Inimigos Íntimos
8 Confronto (revisado)
POV Miyako
Minha cabeça estava pesada, dolorida. Abri os olhos e avistei a alvorada. Senti um perfume familiar e um afagar em meus cabelos. A voz de Hikari me chamou, parecendo ser ao longe, mas logo se tornou nítida. Eu estava deitada sobre a relva, com a cabeça no colo dela. Levantei-me de sobressalto à procura de Poromon, de algum sentido para tudo aquilo. Eu queria que fosse um pesadelo… Mas não era.
O pessoal me contou sobre o sequestro de Poromon, como fiquei em choque e acabei desmaiando. Explicaram também que após a partida de Kaiser todos os seus subordinados recuaram desistindo da batalha e Palmon foi encontrada amarrada na clareira e sem nenhum escravo a vigiá-la. Este tinha sido um nítido recado de Kaiser para mim, de que caímos em sua armadilha e que tudo o que ele queria era levar meu Poromon.
Meus amigos estavam compadecidos e angustiados, tentando me passar segurança, mas eu podia ver que estavam aturdidos. Naquela altura o mais sensato era cumprir à risca as exigências de Kaiser, óbvio que eu não poderia contar nada para eles a respeito de seja lá o que ele quisesse me propor.
— Fico realmente muito grata, mas agora eu preciso ir para casa, chorar na minha cama, preciso estar no meu quarto. Pode parecer bobo, mas necessito estar sozinha nesse momento. Por favor, peço que compreendam, eu vou ficar bem. — clarifiquei convicta.
— Muito bem Miyako-san, vamos respeitar a sua vontade, se você diz que agindo assim será melhor, tudo o que temos a fazer é te dar espaço. — Koushiro declarou enquanto massageava meus ombros. — Mas quero que saiba que quando se sentir à vontade pode nos ligar a qualquer hora, estaremos aqui para você. — ofereceu um sorriso acalentador.
— Faço minhas as palavras de Izumi-san. — O Caçula do grupo completou com um aceno de cabeça.
— Sabe que pode contar comigo, amiga? — Hikari esboçou um sorriso sereno.
— Pode crer, magricela! Estamos juntos! Vamos trazer seu parceiro de volta e chutar a bunda daquele idiota. — Daisuke enfatizou fazendo um sinal de positivo com o polegar erguido.
— Tenha fé em nós, pois vamos fazer o melhor para salvá-lo, te prometo. — Takeru-kun tentava me animar.
Mas ao contrário dos meus amigos, seus parceiros estavam silenciosos, abalados em um canto, encolhidos e pensativos. Nem sequer pediram comida. Creio que eles sentiam como se tivessem falhado com Poromon, mas todos sabíamos que ninguém teve culpa. Ninguém além de mim.
(...)
Não quis sair de casa naquele dia. Comuniquei a meu irmão que não trabalharia no café, pois me sentia muito mal. Fiz o mesmo comunicado para a faculdade. Não consegui me alimentar, nem dormir direito. Eu só sabia chorar agarrada ao computador à espera de algum contato de Kaiser. De hora em hora chegavam mensagens dos meus amigos e de Koushiro preocupados comigo e eu sempre respondia que ficaria bem.
Eu imaginava que Kaiser fosse negociar o meu D-3 e isso me acalmava e preocupava ao mesmo tempo. Tranquilizava-me em saber que Poromon ficaria vivo e em segurança, mas eu sofria por pressupor que teria que deixar o peso das lutas todas sobre os ombros dos meus amigos e provavelmente eu não teria mais contato com meu Digimon. Antecipar essa possibilidade já me partia o coração, pois Poromon era para mim como um familiar muito querido e eu não queria dar adeus.
Doía saber que eu causei tudo isso. Meu orgulho estava muito ferido por ter sido vista nua por Kaiser e por isso entrei na briga dele com Daisuke. Eu o humilhei em público. Óbvio que ele se vingaria de alguma forma. Atingiu bem no meu ponto fraco. Minha estupidez prejudicou a todos e colocou em risco a vida do meu Digimon e também pode ter dado uma vantagem imensa para Kaiser nessa guerra e consequentemente arruinar o destino do Mundo Digital e deste mundo.
Eu sempre fui assim, impulsiva, afoita e imatura. Sempre agi primeiro e pensei depois e já me envolvi em muitas encrencas devido a isso, mas agora… agora eu tinha passado de todos os limites e estava me odiando por isso. Era isso, Kaiser teria sua vingança, sua vantagem em campo e no fim isso não mudava o fato dele ter sido o primeiro homem a me ver nua, não apagava a vergonha e a humilhação. Neste jogo eu só perdi e ele estava calmo e debochado daquele jeito por estar se deliciando com a minha queda.
