E se eu te deixar triste comigo?

E se eu te fizer rir agora mas depois você chorar até adormecer?

E se isso te deixar sem fôlego

E você mau conseguir respirar?

E se o último som for o melhor som?

E se o que eu quero te deixa triste comigo?

E se a culpa for toda minha, posso por favor consertar as coisas?

Porque você sabe que sempre serei tudo pra você

Porque você sabe que sempre serei tudo pra você

POV Narrador

Incrédulos, os âmbares de Miyako arregalaram-se, sua cabeça girou várias vezes, tentava processar as palavras que ecoavam em sua mente. Ele aceitou voltar consigo? Aceitou por fim naquela loucura e encarar a realidade?

— Eu vou. Vou construir um futuro de verdade ao seu lado, vou tentar corrigir tudo o que fiz. Chega de fugas, neh? — confessou de forma simples com certo constrangimento.

Miyako ainda tinha ambas as mãos sobre os lábios, os olhos arregalados se derramando em lágrimas emocionadas, não sabia o que responder, como reagir, chegando a cogitar que estava presa em um sonho, enquanto Ken encolhia os ombros intimidado diante de tal reação.

— Meu Kami! — a voz embargada era cortada por soluços de um choro emocionado que só aumentava. — Eu nem sei o que...— balançou a cabeça negativamente. — Nem sei o que dizer, Ken!

Ele a envolveu em um terno abraço e afagou-lhe a cabeleira lilás, beijando-lhe a fronte.

— Então não diga nada. — cativou-lhe o rosto entre as mãos.— Não precisamos de palavras.

E os olhares se encontraram trocando milhares de percepções. Ele queria agradecer por ela sonhar tantos planos lindos incluindo-o, envolvê-lo com suas cores, o arrancando de suas trevas, por entrar assim em sua trajetória e mudar princípios, valores, convicções, iluminando sua forma de ver a vida e, não foi necessário verbalizar seus sentimentos, pois, ela o entendia, ele a entendia... Eles se entendiam…

Um sorriso emocionado se desenhou em ambas as faces, as frontes se colaram e as mãos se enlaçaram. Sabiam que estavam prestes a enfrentar outra guerra, que nada seria um conto de fadas e muitas pedras lhes seriam atiradas, contudo, permaneceriam juntos e, unidos sentiam como se pudessem passar por qualquer coisa e triunfar nas maiores contendas.

Uma ansiedade gostosa comichou a palma de suas mãos e os dedos apertaram-se mais. Inoue estava perdida em toda aquela cumplicidade e no sabor da confiança que o rapaz depositara em si, uma sensação de dever cumprido, alívio, ao mesmo tempo que tinha a certeza que ambos deveriam ser muito fortes para encarar o que estava por vir.

Ken estava temeroso, apavorado por abandonar o manto de Kaiser que fora sua muleta para continuar vivendo, mas não titubeou quanto a sua decisão, era limpa, sensata, era o que lhe permitiria ficar com ela e ela era tudo o que mais lhe importava agora e sempre… sempre…

E iluminados pela meia-luz fraca do abajur, os lábios se buscaram, se entregando a um beijo terno, acolhedor, que parecia dizer tudo que guardavam em seus recônditos. E ao perpassar das línguas uma pela outra, ao saborear do gosto daquela emoção, tornavam o ato um júbilo pela decisão tomada.

O beijo era lento e arrebatador, concebendo uma centelha de calidez, que conflagrou-lhes o peito e dissipou-se pelas veias acelerando o pulsar, explodindo em flamas através da pele em uma insensata oposição às sutis ondas de calafrios a eriçar-lhes os pelos. A doçura dos beijos assemelhava-se a uma branda canção de amor, daquelas com poder inexplicável de tocar fundo no íntimo e emocionar.

As lágrimas de Inoue escorreram copiosas embaraçando o momento, roubando a atenção do gênio que rompeu o ato para acalentá-la, mesmo tão abalado quanto a moça.

— Shhh...— limpou as lágrimas com os polegares. — Tudo bem, pensei que a noticia te faria feliz. — o tom foi com intuito brincalhão, de modo a abrandar a amada.

— Eu nunca estive tão feliz em toda a minha vida! — O beijou uma vez mais, com o sabor salgado das lágrimas. — Eu posso me sentir livre para estar ao seu lado sem prantear ser uma traidora dos meus amigos, da minha causa. Posso te amar sem peso, sem culpa.

