Infinito em Estilhaços
10 Retrato de um casal feliz
Notas iniciais
Um tilintar estrepitoso se espalha pela enorme sala de festas da Torre dos Vingadores. Todos os olhares se voltam para o homem que levanta da cabeceira da mesa com ar imponente. O silêncio se faz presente de imediato, findando todo o burburinho de conversas paralelas entre os convidados até então.
Mantendo a taça de champanhe na mão direita, Tony repousa o garfo de volta no prato e olha na minha direção.
— Acho que chegou a hora do meu discurso para os recém-casados.
Sinto um calafrio estranho porque isso soa mais como uma ameaça. E sinto também que pode não ter sido uma boa ideia ter chamado Tony para ser o meu padrinho.
Josh, que foi o padrinho de Amelia na cerimônia que terminou há cerca de uma hora, é um sujeito muito mais discreto do que o meu amigo jamais será. O irmão de Amelia jamais nos colocaria numa situação constrangedora com alguma piada sem graça no dia do nosso casamento, por exemplo.
Não posso dizer o mesmo de Tony Stark...
— Que Deus nos ajude — minha esposa (esposa!) diz baixinho, rindo ao meu lado na mesa.
Sorrio de leve para ela e entrelaço sua mão com cuidado. Meus dedos se demoram alisando a aliança delicada que agora faz companhia ao primeiro anel que lhe dei. Aquele com a esmeralda e que Amelia nunca deixou de usar desde que a pedi em casamento, há quase quatro anos. Mesmo sem saber que eu estava perdido em Saakar esse tempo inteiro e que talvez eu nunca fosse voltar, ela manteve o anel consigo enquanto me esperava.
Tony limpa a garganta, dissipando essas lembranças, e começa com a tortura:
— Queridos amigos —, ele olha para Loki na outra extremidade e pondera um pouco antes de provocá-lo: — e alguns penetras, estamos reunidos aqui hoje porque o impensável aconteceu e seria um crime não festejar em grande estilo. Bruce Robert Banner desencalhou. Oficialmente agora.
Risos se espalham por todo o salão. Como eu temia.
Os agentes da S.H.I.E.L.D. que vieram, os membros dos Vingadores que não são considerados fugitivos e estão aqui hoje, os pais de Amelia e amigos em comum como Olivia Mills, todos olham para mim.
Mesmo Alex, ao meu lado na outra cadeira e que no auge de seus quase três anos ainda não entende o significado de desencalhar, sorri de orelha a orelha, contagiado pelo clima de diversão que paira ao nosso redor.
Tony me paga.
— Aposto que isso dá esperança a muitos por aqui, não é? Se Banner conseguiu, vocês também conseguem. Acreditem!
Nova leva de risadas. Ele realmente me paga.
Amelia pigarreia para chamar a atenção dele e, por um segundo, acredito que Tony vai erguer a taça e por um fim ao discurso infame de uma vez.
Ledo engano... Ele continua com mais audácia e nenhum filtro:
— Bem, todos sabemos como o Bruce é metódico. Por vezes, certinho demais e entediante, falando sempre dos sete doutorados e blá blá blá... — Tony boceja para representar bem o que quer dizer e ouço mais risinhos. — Ah! E também tem aquele lance com o Outro Cara, não vamos esquecer.
Um alerta acende de imediato e pigarreio alto para chamar sua atenção. Indico Alex com discrição e Tony parece se lembrar, de repente, que meu filho ainda não sabe que eu sou o Hulk. Tenho consciência de que não poderei esconder algo dessa magnitude para sempre, porém eu e Amelia concordamos que ele é muito pequeno para assimilar certas coisas agora.
— Oops! — Tony beberica a champanhe, ganhando tempo para reformular o tal discurso.
Enquanto isso, Alex puxa meu terno de leve e, quando abaixo o olhar na sua direção, ele pergunta com inocência:
— Que outro cara, papai?
Rapidamente, Amelia vem em meu socorro:
— O tio Tony só está falando bobagens, filhote.
Alex franze a testa um pouquinho.
— Como sempre diz?
— U-hum! E quando ele diz bobagens assim, nós não temos que...?
— Levar a sério! — Alex completa no ato.
Amelia joga um beijinho para ele e diz com orgulho:
— Esse é o meu garoto.
— Au! — Tony protesta, atraindo nossa atenção de novo. — E essa doeu, Sra. Banner.
Amelia lança um sorriso debochado a ele, que toma mais um gole da bebida.
Estou quase eu mesmo levantando o brinde, mas então...