Atormentei-me com a queda o dia inteiro. À noite tive que prestar esclarecimentos mentirosos para os meus pais. Eu já não aguentava mais olhar para as mensagens dos meus amigos. Uma aura depressiva se formou ao meu redor e eu realmente queria nunca ter existido, para não arruinar a vida das pessoas que me amavam. Tranquei-me no quarto e continuei a esperar por mensagens até que… O chamado de Kaiser veio através do meu e-mail.
“Como foi o seu dia? Espero que tenha seguido minhas instruções e descansado bastante, pois a conversa que teremos hoje pode ser um tanto delicada. Estou mandando as coordenadas para que possamos nos entender pessoalmente. Isto é, se o seu posicionamento sobre o nosso assunto incomum, ainda for o mesmo. Caso seja, digite imediatamente.
Digimon Kaiser”
Nem me preocupei em responder, digitei as coordenadas e saquei meu D-3 já abrindo o portal, fechando os olhos rumo ao imprevisível.
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Senti que o clima ao meu redor ficou gélido. Antes de abrir os olhos abracei-me instintivamente e percebi que minha roupa não tinha mudado para os trajes de batalha. Mordi a parte interna da bochecha, nervosa, constrangida. Não pensei em vestir algo decente, estava de baby doll. Que treva! Reuni toda a coragem necessária e abri os olhos me espantando com a visão.
A sala era grande, dotada de inúmeros monitores de tamanhos variados, muitos extremamente tecnológicos hologramáticos. A maioria estava em modo noturno o que deixava a iluminação local baixa. Eu estava apavorada, preocupada, angustiada, mas a nerd em mim ainda estava viva e completamente encantada com tanta tecnologia, coisas que pensei que só veria em filmes futurísticos.
— Impressionante, não é mesmo?— ouvi o bradar pedante do anfitrião. — Percebe agora, o que quero dizer quando afirmo minha superioridade?
Pretensioso de merda! Como pode alguém idolatrar a si mesmo dessa forma? O fato é que, impressionante ou não, eu estava ali, sozinha no covil do inimigo e pior, vestindo apenas um baby doll.
— Por que não estou com meus trajes de batalha? — Ignorei seu egocentrismo e mudei o assunto.
— Os seus trajes… — ele pigarreou e pareceu processar a pergunta. — Parece que me enganei a seu respeito. Julguei que você fosse chegar aqui preocupada com seu parceiro, perguntando por ele… — Ironizou, sarcástico. — Mas como a maioria das mulheres, você se preocupa com seus trajes. Como seu Digimon reagiria se soubesse?
— Não deboche de mim, seu esnobe, pervertido. Exijo que você reconfigure meus trajes agora! — cuspi furiosa me sentindo exposta.
— Você exige? Você pensa mesmo que está em posição de fazer exigências? Acho que ainda não entendeu sua situação aqui. Já parou para pensar em todas as coisas horríveis que poderia acontecer com você? — soou ameaçador. Mas o encarei sem titubear.
— EU NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ! — Vociferei intrépida! Mentira, eu estava morrendo de medo e constrangimento por estar naqueles trajes
— Ah não? — Seu tom austero mudou completamente. Num rompante, começou a rir enquanto me analisava num olhar maldoso, cerrando e estalando os punhos como se pretendesse me intimidar. Pretensão ou não, estava funcionando. Sentia-me congelada, petrificada na mira daquele olhar, daqueles incômodos e perigosos segundos em que o predador estava prestes a fulminar, eu estava apavorada!
Repentinamente, Kaiser investiu contra mim e me imprensou com as costas contra a parede. Estávamos face a face e seu sorriso psicótico me causava tremores e calafrios pelo corpo.
— Você se intitula audaz, valente! A nobre guerreira herdeira dos poderes do brasão do Amor! Eu devo acreditar que esses tremores sejam efeito do ar-condicionado? — riu pelo nariz, desdenhoso. — Eu aprecio decodificar e reconfigurar as coisas. Estou pronto para fazer isso com a sua suposta coragem e muito mais.... — Arrancou o D-3 da minha mão, sem nenhuma delicadeza e o guardou em seu bolso. — Isso fica comigo por enquanto.
Eu não tinha palavras, nem reação. Engoli certa quantidade de saliva e parecia ter um nó na minha garganta. Seus óculos não me permitiam observar seus olhos, mas eu conseguia sentir a insanidade que transbordava do seu olhar. Aquilo era horrível, eu estava imobilizada, indefesa como naquele dia na cachoeira. Ele sabia que eu estava com medo e parecia se deliciar com isso.