— Sem culpa.— ele confirmou acariciando os lábios femininos com os seus.— Eu quero te recompensar por todo sofrimento que lhe causei.

— Só sua decisão...— os soluços do choro emocionado a impediam de formular corretamente a frase. — Só de voltar comigo, de querer parar com essa loucura, só isso basta.

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Não basta. Eu entregarei minha vida a você, Miyako, viverei todos os meus dias dedicando-me a sua felicidade. Serei seu eterno escravo, enquanto eu respirar.— cativou-lhe as mãos levando-as aos lábios. — Eu prometo a você. Quero te dar muitos filhos e nossa casa será feliz, calorosa e aconchegante e vamos fazer durar por toda vida.

Ela poderia brincar que aquilo soava brega, bobo, piegas, exagerado, mas era tudo o que precisava ouvir, mesmo sendo guerreira, inovadora, progressista, aquelas palavras tolas, que pareciam ter sido extraídas de poemas de Camões, lhe invadiram a alma sensibilizando-a ainda mais… Ela merecia ouvi-las, precisava apreciá-las, jamais debocharia delas, queria poder guardar-las em um baú o qual pudesse abrir sempre que necessitasse escutá-las novamente, declaradas com tanta autenticidade, tanto fulgor.

Fremente, a violácea apertou o rapaz em um abraço asfixiante reivindicando-lhe os lábios, sedentas e apreciativas, as línguas escorregaram-se uma pela outra sorvendo toda entrega mútua, transmutando-a em regalo, ocasionando apelos exorbitantes, onde as flamas do libido se impunham a sentenciar que as roupas já não tinham finalidade em conservarem-se em cena.

As bocas quase não se desuniam ao passo que as mãos, afoitas, se desnudavam, livrando-se das vestes, lançando-as para qualquer lugar, aturdidos por um contato mais profundo entre os corpos. A textura da pele, o calor, o pulsar das veias, a eletricidade a sensação etérea de uma entrega convicta, sem dor, sem culpa ou arrependimento.

E todas as preliminares foram deixadas de lado, pois no momento o prazer não vinha em primeiro plano, sendo apenas complementar. Os corpos quedaram-se sobre os lençóis macios, enroscando-se, apertando-se, entre beijos sôfregos e gemidos abafados, declarações genuínas em falas entrecortadas, banhadas em lágrimas de comoção. Gestos e sensações conflitando-se em um emaranhado de tecidos, peles e cabelos a se misturarem em um frenesi abstrato.

Já inconscientes, ébrios, guiados pela ânsia de pertencerem uma vez mais, definiram-se na mais primitiva e natural das posições onde Ken estendia-se sobre o corpo de sua amada, invadindo-lhe o invólucro pulsante e febril, enterrando-se em seu âmago úmido e cálido e lambuzados em libido, acenderam-se em paixão.

Sem medos, sem culpa, sem barreiras e limites fundidos em um, entrelaçados, braços e pernas, sentidos e almas, numa cadência perfeita, na prazerosa cinesia romântica, a combinação entre amor e luxúria espalhando-se em partículas de eletricidade pelo ar, emanando química perfeita.

Ele queria olhá-la nos olhos enquanto constavam-se fundidos naquela entrega absoluta. Já não lhe apetecia ficar em posição de controle, mas sim planeava partilhar igualitariamente da magia de conduzir a majestosa dança prazerosa entre os corpos. Inclinando-se e sentando-se sobre o leito, desfez o contato e, induzindo-a Miyako a se levantar, a trouxe para seu colo, posicionando com as pernas a envolver-lhe os flancos, encaixando-a e lentamente penetrando-a uma vez mais.

E em ritmo desacelerado, contemplou-a escorregar vagarosa, engolindo-o milimetricamente, enquanto ele a sustentava pela tênue cintura. O rosto da garota contorcia-se em múltiplas expressões de prazer, a boca semiaberta e os olhos oras fechados, oras desfocados perdidos em deleite. O gênio confundia-se no emaranhado de sensações : escorregar-se tão fundo para dentro dela, o membro espremido, esmagado contra as paredes apertadas que latejavam ao seu entorno, misto a deleitar todo reflexo fulgurante da satisfação proporcionada a amante, aos salazes estímulos sonoros que os gemidos femininos repercutiam pelo ar.

