POV Narrador

Os âmbares melancólicos percorreram cada canto do local; a maior sala de karaokê existente no estabelecimento, sempre fora escolhida para os encontros entre o grupo de digiescolhidos, tanto para a primeira equipe liderada por Taichi, quanto para a segunda e, principalmente para interação de ambas, normalmente em celebrações, mas não aquele dia.

A violácea não se sentiria à vontade em outro local, sua casa ou a de qualquer outro presente não seria ideal, tampouco um espaço aberto como cafés e lanchonetes. A conjuntura era delicada, haveria reações, caras, bocas, olhos arregalados e talvez até alteração de voz.

O tema a ser tratado abrangia muito mais que sua vida pessoal e ela bem sabia. Com todo o tempo de trabalho em equipe para manter o Mundo Digital e, consequentemente o mundo real, em segurança, aquelas pessoas já tinham se tornado mais que parceiros de batalha, mais que amigos, já podiam ser consideradas sua família.

De maneira espontânea, levada pelo calor do momento, ela cuspiu toda a verdade aos quatro ventos, não que estivesse arrependida, pois, sua sinceridade além de aliviar um pouco o peso de seu coração, lhe rendeu o Digimental da Sinceridade e com isso uma nova transformação armadura para seu parceiro. Contudo havia a necessidade de explicar minuciosamente toda sua trajetória ao lado do inimigo.

Pacientes, mesmo os mais irritadiços como Yamato, os severos como Iori, os inquietos como Daisuke e afoitos como Tachikawa, tomaram seus assentos e se calaram a espera do relato de Inoue. Respirando fundo, Miyako se sentou a procura falha de ficar o mais confortável o possível.

Lá fora a chuva caia morosa, tornando o momento mais sombrio e difícil. Perceptiva, buscava as palavras tentando cadenciar da maneira mais sábia e amena o possível. Era doloroso relembrar certos fatos, descrevê-los, dar seu ponto de vista sobre tudo. Os monstrinhos digitais não estavam presentes, estes tendo ficado na companhia da Sra. Izumi a pedido de seu filho. Assim a garota iniciou seu drama.

Desde o começo do relacionamento com Kaiser, a chantagem, o forçado afastamento do grupo, as batalhas que fora obrigada a lutar em silêncio contra os julgamentos, apontamentos a toda proximidade e intimidade que tal situação a introduziu na vida de seu inimigo, em sua alma, em suas loucuras, declínios e carências.

Demorou pouco mais que duas horas do sábado naquela sala de karaokê para que ela resumisse o máximo possível de uma história que se desenrolara a quase um ano e, ao fim de seu relato as reações eram as mais variadas. Hida não conseguia encará-la, dispensou sua educação severa e formalidade e levantou-se sem pedir licença, sem se despedir, causando um desconforto ainda maior nos presentes.

— Iori-kun...— ciciou Inoue, em seu âmago já esperava por aquela reação do vizinho e amigo de infância, mas no momento foi mais humilhante e doloroso do que o esperado.

—Iori-kun...— Takenouchi levantou-se para buscar o mais novo, mas Yamato a segurou pelo pulso.

— Melhor dar um tempo pra ele. Talvez ele tenha feito isso para não agir de maneira impensada. — ponderou surpreendendo a ruiva que assentiu, tornando a se sentar.

— Miyako-chan...— Tachikawa se acercou da amiga, cativando-lhe as mãos. — Você passou por muita coisa. Quero dizer, eu no seu lugar já teria ficado louca.

— Não está ajudando, Mimi-san. — advertiu Hikari, preocupada.

— Não, ela tem razão. As vezes eu não tenho certeza se estou mentalmente saudável, me faltam memórias, tenho sonhos estranhos, pesadelos e… Bem… Não sei dizer ao certo o que é tudo isso, se Ken é de fato alguém que precisa de ajuda ou se foi mais um jogo mental doentio para se divertir às minhas custas.— massageou as têmporas, cansada.

— Não pudemos fazer nada por você, Miyako-san. — começou Taichi. — A pressão diária, os problemas cotidianos, misto aos contratempos que Kaiser causou em nossas vidas pessoais, nos deixou absortos em nossos próprios dilemas, dando a ele liberdade para moldar sua vida como quisesse.