Abruptamente ele me soltou e deu-me as costas caminhando até o que parecia ser um painel de controle. Respirei aliviada, meu coração acelerado parecia que iria escapar pela boca. Momentaneamente a sala ficou completamente escura, mas um único monitor se acendeu revelando Poromon em sua cela.
— POROMON! — Corri em direção a tela, gritando várias vezes.
— Lamento informar, mas ele não pode te ouvir — ouvi passos pesados de sua bota a ecoar pela sala, parando atrás de mim. — Deve ser torturante o peso da culpa. Saber que seu parceiro está em sérios apuros por causa dos seus impulsos irracionais. Saber que tudo seria diferente se você fosse menos afoita, impulsiva, menos “você”.
Ele tinha razão, tinha toda razão.
— O que você quer de mim? — funguei tentando conter o choro. — Pare com esses jogos psicológicos e vá direto ao ponto!
— Então vamos esclarecer as coisas por aqui. — seu timbre mudou completamente assumindo uma agressividade bruta, autoritário. — Eu abri as portas pra você, te recebi “na minha casa” a fim de negociar amigavelmente e, o que você fez? — senti sua aproximação por trás, mas estava apavorada demais para virar e encará-lo. Então seus dedos correram pelos meus cabelos. — Chegou aqui fazendo exigências sobre seus trajes ridículos. Ousou levantar a voz e gritar comigo, no meu território! Afrontou-me com esse ludibrio débil de que não tem medo de mim! — Sua mão enlaçou um punhado dos meus cabelos os puxando com força contra si. — A SUA MÃE NÃO LHE DEU EDUCAÇÃO? NÃO TE ENSINOU A SE COMPORTAR NA CASA DOS OUTROS? — continuou a puxar com força, transtornado, como se quisesse me matar.
Talvez ele me matasse mesmo. Assim meu temperamento forte teria estragado tudo mais uma vez. Ninguém ficaria sabendo se eu morresse ali. Repentinamente, seu rosto ficou inexpressivo e ele soltou meus cabelos os ajeitando naturalmente.
— Está tudo bem, digiescolhida, neh? Eu ainda nem disse as regras do jogo então… — segurou-me pelos ombros me virando para a tela. — Observe atentamente seu estimado parceiro.
— Não o machuque, por favor... — Pedi em um fio de voz, completamente arrependida por tê-lo afrontado daquela forma. — Você está certo, meu comportamento foi horrível, mas é por estar muito preocupada com Poromon. Eu prometo que não farei isso novamente.
— Então… — Começou e, virei-me para encará-lo, mas ele me fez virar e mirar a tela. — Concentre-se em seu Digimon. Veja bem, desde cedo seu querido Poromon está abatido, deve estar faminto e já ordenei que Gotsumon somente o alimentasse caso você atendesse ao meu convite. Como você veio, é hora de alimentar seu precioso parceiro.
Neste momento um Gotsumon apareceu com uma bandeja e abriu a grade. O pobrezinho do Poromon estava tão fraquinho que nem conseguia voar até o alimento. Quando ele começou a comer esfomeado, meu coração cortou. Eu já estava chorando e o pranto só aumentou.
— Hum! Ele parece estar faminto! Que bom que você atendeu ao meu chamado ou quem sabe ele poderia ter morrido de fome. Seria mais um peso para sua consciência. Como você viveria com a culpa? — jogava com meus sentimentos, se divertindo com a minha dor, usando uma criaturinha inocente para me atingir. — Ah, não chore tanto. — teve a ousadia de secar meu rosto com o indicador. — Assim eu fico me sentindo mal, afinal estamos apenas começando. Venha… Vamos dar um passeio! — afastou-se começando. Ele queria ser seguido, mas eu estava petrificada.
Ao perceber que eu continuava estática, ele voltou e retirando seu sobretudo o jogou sobre meus ombros. Confesso que estranhei o ato. Não poderia ser gentileza, isso nunca. Depois de ver de perto suas oscilações de personalidade julguei que o melhor era aceitar calada e segui-lo.
O local era um infinito de corredores mal iluminados, frios e com uma atmosfera pavorosa. Descemos algumas rampas e chegamos a uma área horripilante, onde aparentemente era usada como prisão. Os Digimons prisioneiros se agitaram em suas celas, alguns pediam socorro, outros o praguejavam dizendo que ele não iria vencer, outros apenas gemiam de dor. Sabe-se lá por quais torturas haviam passado. Aquilo parecia um inferno, a loucura de Kaiser ia além da minha imaginação. Quando ele se irritou com toda algazarra que seus prisioneiros faziam, tomou uma atitude.
— CALADOS, VERMES ASQUEROSOS! — Quando não obteve obediência, freou o passo e digitou algo em seu bracelete e de repente todas as celas brilharam envoltas em impulsos elétricos fortes, os menos resistentes chegaram a desmaiar. — Melhor assim! — Sua mão voltou para o meu braço, puxando-me como se eu fosse um objeto.
