e cruzou os braços, dando um longo suspiro.
— Eu exagerei com você, Miyako, mas eu nunca quis te ver da forma que a vi. Foi difícil para mim, senti como se eu tivesse te quebrado e pela primeira vez eu não sabia o que fazer. — Eu não consegui responder nada, aquilo me deu um calafrio, um medo inexplicável, o clima pareceu pesar. — Eu me senti uma criança tola, que brincou com algo além da minha compreensão e o fruto dessa brincadeira era você, na situação em que se encontrava.
— Eu não sei se quero saber como eu estava, mas você estava com ódio de mim, então não se sentiu vitorioso?
— Sim, eu me senti. Você já não era nada, estava lá jogada, dependente, apavorada. Ontem você me disse que eu tinha tirado tudo de você, mas não tirei. Aquele dia eu tinha tirado, até o brilho dos seus olhos, até sua consciência existencial, então eu tinha vencido, mas por ironia, eu te queria de volta.
— Porque?
— Eu… Eu não sei. Você me fazia mal demais e por tantas vezes eu já quis fazer você sangrar até a morte, mas eu não conseguiria fazer mais nada se você continuasse daquele jeito, um corpo sem alma, sem memória, quase sem vida.
— Porque isso? O que eu te fiz de tão ruim? Eu te bati na frente dos meus amigos, ok, mas não pode ser só isso, não tem lógica.
— Me deixa continuar, no final você vai entender.
Assenti ainda um pouco atordoada, aliás, muito atordoada, poxa, o que era tudo isso? Uma declaração de que ele tinha me aplicado um castigo tão forte que bagunçou minha mente, mas que se arrependeu? Bem, preferi continuar a ouvir.
— Eu estava com muito ódio, mas aquilo me deu um choque de realidade e não era bem assim que eu queria que as coisas acabassem, então eu usei o tempo que consegui ganhar afastando os seus amigos. Quero dizer, eu perdi todo o tempo que poderia dominar o Mundo Digital, sem interferência daqueles vermes, para tentar recuperar sua mente.
— Que paradoxo, você me quebrou, mas decidiu me trazer de volta perdendo o precioso tempo que tanto lutou para conseguir. Eu deveria estar me sentindo importante? Eu só consigo me sentir confusa, não basta brincar de deus do Mundo Digital, você decidiu brincar comigo me fazendo de sua boneca.
— Não tem nada a ver, Miyako!
— Não? Tem muito a ver. Eu sou um ser humano, não sou uma peça que você usa de forma errada e quebra para depois notar que quer de volta.
— Foi um erro, um excesso!Eu estava cego pelo ódio, não calculei corretamente os riscos daquela punição.
— Pensei que mentes superiores e brilhantes, não cometessem erros.
— Não vamos começar. O que você não notou é que desde cedo estou evitando brigar, mas você não facilita as coisas. Você não entende, não sabe como me deixou preocupado em te ver naquele estado, assustada, frágil, dependente. Aquilo foi um tormento para minha consciência.
— Ah, consciência? Agora você tem uma? Gastou ela com uma ex fã idiota de quem você riu, debochou, tripudiou, uma idiota, iludida que tem inveja das amigas? Não é assim que você me descreveu? Como uma invejosa que me sentia a pior, inferior as minhas amigas. Você me pisou, me humilhou, me assustou e agora vem me falar de consciência?
— O que você queria, era minha inimiga e me machucou demais, eu apenas revidei.
— Eu te machuquei? A forma como você me tratou, como torturou Hawkmon para me atingir, isso foi bem exagerado só por ter ganhado alguns tapas. Você não acha?
— Não era só por isso… Você não saia da minha cabeça, eu não conseguia mais me concentrar nas minhas prioridades. Eu pensei que se te trouxesse para perto e te machucasse, te visse sofrer, as coisas iam voltar ao normal. Eu te culpei por passar tempo demais focado em você. Tipo, alguém como eu, perdendo meu tempo com uma digiescolhida e sua vidinha e princípios medíocres…
— Isso, agora é o escroto, nojento, soberbo, que eu conheço!
— Oras, isso foi antes...Já disse que não estou querendo brigar. — Kaiser fechou os olhos e suspirou fundo, jogando a sua cabeça para trás.