Inoue, no que lhe concerne, abriu os âmbares a encantar-se com o êxtase presente nos traços delicados da face de seu amado. Adorava estar preenchida por ele, amava o dar prazer, pertencê-lo e partilhar ao compasso daquela dinâmica voluptuosa. As mãos apoiavam-se nos ombros do amado, os joelhos buscando apoio sobre o leito e os quadris subindo e descendo, girando lado a lado em um rebolado vigoroso acentuando o friccionar entre as pelvis, surrupiando deliciosas sonoridades dos lábios masculinos.

Os olhos se encontraram, vívidos, dilatados, refletiam-se em desejo, cúmplices e familiarizados, reluzindo-se em afeto na busca total das cores um do outro e toda sua vibração, os lábios buscaram uma vez mais e as línguas orlaram-se banhadas pela seiva da cupidez que os impeliam àquela rendição.

O colo palpitante de Miyako imprensava-se contra o tórax de Ken, enquanto, as bocas degustavam-se vorazes, os montes macios de picos rijos e rosáceos amassavam-se contra a pele masculina, difundindo mais sensações. O toque do gênio dividia-se entre a cabeleira violacea e escorregar-se pelas formas laterais de sua amante, memorizando-as e apreciando-as como já fizera tantas vezes, vagando cintura e flancos, quadris e coxas traçando a mesma trilha em um deleitoso retorno, permitindo suas palmas baixarem vagarosamente pelas costas, acariciando o traseiro arredondado, seguindo e impulsionando a cinesia perfeita.

E não havia luta para dominar o ato, a sincronia e dualidade estava na medida certa, mas ela gostava quando ele a segurava pelo bumbum e cadenciava toda a performance, alcançando-lhe fundo e em pontos onde desejava ser atingida sequencialmente, inúmeras e precisas vezes, o quão impetuoso ele se arremetesse dentro de si. Extasiada mordia-lhe os lábios, puxava suavemente os cabelos escuros, propriamente os fios próximos à nuca, reação que ele bem conhecia e apreciava; gesto mudo implorando para ser invadida com mais robustez.

E assim era… Os corpos já não se comportavam mais em anseios e o frenesi tomava conta de tudo, o ato se intensificava e os gemidos sonorizavam-se pelo ar. Ele a queria, ela o queria… Mais rápido, mais fundo, mais entrelaçados, por mais vezes, para sempre. Beijos, mordidas, palavras salgadas pelo suor que já lhes banhavam os corpos. Unhas, cabelos, dele, dela… Calidez, fricção, pressão, os lençóis se emaranhando a volta dos corpos, o mundo já sem som e sem cores, as cabeças girando enevoadas, nirvana, utopia, estrelas, paraizo, a erupção de um ápice total, um brinde de sensações e emoções profundas…

E tudo se acalmava, tornava-se branco, o mundo ainda sem som, a cama ainda sem existir sob seus corpos, corpos estes que se apertavam como se de fato estivessem fundidos e inseparáveis, atados pela eternidade. E nenhum dos dois queria quebrar aquele maravilhoso enlace, mas a gravidade, megera destruidora de magia, puxava os troncos, que exauridos quedaram-se sobre o leito acolchoado.

Obrigados pela física, separaram-se entre risos fracos e lânguidos entregaram-se a prostração pós-orgástica, enquanto leves choques agitavam seus músculos em pequenos espasmos e ondas de prazer. As mãos jaziam pesadas, sem forças para se entrelaçar ou trocar carícias e, um silêncio confortável os apaziguava enquanto o frescor do ambiente ventilava-lhes a pele. Ficaram a fitar o teto do local, onde já se amaram por tantas vezes, enquanto rememoravam momentos e recuperavam energia, concluiam que nenhuma vez fora como aquela, deliciosas sim, mas com tanta alma, com tanto envolvimento essa era inigualável, os sorrisos se alargaram com a constatação.

— Eu te amo. — declararam em uníssono e riram-se com a coincidência.

— Se for um sonho eu não quero acordar. Você vai mesmo comigo? — ela murmurou oscilante e ele a puxou para si a acolhendo em seu peito, acariciando as madeixas embaraçadas pelo suor.

— Eu vou sim, mas… — sussurrou de volta e parou antes da conclusão.

— Mas? — de súbito, a violácea ergueu a cabeça para fitá-lo.

— Eu preciso destruir meus rastros, apagar minhas experiências, pois de nada adiantará ir embora e deixar meu posto para ser ocupado por outro.— confessou seus receios e futuras medidas.

