Não tenho mais como duvidar, Bruce está mesmo aqui. Comigo.

Ainda parece um sonho, mas cada parte de mim sabe que é a realidade. A maneira como ele me abraçou foi real. A maneira como nos beijamos foi real. A maneira carinhosa como me olha agora desperta uma emoção sem dúvida muito real também. E o alívio que sinto é forte demais para não ser verdadeiro.

Como se experimentasse a mesma certeza e quisesse recordar cada traço meu, Bruce desliza um dedo pelo meu rosto devagar até desenhar uma linha invisível numa mecha do meu cabelo.

Ele sorri de leve ao constatar:

— Está mais curto agora.

É verdade. Antes de todo o pesadelo que nos separou, eu costumava manter o cabelo mais comprido. Depois de Alex, no entanto, optei por um corte na altura dos ombros. Como se a maternidade não fosse mudança o suficiente e eu precisasse de um dividir de águas na aparência para marcar a nova fase da minha vida. Também é mais prático e uma boa forma de evitar que meu filho puxe as mechas com facilidade, como adorava fazer quando elas estavam maiores. Não que agora ele não goste do desafio.

Dou uma boa examinada na aparência de Bruce também, acariciando seu cabelo, mergulhando os dedos na raiz e seguindo até envolver sua nuca.

— E você ganhou alguns fios grisalhos, Dr. Banner. — Inclino a cabeça para o lado e um sorriso torto estica o canto da minha boca enquanto o analiso mais um pouco. — Eu gosto. Tem um charme especial. Uma aura de homem mais experiente, sabe?

Bruce estreita o olhar e comprime os lábios por um instante, parecendo se divertir com meu veredicto.

— Que jeito gentil de dizer que eu pareço mais velho.

Um riso me vence, é inevitável. Depois, arqueio as sobrancelhas e lanço um flerte no ar:

— E mais sexy.

Aproveito que ainda estou com a mão em sua nuca e trago o rosto de Bruce para mais perto do meu, fechando meus olhos e beijando os lábios dele com uma suavidade cheia de promessas para mais tarde. Sim, mais tarde apenas, porque agora preciso saciar as perguntas que martelam na minha cabeça sem parar desde que ele colocou os pés na boate.

Pensando assim, ponho fim ao beijo, mas continuo próxima de Bruce. Incapaz de me afastar por completo — afinal, acabei de reencontrá-lo depois de uma longa tormenta —, apoio a testa na dele e deixo a curiosidade fluir em palavras:

— Eu vi uma rocha mudar de sólida para líquida num piscar de olhos e arrancar o Hulk de mim como num passe de mágica cruel. O que aconteceu com você naquela hora? Onde o Verdão foi parar? Onde diabos vocês dois estavam esse tempo todo?

Sinto a respiração dele mais forte no meu rosto, como se pensar no assunto o desnorteasse.

— A versão resumida? Fomos parar em outro planeta. Um lugar caótico que aplaudia o Hulk de pé em duelos insanos. Tinha uma arena e tudo.

Recuo alguns centímetros, o bastante para olhar bem para Bruce e me assegurar que ele não está brincando comigo.

Ao assimilar o que ouvi, recordo uma conversa que tivemos há muito tempo sobre a Terra não estar preparada para entender o Hulk por completo. Na ocasião, eu disse, em tom divertido e despretensioso, que o Gigante Esmeralda merecia um planeta que o reverenciasse e aplaudisse de pé assim.

Absorta nessa lembrança e com o olhar perdido, murmuro:

— Interessante...

— Acho que você quis dizer perturbador.

Ergo a cabeça e volto a fitar o Vingador na minha frente. Há um mínimo sorriso em seu lábios.

— O planeta Hulk? Sem dúvida. Perturbador é pouco. Mas é interessante como eu previ o futuro sem querer. Seria bom se eu apostasse com mais frequência na loteria...

E assim o sorriso dele se transforma em um riso leve e gostoso. E no mesmo instante, o meu peito se aquece por ser a pessoa que faz Bruce Banner relaxar com coisas simples e aleatórias. Como senti falta de tirar o peso do mundo de seus ombros, aliviar a tensão e abalar o jeito reservado tão intrínseco dele. Como senti falta dele.

Se eu não estivesse tão ansiosa por detalhes das circunstâncias que o trouxeram até aqui, acho que o beijaria de novo. Com certeza, beijaria.