— Então vamos, continua, conte como fodeu a minha vida toda, porque do nada resolveu ficar obcecado por mim. Era mais que vingança por eu ter te batido, você me fez sofrer pela sua fraqueza. Destruiu tudo a minha volta, torturou meu parceiro, expôs pessoas que não tinha nada a ver conosco, só porque… Porque… — Minha voz saiu fina e baixa, eu não aguentei e comecei a chorar, estava indignada demais.
— Eu nunca imaginei que as coisas chegariam a isso, não sabia como lidar com tudo aquilo. Era sufocante, agonizante, não conseguia dormir, nem comer, enquanto você estava lá, feliz curtindo seu namoro de novelinha adolescente, com aquele babaca. Aquilo tinha que parar.Te ver, pensar em você, estava me enlouquecendo… Eu realmente não entendia o porquê.
— E você viu? — Solucei algumas vezes, tentando continuar a fala. — Viu o que me fez, por ter sido um fraco, querer colocar sobre mim a culpa da sua obsessão, viu o que fez comigo? Sabe como eu me sinto quebrada agora? Tem idéia do que é fechar os olhos e quando abrir ver que tudo mudou, mas não se lembrar das mudanças? Eu nunca vou te perdoar por isso...
— Eu fiz tudo por você Miyako, tudo que pude para te trazer de volta, pode perguntar o imbecil do seu parceiro e Wormmon. Eu dei pausa nos meus planos, era impossível me concentrar com você daquela maneira, te levei para outro lugar, distante daqui, com ar puro, pois saiba o quanto isso seria importante para a sua recuperação. Eu quebrei a cabeça de todas as formas, tudo para te trazer de volta. Não consegui te descartar e simplesmente seguir em frente. Será que você entende o peso disso?
Então as minhas lembranças e sonhos referente a estar com ele em um lugar verdejante, são todas reais? Aquilo me deixou sem saber o que falar.
— Miyako… — Ele se aproximou e segurou nos meus ombros. — Ficar com você naquele lugar, te ver voltando a cada dia, procurando as musicas e filmes que você gosta, poder te conhecer melhor…
— Foi uma perda do seu precioso tempo?
— É claro que não… Muito pelo contrário, foi muito importante pra mim.
— Como você pode ter me beijado durante essa fase? Eu não sabia o que estava fazendo e quantas vezes isso aconteceu? — Fui direta, deixando claro meus fragmentos de memória.
— Não foi bem assim, na verdade você quem me beijou… Eu só não consegui resistir.
— Ah, sério? Eu não sabia nem qual era meu nome, mas te taquei na parede, o deixando indefeso. Será que eu criei super poderes também?
— Estou falando sério. Vê se entende, eu tinha acabado de levar um choque de realidade, quase te perdi e entendi da pior forma que não queria que isso acontecesse, eu também estava abalado, processando um mundo de informações e você estava lá, linda, sempre sorrindo pra mim, sem esse gênio ruim, sem tanta mágoa, me abraçando o tempo todo, querendo me beijar, se sentando no meu colo. O que eu poderia fazer?
— Isso foi um erro. Tudo isso está sendo um erro.
— Você não me odeia Miyako, isso ficou bem claro a cada caricia que me fez, cada beijo que trocamos. Eu sei que você quer me odiar, mas não consegue.
— Eu não sabia o que estava fazendo. Sabe disso. VOCÊ SE APROVEITOU DE MIM! —Vociferei, extravasando toda minha revolta. — E quando acordei, continuou se aproveitando, se divertindo, me manipulando, como manipula tudo e todos a sua volta!
— Não diz isso. Eu não me aproveitei de você, Miyako. Eu não resisti ao seu amor, é diferente.
— Meu amor? Eu não sabia o que estava fazendo.— Objetei.
Ele segurou meu queixo com uma de suas mãos e a outra veio para minha cintura.
— Sei, mas e ontem, hoje cedo? Você também não sabia o que estava fazendo? — Perguntou com proximidade mínima, sua respiração quente e seu cheiro me deixando inebriada.
— Isso foi um momento de fraqueza. Olha o que você fez com Agumon.
— Isso foi por você ter me traido com aquele imbecil do Izumi.
— Traido você? — O empurrei, me soltando e andando para longe, irritada. — Eu não fiz nada disso. Já que me filma em tempo integral como um bom psicopata, porque não viu o resto das filmagens? Ficou com ciuminho e não aguentou?
— O que tinha no resto da filmagem?