— Como eu estava dizendo — Tony retoma de súbito, e eu me encolho um pouco. — Por ele ser um homem tão metódico, certinho, entediante e verde... Digo, complicado, eu não conseguia imaginar como seria a mulher ideal para o Bruce. Não tinha nem certeza se ela existia ou se a maluca toparia o desafio.
Mais risos? Mais risos.
— Então, Bruce conheceu Amelia Prescott. E eu logo percebi que ele tinha encontrado sim essa mulher.
Tony pisca para mim com camaradagem, deixando claro que as provocações não passaram disso mesmo. A verdade é que, por mais que esteja brincando com a situação, como faz com quase tudo, ele sempre torceu por mim e sei que está feliz com a minha felicidade agora.
Olhando diretamente para a mulher do meu lado, Tony prova isso ao sentenciar:
— Você é perfeita para o meu amigo, Amy. Justamente a maluca que ele precisava.
Sob aplausos, murmúrios de aprovação e risadas, minha bela e maluca esposa diz:
— Vou encarar isso como um grande elogio, Tony... Sterco.
Ele faz uma careta ao ouvir o final, enquanto James Rhodes, do outro lado da mesa, ri da piada interna.
Talvez para abafar o caso, o padrinho engraçadinho finalmente ergue o brinde, desejando:
— Felicidades ao casal! E não façam nada que eu não faria!
Amelia pega a sua taça de champanhe, eu a acompanho como todos, embora na minha só tenha água porque prefiro não abusar do álcool. Já Alex segura seu copo de refrigerante com canudinho. Entretanto, antes que qualquer um beba, ouvimos alguém gritar da outra extremidade da mesa:
— Para, para, para, para, para! Para tudo aí!
E assim que todos nós olhamos para ela, Olivia Mills, já de pé, avisa sem rodeios:
— Como madrinha da noiva, eu também quero dizer algumas palavras. Posso? Então, com licença e obrigada!
Amelia coloca a taça de champanhe sobre a mesa de novo, comprime uma risada e murmura:
— E lá vamos nós.
Perto dela e também de Thor e Valkyrie, Loki ri com certo escárnio enquanto estica as pernas numa cadeira vazia e cruza os braços para assistir ao que está por vir.
— Algo me diz que isso será divertido.
E algo me diz que o Deus da Trapaça está se deliciando com essa previsão.
— Minha melhor amiga e meu ex-crush juntos. É ou não é perfeito? — Olivia joga as palavras no ar e vibra com um sorriso largo.
Ao contrário do que esperava, o irmão de Thor não parece ter apreciado o início do discurso. Mais sério, ele se volta para a esposa e argumenta:
— Tormento, eu devo lembrá-la que você nunca esteve realmente interessada no Banner. Pelo que me consta, você o agarrou certa vez numa tentativa vã de me esquecer. Não conseguiu, é claro. E como castigo dos deuses, ainda foi atropelada por um tipo rudimentar de veículo midgardiano.
Dessa vez, eu me junto a leva de risadas que irrompe. Parece inacreditável, mas Olivia realmente fez isso.
Pior, eu não fui sua única vítima. Uma vez, ela também tentou investir no Steve para negar seus sentimentos por Loki. Eu nunca vi o Capitão América tão encurralado. Aposto como nem nas trincheiras, ele se sentiu daquele jeito.
— Foi por uma bicicleta, gafanhoto — Olivia esclarece ao jotun, com certa irritação. — Mas sim, você está certo. Eu não consegui fugir da sua macumba poderosa mesmo, me julgue.
Os dois trocam um olhar significativo. Longo e intenso. Olivia acaba sorrindo para Loki e corando um bocado. E ele finge que não sorriu levemente de volta só porque tem uma imagem impassível a zelar na frente das pessoas aqui presentes.
Numa mesa ao lado da nossa, os trigêmeos do casal, Frigga Marie, Susan Britney e Loki Peter Jr., ficam estranhamente constrangidos.
— Ah, não... Eles estão se olhando daquele jeito de novo — diz uma das garotinhas.
— Vamos sair daqui e explorar outros cantos desse castelo antes que a coisa fique pior — sugere a outra.
Ouvindo isso, o menino logo se põe de pé como elas e avisa meio desesperado:
— Eu vou com vocês também! Não me deixem aqui sozinho, meninas!
E os três saem em disparada para explorar o castelo em questão. Hulk, o meu cachorro, corre no encalço do trio, balançando um laço verde que Alex colocou no seu pescoço especialmente para a cerimônia, e desaparece pelos corredores saltitando.