Fui arrastada para a cela onde Poromon estava preso. Ele acabara de se alimentar. Meu peito doía como se estivesse sendo rasgado por navalhas. Que lugar horroroso! Que situação terrível! Eu não sabia como agir. Estava congelada de medo, aterrorizada, penalizada, tentei correr para perto da cela e me desculpar, mas Kaiser me segurou pelo pulso.
— Miyako-chan… Não devia estar aqui… — Poromon sussurrou com voz fraca.
— É culpa minha você estar sofrendo assim, mas eu farei o que for preciso para te ver livre! É uma promessa! — Declarei entre lágrimas, forçando para chegar até ele, mas sendo impedida por aquele monstro.
— Então, muito bem. O jogo todo vai depender do seu comportamento. Faça pontos comigo e seu parceiro terá conforto, alimentação e não sofrerá torturas. Saia da linha, Digiescolhida e... sabe, quando digo sair da linha eu quero dizer ser desobediente, grosseira. Neste caso devo lembrá-la de que já chegou perdendo alguns pontos, me afrontou, gritou na minha sala, creio que devo lhe mostrar o que acontecerá quando agir dessa maneira. — com um sorriso maléfico ele apertou um botão em seu bracelete e o piso da cela de Poromon começou a emitir uma luz avermelhada.
— Não, por favor. O que está fazendo? — Tentei ir contra a grade, mas ele me segurou novamente. Meu parceiro começou a suar, ainda sem forças para voar. Da distância onde estávamos eu podia sentir o aumento severo da temperatura. — PELO AMOR DE KAMI, PARE COM ISSO! — joguei-me contra Kaiser tentando impedir.
— Veja bem, a culpa desse castigo é inteiramente do seu comportamento hostil, gritou comigo e na minha sala. Você é muito selvagem, deveria ser mais boazinha.
— O que quer que eu faça? Eu estou aqui, farei qualquer coisa. Qualquer coisa! Peça o que quiser, mas pare com isso! — Não havia mais orgulho naquele momento, só esperança de salvar Poromon.
— Não pode fazer nada para livrá-lo desse castigo. Você erra e ele paga, é algo bem simples, até para uma inteligência inferior como a sua. Não se preocupe, isso não irá matá-lo. — Digitou mais uma vez e uma certa quantia de água caiu sobre Poromon e seu corpinho fez um chiado. O cheiro de carne queimada empesteou o local. Caí de joelhos no chão frio. Eu não sabia mais o que sentir diante daquilo. — Seja forte, guerreira do Mundo Digital, essa é a última fase, mesmo porque depois disso ele certamente ficará inconsciente. — E ao dizer isso ele apertou mais um comando em seu bracelete e a cela recebeu uma forte descarga elétrica que desmaiou Poromon.
— O que? O que você quer, pelo amor de Kami! — Insisti na pergunta, quase sem voz. Estava ali jogada, arrasada e horrorizada aos pés daquele demônio. — Eu te entrego meu D-3 e esqueço a existência desse mundo. Só… O deixe ir.
— Então você quer sacrificar seu posto de guerreira digital para salvar seu parceiro Digimon, é isso? — deu um riso anasalado. — Sua inocência me comove. Pensa mesmo que eu vou apenas destruir seu D-3 e te deixar ter uma vida normal? Piff! Você me toma mesmo por um simplório, não é?
— Então… Eu não entendo. O que mais você pode querer de mim?
— Vamos voltar para a sala de controles. Aqui está com um cheiro horrível, concorda?
Dito isso, ele me puxou bruscamente pelo braço e me arrastou pelos mesmos corredores de onde viemos. Quando chegamos em sua sala, empurrou-me contra a cadeira; uma poltrona gamer modelo vitoriana. Aquilo representava bem todo o contexto steampunk da mente de Kaiser. Assim como seus trajes eram uma mistura de medieval com acessórios tecnológicos, sua base também era.
Ele apertou algo em sua mesa de controles e aparentemente eram tudo hologramas, já que se tornou uma superfície lisa onde o mesmo se sentou e cruzou os braços frente ao peito, me analisando.
— Parece que não tivemos um bom começo. Que tal recomeçarmos com você se apresentando? — sua personalidade oscilou para algo mais ameno.
— Você já sabe meu nome… — murmurei confusa.
— Isso não importa. Apresente-se decentemente para mim. — Ordenou entre os dentes. Levantei-me quase sem forças e fiz a apresentação formal.
— Meu nome é Inoue Miyako, é um… — eu não conseguia falar aquilo.
— Vamos continue… Inoue Miyako… E? — apressou-me impaciente.