— Eu não beijei o Koushiro-kun, não correspondi e o empurrei. — Houve um silêncio cômico entre nós. — Não sei porque estou contando isso. Você é um idiota.
— Porque não? — Perguntou após alguns minutos.
— Oras, porque eu não quis… — Comecei a andar sem rumo e ele me puxou e me jogou com as costas contra a parede, me cercando com os braços.
— E porque você não quis? — Perguntou olhando nos meus olhos, cruzei os braços e desviei o olhar. — Porque quer beijar outra pessoa?
— Não seja presunçoso!
— Então é isso… — Sorriu vitorioso.
— Eu não confirmei.— Continuei procurando um ponto aleatório para focar o meu olhar. — Me solta! Para de me confundir. Tudo o que me contou é muito sério… Quanto tempo?
— O que? — Respondeu de sobressalto, repousando a cabeça na curva do meu pescoço.
— Quanto tempo ficamos neste lugar que você mencionou?
— Trinta dias…
— Enquanto isso os Bakemons ficaram em nosso lugar?
— Exatamente.
Suspirei, uma enxurrada de memórias invadiram a minha mente… Meu corpo ficou bambo e minha mente colapsou, tudo ficou embaçado…
— Miyako… — A voz de Kaiser soou longe e eu já não sentia mais nada, minha mente parecia um vulcão em erupção e as memórias de trinta dias pareciam querer brotar todas de uma só vez, meu cérebro parecia prestes a explodir.
E de repente eu estava lá, no exato local do qual acabamos de falar. Era uma área vasta e verdejante, a brisa refrescante, o céu azul, com poucas nuvens, podia sentir a grama sob meus pés, o cheiro de relva fresca, o som do balançar das copas das árvores e do vento correndo sapeca, por entre a vegetação.
Pude ouvir uma gargalhada e quando me virei para encarar, de onde havia vindo o som, vi a mim mesma, correndo em minha direção? Oi? Era exatamente isso! Eu estava com os cabelos soltos e um vestido longo, daqueles que lembram muito uma camisola, parecia tão feliz… Sei lá, só parecia outra pessoa, como uma criança, com a expressão de quem estava se divertindo intensamente, sem nenhuma preocupação…
Fiquei parada observando, quando a outra eu, passou por dentro de mim, seguida por Hawkmon, que voava logo atrás dela, chamando-a.
— Miyako-chan, não corra tanto, vai com calma menina. Você pode cair, quebrar os óculos, se machucar! — Ele deu um suspiro profundo, fazendo uma expressão de vencido. — Espere por mim.
Suguei os lábios, tentando processar aquela cena e a partir dai eu comecei a ser transportada para vários fragmentos de memória, momentos íntimos nossos na cozinha, seja tomando café ou fazendo algo para comermos, é difícil de acreditar que todas aquelas coisas tinham acontecido, parecia que estava vivendo todas aquelas histórias que escrevia sobre ele.
Pisquei os olhos e quando vi estava em outro lugar, perto de um lago em uma floresta, era de noite, a lua que havia no céu era linda e tão grande, refletia sobre as águas. Pelo silêncio, pude ouvir vozes conhecidas há alguns metros dali, caminhei uns passos, me deparando comigo mesma novamente sentada em uma rocha e para minha surpresa, Kaiser, ao meu lado, com o rosto virado, parecendo envergonhado com alguma coisa.
Me aproximei, parando perto deles para observar aquela cena, eu levei as minhas mãos ao seu rosto e o puxei para que ele olhasse para mim, cautelosamente fui me aproximando dele, que observava com atenção as minhas ações.
— Inoue, eu te avisei que…
— Era para ficar longe. — Falei, percorrendo as minhas mãos pelos seus lábios e cabelos, acariciando-lhe. — Vai gritar comigo novamente? — Questionei sentando em seu colo, deixando os nossos rostos rentes. Relembrei o porque dele ter gritado, aquilo pra mim ainda era confuso, de alguma maneira queria se afastar por eu estar naquele estado. — Eu não posso ficar longe, porque quando você está perto eu quero te beijar e isso é o meu sonho…
E sob a luz do luar nós nos beijamos, e foi mais de uma vez. Abri a boca chocada, meu Kami, isso realmente aconteceu! E a partir dali mais uma enxurrada de memórias de todos os beijos e caricias que Kaiser e eu, trocamos vieram a tona, muitas delas as quais havia sonhado, passaram como um filme em minha cabeça, aquilo não era ilusão, era real demais.