Olivia ri um pouco sem jeito, procura o foco do raciocínio de novo e esclarece:
— Mas nada disso vem ao caso porque hoje não é o nosso dia, gafanhoto. — Ela olha na nossa direção e faz um coraçãozinho com as mãos. — É deles. Meu casal.
Amelia se aproxima um pouco e sussurra no meu ouvido:
— Se você chamar o Outro Cara, a gente pode fugir pela janela rapidinho.
Seguro sua mão com mais força e entro na brincadeira:
— Aguente firme, Amelia. Nós já passamos por coisas piores. Vamos sobreviver a isso também.
Ela sorri, assentindo, e descansa a cabeça no meu ombro.
Olivia solta um suspiro enquanto nos observa com calor no olhar e retoma:
— É maravilhoso ver duas pessoas que eu gosto tanto juntando as escovas de dente. Ainda mais porque são duas pessoas que merecem toda a felicidade do mundo.
Nesse momento, eu — e provavelmente Amelia também — nos sentimos um tanto culpados por debochar do jeito maluquinho de Olivia, mesmo não tendo sido a sério. Nossa madrinha tem uns parafusos a menos, porém tem um bom coração também, sempre torceu muito pela nossa história e é nítido como está vibrante por ter dado certo.
Ela então abre um pouco os braços, chamando a atenção para si mesma e, sem qualquer modéstia, passa a se gabar:
— E ainda mais porque foi graças a essa aqui que vos fala que os pombinhos deram o primeiro passo. — Como ninguém comenta nada, ela faz questão de reforçar: — Isso mesmo, pessoal! Olivia Mills da Silva Sauro foi a primeira a acreditar, a shippar Brumelia, o cupido que deu o empurrãozinho inicial e...
Ao lado dela, ocupando o lugar do padrinho da noiva, Josh tenta interromper com cuidado:
— Liv, meu amor, acho que todo mundo já entendeu.
— Para finalizar... — Olivia eleva um pouco voz, indicando que ainda não está satisfeita. Ela torna a olhar para nós. — Amy, minha querida amiga, e Bruce Fofo Banner, eu sempre soube que vocês não eram frigideiras sem tampa. Sempre acreditei que estavam destinados a ficarem juntos. E se existe justiça nesse bendito universo, vocês sempre estarão. Que vocês sejam ainda mais felizes!
E fecha com chave de ouro, tenho que admitir. Uma salva de palmas deixa claro que todos concordam com Olivia.
Procuro o rosto de Amelia, claramente emocionada, e prometo que...
— Nós seremos.
Ela abre um largo sorriso. Depois, pressiona a boca na minha com intensidade e, ao mesmo tempo, com ternura. Tudo me faz perder o chão e envolver seu rosto como que para me segurar a alguma coisa.
Ouço o click de uma câmera e uma luz relâmpago nos atingir por um instante. Quando olho na direção de onde veio, encontro Pepper com o celular nas mãos, ao lado de Tony na mesa.
Parece que nossa outra madrinha achou que seria uma boa ideia eternizar esse momento com uma foto.
Todos bebem, exceto eu e Amelia porque continuamos olhando um para o outro. Até que um ruído de estilhaços se espalha de repente e todos se sobressaltam, inclusive nós dois.
— Outro! — Thor ordena, empolgado, não dando à mínima para a taça vazia que acabou de jogar no chão ao seus pés.
Loki revira os olhos com desgosto. E Alex solta uma risada deliciosa, achando graça na falta de etiqueta do Deus do Trovão.
Cinco anos depois...
Um casal feliz se beija no porta-retrato que seguro em minhas mãos. Amelia está simplesmente linda vestida de noiva, o cabelo preso em um elegante penteado, a face corada. O noivo me parece tenso e meio bobo diante dela. Lembro-me bem de como eu estava feliz nesse dia.
Pelo vidro que protege o registro feito por Pepper, observo agora o meu reflexo atual. E não gosto do que vejo. Em nada me pareço com o homem realizado da fotografia.
Coloco o porta-retrato de volta na estante empoeirada e esfrego minha barba por fazer. A casa está mergulhada em silêncio e vazio ao meu redor.
Caminho pela sala sem rumo certo. Acabo sentando no sofá e me pego pensando, pela milésima vez, em tudo o que aconteceu depois daquele dia.
Eu e Amelia fomos felizes por dois meses. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. Foi quando Thanos veio para a Terra. E estalou os malditos dedos no campo de batalha que Wakanda se tornou.
Olivia estava errada, afinal. Não há nenhuma justiça nesse universo.