— Não é como se existisse outros escolhidos por aí, querendo dominar este mundo.— parte dela temia o perigo, mas outra gritava para levá-lo consigo o mais rápido possível.

— Você não sabe, nós não temos como saber, até porque eu bloquiei o acesso dos escolhidos mundo afora que possuem o dispositivo padrão, como os dos veteranos.— relembrou o motivo de apenas o novo grupo conseguir entrar no Mundo Digital.

— Amor, você acha que se não destruir todos os rastros como Kaiser, alguém pode mesmo te usurpar?— indagou horrorizada.

— Talvez não agora, mas supondo que daqui a anos, alguém curioso venha para este mundo e descubra essa base e tudo o que guardo no meu sistema, no laboratório, as possibilidades são infinitas.— analisou sabiamente, traçando diversas possibilidades mentalmente.

— Olhando por este ponto, e… Todos nós vamos estar absortos demais em nossas vidas, com família, trabalho e filhos, não poderemos vir lutar contra um novo inimigo e tudo que fizemos até hoje será em vão.— ela fez sua, a preocupação do rapaz.

— Não vou permitir que isso ocorra, destruirei cada registro, cada arquivo e explodirei essa base. — assegurou convictamente.

— E as Torres Negras serão desativadas?

— Então, usarei o controle que tenho sobre os Digimons locais para fazer com que eles as destruam, como eu disse, melhor não deixar rastro algum, nem mesmo Torre desativada.

— Então creio que terei que esperar um pouco para te levar de volta comigo, não é? — ciciou lamentosa.

— Assim parece que estou adiando — ofendeu-se fitando-a com seriedade.

— Entenda-me, estou ansiosa para acabar com tudo isso de uma vez.— A justificativa veio de pronto.

— Eu compreendo.— acariciou-lhe a maçã do rosto com as pontas dos dedos. — Também me sinto da mesma forma, mas se vou partir, que seja com a consciência limpa.

— Tem toda razão, ficarei a contar as horas, mas estou imensamente feliz com suas decisões. Só tem um último ponto que não posso deixar de pressionar.

— E qual seria esse ponto tão crucial?

— Wormmon, é claro. — salientou e viu o gênio tensionar os músculos.

— Miyako, eu não sei se quero falar sobre isso.

— Deve falar Ken! Você tem um dispositivo, é um escolhido e Wormmon é seu parceiro, em todo esse tempo respeitei seu espaço em não querer falar sobre esse assunto, mas agora já que vamos recomeçar juntos, é ideal que coloquemos todas as questões em pauta.

— Ainda não sei dizer ao certo como me sinto sobre esse assunto. — murmurou inseguro, desviando o olhar.

— Então quero salientar que aquela criaturinha esteve contigo nos seus momentos de abandono e loucura, mesmo você se voltando contra espécie dele, dominando e escravizando, transformando seu mundo em um caos, mesmo ele não concordando esteve ao seu lado, pela pessoa que sabe que você é de verdade.

— Pela pessoa que realmente sou?

— Sim, desde as primeiras vezes que conversei com Wormmon, ele me diz que você era mais que aquele manto de crueldade e loucura, que era gentil, doce, uma pessoa com o coração ferido, cujas dores das feridas o fazia agir descomedidamente.

— Ele disse isso? — as sobrancelhas se arquearam.

— Não com essas palavras, mas disse, não uma vez, várias. Por muitas vezes ele me fez parar e voltar para te fazer companhia, me atentou para coisas que eu não era capaz de enxergar e ouso dizer que se chegamos onde estamos foi por muita ajuda dele.— clarificou destacando a posição de Wormmon e toda história.

— Realmente não sou mais a pessoa que Wormmon conheceu no passado, porque nem me lembro de como eu era direito antes... antes de vestir esse manto, mas as vezes tenho memórias cortadas, lembro-me de estar em solo arenoso, com uma chuva de areia a me assolar. Eu parecia estar com um garoto maior e com Wormmon, o inimigo era só uma silhueta.

— Então você acha que já lutou por este mundo um dia? Já lutou ao lado de Wormmon, mas agora não se lembra.— era difícil para a garota tentar imaginar a possibilidade, mas não desacreditava.

— Pode ser, é tudo estranho, confuso e quando tento buscar essas memórias a minha cabeça dói, mas lembro-me de que meu digivice era como os dos veteranos, antes que eu o banhasse em uma imensidão de águas negras. As águas do mar que me assombra até hoje. A impressão é de que eu vendi a alma para o diabo quando aceitei conhecer as trevas, para me esquecer das dores do mundo, agora elas sempre vem me assombrar. — ele buscou recordações dolorosas.

