Cada peça no universo voltou ao seu respectivo lugar, o mundo entrou nos eixos e um peso doloroso se dissipou por completo do meu coração. Ainda assim, preciso de mais. Mais de Bruce, do seu toque, mais do calor do seu corpo junto ao meu. É uma saudade... Não, uma necessidade que não tem fim. É como respirar quando se está vivo. Essencial.

Da mesma forma que buscamos o oxigênio sem perceber, me aconchego nos braços de Bruce no meio da noite. E, ao notar que ele está acordado, pois envolve minha cintura com um braço e entrelaça minha mão, não penso duas vezes antes de partir para cima dele.

Pouco importa se já fizemos isso no começo da noite, simplesmente o quero de novo. Porque preciso dele. De nós.

Mostrando que também sente a mesma necessidade, Bruce me acorda com uma carícia suave no ombro e um beijo doce em meu pescoço, pouco antes do Sol lançar seus primeiros raios através da cortina. Viro-me em sua direção, pronta para abraçá-lo e amá-lo mais uma vez.

Bruce apoia a testa na minha por um instante, o corpo pesando sobre o meu pouco a pouco, enquanto enrosco as pernas nas suas e envolvo seu rosto com carinho. Entre lençóis amarfanhados, nos perdemos um no outro novamente. E nos encontramos ao mesmo tempo.

Sempre nos encontramos.

[...]

Pela manhã, me desvencilho dos braços de Bruce e saio da cama sem fazer barulho. Ele está dormindo tão profundamente que seria uma pena acordá-lo. Observo a serenidade estampada em seu semblante e sorrio de leve antes de seguir para o banheiro, onde tomo um banho rápido para terminar de despertar.

Algum tempo depois, enquanto sirvo o cereal para um Alex ainda de pijama na cozinha, penso que eu deveria estar desconfiada dessa verdadeira maré de sorte. Bruce voltou, são e salvo, finalmente podemos retomar de onde paramos e tudo está indo muito bem entre nós. Já me senti feliz assim antes, e foi então que as coisas desandaram completamente.

Por tudo que aconteceu há quase quatro anos, talvez eu devesse me agarrar a essa desconfiança, mas, para minha surpresa, não fico com um pé atrás. Prefiro confiar na vida dessa vez a supor que o futuro nos reserva algo de ruim. Não, dessa vez nada nem ninguém vai separar Bruce, Alex e eu. Ninguém vai bagunçar nossas vidas de novo. Ficaremos juntos custe o que custar.

— Mamãe?

Pisco algumas vezes, despertando desses pensamentos, e olho para o pequeno rapazinho sentado ao balcão diante de mim.

— Sim, meu amor?

— O leite não vai cabê.

Alex olha de mim para a vasilha, levando-me a fazer o mesmo. Só então percebo o quanto me distraí, pois ainda estou derramando o cereal dentro do recipiente.

— Ai, meu Deus! — Uma risada me escapa e paro o que estava fazendo. — Você tem razão. — Analiso a verdadeira montanha de cereal e penso numa solução. — Vamos precisar de algo maior.

Faço um carinho nos cabelos desgrenhados do meu filho e caminho até um dos armários. Volto com uma vasilha mais larga e funda, para onde transfiro a montanha de cereal. Depois de regar tudo com uma quantidade generosa de leite, pego duas colheres, entrego uma delas para Alex e sento ao seu lado.

Arqueando as sobrancelhas, lanço um desafio:

— O que me diz? Atacar? Um, dois...

Ele sorri empolgado e, queimando a linha de largada sem cerimônia, passa para dentro a primeira colherada do café da manhã.

Finjo choque.

— Isso foi golpe baixo!

Mergulho minha colher no pote também, porém antes de levá-la à boca, o Hulk — nosso cachorro, não o Vingador, claro — arranha a porta da cozinha, querendo entrar como faz todas as manhãs.

— Deixe um pouco para mim, espertinho — alerto Alex de brincadeira, levantando-me para atender a versão fofa do Cujo.

Logo que adentra a cozinha, o são bernardo dá um pulo e me desequilibra um pouco com suas patas pesadas. Afago as orelhas peludas, e ele abre a bocarra num tipo de sorriso canino encantador.

— Bom dia para você também.

Apesar de gostar de mim e ter me perdoado, há muito tempo, por tê-lo atropelado um dia, não demora muito para eu ser preterida. Como costuma ser sempre que Alex está por perto, o cachorro passa por mim e corre na direção do meu filho, abanando o rabo para ele e sendo correspondido com um abraço desengonçado que me faz rir.

[...]