— Quando você perdeu Poromon e começou a namorar Ichijouji Ken, rompendo com Izumi, julgamos que você tinha sido chantageada por Kaiser sim, mas para desistir de ser digiescolhida e levar uma vida normal, em troca ele deixaria seu parceiro viver. — revelou Joe.

— Até cogitamos a possibilidade de Ichijouji ser de fato Kaiser, mas ele era extremamente atuante na mídia e não tinha como ele estar em dois lugares ao mesmo tempo. — completou Takeru.

— Bakemon. — Inoue sorriu amarga.

— Tanto para substituí-lo quanto para te substituir, não foi? — Mimi questionou analitica, se lembrando de atitudes estranhas da amiga, as lendas fantasmagóricas a respeito dela.

— Exatamente. — confessou a violácea. — Porque meu tempo não era mais meu, minha vida não me pertencia. Eu já não existia para os estudos, para os amigos, família. Eu respirava Kaiser 24 horas por dia, seus jogos, suas loucuras, a personalidade oscilante, a multipolaridade, os mistérios…

— Ele não te colocou um Anel Negro, mas fez uma lavagem cerebral. — ponderou Daisuke, ainda estarrecido com toda história.

— Não seja ridículo. Esse troço de lavagem cerebral não existe. — ralhou Tachikawa.

— Não tenha tanta certeza. — murmurou Izumi que até o momento estava em silêncio a analisar as dolorosas revelações da ex namorada. — Se você escutar uma música ruim todos os dias, uma hora vai saber cantar, mesmo não gostando e com o tempo vai achar normal. Isso é uma lavagem cerebral.

— Faz sentido...— começou Takenouchi. — Miyako-chan passou tanto tempo perto de Kaiser que começou a entendê-lo, saber como agir e reagir a ele.

— Acho que foi pior do que isso, Sora-san. — admitiu Inoue auto analisando a situação. — Eu fiquei curiosa sobre ele, queria saber o porquê de fazer tudo isso, quando começou, até onde ele pretendia chegar. Eu já não tinha vida além de Kaiser e ainda me dediquei a saciar uma curiosidade, me aprofundei por escolha própria e não sei dizer quando foi que em meio a toda essa loucura eu… — jogou algumas mechas para trás da orelha, embaraçada. — Eu senti pena, não sei… As coisas começaram a ficar estranhas entre nós. A cada detalhe que eu pensava estar a descobrir sobre ele, eu estava me perdendo, esquecendo algo sobre mim.

— Você sentiu pena… — secundou Joe, como se compartilhasse o sentimento, ou entendesse por algum motivo. — Em algum momento você deixou de vê-lo como opressor e começou a ver como alguém que precisa de você, alguém que vive tentando provar para o mundo e para si mesmo que é forte, mas no fundo é extremamente frágil.

— Sim, sim...— ela se levantou e encarou o mais velho, surpresa pela compreensão imediata. — Ele faz tudo errado e não entende o quão está sendo imbecil. Ele pensa que é superior, mas é só uma maneira de se enganar para não sentir toda a imensa carga de dor e desprezo que sofreu ao longo dos anos após a morte do irmão.

— Dor e desprezo? — refletiu Taichi em voz alta. — Não é irônico dizer isso de alguém tão aclamado como ele.

— Essa máscara de ídolo foi uma tentativa de preencher o vazio, mas só o fez odiar ainda mais as pessoas, conhecer o pior delas, só atraia quem quisesse usufruir de sua fama. — suspirou lamuriosa. — Sei que parece que estou tentando defendê-lo, mas juro que não é isso… Eu vi muitas coisas, coisas sem explicações. — lembrou-se de quando seu brasão do Amor reagiu para resgatá-lo de ser consumido pelas trevas. — Existe algo a mais, algo sobrenatural, um poder sombrio, trevoso que o puxa de volta a cada vez que ele consegue se libertar brevemente.

E todos se entreolharam confusos.

— O poder das trevas, você diz? — a guardiã da Luz se perdeu em dolorosas memórias. Ela queria poder falar mais, contar que a vida inteira fora atraída para as trevas em momentos de dilemas internos, depressão, que entendia bem o que a amiga estava tentando explicar e que era real, mas dada a presença do irmão ela não quis se pronunciar e virar alvo de preocupação.