Ao contrário de antigamente, o Hulk tem se encolhido cada vez mais na minha mente desde então. Tão perdido quanto eu, ele sofre mergulhado no sentimento de culpa por ter falhado.
Por falar nele, meu cachorro que atende pelo mesmo nome levanta de um canto da sala e vem até mim. Ele já não tem a mesma agilidade e vigor de cinco anos atrás. Os pelos brancos estão cada vez mais presentes em seu corpo, principalmente na cara. Nos olhos, uma leve bruma indica que a visão também já não é tão eficaz.
O cachorro repousa o focinho na minha perna e abana o rabo com incerteza. Sorrio de leve para ele e faço um carinho em sua cabeça pesada. Um assobio escapa da sua garganta, como um ganido baixo, e seus olhos ficam mais cabisbaixos.
— Eu estou bem, só... sinto falta dela.
Hulk deita aos meus pés e eu volto a contemplar a sala silenciosa. Tudo parece sem cor, mal zelado, uma bagunça. Tudo está mesmo assim.
Ansioso por me distanciar um pouco disso, checo as horas no relógio em meu pulso e levanto ao ver que já é quase meio-dia.
O leal companheiro me acompanha com o olhar. Fica mais interessado quando pego algo sobre o aparador. Levanta rápido, meio desengonçado, e vem até mim abanando mais a cauda.
— Isso mesmo. — Abaixo para ajustar a coleira em seu pescoço peludo. — Hora de buscar o Alex na escola.
Um minuto depois, seguimos pela calçada. Encontro poucas pessoas pelo caminho.
As ruas andam mais vazias depois que Thanos dizimou metade da população mundial.
Há um sentimento de desolação por toda a parte que, mesmo após cinco anos, ainda não passou.
Acho que nunca vai.
[...]
Alex tinha três anos quando a mãe desapareceu feito pó diante dele. Agora, já está com oito e continua falando sobre ela todos os dias. Acredito que seja uma forma de mantê-la viva em sua memória e um tipo de consolo.
Enquanto o observo descer a escadaria da escola com outros poucos alunos, penso nela com mais força. Alex tem muito dos meus traços, só que a cada dia que passa me lembra mais a mãe. É doloroso, mas uma dádiva ao mesmo tempo.
Pelo menos, o universo não tirou nosso filho de mim, certo?
Eu não sei o que faria sem ele. Com certeza, tudo seria ainda mais difícil sem uma lembrança viva de Amelia para preencher parte do imenso vazio que ficou no seu lugar.
O menino me avista e abre um sorriso, caminhando na minha direção. Sinto um aperto no estômago porque é o sorriso dela. Espontâneo e cativante como o dela costumava ser.
Recebo Alex com um beijo no topo de sua cabeça e fecho os olhos por um momento. Preciso ser forte. Devo isso a ele.
— Como foi a aula, filho? — pergunto do jeito mais natural que consigo quando volto a olhar em seu rosto.
— Ótima! Tirei 10 na prova de Matemática. — Ele abre os braços e se vangloria do feito: — De novo, só para constar.
Alex consegue me fazer rir de verdade e com as coisas mais simples. Mesmo que haja tanta tristeza sob a minha superfície, é um riso sincero e que faz eu me sentir vivo toda vez que acontece.
— Parabéns. Você é mesmo muito inteligente, estou orgulhoso.
Ele dá alguns tapinhas no meu ombro e responde divertido:
— Obrigado pelos genes, papai. — Depois, abaixa-se para abraçar nosso são bernardo. — E aí, Hulk? Ele cuidou bem de você? Aposto como esqueceu do seu petisco de novo, não foi?
O cachorro late me denunciando e quase derruba meu filho no chão, agitado e querendo mais carinho. Alex ri e uma centelha arde no centro do meu peito.
Sim, eu estaria perdido sem ele.
— Vamos para casa e eu prometo que te dou dois petiscos lá. Que tal? — Hulk late em protesto e meu filho corrige: — Tudo bem, três e não se fala mais nisso, guloso.
Depois que me entrega sua mochila, eu lhe passo a guia para ele mesmo conduzir nosso companheiro pela calçada.
O problema é que, um quarteirão adiante, Hulk avista um gato do outro lado da rua. Determinado a perseguir o felino, solta-se com facilidade e corre atrás de seu objetivo enquanto late furioso.
Seguro Alex pela mão e corremos atrás dos dois, desviando bastante do caminho de casa e indo parar numa parte da cidade que eu procuro ignorar todos os dias.