Depois do café da manhã e de trocar o pijama de Alex por roupas normais, sento-me no balanço da varanda e assisto aos dois correndo pelo jardim. Entre risos e latidos, a diversão reina sob o Sol morno. No auge de seus seis anos, o Hulk esbanja energia em cada pulo e disparada. Tal como Alex, prestes a completar metade disso.

Além da festa de aniversário dele em um mês, tenho que decidir algumas coisas sobre a cerimônia de casamento.

Duas semanas, meu Deus. É pouquíssimo tempo para organizar tudo. Pensando assim, me acomodo melhor no balanço com o tablet no colo e faço duas listas de tarefas para cada evento.

Depois de definir os pontos principais sobre o aniversário de Alex e elaborar um breve cronograma, parto para a segunda lista e faço uma busca na internet por ateliês de noiva. Vejo alguns modelos de vestido, bufantes demais para o meu gosto, e sigo garimpando à procura de algo mais delicado e simples.

A cada modelo que vejo, sinto uma dificuldade esquisita em me concentrar e a ponta do dedo mancha a tela com um suor inesperado. Engulo em seco e, de repente, sou transportada para uma lembrança sombria. Eu vestida de noiva em frente a um enorme espelho e a voz daquela mulher, a detestável e perigosa Nadia Sterns, atrás de mim, perguntando se eu preciso de ajuda para tirar a peça.

Uma palpitação comprime meu peito quando me lembro da sequência. Da maneira como ela me rendeu naquele dia, o dardo tranquilizante em minha nuca, a dor e a sensação de formigamento que rapidamente se espalhou pelo meu corpo, deixando-me zonza e vulnerável.

Tal como naquele dia, levo a mão à nuca por instinto. Não há nenhum dardo hoje, porém a lembrança se torna mais vívida mesmo assim. E quando olho para o tablet em meu colo de novo, a tela está embaçada por uma neblina que deixa minha visão turva.

— N-não... — murmuro, sentindo-me meio sufocada.

Fecho os olhos com força. Em algum lugar da minha mente, a voz de Nadia debocha num eco sem fim:

“Shhhh. É melhor não falar nada agora, querida. Você vai apagar logo e está tendo dificuldade para formar as palavras. É uma imagem deprimente, acredite.”

Com um esforço, lembro da promessa que fiz a mim mesma, sobre não permitir que Nadia e seu maldito filho assombrem minha vida. Eles estão mortos, enterrados no mar ou no inferno, não podem me ferir agora. Com raiva por ter fraquejado, obrigo-me a deixar o passado para trás, trinco os dentes e repito mais alto:

— Não!

O mundo fica silencioso por um momento até que...

— Mas você já me disse sim.

Abro os olhos e , de canto, vejo um par de pés no assoalho da varanda. Então, ergo a cabeça e fito o homem em pé ao meu lado. Fiquei tão absorta em lembranças ruins, que não ouvi quando ele abriu a porta da nossa casa.

Apesar de desnorteada ainda, sua presença me deixa mais calma e o ar volta aos meus pulmões.

— Bruce...

Ele pode ter feito uma brincadeira há pouco, porém agora está nitidamente preocupado. O cenho franzido, o olhar cravado em mim como se pudesse enxergar além dele, a minha alma.

— Você está bem?

— S-sim! Estou ótima.

Nós dois sabemos que é mentira, claro. Sou transparente demais para enganá-lo assim.

Provando que não está mesmo convencido, Bruce se senta ao meu lado e segura minha mão com carinho. Com seu toque, me acalmo mais um pouco.

— Com base nos meus sete doutorados, eu diria que não parece. O que houve?

O que eu posso dizer? Não imaginei que o vestido de noiva fosse virar um gatilho, mas 1. não vou deixar isso acontecer de novo e 2. não quero preocupar Bruce com isso.

— Nada, eu só...

Não encontro palavras e me calo para refletir melhor. O que acaba se revelando uma péssima ideia porque lembro que Nadia e Phillip me usaram para atingir Bruce e o quanto eu odiei ter me visto como o calcanhar de Aquiles dele. Imaginar a angústia que Bruce sentiu naquele covil oceânico ou quando ele voltou para Nova York para me proteger de uma ameaça misteriosa, tudo isso me faz questionar se...

— Tem certeza que é isso mesmo que você quer?

— Como assim?

Volto-me para ele, fazendo o balanço oscilar um pouco sob nós.

— Casando comigo, não tem volta — disparo, atropelando as palavras. — Fique sabendo, eu não vou te dar o divórcio.

Bruce une as sobrancelhas e algo muito parecido com um meio sorriso perpassa seu rosto.

— Eu não estou entendendo o que você quer dizer.

Parabéns, Amelia! Você não está fazendo mesmo o menor sentido...