Ao invés disso, no entanto, tenho que perguntar:

— Como chegou aqui?

Bruce ajeita uma mecha do meu cabelo antes de responder:

— Thor. Ele me encontrou por acaso em Sakaar. Esse era o nome, não Planeta Hulk. — Ele esboça um meio sorriso ao fazer tal ressalva. — Thor veio para a Terra também. Numa nave. Não só ele, aliás... Bom, nós pousamos na Noruega, Tony tinha captado a nave pelos satélites e me trouxe para Nova York num Quinjet. Eu cheguei há pouco tempo. Só tomei um banho na Torre e vim te ver.

Depois de me bombardear com essa série de informações que abre um leque de novas perguntas na minha mente a mil, Bruce olha tudo em volta, procurando algo. Quando acha, me leva pela mão até o pequeno sofá no lounge bar e logo estamos sentados vis-à-vis.

Estou prestes a retomar o interrogatório, porém desisto tão logo ele fala:

— É uma longa história, Amelia. Prometo te contar tudo com calma depois. Agora eu preciso olhar para você de novo. Só isso.

E ele olha. Olha por um longo momento com uma saudade que me arrepia inteira.

— Eu preciso que saiba que só voltei a ser eu mesmo há pouco tempo. Esse tempo todo que passei em Sakaar...

Meu coração fica apertado com a menção à passagem de tempo que nos separou além da distância espacial, levando-me a calcular de maneira automática e dolorosa:

— Três anos, sete meses e duas semanas.

Bruce fica calado pelos instantes seguintes, a cabeça meio baixa enquanto os dedos fazem um carinho tímido em uma das minhas mãos que ele não chegou a soltar. Quando volta a me olhar nos olhos, percebo que Bruce respeita a minha dor e lamenta por termos passado por esse tormento.

— Eu fui o Hulk esse tempo todo — retoma a explicação, deixando claro esse respeito no tom mais cauteloso também. — Se eu tivesse recuperado o controle mais cedo, Amelia, teria feito o impossível e voltado para você na mesma hora. Não importa de que jeito, o que precisasse fazer para tornar possível, o que me custasse, eu cruzaria o universo para estar com você de novo.

Tais palavras me arrancam um sorriso e me vejo inclinada a expor o óbvio:

— Você não acabou de fazer isso?

— Queria ter feito antes. Muito antes. Eu daria tudo para ter voltado mais rápido para a minha vida.

Meu coração acelera com as últimas palavras de Bruce. Minha vida. A maneira como seu olhar ficou cravado no meu ao dizê-las termina de preencher o vazio que eu senti enquanto estava longe dele. Os estilhaços se unem de novo e cada peça é encaixada no seu devido lugar. Meu amor por ele é realmente infinito.

— Antes, agora... Você está aqui, é só o que importa — digo em tom conclusivo e sincero porque realmente é a única coisa importante nessa história para mim.

Bruce afaga minha mão e aquiesce com um meneio de cabeça, parecendo aliviado por eu pensar dessa maneira e não culpá-lo pelo longo tempo que passou distante.

Respiro fundo e acabo confessando:

— Eu tive tanto medo, Bruce. Foi horrível não saber o que havia acontecido com você, não saber se eu ia te ver de novo um dia, não saber se você estava bem.

— Eu tive medo por você também. Quase enlouqueci quando despertei em Sakaar e me dei conta que não fazia ideia do que havia te acontecido naquela base.

Ele se aproxima mais, insinuando a necessidade de um abraço. E eu o abraço de volta no mesmo instante porque também preciso disso, do calor acolhedor do seu corpo, senti-lo junto de mim.

— Tony me contou sobre o resgate. Eu nunca vou conseguir agradecê-lo o bastante por ter salvado você. Nunca. Ele também me disse que... Philip Sterns não foi encontrado.

A menção me deixa tensa. Percebendo isso, Bruce se afasta o suficiente para encontrar o meu olhar.

— Por incrível que pareça, Heimdall também não conseguiu dizer onde ele está. Ou Philip está morto e no inferno ou...

— Ou se transformou em algo incompreensível, bizarro e talvez inumano — interrompo Bruce num tom de suposição sombrio que me arrepia. — Algo que não pode ser rastreado nem mesmo por um sentinela asgardiano com uma visão invejável porque ele não sabe o que procurar exatamente.

