Achei melhor contar sobre a gravidez para Josh tão logo ele voltou para o nosso apartamento. Meu irmão trabalha numa agência publicitária no centro de Manhattan e, assim que chegou no fim do dia, só esperei que tomasse um banho e comesse alguma coisa para conversar com ele.

Sem rodeios, bem ao meu estilo, fui direto ao ponto. Agora, trinta longos segundos depois que Josh ficou a par da novidade, me pergunto se não devia ter pensado num jeito mais delicado de revelar que ele vai ser tio em pouco mais de sete meses.

Diante do semblante indecifrável do outro lado do sofá, tudo o que peço é:

— Não surta.

Josh pisca algumas vezes, indicando que não morreu afinal, e garante:

— Eu não vou surtar. — Porém, meio minuto depois... — Ai, meu Deus! Minha nossa! Como assim grávida?

— Eu falei não surta. Por favor.

— Okay, tudo bem. — Josh puxa o ar algumas vezes e solta em pesadas lufadas. — É uma surpresa inesperada, só isso.

Talvez eu não devesse, mas acabo rindo da colocação.

— Tenho certeza que surpresa inesperada é algo bem redundante.

Ele me fuzila com o olhar por um momento. Meu irmão odeia falar errado e quase nunca acontece, exceto quando ele fica nervoso ou em choque com alguma coisa. Ele se mexe no sofá, de um jeito impaciente. Respira fundo e, enfim, diz um pouco mais calmo:

— É inacreditável. Um milagre. Uma vez você me disse que o Bruce não podia ter filhos.

— Eu sei — murmuro e, tão logo Josh me lança um olhar de surpresa e felicidade, esclareço rapidamente: — Eu não me lembrei dele, mas o Tony falou a mesma coisa mais cedo. Bom, o resumo da história é que era nisso que Banner acreditava, que não podia mais ter filhos, que era algo irreversível.

Josh arqueia as sobrancelhas de leve.

— É óbvio que o danadinho se enganou.

— Óbvio.

Ele volta a mergulhar no incômodo silêncio, porém pelo menos não parece mais tão estarrecido com a notícia. Quando volta a falar, inclino-me um pouco para a frente, esperando ouvir uma reflexão importante, mas ao invés disso...

— Okay. Okay. — repete, pausadamente, para em seguida: — Okay. Ok...

Perco a paciência, expirando com força e questionando:

— Só por curiosidade, quantas vezes mais você pretende dizer okay?

Josh sorri sem jeito.

— Desculpe, irmãzinha, mas é que eu estou... surpreso.

— Inesperadamente surpreso? — provoco.

Ele estreita o olhar e assente meio a contragosto:

— Exato. — Depois, encosta-se melhor no sofá e acrescenta: — E feliz. Muito feliz, para ser sincero. Preocupado, claro, porque... Bom...

Ao perceber que ele tem receio de explicar essa parte, pois não sabe que Tony me contou o segredo do meu noivo, decido ajudá-lo:

— Porque Bruce é o Hulk. Fiquei sabendo hoje também. Foi uma surpresa inesperada para mim, tenho que dizer.

Josh respira aliviado, com certeza agradecido por não precisar me contar mais nada. Depois, ele questiona com cuidado:

— E isso não te preocupa?

Penso um pouco antes de admitir com um aperto no peito:

— Sim, muito. — Faço uma pausa e dou de ombros. — Ao mesmo tempo, me sinto ótima. Deve ser um bom sinal, certo? De que está tudo bem com o meu bebê?

Meu bebê. Como é bom dizer isso, apesar do momento complicado que estou vivendo. Ainda assim, preciso ouvir meu irmão dizendo que estou certa e que vai ficar tudo bem mesmo.

Josh segura minha mão e sorri de leve.

— Tenho certeza que sim.

É impossível ele ter certeza e óbvio que só está dizendo isso porque leu no meu rosto que é o que eu preciso para me acalmar, mas, nesse momento, decido acreditar nele e fico profundamente grata pelo apoio.

— Eu estou mesmo muito feliz, Amy. Eu sei que o momento não é o ideal porque ninguém sabe onde o Bruce foi parar e você assim, mais perdida do que camaleão em saco de confete, mas...

Um riso me vence e seguro sua mão com mais força ao agradecer de todo o coração:

— Obrigada.

Ele coloca a outra mão sobre a minha e retoma o discurso:

— O que eu estou tentando dizer é que não vai ser fácil, nós dois sabemos, mas se tem uma pessoa no mundo que pode ter um filho do Hulk, essa pessoa é você.