— Vendeu a alma? Quando se rendeu às trevas? Você diz, quando fez a transformação no seu dispositivo, sua mente apagou memórias dolorosas, mas apagou Wormmon e seu possível colega digiescolhido do qual você não consegue se lembrar?

— É por aí, é tudo muito confuso, então não sei muito sobre o que falar com ele.— Só em pensar no assunto sentiu uma pontada aguda de dor em sua nuca, mas não quis revelar.

— Seja sincero, se abra como fez comigo, diz o que você sente, tenho certeza que ele vai ficar feliz com esse seu recomeço, talvez…

— Talvez?

— Bom, talvez depois podemos levá-lo para conhecer o mundo real. Normalmente levamos nossos parceiros para lanchar e cantar nas cabines privadas de karaoke. — Ela fez uma expressão sonhadora, considerava Wormmon tanto quanto Hawkmon e sabia que a pobre criaturinha merecia ser feliz.

— Hey, um passo de cada vez, não vamos sonhar tão alto. Quando as coisas estiverem resolvidas no nosso mundo, aí sim pensaremos em passeio. — Ken reconhecia a necessidade de manter prioridades.

— Mas falará com ele amanhã? — insistiu a garota.

— Eu vou tentar. — suspirou derrotado.

— Não vai ser tão difícil, no fundo existe uma parte dentro de você que reconhece toda fidelidade e amor que Wormmon lhe devotou, tenho certeza que essa parte terá algo a dizer para ele.

— Hum...— se perdeu em divagações por momentos. — Agora que tal a gente tomar um banho quentinho? — sugeriu de modo a mudar de assunto.

— Só se você me levar no colo?— negociou em tom manhoso.

— Agora você quer colo? Todas as vezes que te ofereci você recusou e respondeu com tom ofendida. — imitou a voz da garota:— Eu posso andar sozinha.

Ela riu-se acaloradamente.

— De fato eu posso andar, mas quero colo, vai desertar? — provocou brincalhona.

— Não por isso. Vou encher a banheira e já volto para buscar a princesa.— selou um beijo terno nos lábios de Inoue e escorregou para fora da cama indo rumo às instalações de banho, sem preocupar em esconder sua nudez.

Miyako se pôs a fitá-lo em seu percurso, espreguiçando morosa pelos lençóis, um sorriso de realização queimava em seus lábios, ela soltou um suspiro profundo e apaziguado.

(...)

No tempo em que ficaram juntos dedicaram-se somente um ao outro, traçando planos para a nova vida que iniciariam a partir dali, quando as horas marcaram o limite para a garota, despediram-se com a promessa de se verem durante a semana, Ken julgava que não levaria mais que isso para destruir seus rastros como Kaiser.

E na manhã de segunda-feira, Miyako parecia simplismente a pessoa mais feliz do mundo, assim como seu amado, após a apaixonada despedida, ela trocou de lugar com Bakemon, já preparada para seu dia letivo.

Poromon voou para a parceira, os grandes olhos azuis cheios de dúvidas.

— O que aconteceu com você, Miyako-chan? Você está diferente.

— Diferente como, Poromon? — perguntou com um sorriso luminescente.

— Não sei, mas até seus cabelos e sua pele estão diferentes, mais vistosos e você parece tão feliz!

— É porque estou mesmo. — o apertou em um abraço, girando com ele pelo quarto. — Eu consegui Poromon, Kaiser não existe mais.

O Digimon caiu sobre a cama com os olhos girando.

— M-Miyako-chan, você matou ele? — a pergunta saiu inocente e arrancou uma crise de risos da violácea.

— Não, seu bobo. Ken vai voltar para este mundo, vai deixar o manto de Kaiser, dar uma chance aos pais, libertar os escravos e apagar os planos malignos. — ela se atrapalhava ao relatar, era tanta emoção que quase não lhe cabia no peito.

— Como é? Me conta essa história direito menina. — ele tentou se recuperar, voando em volta da parceira.

— Vou contar, mas não agora. Vamos manter isso só entre nós por enquanto, tudo bem? Ele ainda vai ficar por lá mais uma semana para resolver as coisas, mas no sábado voltará comigo para residência dos Ichijouji.