Nem sempre consigo. Como agora.
Quando chegamos na enorme praça onde foi construído um memorial para os dizimados do Titã Louco, Hulk já perdeu o gato de vista e está distraído cheirando uma roseira.
Engulo em seco ao olhar para meu filho. Alex, que há poucos minutos estava contente me contando tudo sobre a aula, agora tem o semblante nublado pela ausência marcante da mãe.
— Tudo bem, pai — ele diz, embora eu saiba que não está. — Vamos lá. Já estamos aqui mesmo.
Alex sabe exatamente onde fica o enorme monólito de granito em que o nome da mãe foi gravado junto com tantos outros. Eu o sigo devagar e meus olhos não demoram a achar o conjunto de letras que formam: Amelia Elise Prescott Banner.
E assim como no dia em que ela se foi, meu mundo desmorona de novo. Eu desmorono por dentro e experimento, de novo, a mesma dor intensa e o mesmo desespero daquele dia. E de todos os dias desde então.
Mas só me permito ruir por dentro. Por fora, me mantenho firme. Tento. Trinco os dentes e finjo não sentir nada disso.
— Tem dias que... — Alex começa a dizer, porém desiste.
— Que o quê?
Ele pensa um pouco, o olhar concentrado no nome diante de nós.
— Que parece que eu estou me esquecendo dela. Mesmo com as fotos, os vídeos, o que eu ainda me lembro, é como se tudo tivesse acontecido com outra menino, não comigo.
Suas palavras tocam fundo na ferida ainda aberta que carrego. Eu sou adulto e perder Amelia foi a pior coisa que já me aconteceu. Para Alex, deve ser ainda pior. Ele era só uma criança. Ainda é. Tão pequeno e não tem mais a mãe em sua vida.
Definitivamente, o universo não é justo.
— Não importa o que eu faça, o quanto eu tente, a mamãe continua desaparecendo, pai. Todo dia. Eu não quero que ela vá embora de vez...
A voz dele fica embargada. Abraço-o pelos ombros. A vontade de protegê-lo de tudo duelando com a terrível sensação de impotência.
— N-nem eu. — Limpo a garganta. — Nem eu, filho.
Antes que eu me questione o quanto consigo ser forte por Alex, uma voz familiar irrompe de algum lugar atrás de nós:
— Bruce?
Tanto eu quanto Alex nos viramos na direção do chamado. E ambos contemplamos com certa surpresa o homem emoldurado por dois monólitos atrás dele.
— Steve? O que está fazendo aqui? — indago, confuso.
Têm semanas que não o vejo. Evito contato frequente porque ele me lembra tudo que aconteceu.
— Oi, Cap. — Meu filho cumprimenta o Vingador com um aceno.
Steve assente para o menino, que em seguida se afasta para buscar nosso cachorro.
Assim que Alex está a uma distância segura, Rogers torna a focar em mim. Sinto que ele tem algo importante a dizer. E logo diz:
— Talvez exista uma maneira.
Não sei se o compreendi.
— O quê?
Steve fica mais sério e esclarece com cuidado:
— De trazer todos de volta, Bruce.
Meu mundo é abalado até os alicerces. Uma dor profunda martela em meu peito.
Lembro-me bem da última vez que me permiti ter esperanças desse tipo. Foi quando nós dois e os outros Vingadores que restaram encontramos com Thanos num planeta a anos-luz daqui.
Na época, tentamos recuperar as Joias do Infinito para reverter o efeito catastrófico do cruel estalar de dedos. Na época, falhamos. O Titã Louco já havia se livrado das Joias e, com isso, arruinado nosso plano desesperado.
Ficamos ainda mais perdidos, amargando mais uma derrota e carregando o luto ainda mais pesado nos ombros, sem nada a fazer para ajudar aqueles que se foram ou os que ficaram.
Os Vingadores não conseguiram vingar a Terra, afinal.
A única coisa boa que aconteceu naquele dia foi que Thanos perdeu a cabeça. Literalmente. Thor cuidou para que fosse assim. Mas foi uma vitória vazia e sem sabor.
Ainda assim, mesmo que isso seja uma falsa esperança nascendo de novo, nesse momento decido me agarrar a ela com unhas e dentes. Porque meu mundo não pode mais continuar desmoronando desse jeito. Não consigo mais suportar isso. Preciso reconstruí-lo. Por Alex, por Amelia, por mim, por todos que se foram ou ficaram. Peça por peça. Preciso, ao menos, tentar.
Dou alguns passos até parar diante do Capitão América e exijo saber:
— Como?
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