O que mais me choca e que, por mais que o clima tinha esquentado entre nós, não faltou oportunidade para roubar a minha pureza, ele imediatamente parava e se afastava de mim, respeitando a situação na qual me encontrava.
Pisquei novamente, e dessa vez nos encontravamos na base de Kaiser, em seu quarto, com nós, mais Hawkmon, Wormmon e uma BlackTailmon parada em minha frente, olhando dentro dos meus olhos, os quais brilhavam, juntamente com os dela. Os Digimons tinham o olhar apreensivo sobre mim, mas o que mais me chamou a atenção foi o olhar de Kaiser sobre mim, era diferente de todos até agora, ele parecia perdido, com uma expressão arrasada, poderia jurar que havia visto seus marejados.
Tudo foi se escurecendo ao meu redor, o meu outro eu aos poucos fechava os olhos e quedava-se para trás, antes do breu tomar conta, escutei uma voz ao fundo, dizendo que tudo voltaria ao normal e estaria livre de lembranças.
Tudo se distorce a minha volta e se revira, de repente eu parecia estar entrando em um sono, nada mais fazia parte de mim e eu não fazia parte de nada, estava desligada…
Quando acordei, meu corpo foi tomando consciência, senti a cama sob mim e abri os olhos, piscando algumas vezes, perdida e confusa. Aquele turbilhão de lembranças foi esclarecedor demais. Aquela era eu, ao menos em partes, mas era eu, fazendo o que eu queria fazer de fato? Eu acusei Kaiser de me envolver, me seduzir, fazendo-me portar de maneira que eu jamais faria, mas quem fez isso com ele fui eu?
Subconciente idiota! Isso não está certo, não é o que eu queria, porque eu amava o Koushiro-kun, tinha planos para o futuro com ele, porque Kaiser só me mostrou a dor e a humilhação. Como posso sentir algo de bom por ele? Como posso desejar suas caricias?
E ele, não fez muito para resistir. Porque sentia algo por mim, mas não sabia como lidar com isso? Como pode dizer que me quer, se até hoje só me machucou? Quando me dei conta, já estava chorando e ele se acercou de mim, afagando meus cabelos.
— Você teve lembranças ruins? — Parecia seriamente preocupado. — Está tudo bem, agora.
— Não está nada bem, nada bem… Tudo está errado! — Continuei chorando e negando com a cabeça em uma crise. — Não podemos estar neste tipo de relação, não nós… Não com você!
— Pare de agir como uma menina mimada!
— Eu sou mimada? Você acredita que pode se apossar de tudo e fazer da sua maneira e eu sou a mimada aqui?
— Eu tenho os meus motivos, você tem os seus. Se sente superior por lutar pelo que você acredita ser o certo? Tenho uma novidade, Miyako. Você só é dona da sua verdade, da minha você não sabe nada. Só porque estou do lado oposto a sua conduta moral, significa que eu esteja errado?
— Você manipula vidas. — Me levanto e saio da cama, atordoada.
— Vidas digitais. Isso é uma anomalia, se não sou eu a explorar agora, não tardará outro fazer. Eu só quero ir ao fundo disso e confrontar a fonte dessa existência. Qualquer um que estivesse no meu lugar e que pudesse moldar um mundo a seu bel prazer e ainda estudá-lo e entendê-lo, certamente o faria.
— Você é um louco. Configura trajes estilo medieval e se intitula imperador.
— E vocês são normais? Não aceitam o título de digiescolhidos? Heróis, salvadores desse mundo? Isso não soa tão ridículo quanto? Escolhidos por quem? Porque vocês e o que ganham em troca?
— É diferente… — Balbuciei, sem resposta adequada.
— Então… É diferente, você tem seu lado e eu tenho o meu, talvez isso não nos obrigue a nos odiar, até porque não te vejo como ameaça para mim. Não torne tudo tão difícil.
— Então porque não me deixa ir e lutar pelo que eu acredito? Não me vê como ameaça, me subestima como guerreira, então deveria me libertar.
— Isso nunca! — Negou com a cabeça. — Se eu devolver seu parceiro e te deixar livre, nunca mais você voltaria e eu não sei mais ficar sem você.
— Mais uma vez um paradoxo, você age como superior, mas se comporta como opressor, quem oprime é porque não acredita em si mesmo. — Depois que falei, tive medo da sua reação.