— Manter entre nós? Então você não vai contar para os pais dele ou para os demais escolhidos?

— Não creio que seja boa idéia, melhor contar na hora certa. Mas agora estou atrasada, vou indo. — beijou o pequeno corpo róseo e apanhou a mochila, correndo para fora do quarto. — Ah, você já tomou café com Bakemon?

— Sim, sim… Vá tranquila, sairei pela janela para encontrar com os outros. — anunciou o Digimon, divertindo-se com a parceira se atrapalhando na porta.

— Ok, então até mais tarde. — mandou um beijo no ar.

— E não é que ela conseguiu… Essa Miyako.

Ela era o reflexo da felicidade, nada importava, olhares tortos, julgamentos, apontamentos, sua vivacidade espalhava-se com uma energia, era visível seu contentamento. Poderia dançar pelas ruas, poderia dançar Baby One More Time e até imaginou a cena, como em um musical, sendo acompanhada por todos os alunos e professores.

Mas todo o contentamento daquele dia passou quando ela chegou em casa e não recebeu nenhuma mensagem de Ken. Tentou ser paciente e dar tempo a ele, sabia que estava envolvido em algo complicado, que era apagar rastros, mas algo dentro de si a deixava inquieta.

Olhou-se no espelho e pediu calma para si mesma, tentou focar sua atenção nos estudos, em comida, nas irmãs, televisão, músicas, mas nada a apaziguava e uma sensação sufocante de que algo errado estava acontecendo, contraiá-se em seu estômago.

Consecutivas vezes, Miyako tentou comunicação com o gênio, mas sem obter nenhuma resposta, sentiu-se caindo em um abismo, dúvidas e culpa a corroiam lentamente. Poromon não sabia o que fazer pela parceira, temia que Kaiser a tivesse enganado e feito troça com suas expectativas, preparando algo maior, mas reconhecia que viu sentimentos verdadeiros fluindo por parte do gênio enquanto Inoue recuperava-se na base campestre e, se era ele o guerreiro Digimon que vestia a armadura com brasão do amor, como não seria capaz de reconhecer a representação genuína quando a visse? Então, o que, de fato, estaria a se passar naquela base?

Para piorar ainda mais a situação, a segunda geração decidiu se encontrar em uma sexta após as aulas para partirem em missão, como vinha sendo de costume, aproveitando-se do feriado de “uma semana” que teriam. Partiriam da casa de Takaishi, pois mesmo que Tachikawa insistisse que poderiam voltar a usar sua casa, neste recesso a rosada estaria viajando para o exterior. O que tornava impossível para Miyako recusar-se a se ausentar em missão, uma vez que era vizinha de Takeru.

E lá estava ela, aprontou uma mochila com provisões para todos, mas como sua cabeça estava anuviada, esqueceu-se dela sobre o sofá de sua casa. Ao chegar ao apartamento do amigo, a equipe já estava pronta para partir, a novidade do dia era que Yamato ficaria lá para dar o suporte que normalmente era feito por Izumi.

Um clima desconfortável se instalou com a chegada da violácea, ele gostaria de dizer que fora em missão de paz e não estava ali para julgá-la, mas para o Ishida falar sobre sentimentos era uma tarefa árdua e por vezes as pessoas consideravam como se ele não os possuísse. Olhou-a de canto, cumprimentou em um aceno breve e limitou-se a pedir que eles não se demorassem.

Ela sabia o jeito dele, apesar dos pesares os dois sempre se deram muito bem, foi ela que por diversas vezes salvara vários de seus shows com suas mixagens e sugestões de encaixes sonoros e instrumentais, isso antes dele decidir tomar as dores de Izumi, algo do qual ele se arrependia , mas não deixaria transparecer, mesmo que devesse. Raios, todos eram amigos… eram…

Takeru pigarreou, Hikari colocou uma mecha de seu curto cabelo castanho para trás da orelha, Iori mantinha os braços cruzados frente ao peito, e Daisuke fez seu papel de líder e quebrou a eletricidade negativa e desconfortável do ambiente, dando passadas à frente direcionou o dispositivo para a tela do PC murmurando um breve ‘vamos nessa!”

O coração de Inoue doeu imensamente quando materializou-se em meio a um campo de vegetação rasteira cujas Torres Negras se podia avistar de todos os ângulos, ativas e imponentes ainda a causar o caos.