— Estou honrada em conhecê-lo. — curvei-me formalmente. Estava consumida pelo ódio e indignação.
— Pois muito bem. Que boa menina temos aqui. Miyako? Não se importa se eu te chamar assim? — Torci a cara em reprovação. Como ele ousa, nem meu namorado me chama sem honoríficos. — Me responda garota!
— Não. — bufei desgostosa. — Eu não me importo que você me chame assim.
— Como eu esperava, mas te chamarei de Inoue. Não gosto de dar intimidade aos meus escravos. Você pode me chamar de Kaiser-sama!
— O que? Ka-Kaiser-sama? Escravos… — secundei abismada.
— Sim digiescolhida. Irônico, não? É essa a minha proposta. Nunca tive um ser humano como escravo, mas estou disposto a ampliar os horizontes. Pensar fora da caixa. E você deseja manter seu parceiro em segurança. Jurou que faria qualquer coisa para isso, então… Aqui estamos!
Fiquei estarrecida. Escrava? Como assim? Que bizarrice estava acontecendo ali afinal? Todavia, o cretino estava certo quando disse que eu prometi fazer qualquer coisa para manter Poromon a salvo.
— Eu estou de acordo, mas o que um ser tão superior e autossuficiente como você pode querer de mim? Vai me fazer de empregadinha por acaso? — Não consegui controlar meu deboche.
— Eu não tinha pensado por esse lado, mas a idéia não é ruim, lhe darei configurações de trajes que sejam mais adequados que uma camisolinha indecente. Digamos que seja algo de acordo com suas funções. Deve saber que seu dispositivo não tem valor aqui, a não ser para abrir portais. Não tente passar informações sobre a minha base. Você será monitorada em tempo integral, cada passo e cada respiração. Haja de forma suspeita e seu parceiro paga!
— Não tentarei nada. Eu prometo.
— Claro que não, e à propósito, como previa que sua resposta seria positiva, me antecipei em me apropriar de todos os seus dados pessoais, incluindo o sistema do seu celular, computador, redes sociais e até seu D-Terminal. Tudo me pertence e você só deve usá-lo da forma que me for conveniente.
Abri a boca, completamente perplexa.
— Está brincando… Você vai estender isso ao mundo real? Digo, tudo o que eu fiz contra você, foi feito aqui, nem te conheço no nosso mundo. Não cabe levar isso tudo para a realidade.
— Eu nunca brinco, Inoue. Real, virtual, sua vida agora me pertence e para provar isso quero que pegue seu celular, ligue para Izumi e ponha um fim no relacionamento de vocês.
— O que? Você quer que eu termine com meu namorado?
— Você me ouviu claramente. O que está esperando? Devo lembrar que desobediência conta pontos. O que acontece quando você perde pontos?
Saindo de cima da mesa, ele digitou alguns comandos no teclado, ligando uma das telas do computador e mostrando o estado horrível de Poromon.
— Não, por favor! Eu faço, ligo para Koushiro-kun e desfaço o compromisso. Não torture mais meu Poromon. — sussurrei chorosa já digitando o número de Koushiro no meu celular. — Mas, celular não funciona aqui. — observei.
— Essa é minha base. Não pense que as coisas aqui são limitadas. — vangloriou-se.
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Minhas mãos tremiam, o coração palpitante estava quase rompendo a caixa torácica a cada toque da chamada, Kaiser parecia se divertir com o meu pânico expondo um sorriso rasgado.
— Oi Miyako-san, como posso te ajudar? — Ele atendeu sonolento.
— K-Koushiro-kun… E-eu estava refletindo sobre o nosso relacionamento e... — fiz uma pausa, pois a dor em meu peito era insuportável. Kaiser assinalou para que eu prosseguisse. — Eu quero terminar o namoro!
— Como assim? O que está acontecendo? Pode se abrir para mim, sou seu melhor amigo acima de tudo. — sua fala saiu entrecortada aumentando mais a minha culpa.
— Eu confundi as coisas. Nunca gostei de você romanticamente. Julguei que seria bom namorar alguém em que eu confio e, que iria te amar com o tempo, mas não aconteceu. Eu sinto muito.
— Ative o viva-voz. — Kaiser ordenou e me vi sem escolha a não ser obedecer.
— Nunca gostou de mim de forma romântica? Isso não faz sentido. Eu entendo que você esteja confusa e sofrendo pelo sequestro de Poromon, mas não tente se afastar. Sou seu amigo acima de tudo, quero te apoiar neste momento. Não se isole. — Koushiro parecia tentar entender a situação.
— Se você me ama realmente, deve fazer o que estou pedindo.. Aceite nosso término, por favor.