Decido argumentar de outro jeito e enumero ainda num tom afoito:

— Você é um herói, um Vingador, o Incrível Hulk.

Dessa vez, Bruce sorri. Um sorriso divertido diante de coisas tão óbvias.

— Eu sei, obrigado por me lembrar. Continuo perdido.

Procurando as palavras certas, olho para o jardim adiante, onde meu filho e nosso cachorro estabanado se divertem. Respiro fundo, organizando meus pensamentos por fim.

— Eu e, agora, Alex também... Nós sempre estaremos no meio do seu caminho, Bruce. Como obstáculos entre o homem e o herói. Sua fraqueza. Então, se você quiser desistir e....

— Amelia.

Deixo o restante da frase morrer em minha garganta quando ouço meu nome em sua voz. E como sempre acontece nessas horas, meu peito dispara.

Fecho os olhos por um instante antes de voltar a olhar para Bruce. Ele segura minha mão mais uma vez, apertando meus dedos entre os seus, ao mesmo tempo em que diz devagar e com firmeza:

— Vocês não estão no meu caminho, estão ao meu lado. São minha força e meu alicerce, não minha fraqueza.

Meu coração erra uma batida. Talvez duas. Okay, acho que são muitas. Não nego, é muito bom ouvir tais palavras. É mágico, na verdade. Deixo o significado delas afastarem minha insegurança idiota para longe.

— Você sempre foi mais corajosa do que eu nessa relação. De onde veio esse medo?

Sorrio de leve, sentindo-me estúpida por ter questionado Bruce assim. Pior, por ter imaginado que eu poderia abrir mão dele em minha vida e na de Alex. Como poderia, se mais cedo eu estava toda feliz e esperançosa, dizendo a mim mesma que ficaríamos juntos para valer?

— Não importa, já passou.

E fico feliz ao dizer isso porque não é mentira dessa vez. A dúvida, insegurança, o medo, fosse o que fosse, passou mesmo. Vou enterrar no passado junto com as coisas ruins que vencemos até chegarmos aqui.

— Ótimo porque, além de não combinar com você, fique sabendo que eu não te daria o divórcio também.

Ante o seu tom divertido de novo, aninho-me em seus braços já completamente relaxada e sentindo-me incrivelmente segura. Bruce passa um braço ao meu redor e repousa a mão no meu ombro. Com a proximidade, sinto a refrescância do banho que ele tomou antes de me encontrar aqui, um cheiro gostoso de sabonete e loção pós-barba. É incrível como senti falta até disso, das pequenas coisas e detalhes sobre ele.

— Que bom que definimos pelo menos o acordo nupcial — brinco. — Agora só falta todo o resto. Sei que tem coisas que podemos jogar no colo dos padrinhos, mas outras eu quero cuidar pessoalmente.

Pego o tablet e analiso as listas de novo, mordendo o interior da bochecha.

— Alex... vai fazer aniversário em um mês? — ele pergunta.

— Pois é, e nós vamos casar em duas semanas por ideia sua.

Bruce pega o dispositivo e o coloca de lado no balanço.

— Amelia, você não precisa cuidar disso tudo sozinha. Eu estou aqui agora, quero participar.

Uma atitude tão simples e natural deveria mexer tanto comigo? Porque mexe demais e me deixa muito feliz.

Tenho que disfarçar um sorriso bobo antes de erguer o rosto na direção dele. Beijo seus lábios suavemente.

— Isso será ótimo, valeu.

Uma gargalhada infantil se espalha no ar e chega até a varanda, fazendo nós dois olharmos para Alex adiante. Embolados na grama, ele e o são bernardo são a melhor definição de unha e carne, corda e caçamba, essas coisas. O que me faz lembrar de algo importante.

— Ah! Eu gravei algumas coisas sobre ele. Batizado, as primeiras festas, os primeiros passos e palavras, coisas engraçadas e outras meio nojentas... Enfim, só algumas memórias para quando você voltasse pudesse conhecê-lo melhor.

Bruce esboça um sorriso antes de responder:

— Prometo que vou assistir a tudo, mas não hoje. Hoje eu quero construir novas memórias com vocês.

Tem como ficar mais perfeito?

— Eu gosto desse plano.

É tudo que consigo dizer porque, um segundo depois, Bruce toma a iniciativa para mais um beijo. Doce, carinhoso e cheio de promessas. Um beijo que mexe de maneira curiosa com a minha cabeça e não preciso nem dizer o que faz com o meu coração, certo?

Confiante no presente e sem temer pelo futuro, sou conduzida até o jardim, onde eu e Bruce nos juntamos à brincadeira sem lógica de Alex e Hulk. A única regra é se divertir.

E, sim, tudo fica ainda mais perfeito.