As lembranças do sequestro e de todo o sofrimento que passamos na base da HYDRA vêm à tona e ameaçam me puxar para as profundezas do trauma. Luto contra as ondas do medo e afasto da minha cabeça a imagem final de Philip jogado no chão, ferido e se entupindo de Epinefrina Gama para se transformar em algum tipo de monstro. Como se ele já não fosse um.

Endireito a postura, ergo o olhar para Bruce e forço um sorriso ao dizer do jeito mais firme que consigo:

— De qualquer forma, não houve qualquer ameaça a minha segurança desde então. Talvez Philip esteja no inferno, que é o lugar dele afinal.

Bruce permanece em silêncio por algum tempo, me analisando de um jeito atento como se pudesse ver a minha alma.

— Por tudo que ele fez a você, espero que esteja mesmo — conclui num tom mais sombrio do que o meu.

— Por tudo que ele fez a nós dois, você quer dizer.

Bruce balança a cabeça.

— Não, a você.

Nesse momento, percebo que o amo ainda mais. É possível?

Em contrapartida, se Philip Sterns está vivo ou morto, se foi transformado num monstro por aquela substância e escapou, se também foi enviado para algum lugar através do monólito quando a base oceânica voou pelos ares, não quero saber. Desprezo-o tanto pelo plano de vingança contra Bruce e pelas maldades que fez com nós dois naquele maldito lugar, que tenho fingido que ele nunca existiu e pretendo continuar assim.

Desde que me recuperei da amnésia, prometi a mim mesma não viver com medo de um possível retorno de Philip, nem atormentada pela incerteza do seu destino. Não dei nem vou dar esse gostinho a ele. Ao invés disso, me obriguei a virar essa página. Não, a queimá-la e enterrar as cinzas. E não pretendo visitá-las.

É por isso que me concentro em Bruce de novo e mudo de assunto:

— O que mais Tony te contou?

— Que você perdeu a memória e recuperou meses depois. Eu queria ter estado ao seu lado, Amelia. Queria não ter saído do seu lado, melhor dizendo. Posso imaginar o que passou sozinha e o quanto sofreu...

De fato, eu sofri. Mais do que pensei ser possível uma pessoa aguentar. Entretanto, também aconteceu uma coisa maravilhosa e muito importante na minha vida. Algo que me ajudou a ser forte e me reerguer mais rápido. Algo não, uma pessoa aconteceu. Alguém ligado a Bruce tanto quanto a mim. Metade ele, metade eu. Alguém que Bruce desconhece a existência em virtude de ter passado os últimos anos perdido em outro planeta.

— O que mais? O que mais Tony te contou? — questiono, um tanto ansiosa.

Bruce franze o cenho.

— Tem mais?

Engulo em seco, nervosa de um jeito bom. Se é que isso faz algum sentido.

— Tony te falou sobre... sobre ele?

Parabéns, Amelia! Muito específica!

Devagar, Bruce pergunta:

— Ele quem?

— Ninguém! Digo, alguém. Tudo pra mim — falo, ainda mais agitada, pulando do sofá um segundo depois. — Claro que ele não te contou nada — reflito comigo mesma e fico feliz com a conclusão. — Tony é linguarudo, mas quanto a isso, ele sabia que deveria ser eu a pessoa a te contar tudo.

Bruce também se levanta e soa preocupado, além de muito curioso, quando indaga:

— Tudo o quê?

— E se ele tivesse falado, você certamente não estaria assim tão calmo — pondero, andando de um lado para o outro.

— Amelia. — Meu nome pronunciado com tanta firmeza me faz deter o passo diante de Bruce. Ele apoia as mãos nos meus ombros. — Eu não diria que estou exatamente calmo nesse momento. O que está acontecendo?

Acabo rindo do seu nervosismo e busco suas mãos a fim de tranquilizá-lo.

— Não se preocupe, é uma coisa boa.

Fico em silêncio, sem conseguir encontrar as palavras certas.

— Que seria?

É engraçado como eu nunca parei para pensar em como contaria sobre Alex para Bruce. Como se revela a um homem que ele é pai? Não qualquer homem, mas um que estava convencido de que não podia mais ter filhos por causa do acidente envolvendo a radiação Gama e o surgimento do Hulk? Como explicar que foi possível apesar da enorme probabilidade dizer que não poderíamos ter essa criança?

— Droga... Eu não sei por onde começar, mas, com certeza, tenho que apresentar vocês dois logo.

