Notas iniciais
Este capítulo é apenas uma (tentativa) de introdução ao personagem principal. Outros tendem a vir.

(talvez)

Cada * representa um termo ou frase que talvez precise de explicação. Neste caso, são usados apenas para trazer a tradução de frases em inglês.

A luz sutil do amanhecer banha os móveis organizados de forma convencional no pequeno quarto. A visão é agradável, até mesmo poética quando analisada de fora. A cama, a mesa logo ao lado. Livros espalhados por prateleiras nas paredes, apoiados em plataformas no chão e alguns cadernos de desenho próximo ao jovem que encara o teto sem piscar. A combinação é harmônica, como se retirada de um quadro de Van Gogh.

Calebe apoia-se na cabeceira da cama e xinga mentalmente o processo de adaptação que fez o ser humano desenvolver o relógio biológico. São seis da manhã em pleno fim das férias da faculdade, a pior combinação possível que passa por sua cabeça no momento. Ele olha para baixo, analisa o próprio corpo; fita o contraste entre a samba-canção azul e sua pele morena, a barriga que se move em consonância com a respiração. Contempla o formato egípcio dos dedos do pé que sempre lhe trouxe uma estranha satisfação.

Desde criança que os encaixes o encantam. Formas, faces, vértices, profundidade, cores. Tudo parecia contar algo, mesmo que fosse taxado de “um monte de rabiscos aleatórios”, como ouviu diversas vezes de seus pais e do seu irmão gêmeo, mais um caso de personalidades opostas. Mesmo com dezenove anos, a sensação de observar um objeto artístico sempre lhe parecia nova, o renovando por completo.

Por um momento, Calebe desiste das insistir nas tentativas frustradas de ter um sono descente e só observa o local em que está, o contexto que ele forma.

Admira, absorve. Os traços, a paleta, a composição. Tudo se junta de uma maneira magnífica. Seu peito se enche de melancolia, grita para que este momento seja eternizado por suas mãos, assim como tantos outros já registrados no monte de cadernos juntos sobre a mesa.

Sua cabeça se inclina à esquerda e encara a pilha. Ocasiões, sentimentos, sonhos e frustrações, tudo compilado de uma maneira caótica, mas que segue uma ordem na cabeça do jovem artista. Alcança o topo do amontoado sem esforço e sente com vontade o toque do seu lápis favorito na mão. O contato é eletrizante, prazeroso, familiar, fazendo-o lembrar que sempre terá um abrigo na arte. Seu pulso se flexiona e novas linhas vão nascendo, se juntando e ganhando vida. Também lhe dão vida. As preocupações soam distantes quando o lápis se move rápido e suave sobre o papel amarelado, construindo o quarto sob a sua percepção. Traços distorcidos, desconexos à primeira vista, mas mágicos, profundos.

Calebe admira o papel por um momento e aproveita a sensação prazerosa que percorre o seu corpo. Energia. Vida. Já a sentiu inúmeras vezes no decorrer da vida, mas não se cansa. É viciante.

De repente, seu olhar se volta para o resto do cômodo. A luz projetada pela janela é mais forte e o atinge nos olhos, forçando uma careta. O relógio de ponteiro na parede bem a sua frente confirma que um bom tempo havia decorrido desde as seis da manhã.

Passa alguns minutos das oito horas. Chegou a hora do seu ritual.

Seus pais só voltam do trabalho perto do meio dia e seu irmão continua em treinamento intensivo na base militar do estado, na capital. Tudo isso lhe confere a liberdade de poder abrir a sua playlist e permitir que o modo aleatório o guie pelos cômodos no volume máximo. Quando se fala de ritual, Calebe leva a sério. Esse processo se repetia todos os dias com rigidez, já que foi o método mais eficiente para evitar que o mau humor o atingisse todos os dias, como de costume.

Como sempre, o aleatório parece acertar.

LADY GAGA & BEYONCÉ – TELEPHONE

As batidas da música são copiadas automaticamente pelos pés do garoto, que dança exageradamente com passos que nunca seriam revelados em público. A música o acompanha até o banheiro, finalizando em uma pose estilo just dance. A playlist se encarrega do próximo passo imediatamente.

Calebe encara o reflexo proporcionado pelo espelho e imerge nos próprios pensamentos quando a discografia de Lana Del Rey se inicia. Desvia o olhar do espelho e direciona para baixo. Fita o antebraço direito com a tatuagem de uma onda feroz, ultrapassando o limite de um triângulo de ponta cabeça.

“Mar calmo nunca fez bom marinheiro.”

Calebe ri de si mesmo quando o clichê ecoa em sua cabeça, mas sabe que faz sentido. Relembra a necessidade de se manter firme se quiser mesmo levar a frente a ideia de fazer alguma mudança no mundo.

Encara novamente o espelho, coloca um cacho atrás da orelha e se vê obrigado a trocar a música, um pouco desacreditado do senso perfeito que o seu modo aleatório costumava ter.

Num sonho utópico, sua arte será importante para livrar alguém da toxidade do resto do mundo. Precisa aguentar um pouco mais para vê-lo se concretizar. É este o seu mantra diário.

Um sorriso de orelha a orelha toma conta do garoto ao reconhecer a melodia que começa logo em seguida.

BJÖRK — UTOPIA

“Let’s purify [...]”*, ele sussurra junto com a música. “Purify, purify, purify toxicity”**.

Notas finais
* "Vamos purificar [...]"
** "Purificar, purificar, purificar a toxidade".

É isto! (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.