— Sim, ele é real. Eu vi com meus próprios olhos. Vi Ken ficar com olhos vermelhos, aura rubra e uma ramificação reluzente em seu corpo como se fossem raízes. O ouvi pedir ajuda, dizer que estava com frio, falar sobre um tal Mar Negro.

— Mar Negro. — novamente a caçula Yagami sabia do que se tratava, já havia tido diversos pesadelos com o Mar Negro, mas se calou uma vez mais, acovardada.

— Mas você também diz que não sabe se sua saúde mental está perfeita. — pontuou Yamato, direto, recebendo olhares de repreenda. — O que foi? Estou levando em consideração as próprias palavras dela. Estamos passando por momentos delicados e toda sinceridade deve prevalecer. Kaiser expôs nossos podres, nossas fraquezas e conseguiu quebrar o grupo, mas com Miyako-san foi mais complexo.

— Conseguiu me quebrar…

— Sim, ele te afundou e sufocou em suas trevas, acabou com sua autoestima, te fez duvidar de si mesma, mexeu com sua mente a ponto de você ter memórias falhas, pesadelos e… Quem te garante que isso que você viu foi real? Se ele é uma pessoa tão solitária quanto você diz, quem garante que ele não armou para ter sua piedade e simpatia.

— Não armou, Kaiser é orgulhoso demais para querer despertar pena. Foi real. A história com os pais, com o irmão, o poder das trevas. Vocês pensam que estou ficando louca? Quando disse que estou mentalmente abalada, eu quis dizer confusa, cansada, sobrecarregada e não louca. — bronqueou irritada.

— É complicado. — Daisuke estalou os dedos. — Queria poder te ajudar mais a respeito de todo esses dilemas, mas infelizmente eu tenho que te apresentar mais um. Miyako, sei como se sente a respeito de Kaiser, mas sendo ele vítima das circunstâncias ou não, precisamos ir até o fim com essa guerra e confrontá-lo frente a frente de uma vez por todas.

— Digiescolhidos de todo o mundo estão entrando em contato conosco pelo grupo que você e o Koushiro criaram, relatando tragédias globais inexplicáveis. Você sabe a regra, se o Mundo Digital entra em desequilíbrio, o nosso reflete em catástrofes naturais. — ressaltou Taichi enfático.

— Precisamos lutar, fomos escolhidos para isso. De todos os digiescolhidos espalhados pelo mundo, nossos dispositivos são os únicos a abrir os portais, chegamos a um ponto em que não podemos mais adiar isso. Conseguimos rastrear a base de Kaiser e estamos preparando um ataque. — completou Takeru, cuidadoso.

— Conseguiram rastrear a base, mas como?

— Aquele dia, na festa, no carro...— pigarreou Koushiro. — Me desculpe, me desculpe mesmo Miyako-san. Eu coloquei um rastreador no seu sutiã, quando te carreguei no colo. Eu sei que as roupas mudam quando vocês atravessam o portal, mas isso não acontece com as roupas intimas, pois Iori-san fez um teste a meu pedido.

— Então aquele dia você me usou pra conseguir a localização da base.— contestou engasgada.

— Me perdoe Miyako-san, eu imploro, mas estávamos no escuro e eu, eu prometi que te salvaria, que daria um jeito em tudo, lembra?

— Há quanto tempo vocês estão com a localização? Todos sabiam, menos eu? — inquiriu machucada.

— Miyako, isso foi necessário, como Koushiro disse, estávamos no escuro quanto a sua situação, agir te incluindo poderia, sei lá, fazer com que ele te matasse. Não sabemos com quem ou o que estamos lidando. — Daisuke tentou amenizar a geniosa.

— HÁ QUANTO TEMPO? — vociferou voltando ao foco,

— Menos de uma semana, mesmo o rastreador estando dentro da base, os códigos de escudos wifi, de Kaiser são muito poderoso, eu tive que procurar ajuda com digimons que entendem de tecnologia avançada e demoramos a decodificar. Além disso, é uma base que está sempre em movimento e tem um escudo refletor. — clarificou Koushiro meio constrangido.

— O que isso quer dizer?