— Me apresentar a quem, Amelia?

Reencontro seu olhar e tomo uma decisão. A única decisão possível. Sorrio à medida em que me dou conta disso e ela ganha força. A melhor maneira de contar a novidade para Bruce é mostrando a verdade a ele.

— Você precisa vir comigo.

— Para onde?

— Para casa — esclareço, dando de ombros e percebendo como a resposta é óbvia para mim. — A nossa casa, Bruce. A pessoa que você precisa conhecer está lá te esperando.

O Vingador me encara em dúvida por um instante, parecendo confuso com a menção carinhosa à casa e acho que mais curioso ainda sobre a tal pessoa que precisa conhecer quando chegar lá. Ele hesita só por esse instante. Depois, sinto quando entrelaça minha mão com força, assentindo em concordância sem dizer qualquer palavra.

Meu sorriso se alarga e, sem perder mais tempo, arrasto Bruce comigo rumo à saída da Embalos da Noite.

[...]

Enquanto dirijo a caminho do Queens, ele me dá mais detalhes sobre o tempo que passou em Sakaar. Também me conta sobre a luta em Asgard, a profecia do Ragnarok e como uma nave abarrotada de asgardianos sobreviventes e alguns agregados alienígenas pousou na Noruega há algumas horas.

Apesar de triste pelos asgardianos terem perdido seu lar de maneira tão brusca e chocante, quase não me aguento de alegria quando Bruce revela que minha melhor amiga, a doida de pedra Olivia Mills, está de volta ao seu planeta natal. De mala e cuia. E ela não veio sozinha. Além de Loki e do cunhado Thor, ela trouxe sua prole junto.

— Trigêmeos? — questiono pelo o que deve ser a décima vez. — Então a Liv teve trigêmeos? Eu jurava que ela estava grávida de dois bebês quando deixou a Terra.

Bruce solta um riso leve e tudo o que diz em resposta é:

— Foi o que ela pensou na época também.

Reflito um pouco sobre esse comentário e arrisco uma conclusão:

— Loki?

Bruce aquiesce.

— Ele achou que seria divertido manter segredo até o parto.

Acabo rindo ao imaginar como Olivia deve ter reagido ao descobrir algo dessa magnitude na última hora.

— Quantos anos as crianças têm agora?

— Cinco, eu acho.

De maneira automática, lembro do meu filho. Alex está prestes a completar três anos, o que significa:

— Eles são dois anos mais velhos do que...

Paro de falar antes de dizer seu nome com todas as letras, dando-me conta de como me distraí com o assunto. Inquieta, ajeito-me melhor na direção e seguro o volante com força. Pela visão periférica, sinto o olhar intrigado de Bruce no meu rosto.

— Mais velhos do que quem?

Decidida a manter o suspense e lhe fazer uma surpresa, disfarço um sorriso e me limito a desconversar:

— Logo você vai saber, Bruce. Prometo.

Ele pode ter ficado insatisfeito com essa resposta nenhum pouco esclarecedora, porém não insiste no assunto durante o restante do trajeto. Ao invés disso, parece confiar na minha promessa.

[...]

Camuflando a expectativa como posso, estaciono o carro em frente à casa para onde me mudei depois que Alex nasceu. A casa onde Bruce também moraria se não tivesse sido arrancado do planeta de maneira tão covardemente orquestrada pela família Sterns.

Quando solto o cinto de segurança e olho para Bruce, pensando em fazer alguma piada para descontrair, ele não está olhando para mim. Está concentrado na residência diante de nós e a tensão exala do seu corpo. Não há espaço para piadas nesse momento.

É então que eu me lembro que Bruce estava lá dentro, há quase quatro anos, quando Nadia Sterns invadiu nossos sonhos, neutralizou o homem ao meu lado antes que ele tivesse chance de se transformar no Outro Cara e o sequestrou.

É nesse momento que lembro também da promessa que me fiz. Nem o fantasma de Philip nem o de sua mãe monstruosa irão me assombrar. Nem assombrar Bruce. Eu não vou deixar que ele sinta horror quando olhar para a nossa casa de novo.

É pensando assim que me enrosco ao seu braço e dou um beijo demorado na bochecha dele. Bruce desperta do estado catatônico e se volta para mim no mesmo instante, claramente se esforçando para dissipar a lembrança ruim. Aproveito para ajudá-lo com essa parte e me aproximo mais um pouco. Dessa vez, para dar um beijo em sua boca.