Nada mudou? Nada mudou e tudo o que ela queria fazer era gritar, chorar, praguejar, deitar no chão e se encolher em posição fetal e chorar todas as suas mágoas, dúvidas e frustrações, esbravejar, chutar, espancar o que se pusesse a sua frente, extravasando toda sua ira, em vez disso respirou fundo, assumiu sua postura e deu o comando para que seu parceiro evoluísse, começando a fazer sua parte na destruição das Torres Negras.

E o tempo passou e no local combinado a equipe se reencontrou, agora a mochila com os alimentos que eram responsabilidade de Inoue, fazia falta. Sentindo-se mais culpada por sua cabeça estar aturdida e embaralhada, ela apenas encolheu-se murmurando um ‘sinto muito.’

Eles não se zangariam, não a culparia por isso, de certa forma, mesmo sem saber ao certo o que estava se passando com a amiga, podiam sentir que a situação estava complexa. Tentavam dar espaço para que ela desabafasse no seu tempo, mas não saberiam dizer até quando.

— Tudo bem, não se preocupem, Patamon e eu encontramos um restaurante perto de um lago, podemos comer lá. — Takaishi sugeriu simplificando as coisas.

Todos olharam na direção apontada pelo loiro, avistando o restaurante, os Digimons, cujas barrigas roncavam sonoramente, pularam e comemoraram e em segundos eles chegaram e adentraram local e, a garota estarreceu com quem era o dono do estabelecimento; era Digitamamon, e pela surpresa com que ele a encarou era exatamente o mesmo que servia a Kaiser sem nem sequer precisar de uma Espiral Negra.

Os amigos passaram pela soleira da porta e sentaram-se já folheando o cardápio, famintos, mas ela precisou de um certo tempo e só após Hawkmon lhe chamar atenção algumas vezes, decidiu adentrar o local e se juntar a equipe. Em sua mente vários questionamentos circulavam, talvez aquele Digimon soubesse de algo? Por hora era melhor comer e descansar um pouco, afinal as coisas não poderiam ficar piores do que já estavam.

O pedido foi feito e, enquanto aguardavam foram discutidas formações de ataques e áreas a serem libertadas, Miyako tentava se concentrar, Hikari procurava uma brecha para se aproximar sem ser invasiva e talvez fazer a mais velha desabafar, Iori acumulava um rancor discreto em julgar que Kaiser tivesse despedaçado a garota de alguma forma, que não incluía Inoue ter se apaixonado, pois isso seria imperdoável.

Quando servidos, os únicos a saborearem os pratos com intensidade foram os Digimons, pois os humanos estavam preocupados e absortos demais em problemas e só comeram mesmo para repor energias. Ao terminarem, Miyako, por se sentir culpada em ter esquecido a mochila, se levantou e se ofereceu para pagar para todos, sem lhes dar tempo de recusa, também estava nos seus planos especular informações com Digitamamon.

Rispidamente, como quem confrontara um inimigo, o Digimon ovo se recusou a receber o dinheiro da violácea, justificando que só trabalhava com dólar, o que a deixou nervosa. Ele nem sequer lhe deu tempo de questionar sobre Kaiser, mas sentiu que ele a julgava como uma traidora entre os amigos.

— Você...— cerrou os punhos ofendida com a recusa do Digimon ao seu pagamento. — Não acredito em você, está fazendo isso por maldade. — acusou irritadiça.

— Sobre fazer algo por maldade você entende bem, não é? — retrucou desaforado.— Mas eu, de fato não estou, este é um negócio honesto, decidi mudar de vida, não faço mais nada por maldade. Devemos saber a hora de sair de cima do muro.

— Se tem algo para me dizer deveria sair da casca e ir logo ao ponto. O que quer de nós afinal, que trabalhemos como seus escravos?

— É, eu me lembro! — Takaishi se levantou alarmado.— Me lembro de você, quando éramos crianças, você enganou meu irmão e Joe-senpai, para trabalharem pra você. Naquela época você servia os Mestres das Trevas! — com essa revelação todos se postaram em posição de defesa e o clima pesou ainda mais.

— Isso é verdade, mas agora estou tentando seguir a vida honestamente, cansei de servir as trevas. Tudo que estou pedindo é para ser pago corretamente. — alegou parecendo ser franco.

— NÓS NÃO TEMOS ESSA PORRA DE MOEDA AMERICANA! — Miyako extravasou sua ira de uma vez.

— Tudo bem, eu ficarei feliz em pagar. — Uma voz suave e gentil, chamou atenção de todos.