— Temos localização, mas não a visão, por enquanto.

— Como assim, por enquanto? — questionou confusa.

— Pode aparecer Bakemon. — pediu Koushiro.

— Aqui estou. — Bakemon se materializou fazendo Miyako dar passadas espantadas para trás e mirar o Anel Negro que o circulava.

— Ah, isso? — Tirou o objeto. — É falso, assim como minha servidão a Kaiser.

— Mas como? Como ele nunca percebeu, como…

— Kaiser é soberbo demais e pensa que todos somos burros. Quando me enviou para ficar no seu lugar ele me mandou justamente para onde eu precisava estar para ajudar a libertar meus amigos. — explicou o fantasma. — Com você do lado dele, ele só esperava traição vinda da inimiga e não se preocupou com seus peões.

— Já descobri toda a planta da base e como Bakemon poderá desativar o escudo. Segundo informações internas, Kaiser está trancado no laboratório fazendo sabe-se lá o que.

— Laboratório...— Miyako repetiu mais para si, tentando lembrar de quando esteve com Ken no local, o que ela não sabia definir se fora um sonho, devaneio ou realidade.— É importante,mas eu não consigo me lembrar. — dobrou a cabeça sobre a mesa de centro, atordoada. — Por que eu não consigo me lembrar.

— Miyako-chan, você está passando por um momento muito complexo, talvez seja melhor que não se envolva mais nisso tudo. — concluiu Sora zelando pelo bem estar da amiga.

— De jeito algum. — apelou Daisuke. — Eu quero muito que Miyako fique bem, que essa tempestade toda acabe logo, mas precisamos de toda ajuda e ela tem Hawkmon e suas evoluções poderosas, é tempo de pensar mais do que em si mesma e sim nas nossas famílias, amigos, nesse mundo e no outro. Fomos escolhidos afinal, precisamos ser fortes? Precisamos que ela seja forte agora e esteja do nosso lado, mesmo que seja contra…

Ele realmente não saberia completar aquela frase, ninguém alí presente sabia definir se a parceira de Hawkmon estava apaixonada ou corrompida com alguma lavagem cerebral, se estava a sofrer Síndrome de Estocolmo. Aperceberam-se de que ela não estava a pensar coerentemente, mas o fato era que Motomiya tinha razão, precisavam dela.

— A conclusão, Miyako-san, é que você precisa decidir e precisa estar consciente do que essa decisão significa daqui em diante. — clarificou Taichi. — De qual lado você está? Está pronta para lutar? Estará firme no seu posto quando confrontar Kaiser em campo? Sabe que em uma batalha vidas podem ser perdidas e precisamos estar prontos para o pior, dos dois lados?

— Esperar pelo pior, você diz...— analisou horrorizada.

— Bom, se humanos perdem a vida no Mundo Digital, eles não renascem na Cidade do Principio. — ressaltou Yamato, sem cortesia.

— Yamato! — ralhou Sora.

— Deixa ele, Sora-san. — interferiu Daisuke. — Ela precisa se lembrar bem disso.

Um silêncio desconfortável reinou por alguns momentos.

— Então, Miyako-chan, você vem conosco? — Questionou o guardião da Esperança.

— Se precisar pensar nós vamos entender. — avisou a castanha da Luz.

— Não há tempo para pensar, Bakemon baixará o escudo, uma vez que seu acesso a base é liberado, esse final de semana encontraremos nossos reforços, que já venho recrutando há tempos. Teremos cobertura dos escolhidos que não podem abrir o portal e partiremos para o ataque. — Koushiro apresentou a tática de guerra.

— Eu não preciso de tempo para pensar, é como me pedir para escolher entre Ken e minha família, amigos e todos os inocentes deste mundo e do outro. Sou a parceira de Hawkmon, um Digimon antigo e poderoso com possibilidade de duas transformações, fui escolhida por algum motivo, não importa o quanto eu saia quebrada de tudo isso. Estou pronta para ir até o fim. — levantou-se dando ênfase a sua decisão.