— Que seja, quer ouvir que tem razão, ok. Eu não vou te libertar, Miyako, pois quando você estiver entre eles, vai ter crise moral e querer sufocar tudo que sente… — Neguei com a cabeça, mas ele segurou meus ombros continuando a falar. — Não, não negue, eu sei que sente! E lá, entre eles você vai tentar sufocar isso, vai fugir, se não voltar para os braços de Izumi, para provar para si mesma que consegue seguir sem mim… E adivinha? Eu mataria vocês dois, isso faria de mim um assassino e nós não queremos isso.
— Como pode dizer isso? — Pergunto horrorizada.
— Porque é verdade. Não me interessa se tenho que te prender, te chantagear ou mesmo te acorrentar, você é minha, não vou abrir mão disso nunca.
— Isso, é doentio… — Olhei dentro dos índigos opacos e senti um calafrio.
— É, mas é assim que acontece, essa é nossa realidade, uma teia da qual você não pode e não vai fugir, mesmo que queira, mas sabe da melhor, minha querida? — Acariciou meu queixo, roçando nossos lábios. — Você não quer.
Eu não quero? As lembranças dos nossos momentos dançavam a minha volta como fantasmas, o por do sol de mãos dadas, os almoços, jantares, café da manhã, beijos e mais beijos… Como eu pude? Como ele pode? Aquilo foi tão, tão importante e marcante, que mesmo sob o poder de BlackTailmon, eu consegui me lembrar.
— Isso não está certo...— Murmurei enquanto ele me encarava com seus orbes enevoados.— Não depois de tudo o que você fez.
— É, eu não posso mudar o que eu fiz e se pudesse eu… Eu não mudaria. Será que você não consegue entender? — Uma de suas mãos foi para minha cintura, enquanto a outra acariciava a maçã do meu rosto. — Isso tudo aconteceu para te tornar forte o suficiente para estar ao meu lado.
— Não posso.— As palavras pediam passagem, mas minha mente estava bifurcada entre o real e o ilusório.
— Agora pode ser difícil para você entender, mas, Miyako, você é tão igual a mim e já se deu conta disso, por isso luta para fugir. O seu lugar não é como uma digiescolhida medíocre, cujo quem escolheu, nunca nem se mostrou para você.Seu lugar é mais grandioso que isso.
— Não há grandiosidade no caminho que você escolheu.— Me desvencilhei de seus braços e ando sem rumo, dando-lhe as costas.
Houve um minuto de silêncio e o ouvi remexer em seu bracelete, meu traje foi configurado para uma camisola simple, longa e de alça fina, semelhante aos vestidos que eu vestia nas minhas lembranças. Sei que ele está tentando mexer comigo, mas só me faz sentir como sua boneca.
Mantenho-me firme, respiro fundo e sinto seus dedos percorrerem pelo meu ombro, dessa vez ele não está com as luvas e seu toque me estremecer completamente.
— As coisas podem não estar claras para você agora, mas eu não tenho pressa...— Afastando meus cabelos, acariciou minhas costas com seus lábios, a respiração quente, fazendo-me arrepiar.— Mas a cada dia que passa...— arrastou a boca pela minha pele, seguindo para a minha orelha. — Você se torna mais minha.— Uma das mãos, deslizou pelas minhas costas, enquanto a outra acariciava meu ombro e braço com as costas dos dedos.— Em seu íntimo você já se entregou, baixou todas as suas barreiras e se rendeu a mim, agora está aqui comigo, não há mais em que pensa...— Sua respiração quente contra meu ouvido, a boca rente a orelha, misto aos toques de suas mãos ia me deixando cada vez mais inebriada.
Sentia-me derretendo, as pernas amolecidas e os sentidos entregando-se e a mente cada vez mais lívida. Ele tinha razão, eu estava completamente sob seu controle, eu o pertencia, sem que tivesse que me tomar a força, simplismente eu o queria.
Como se tivesse lido meus pensamentos, suas mãos contornaram minhas formas, subindo pelas pernas, quadris, cintura, se aventurando pelos meus seios, que só estavam protegidos pelo tecido fino da roupa.
Eu nunca fui assim? Não esse tipo de garota, uma ameba, alguém que se torna tão fraca, eu superei meus medo e me tornei uma boa guerreira, aos doze anos fui uma menina confusa, mas aos dezesseis estava decidida, não havia mais medo dentro de mim, estava lutando por algo nobre e agora? Agora não consigo me mover, mal posso respirar, estou atordoada e entorpecida.