Sorrio amarelo e me vejo inclinada a corrigir:

— Tecnicamente, não é dele.

Meu irmão solta uma gargalhada e, para meu desespero, debocha com uma piada:

— Ainda bem porque seria muito chocante imaginar a concepção.

Meus olhos ficam arregalados na mesma hora e tenho certeza que minhas bochechas ganham um indisfarçável rubor pois estão queimando.

— Josh!

Ele ergue as mãos em rendição, dizendo de um jeito mais sério e carinhoso:

— É filho de Bruce Banner e da minha irmãzinha. Será uma criança extraordinária. Ah! E muito paparicada por mim, claro. — De repente, ele fica empolgado demais, as mãos unidas sob o queixo e o olhar cintilando. — Será que vai ser uma menina? Eu vou enchê-la de laços e vestidos!

Comprimo os lábios, ponderando se devo ou não compartilhar minha suspeita com ele. Uma suspeita tão certa que não tenho a menor dúvida do sexo dessa criança. Será um menino.

Josh está tão sonhador ao sugerir o oposto, tão animado, que não tenho coragem de falar sobre o meu sexto sentido de grávida. Ao invés disso, mudo um pouco o rumo da conversa:

— Você acha que eu vou dar conta?

— Você? Não tenho a menor dúvida. E eu estarei do seu lado o tempo todo, meu amor, não se preocupe.

Sinto-me mais leve ao ouvir essas palavras. Saber que eu não estarei sozinha me deixa mais segura. Ainda assim, é angustiante não saber quando o pai do meu filho tomará conhecimento disso e quando vai aparecer. Será que Bruce Banner vai voltar? Será que ele já sabia da gravidez e isso foi uma das coisas que virou fumaça quando eu perdi a memória?

Deus... É confuso sentir que ele é um estranho, mas a criança crescendo dentro de mim provar o contrário. Eu o amava. Como pude esquecer alguém tão importante para mim? Um sentimento tão forte?

— Eu quero me lembrar dele, Josh. De tudo.

Meu irmão volta a acariciar minha mão entre as suas.

— Você vai, meu amor. Dê tempo ao tempo, vai ficar tudo bem.

Mais uma vez, resolvo acreditar nele. Impossível conviver com a outra opção. Não posso nem pensar nisso, então acho melhor inserir outro assunto e digo a primeira coisa que me vem à cabeça:

— Ei... Quando eu acordei na Torre, você falou alguma coisa sobre um cachorro?

Os cantinhos da boca de Josh se erguem um pouco e ele retruca com ar divertido:

— Faz duas semanas e só agora você se deu conta do que eu falei?

Reviro os olhos e insisto no que realmente importa:

— Então ele existe?

Josh esboça uma leve careta de descontentamento.

— Para o terror dos meus sapatos, que ele ama roer e destruir sem dó nem piedade, sim. Aquele demônio canino está na casa do Christian. Achei melhor deixá-lo com ele porque eu não ia saber explicar o nome da criatura sem te contar a verdade sobre o Bruce. Ah! E claro, pelo bem dos meus sapatos também.

— Podemos ir lá? Eu quero vê-lo.

Distraído com a animosidade que parece nutrir pelo animal, meu irmão comete um ato falho:

— O Christian?

Um riso me escapa e dou um tapa de leve na sua testa.

— O cachorro. Aliás, fiquei curiosa, qual o nome dele?

Visivelmente controlando o riso, Josh revela:

— Hulk.

Claro, faz sentido que ele não tenha me contado isso antes. Eu não demoraria a juntar as peças e fazer uma relação entre o cachorro e meu misterioso noivo, que é amigo do Vingador Homem de Ferro. No mínimo, iria desconfiar que... Espere um pouco.

— Por que eu daria esse nome para um cachorro? — questiono, confusa e curiosa ao mesmo tempo.

Josh não consegue mais se conter e ri um pouco antes de explicar:

— Você disse ao Bruce que foi uma homenagem, mas, na verdade, foi mais uma vingança porque estava com raiva dele na época. Aqui entre nós, ele bem que mereceu.

É possível sentir saudade de algo que não lembramos? Porque me vejo muito surpresa com a sensação de nostalgia depois que Josh acaba de contar isso. O coração aquecido e as engrenagens do cérebro lutando para fazer tudo se encaixar.

Talvez seja isso, talvez o cachorro Hulk seja a chave para eu me lembrar de tudo. Meus batimentos disparam diante dessa possibilidade e a urgência me domina. Levanto do sofá com um pulo e, sem parar para respirar, intimo Josh:

— Podemos ir agora?