Situação clarificada, já não havia muito o que serdiscutido, talvez houvesse, todavia,nenhum deles sabia como fazê-lo e já estavam exauridos de todo peso emocional daquele relato. No momento o mais importante era descansarem para a guerra final que estava por vir. Joe foi o primeiro a pedir licença e informar a necessidade de partir, em seguida cada um tomou seu rumo, restando apenas Izumi, com quem a conversa seria mais íntima e delicada.

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Inoue aguardava por Izumi, enquanto o ruivo pagava por mais tempo no local. Os dedos tamborilavam sobre a mesa, nervosa. Ela sabia que aquele momento havia de chegar, mas jamais se sentira preparada. O que dizer afinal? Desculpe por declarar meu amor ao mundo, pelo cara que nos separou, me fez te humilhar em público e manchou seu nome.

Pacientemente o rapaz abriu a porta trazendo uma bandeja com batatas fritas e caixinhas de chá gelado. Aquela tranquilidade toda a apavorava ainda mais. Estava sem fome, mas por impulso pegou a caixinha de chá, agradecendo em murmúrios. Bebia enquanto procurava uma maneira de começar o assunto.

— Bom, eu quero começar pedindo desculpas pela noite da festa, por ter colocado o rastreador e ter te roubado aquele beijo. A verdade é que eu estava desesperado, perdido na possibilidade de que você estava sendo forçada a… Bem, tínhamos suspeitas de que Ichijouji era Kaiser, mas eu, eu tinha certeza.

— Você está se desculpando comigo? — riu melancólica. — Só você mesmo Koushiro-kun. A única que tem que se desculpar aqui sou eu. Tudo o que você fez foi para tentar me resgatar, me proteger,mas eu… — suspirou pesarosa. — Você esteve lutando por mim, mas eu não lutei por nós. — as lágrimas arderam e escorreram abundantes. — Eu tentei, eu juro que tentei. Eu tentei me apegar ao que nós construímos, aos nossos momentos, nossos planos. Lutei com todas as minhas forças para me convencer que sentia ódio, rancor, desprezo ou mesmo pena de Kaiser, nada mais. — soluçou recuperando o ar. — Mas o sentimento veio crescendo, se tornando maior que minha relutância e eu não fui capaz de lutar mais, de me esconder e dizer não a esse...— parou cautelosa.

— Amor? — completou complacente. — Não vou mentir pra você e dizer que não dói, que não estou quebrado ouvindo isso, bem mais do que quando estava perdido e confuso sobre o nosso término, quando tive que engolir vocês de mãos enlaçadas na minha frente a se apresentarem como um casal. Estou sangrando por dentro Miyako, mas não te desculpo, pois não tenho do que te desculpar.

— Koushiro-kun…

— Eu prometi a você que antes de tudo eu sempre seria seu amigo, lembra? Mesmo se o vento mudasse nossos caminhos. — ela assentiu nostálgica e chorosa. — Que espécie de amigo eu seria se te culpasse por se apaixonar por outra pessoa? Seu coração é livre e eu entendo isso. — sorriu tristonho. — Eu te admiro demais garota!

— Meu Kami, eu venho aqui e digo que estou apaixonada pelo nosso inimigo, que sou ou fui sua amante e, você diz que me admira? — negativou com a cabeça, a intensificar os soluços. — Está brincando comigo?

— Não, de forma alguma. Você encarou a todos nós e foi verdadeira. Explicou tudo desde o começo, esclareceu sua perspectiva, evidenciou seus sentimentos e nos fez entender mesmo que minimamente de uma pessoa a quem temos confrontado durante anos e nunca paramos para pensar sobre seus reais motivos. Deu humanidade ao nosso inimigo e se colocou em júri por defender seu apreço por alguém que lhe fez tanto mal. Não se colocou como vítima, nem o acusou de tê-la seduzido e enganado, pelo contrário, você sempre está a pontuar as escolhas que teve e que fez.

— Eles pensam que estou doente, sofrendo Síndrome de Estocolmo. — fungou ultrajada, — Sob efeito de lavagem cerebral, hipnose ou coisa assim… Meu Kami!

— Eu não penso assim. É plausível? Sim, contudo eu acredito no seu amor. Foi ferida, humilhada, sufocada, manipulada,subjugada e mesmo assim conseguiu enxergar no seu algoz alguém que precisa de ajuda, conseguiu ver um outro lado dele e perdoá-lo a ponto de amá-lo e querer resgatá-lo? Isso combina muito com você.