Estremeci uma vez mais, era nítido o quanto ele sabia que me tinha alí em suas mãos e buscava cada canto do meu corpo, me rendendo mais e mais. Sua respiração em minha orelha e pescoço, sua pélvis pressionada contra minhas nádegas, me fazendo sentir todo pulsar e rigidez de sua masculinidade, tudo isso me levava ao completo extase, como uma droga alucinogena.
— Então...— As palmas percorreram pelos meus seios, atritando-se aos mamilos intumescidos.
— Ai, meu Kami! — Roguei entre gemidos arrastados.
— Ele não pode te ajudar agora, minha querida. — Seu tom baixo e rouco me fazendo amolecer, me derreter feito manteiga ao sol.— Não fuja do inevitável...— As mãos desceram para os meus quadris e os dedos repuxaram o tecido da camisola, levantando-a.
Meu mundo congelou quando senti seus dedos percorrendo minhas coxas expostas e alcançando minha feminilidade embebida em fluidos de excitação.
— Você está escorrendo...— Seus dedos dançaram pelo tecido molhado da minha calcinha.— O cheiro do libido está no ar, o aroma que sai da sua pele quando você está tão excitada, me faz perder a noção, me torna primitivo e selvagem….— Afastando o pano da peça íntima para o lado, sua mão entrou em contato com a pele da minha intimidade e…
Eu não resisti mais, quando senti toda extensão da vulva ser apalpada e apertada, enquanto ele grunhia contra meu pescoço, eu simplesmente me desmanchei, minhas pernas perderam as forças e eu me entreguei completamente. Quando me sentiu desmanchar, ele me tomou nos braços.
E tudo era confuso e maravilhoso, a eletricidade entre nossos corpos era quase palpável, eu tentei lutar, mas a fúria daquele desejo exacerbado tomou todas as minhas forças.Quando me dei conta já sentia meu corpo sendo depositado sobre a cama macia, tudo com o cheiro dele.
Sua boca buscou a minha, de forma abrasiva e envolvente e eu me perdi louca de prazer aproveitando seu gosto.Nós grupinhos durante o beijo, sedentos de desejo me deixei ser dominada, rendida, cativada pelos seus toques lascivos. Quando precisei de ar e nosso beijo se rompeu, seus lábios desceram pelo meu corpo reforçando as marcas que antes me deixara.
Não havia mais volta, mais o que fazer, como lutar, como escapar. Eu era só mais uma marionete, uma boneca tola e manipulável e aquela era prova de todo seu poder sobre mim, eu que sempre me julguei tão inteligente, era só mais uma peça do jogo doentio de Kaiser, mas no momento aquilo não importava, eu queria ser usada e abusada, ser aproveitada até que não restasse mais nenhuma energia no meu corpo.
A cada vez que eu piscava os olhos, uma peça de roupa dele tinha sido descartada,, até que me senti seu corpo completamente nu sobre o meus, a alça da minha camisola sendo deslizada pelo meu ombro e em seguida a mesma sendo puxada para fora do meu corpo.
Kami! Que loucura! Quando minha calcinha foi retirada e ele veio sobre mim, me beijando, eu estava tão enlouquecida com aquele contado, meus seios se esmagando contra seu tórax, minhas, que as minhas unhas desceram pelas suas costas e apertaram seu traseiro. Eu não tinha mais pudor nenhum só queria me sentir fundida a ele e acalmar aquela queimação intensa, em meu baixo ventre.
— Você me quer, Miyako? — Perguntou entre beijos sôfregos.
— Sim, sim, faça logo! Me faça sua…
Antes mesmo que ele pudesse dar o próximo passo, um som estridente chamou nossa atenção, a porta se abriu abruptamente e quatro Guardromons invadiram o local.
— Kaiser-sama, temos sérios problemas.— Um deles anunciou e um alarme começou a ser ouvido.
Kaiser se levantou, procurando suas roupas e eu puxei o lençol me cobrindo, queria um buraco para me enfiar.
— Suas latas velhas, enferrujadas! Quando alguém programou o Mundo Digital, não conhecia as regras básicas de educação? Eu deveria vender vocês para o ferro velho. Que raios, está acontecendo para invadirem meu quarto assim?
— Kaiser-sama, o prisioneiro Agumon, conseguiu escapar.
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