Ele me analisa por um instante, o cenho levemente franzido em sinal de incerteza. Sua voz soa consternada quando ele replica:

— Mas e se você lembrar de tudo?

Por um momento, acho que ouvi errado. Um segundo depois, busco entender:

— Não é essa a ideia? Recuperar a memória? Juntar as peças do quebra-cabeças? Encontrar Bruce Banner de uma vez?

Josh fica de pé e segura minhas mãos antes de se explicar:

— Claro, só que nós não podemos esquecer que agora você está grávida, Amelinha. Você perdeu a memória como uma forma de se proteger do pesadelo que deve ter vivido naquela base. Lembrar de tudo de repente pode ser emoção demais e prejudicial ao bebê.

Ele tem razão em se preocupar, claro. E é óbvio que não quero causar qualquer dano ao meu pequeno guerreiro. Mas é exatamente isso, esse menino é forte, eu sinto, e com certeza vai precisar do pai ao lado dele. Em outras palavras, não acho que eu tenho escolha.

Além disso, mais cedo ou mais tarde, eu irei lembrar. Tenho que lembrar. Se puder ser mais cedo, com meu irmão do meu lado, vou conseguir ser forte por mim e pelo meu filho. Tenho de ser.

É pesando tudo isso que não posso desistir dessa pequena chance agora. Por menor que ela seja.

— Josh... o que pode prejudicar essa criança é nunca conhecer o pai. Eu preciso fazer isso, preciso tentar por ele, não só por mim ou pelo Banner. Eu nunca vou me perdoar se esperar demais para fazer essa tentativa. Cada segundo que espero, cada dia que se passa, pode ser tarde demais. Por favor.

Meu irmão me analisa por um longo momento, parecendo irritado com a minha teimosia a princípio. Mas depois...

— Tudo bem. — Ele se dá por vencido, e tenho que me segurar para não pular no seu pescoço agora. — Mas ao menor sinal de estresse, você vai tomar um litro de água com açúcar e ficar de repouso por, no mínimo, uma semana.

Não espero mais e o abraço, pegando-o meio desprevenido.

— Obrigada. De verdade, obrigada.

Ainda um tanto preocupado, Josh me envolve com seus braços e murmura baixinho:

— Que Cher nos ajude, sua maluca.

[...]

Infelizmente, o teste não surtiu o efeito que eu esperava. É decepcionante.

Adorei conhecer o cachorro Hulk, um são bernardo cheio de personalidade e que, modéstia à parte, parece gostar muito de mim. Porém, enquanto brincava com ele no tapete da sala de estar da casa de Christian, enquanto enterrava meus dedos no seu pelo lustroso e macio, nenhuma lembrança veio à tona. Sigo perdida.

Continuo assim no dia seguinte quando convenço Josh a me levar para conhecer a casa no Queens, onde eu iria morar com meu marido e construir o nosso felizes para sempre, se o mundo não tivesse desabado em cima de nós antes.

Foi como entrar numa casa estranha, com a diferença que eu fiquei tocada e muito triste, de um jeito muito pessoal, ao ver a bagunça semeada por quem arrancou Bruce Banner à força daqui. Por quem o arrancou da minha vida...

Sigo sem qualquer lembrança da nossa história pelas semanas seguintes, pelos longos meses que se arrastam e, ao mesmo tempo, parecem passar tão depressa.

Enquanto isso, meu corpo muda, a barriga desponta desafiadora e meu filho cresce sem saber que, quando vier ao mundo, é possível que não tenha o pai para segurá-lo nos braços. Alex só terá os meus. E os de Josh, é claro.

Por falar no titio do ano, meu irmão ficou um pouco decepcionado quando, em uma das últimas ultrassonografias, confirmei a certeza que eu já tinha sobre o sexo do bebê. Mas a frustração foi dissipada logo e, um minuto depois, Josh já estava dizendo que o sobrinho seria a criança mais elegante de Nova York, o bebê mais bem vestido que já se viu, fazendo planos para transformá-lo num gentleman digno do título de Sir. Um exagerado, obviamente. Apenas mais um tio coruja no mundo.

Todos os dias agradeço por ter Josh ao meu lado. Sem ele, essa gravidez seria bem mais difícil do que já está sendo. É muito triste não lembrar do homem que amo. É angustiante nem lembrar do amor que sinto. Tudo foi apagado e eu não sei quando ou se vou recuperar a memória.

A cada dia perco mais a esperança, e regularmente Tony Stark me pede para não desistir. Ele quer tanto encontrar o amigo, tanto solucionar o mistério, e eu também, que me convenço que não posso desistir mesmo.