— Vem comigo — convoco, me afastando só um pouco.

O carinho nos olhos dele me aquece, e o que responde a seguir me arrepia:

— Sempre.

Assim que saímos do veículo, latidos se espalham pelo ar e o são bernardo mais estabanado e doce do mundo vem correndo pelo jardim em nossa direção. Ou melhor, na direção de Bruce. Muito tempo se passou e, ainda assim, ele parece reconhecer o homem que afaga seu pelo.

— Hulk... — Bruce diz, sorrindo para o animal leal.

Abaixo-me a fim de acariciar o meu... o nosso cachorro também, só que ele desvia, simplesmente me ignora sem qualquer cerimônia e continua se derretendo por Bruce.

— Traidorzinho — resmungo, levantando do chão bem no instante em que a porta da casa é aberta por alguém.

Carmen, uma senhora latina que contratei para ser a babá de Alex quando eu estiver trabalhando, logo surge na soleira e sorri diante da cena que presencia. E logo também uma pequena figura passa perto de suas pernas e sai em disparada da casa.

— Mamãe! Mamãe! Mamãe!

Com um sorriso inocente típico das crianças estampado de orelha a orelha, Alex me encontra na metade do caminho e abre os bracinhos. Sem pensar duas vezes, seguro-o com os meus e o levanto no ar. Giro com ele pelo quintal, fazendo suas pernas virarem hélices, antes de abraçá-lo com muito carinho.

— Meu pequeno grande herói! Sentiu minha falta?

— Sim!

— Quanto?

— Muito!

Busco o seu rosto e, para meu total deleite, o sorriso dele se alarga ainda mais. Alex ainda estica os braços até o limite para ilustrar a resposta.

— Pois eu senti muito mais!

Abraço-o de novo, rindo e me sentindo incrivelmente leve. Por sobre o ombro, dispenso a Sra. Carmen:

— Eu assumo daqui. Obrigada por ter cuidado dele.

A babá some por um instante no interior da casa. Apenas o suficiente para buscar a bolsa e sair de novo. Despede-se com um sorriso doce e eu a sigo com o olhar enquanto ela caminha rumo à calçada. Ao fazer isso, giro o corpo e me deparo com Bruce.

Aos pés dele, o Hulk pula ensandecido em busca de mais carinho. Só que Bruce está fora de órbita demais para atender ao clamor do animal. Ele está concentrado demais em nós dois. O olhar ora no meu rosto, ora no rosto do menino que carrego.

Deixando o cachorro para trás, Bruce dá alguns passos e para bem diante da gente.

— Quem é ele, mamãe?

Sorrio torto para Alex e incito em tom de desafio:

— Você não lembra? Poxa... Eu te mostrei tantas fotos. Olhe bem.

E meu filho faz exatamente isso. Ele olha bem para Bruce. Encara o desconhecido com a falta de noção típica das crianças.

Por fim, um brilho de epifania domina seu rosto e Alex se volta para mim.

— É ele?

— U-hum. Em carne, osso e nerdice.

Como sonhei com esse dia. Como sonhei com o dia em que Alex iria finalmente ter o pai em sua vida. Como devia ter sido desde o começo, mas infelizmente não pôde ser.

Ainda dominado pela surpresa, meu filho pergunta para confirmar:

— Ele voltou mesmo? O papai?

Acabo rindo um pouco.

— Parece que sim.

Há um breve momento de silêncio. Até o Hulk para de latir e se aproxima de nós com curiosidade. E é então que Bruce diz:

— Amelia?

Olho para ele não só por ouvir seu chamado, mas principalmente por entender a pergunta implícita e a urgência pela resposta no seu tom de voz. Vejo tudo isso nos seus olhos questionadores cravados em mim.

Então, aquela sensação que eu tive mais cedo, sobre não saber como contar a novidade para ele, evapora, parece nunca ter existido. E, quando eu volto a abrir a boca, sei exatamente o que dizer.

— Alex, esse é o papai. Ele voltou sim, como eu prometi a você que ele voltaria para a gente um dia, lembra? — Emocionada, me concentro no homem diante de mim e luto para reencontrar minha própria voz. — Bruce, eu... q-quero que você conheça Alexander Prescott Banner. — E como se ainda fosse necessário dizer, digo: — O nosso filho.