— Estar em um relacionamento com um louco que quer dominar o mundo? — troçou de si mesma, mas entendeu o elogio.

— Bom, colocando dessa maneira. — brincou o ruivo e ambos riram-se.

— Eu fui muito feliz no tempo em que ficamos juntos, só tenho que te agradecer e… Agradeço também por ter acreditado em mim o tempo todo e não pensado que eu era uma fã louca que trocou o namorado pelo ídolo. Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes.

— Não precisa agradecer, esses momentos felizes foram recíprocos e sempre estarão guardados. Foi um grande privilégio. As coisas são como devem ser, Miyako-san. Somos todas crianças tolas diante das páginas da vida, fazemos planos para o futuro, mas o futuro tem seus próprios planos para nós.

— Koushiro-kun, obrigada. Eu temia tanto ter essa conversa com você, eu queria que você não estivesse a sofrer, lhe juro. Você é uma pessoa tão grandiosa, querida, especial para mim.

— Não sofra pela minha dor, Miyako-san, sua vida já está repleta de tormentas e eu não quero ser um motivo de preocupação neste mar revolto. Percebo que minhas agruras não são nada perto das suas. Eu estou bem, ficarei melhor a cada dia, aquiete seu coração, certo? — recebeu um assentir de cabeça em meio a sorrisos e lágrimas. — Obrigada por lutar ao nosso lado, contra a pessoa que você ama.

— Eu tentei de tudo Koushiro-kun, eu fiz o que pude para trazê-lo comigo e o ajudaria a encarar seus erros e tentar corrigi-los, o apoiaria a recomeçar e, ele me prometeu que viria comigo, me fez ver verdade em suas palavras, mas… Bom, agora não há mais tempo para tentativas. Eu vou fazer, o que fui escolhida para fazer, lutar pelo Mundo Digital e pelo nosso mundo.

— Essa é a Miyako que eu conheço!

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Aqueles dias foram os mais complexos de todos para Inoue, uma vez que o cerco da mídia se apertou em torno de si e nem de casa ela pode sair para continuar seus estudos. Não somente sua rotina quanto a de seus familiares fora revirada pelo avesso. O desaparecimento misterioso de Ichijouji Ken já havia ganhado uma proporção exagerada, teorias bizarras circulavam pela internet até mesmo chegando a acusar Izumi de ter dado um fim no rival e com ajuda de Miyako.

No núcleo familiar as coisas estavam enevoadas, pois os pais e irmãos não sabiam como se portar diante da agressão que a filha estava a sofrer, a sua melancolia era vívida, mesmo que ela tentasse disfarçar o máximo para não preocupá-los, a garota estava a definhar dia após dia, mal comia, mal dormia, permanecera colada frente ao computador ou celular, sempre à espera de algum contato, sempre inteirada das maledicências e fofocas criadas por fãs do pseudo namorado, vendo seu nome e imagem servindo de piada.

Destruída, sua vida estava destruída de todas as formas, tudo isso enquanto ela se preparava emocionalmente para uma guerra. Poromon tentava consolar e distrair a parceira pedindo para que ela se acalmasse, dizendo que tudo ficaria bem, mas no fundo nem mesmo o monstrinho acreditava nessa possibilidade. A verdade era que Inoue estava exposta para o mundo e sendo agredida e difamada por ele, tudo graças a sua ligação com Kaiser, mesmo que tal situação fosse resolvida no Mundo Digital, como ficaria no mundo real?

Os pais de Ichijouji contavam com a promessa feita por Miyako, queria um meio de contatá-la, mas ir a casa da família Inoue poderia dar mais pólvora para a mídia negativa, sendo assim o pai do rapaz propôs que conversassem por chamada de vídeo, não era o ideal para uma conjuntura tão delicado, mas era o que tinham no momento. A violácea aceitou compadecida do casal, tomando para si a dolorosa missão de avisar sobre a guerra que lutaria contra o jovem.

Mesmo que sua família não estivesse em casa, Miyako preferiu trancar a porta de seu quarto para evitar interferências e, na hora marcada lá estava ela de frente para seu PC a encarar as desoladas feições dos Ichijouji. Ela chorava copiosamente de um lado da tela e de outro a Sra Ichijouji também se desmanchava em lágrimas, o detetive tentava manter a compostura, mas também lacrimejava abalado.