Um dia, eu vou entender o que aconteceu. E, quem sabe um dia, Bruce Banner volte para todos nós.

[...]

Claramente, esse dia não é hoje. Mas é o dia mais importante da minha vida mesmo assim. O dia em que Alexander Prescott Banner veio ao mundo, nosso pequeno e lindo Alex, com um berro tão poderoso que chega a ser difícil acreditar que alguém tão pequeno possa ter tanta força.

Os exames do pré-natal não detectaram nenhuma anomalia. Mas meu bebê herdou uma parte da radiação Gama sim. Algo que, por sorte, está adormecido dentro do seu corpinho rechonchudo e que, rezo, para que nunca se manifeste ou, pelo menos, nunca lhe traga consequências ruins. Não quero que meu filho sofra.

Agora, com ele já limpinho e devidamente agasalhado no meu colo, traço cada detalhe do rostinho com a ponta do dedo, enquanto ele mama com muita gula.

Conheço meu filho há menos de uma hora e, mesmo assim, seria capaz de reconhecê-lo entre todos os bebês, escutaria seu choro mesmo no meio de uma sinfonia de outros berreiros. É incrível como uma pessoa que mal chegou já tenha me conquistado tanto, a tal ponto que não consigo mais me imaginar sem ele. Eu esperei a vida inteira por esse momento e só agora me dou conta disso.

Alex finalmente sacia a fome e mergulha num sono tranquilo.

— Posso segurá-lo agora? — Josh, na poltrona ao lado da cama, indaga com ansiedade.

— Não — nego por instinto, sem querer me separar do meu bebê. Josh me olha frustrado e triste, e volto atrás. — Tudo bem, daqui a cinco minutinhos.

Em dez minutos, entrego Alex aos cuidados do tio babão e, enquanto observo o pequeno aninhado em braços masculinos é impossível não pensar que Bruce Banner continua desaparecido.

— Josh... — Meu irmão, sorrindo de orelha a orelha, ergue o olhar na minha direção. — Eu preciso lembrar dele.

O sorriso se esvai aos poucos, à medida em que ele entende a minha necessidade. Josh assente com um meneio de cabeça e, para minha surpresa, insinua:

— Eu andei pensando e tive uma ideia. — Meu peito se enche de esperança, e ele corrige às pressas: — Uma péssima ideia. É um tiro no escuro, Amy. Nós temos que encontrar uma garota, uma... Vingadora, na verdade. Esquisita, mas gente boa. Talvez ela possa ajudar as suas memórias a voltarem.

Como? Tenho vontade de perguntar. Entretanto, o que sai da minha garganta é...

— Quem?

Josh respira fundo, nitidamente arrependido de ter sugerido isso.

— Espero que ela não frite seu cérebro no processo. É um trauma muito grande para vir à tona de uma vez, Amy. Essa garota... ela pode ler a mente das pessoas, entre outras coisas e... Ah! Ela pode despertar os piores medos de alguém com manipulação mental!

Tarde demais. Ele não pode voltar atrás agora. E não vai.

— Quem é ela, Josh? — insisto, encarando-o fixamente. — Diz logo ou eu nunca mais te deixo segurar o Alex.

Meu irmão sabe que não estou falando sério. Mesmo assim, fica chocado por um momento e segura meu filho com mais força. Em seguida, ele sopra o ar entre os lábios e tenho a impressão de que reza baixinho, antes de enfim revelar o nome:

— Wanda Maximoff.

Não tenho ideia de quem ele está falando, o que não é bem uma novidade. Então, ao invés de evidenciar a maldita amnésia perguntando Quem?, o que digo na sequência, muito ansiosa, é:

— Ótimo! Onde podemos encontrá-la?

Josh me olha com desânimo.

— Esse é o problema, irmãzinha, ninguém sabe onde ela está. Por causa do conflito entre os Vingadores há alguns meses, ela passou a viver nas sombras.

O desânimo também se abate sobre mim. Apenas por um instante. Por um instante, lamento e praguejo mais uma falta de sorte. Em seguida, digo a mim mesma para levantar a cabeça. Por mais impossível que a situação possa parecer, devo a Bruce e a Alex uma tentativa.

Se Wanda Maximoff é minha última esperança para voltar aos eixos e encontrar o homem que eu costumava amar e pai do meu filho, não tenho escolha. Preciso encontrá-la.

Notas finais
Olha que fofura, gente: https://imgur.com/a/6m6J7NR Filhote de Brumelia veio ao mundo ♥ Beijos!