— Não! Não dessa maneira, por telefone e sem uma conversa clara com você dizendo tudo isso olhando nos meus olhos. — suspirou pesaroso. — Eu vou até a sua casa. Isso mesmo, vou para sua casa agora.
— N-não, por favor, meus pais estão cansados do trabalho, já é muito tarde e eu não quero minha família envolvida nisso. Por favor não venha!
— Você tem razão, mas eu… Eu não vou aceitar terminar até que possamos conversar pessoalmente. Você não pode me excluir da sua vida num momento assim, Miyako, você precisa de mim.
— Desliga! — Kaiser Indignou-se, irritado.
— Você precisa de todos nós! Vamos te amparar, te apoiar e pensar em um meio de recuperar o Poromon. Porque esses anos todos a gente passou por momentos bons e ruins e nosso elo é como o de uma família, podemos suportar tudo se permanecermos unidos.
Eu não conseguia desligar. Queria tanto responder e poder dizer a verdade, gritar por socorro, mas não podia… Eu só podia ficar calada e chorar enquanto aquele lindo elo construído por anos… Era quebrado. Abruptamente, Kaiser pegou o aparelho e desligou na cara de Koushiro.
— Chega dessa baboseira de "unidos venceremos pois a amizade é mágica"! — ele caçoava, mas a amargura e a mágoa em seu timbre eram nítidos. — Discurso idiota! Nerd asqueroso!
— Asqueroso é você! — levantei-me enfurecida e investi contra ele no intuito de desferir-lhe uma bofetada. Ele permaneceu imóvel como se esperasse por isso. Na hora me veio as memórias de Poromon e me detive abaixando a mão. — E-Eu sinto muito...
— Ah, sente, é? — segurou-me pelo pulso e girou-me, deixando-me de costas para si. Congelei ao sentir sua respiração contra o meu ouvido. — Sente muito o que?
Ele queria que eu me humilhasse e o chamasse de Kaiser-sama e… Dentro de mim não tinha mais espaço para orgulho, só temor e mágoa.
— Sinto muito, Kaiser-sama. — abaixei-me e apercebi-me de seu riso anasalado, vitorioso.
Virou-me de frente para si novamente e encarou-me com aquele odioso sorriso.
— Muito bem... Você é uma selvagem Inoue, mas eu até gosto disso. Será um desafio reprogramar suas atitudes e te fazer ficar fiel e obediente, como uma boa escrava deve ser. — apertou o indicador contra o meu nariz, como se eu fosse um animal de estimação a ser domado. — Agora vá para casa e descanse para as surpresas de amanhã. Você está péssima!
— Surpresa? — O que mais esse maníaco tinha em mente.
— É, isso mesmo Inoue. — aproximou-se a uma distância inapropriada, assustando-me. — Lembre-se de que a sua vida me pertence. Eu sou muito possessivo com as minhas coisas, portanto não quero que você atenda ligações ou responda as mensagens dos seus amigos. Relembrando o fato de que tenho acesso a todas as suas redes e sistemas. — enfiou a mão no bolso do sobretudo que estava comigo e retirou o D-3 me entregando. — Não vou permitir que você tenha contato algum com seus amigos. Não faça nada idiota, pois a cada passo que você der, eu estarei te observando.
Anui horrorizada, apavorada.
— Código 5. Abrir coordenadas de portal para o quarto de Inoue Miyako. — ele deu o comando de voz e outro monitor acendeu e já com as coordenadas salvas.
Eu estava um lixo. Baixei a cabeça, coisa que nunca fiz nem para os meus pais, e segui vagarosa até parar frente à tela. Quando ia erguer a mão e apontar o digivice para abrir o portal, Kaiser chamou.
— Espere! — andou vagarosamente em minha direção e novamente aproximou-se de forma desconfortável, como se violasse meu espaço pessoal por diversão. — Isso… — tocou a borda do sobretudo e o deslizou pelos meus ombros com uma lentidão desnecessária e apavorante. — Fica comigo. — sorriu de canto erguendo a peça. — Ordenarei que caprichem na lavagem...
Naquela altura eu já estava apática, ferida demais para sentir o efeito de mais uma ofensa. Abri o portal e finalmente me vi no meu quarto. Cai na cama entre lágrimas, sabia que eu ficaria relembrando todo aquele horror, toda aquela opressão e agressão psicológica.
(...)
Não consegui dormir direito, como esperado. O despertador do meu celular se ativou bem antes da hora que costumo me levantar. Estranhei, mas assim que o tomei em mãos descobri o motivo:
“Bom dia!
Espero que você tenha tido um sono revigorante, Tomei a liberdade de reprogramar seus horários. Atenciosamente... Sei que você tem por hábito ir para a faculdade na companhia de seus amigos. A partir de hoje espero que siga sozinha.