— Eu tentei, tentei muito eu juro, disse e fiz tudo o que pude e por um momento acreditei que o traria de volta. Acreditei com toda minha alma, mas...— ela mal conseguia continuar seu relato. — Não sei dizer o que houve, não consigo nenhum contato com ele, por mais que eu tente.

— Por favor, Inoue-san, pelo amor que você tem por ele, por piedade, não permita que seus amigos lutem todos contra o nosso menino, só Kami sabe o que pode acontecer. Tem que haver outro jeito que não acabe em guerra. Já perdemos um filho, não queremos perder outro. — rogou a Sra Ichijouji, chorosa.

— Eu compreendo, também não gostaria que tivesse chegado a isso, mas… Mesmo que eu não lute, meus amigos irão lutar. Vocês estão vendo essas reportagens de tragédias naturais pelo mundo, maremotos, terremotos, alagamentos, furacões… Isso é um reflexo dos danos que seu filho vem causando ao Mundo Digital durante todos estes anos. Não podemos permitir que continue. Imaginem quantos pais estão a perder seus filhos nessas tragédias, quantas crianças estão a ficar sem lar?

— Como é doloroso ter que acreditar que nosso filho está sendo responsável por tudo isso e que tudo se deve a nossa falha, nossa negligência como pais. Você está certa em colocar seus sentimentos de lado por um bem maior. Nenhuma familia merece padecer pelos nossos erros. — compreendeu Sr. Ichijouji.

— Querido, como pode? — enfureceu-se a esposa. — Nosso filho pode morrer.

— Já deixamos nosso filho morrer quando ele estava conosco todos estes anos e não demos a atenção que precisava, vamos condenar inocentes por isso? Inoue foi digna em nos contar toda a verdade, ela fez pelo Ken muito mais que nós já tentamos. Já não há mais nada a se fazer a não ser pará-lo. — clarificou a segurar os ombros da esposa, enfático.

— Não posso me conformar com isso. — a mulher saiu a prantear.

— Eu sinto muito, queria que fosse diferente, no fundo eu me sinto horrível por ter falhado, eu não devia ter deixado pra depois, devia ter ficado ao lado dele e saído daquela base somente quando ele viesse comigo. — culpou-se angustiada. — O mundo está acabando a minha volta e eu me sinto impotente. — confessou.

— Não diz isso menina. — objetou Poromon que até o momento ouvia tudo em silêncio, abalado.

— É, não diz isso, quando o chamado de seus amigos vier, vá para a missão, dê o seu melhor, faça isso pela parte boa que você conheceu no meu filho, saiba que de uma forma ou outra você estará ajudando a libertá-lo. Lute com o coração, Inoue-san.

— Certo! — consentiu emocionada.

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A cabeça doía e os olhos ardiam, Poromon jazia adormecido em seu cestinho, e ela? Ela rolava na cama de um lado para o outro, vez ou outra respondia uma mensagem em seu D-Terminal, informando aos amigos que estava tudo bem, mas não estava nada bem. Algo dentro de si gritava que se ao menos ela tivesse a chance de conversar uma única vez com Ken, poderia entender e esclarecer as coisas, no entanto. não havia contato, nenhuma maldita forma de conexão com o rapaz. A possibilidade de só se verem novamente no campo de batalha lhe dilacerava o coração.

Então, era assim que tudo terminaria… O fim da semana se aproximava e a qualquer momento seria convocada para invadir a base do inimigo e destruí-lo de vez. Era mais do que óbvio que ele reagiria com todas as forças. Não precisava ter sido assim, refletia, se ao menos ela tivesse ficado com ele aquele dia e só voltado para o mundo real o trazendo consigo, as coisas não chegariam a esse ponto.

Tirando-a de seus devaneios, um e-mail apitou em seu D-Terminal.

“Um novo Digimental foi detectado em uma área portuária. Uma nova transformação pode ser um trunfo decisivo na investida contra Kaiser. Nos encontraremos todos no apartamento de Takeru-kun amanhã às 10h. Estejam preparados.

Izumi Koushiro “