Digimon Kaiser.”
Revoltante, não tinha outra definição! Mal o dia começou e Kaiser já fez questão de mostrar que estava levando a sério essa história de controlar a minha vida. Eu não tinha escolha, era me submeter a isso ou ver Poromon sofrer torturas horrendas, talvez até perdê-lo para sempre. Bufei indignada, mas me forcei a sair da cama e me preparar para mais um dia de estudos onde minha atenção estaria longe dos cursos. Eu ainda teria que dar um jeito de me distanciar dos meus amigos e pensar em uma forma convincente de reforçar o término com Koushiro.
°×°×°¦°×°×°|°×°×°
O campus ainda estava vazio quando cheguei. Segui para a biblioteca e me sentei em um local isolado. O dia estava frio e mórbido. Abri meu notebook conferindo a grade de horários, mas estava sem ânimo para encarar as aulas. Verifiquei minhas redes sociais e percebi que todas as fotos com Koushiro foram deletadas e as notificações de mensagens privadas estavam se acumulando. Naquela altura minhas irmãs e pessoas mais próximas já deviam estar querendo saber o que houve no meu namoro.
Certamente eu teria muito o que explicar para muitas pessoas, contudo, como nunca fui boa em mentir, nada me vinha em mente. Segurando-me para não começar a chorar, fechei o notebook e tombei a cabeça sobre a mesa. Eu não tinha perspectiva de como a vida seria de agora em diante, mas pressentia que a situação viria a piorar cada vez mais.
Passei algum tempo naquela posição inerte. Repentinamente as vozes dos alunos começaram a ecoar pelo local, mesmo no silêncio da biblioteca era possível ouvir a algazarra que fez até a bibliotecária ir para a porta procurando saber o que se passava. Não dei atenção, ponderei que não seria do meu interesse, até meu celular vibrar com uma nova mensagem.
“ Parece que a partir de hoje seremos colegas de universidade. Isso mesmo, você não leu errado. Acabei de chegar na entrada principal e estou meio perdido. Seja gentil e venha me receber.
Digimon Kaiser”
Realmente não pude acreditar no que eu tinha lido. Kaiser se matriculou na mesma universidade que a minha, somente para me perseguir? Como ele pôde levar as coisas tão a sério? Isso significava que eu iria conhecer ele pessoalmente. Não pude deixar de imaginá-lo horroroso, com uma cara de nerd psicótico como aqueles caras que invadiam faculdades com armas e matavam todo mundo.
“ Como saberei quem é você?
Inoue Miyako”
Contudo, acabei por ter uma luz. Eu saberia sua identidade no mundo real, poderia contar aos meus amigos e juntos poderíamos encurrala-lo e tomar seu digivice. O Mundo Digital estaria salvo, Poromon estaria salvo!
“Não se preocupe,você saberá. De acordo com os arquivos do seu computador, você sabe muito sobre mim. É minha admiradora em potencial.
Digimon Kaiser”
De acordo com os arquivos do meu computador? Congelei prontamente. No dia anterior ele já tinha deixado claro que hackeou todo meu sistema e redes sociais, mas eu estava tão preocupada com Poromon que me atentei minimamente, agora percebi o peso que isso poderia ter. No entanto, fora do meu círculo de amigos eu não tinha tantos contatos. Era sua admiradora, ele sublinhou… Eu não entendi o que isso quis dizer.
Guardei o notebook na bolsa e segui para encontrar com meu algoz, mesmo irada e ameaçada, sentia-me mais segura, pois minha mente fervilhava em planos de reviravolta. Todavia, o dia no campus estava infernal, as pessoas pareciam ter enlouquecido, estavam frenéticas, agitadas, se acumulando pelos corredores a atrapalhar a passagem. Era como se algo muito grave estivesse acontecendo.
Esgueirando-me em meio ao tumulto, cheguei na entrada principal. Os funcionários locais tentavam conter a euforia dos alunos. Também havia a presença de repórteres com câmeras e microfones, a reitoria e grande parte do corpo docente estavam reunidos. Como eu encontraria a “pessoa” em meio a esse caos? Prestes a procurar um local tranquilo para responder a mensagem e, explicar que eu estava presa no tumulto alguém chamou pelo meu nome.
— Ah, lá está ela! Miyako? — a voz era familiar. Era ele.
Virei-me para atender ao chamado e ele… Ele era… ERA ICHIJOUJI KEN? Petrifiquei, minha boca se abriu e os olhos arregalaram-se. Sem permissão, ele cativou-me a mão e arrastou-me para o núcleo de toda atenção. Minha mente estava anuviada, bugada. Não podia ser verdade! Meu mundo desacelerou numa confusa e lancinante lentidão.
— Quero que conheçam uma pessoa muito especial para mim. Essa é Inoue Miyako, minha namorada. Ela é o motivo da minha mudança para essa instituição. — apresentou-me com naturalidade e intimidade.
Os flashes me cegavam enquanto uma chuva de questionamentos recaíam sobre mim. Grande parte dos presentes; alunos e funcionários da universidade, sabiam sobre meu namoro com Koushiro. O coro de pessoas em choque e os burburinhos maledicentes teve início de pronto.
Massageei a fronte, sem condições de responder nada. Eu estava à beira de um desmaio, era exposição e constrangimento demais. Eu queria sair correndo, queria que um buraco se abrisse para mim.
— Miyako não está acostumada com as câmeras e ela fica tímida.— a falta de honorifico antes do meu nome explicitava uma intimidade chocante aos olhos de todos.
— Mas Ichijouji-kun, como vai ficar sua participação no campeonato estadual deste ano? — a repórter questionou curiosa
— Não haverá participação alguma. Quando deixei minha antiga instituição de ensino também fiz uma quebra contratual com o time. — Ichijouji explicava calmamente, mas as reações dos presentes não era exatamente tranquila.
— Você teve que pagar essa quebra contratual? — Questionou outro jornalista, afoito.
— O que o seu time e os torcedores pensam sobre seus motivos de tê-los abandonado? — Uma repórter disparou, lutando por espaço.
— O que os seus pais disseram sobre sua saída de uma renomada universidade particular para uma pública e sem tanto prestígio? — Indagou um dos que brigavam para permanecer perto de nós.
— Inoue, você como namorada de Ichijouji deveria incentivá-lo a vencer na vida e não o contrário! Não pensa que trazê-lo para perto de si foi um ato egoísta? — Uma sensacionalista jogou, maliciosa para causar atritos.
Era um questionamento atrás do outro, sem pausa. Aquilo parecia um pesadelo. Minha cabeça explodiria!
— Em primeiro lugar. Eu não precisei pagar a quebra contratual, pois acionei meu advogado que constatou que tanto o time quanto minha antiga instituição obtiveram lucros exorbitantes explorando minha imagem. — respondeu sem titubear, parecia preparado. — Quanto ao meu antigo time, creio que eles acreditam em si mesmos o bastante para vencer sem mim e possuem maturidade para lidar com essa mudança. Sobre os torcedores… Todos sabem que jogadores são como produtos, quando finda um contrato este pode ser vendido para qualquer time, inclusive internacional, sendo assim considero falta de inteligência esperar que eu jogasse por amor à bandeira. Era um acordo, eu jogava pelo time e ele financiava a universidade. — virou-se para mim, como se esperasse que eu respondesse algo. — Quanto à minha namorada, não a culpem, pois acabei de lhe fazer uma surpresa.
— Por favor, só mais uma declaração!
— Não creio que seja conveniente, uma vez que vocês insultaram a instituição que lhes abriu as portas e permitiu essa coletiva. Salientando este detalhe, em defesa de instituições públicas, me digam quantos nomes famosos da história teve condições de estudar em renomadas universidades supervalorizadas? — todos permaneceram sem resposta.
— Como eu pensei, isso porque a maioria mal frequentou o colegial. Ao meu ver, é elitismo alegar que alguém que estuda em uma instituição pública tem menos valor do que quem tem condições financeiras ou precisa vender sua alma para fundações esportivas, para se manter em uma universidade particular. Reflitam! — Ele encerrou, resoluto.
Os repórteres sem encolheram sem respostas e os presentes aplaudiram emocionados. Todos estavam sendo enganados e nem faziam idéia. Eu me sentia idiota por um dia ter admirado essa criatura dissimulada. Tudo se passava à minha volta, mas eu estava em estado de choque. Os repórteres foram embora, os alunos se dissiparam e a reitoria e corpo docente demorou algum tempo bajulando Ichijouji.
Eu fiquei ali perdida, com a mão enlaçada à dele como se estivesse acorrentada. Pediram-me para que fizesse um tour com o novo aluno e mostrasse a instituição e apenas anui, engasgada. Certamente julgaram que eu estava emocionada com a novidade. A verdade era que eu ainda estava perplexa, sem capacidade de raciocinar coerentemente. Apesar de tudo, Ichijouji Ken era meu ídolo e eu tinha acabado de descobrir que ele era a criatura mais vil e psicótica que eu conhecia.
— Por que você? Alguém tão inteligente e que tem tudo. — foi tudo o que eu consegui dizer.
— Não fala como se me conhecesse. As fotos, vídeos e informações que você colecionava sobre mim, são meras ficções. Você não sabe nada sobre a minha vida!
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