— Como seria se a gente se conhecesse de outro jeito? — Essas palavras me marcaram assim que saíram da boca de Kacchan. É estranho como nunca parei para pensar nessas pequenas coisas. Quando foi que me apaixonei por ele? Quando ele apaixonou-se por mim? Em que momento nós percebemos que havia mais de uma amizade ali? Acabei saindo um pouco do momento em que estávamos; o peito caloroso qual eu apoiava minha cabeça já não era mais o centro de minha atenção.

Lembro-me como se fosse hoje o dia que Katsuki Bakugou entrou na sala de astronomia e sentou em uma cadeira vaga no canto da sala, sem dar um “oi” para as pessoas da sala. Por um momento eu te achei pretensioso, nesse seu jeito de andar como se não se importasse com ninguém, como se todas as pessoas fossem apenas figurantes na sua vida tão importante. Foi um engano, confesso, porém isso já bastou para afastar-me de ti por um momento. É errado ficar de olho em alguém a partir do primeiro dia de aula, mas não ter vontade de se apresentar? Talvez eu quisesse manter uma ilusão de que você era tão divertido e legal quanto era bonito. Tive medo de desgostar de seu cabelo único e seu rosto enérgico assim que você abrisse a boca pela primeira vez, medo de me decepcionar.

Demorou até que tivéssemos nosso primeiro momento que impulsionasse um “olá” da minha boca, e ele estava preso desde que eu botei o olho nele pela primeira vez. Apesar dele não falar muito na sala, exceto quanto queria caçar briga com os outros alunos, ele parecia outra pessoa nos passeios ao observatório, as estrelas o tocavam de uma forma que eu não conseguia entender.

— O que as estrelas significam para você? — Perguntei quando ficamos sozinhos naquela sala imensa. Nem o professor aguentava esperar Bakugou ficar satisfeito de ver as estrelas. A escola sempre ia embora e Bakugou seguia seu próprio caminho mais tarde. No início isso deu problema, mas os pais conversaram no colégio e eles liberaram.

— Possibilidades. — Ele respondeu sem olhar para mim. Não ousei questionar o significado dessa palavra pois seria cansativo, mas o que ele quis dizer? Talvez significasse uma variedade imensa de astros que só dá pra saber se você olhar com atenção. Talvez fosse algo pessoal que só ele pudesse tirar significado disso, ou talvez não significasse nada sério.

Perdemos metade do ano apenas participando de trabalhos em grupo e tendo conversas rasas antes dele falar o que sentia por mim. Sinceramente, pensei que isso nunca fosse acontecer. Kacchan sempre foi o tipo de pessoa que nunca fala dos sentimentos ou demostra fraquezas, mas ele falava bastante sobre qualquer outra coisa. Levei isso como um mecanismo de defesa. Desde o começo ele sempre tentou manter as outras pessoas da sala longe da possibilidade de uma amizade surgir, mas quando ficávamos sozinho ele simplesmente abria todas as portas de suas defesas. Era como se ele falasse “Esse sou eu, estou aqui com você. Eu me importo com você” sem precisar dizer uma palavra sequer. Provavelmente eu comecei a gostar dele quando ele chegou até mim, me pressionou na parede e falou da maneira mais hostil possível: “Eu gosto de você”. Quem assume sentimentos dessa maneira?

Kacchan sempre foi como um universo para mim. Era quase impossível desvendar seus segredos e todo dia havia um novo lado dele que eu descobria e, talvez, me apaixonava novamente. É um fato que ele sempre teve uma personalidade explosiva, e provavelmente ameaçadora para quem vê de fora, mas ao observar o fundo dos seus olhos eu sempre vi uma coisa só: paixão. Ele parecia queimar com paixão ao falar das estrelas, do céu, o universo. Quando ainda saíamos como amigos ele já transparecia todo os seus sonhos e pensamentos, poderia passar horas falando sobre tudo que estava além da Terra. Sinceramente, eu não conseguia nem me importar com todas as curiosidades sobre Júpiter e seu possível oceano feito de hidrogênio, ou as chuvas de diamante em Saturno; escutar sua voz e o ver feliz era o bastante para mim. Eu nunca vi ninguém com tanta paixão por astros do que Bakugou. Pergunto-me se isso foi o que me fez apaixonar-me por ele.

Quando a gente começa a se apaixonar por uma pessoa? Quando eu me apaixonei por Bakugou? Quando ele fez aquela cena para dizer que gosta de mim, ou foi quando ele segurou minha mão em um dia quando estávamos sozinhos e ficou em silêncio? Ou foi algo progressivo que eu só percebi quando minha mãe disse que ele passava tempo demais lá em casa? “Ele só está fugindo do barulho que é a casa dele”, eu dizia.

— E então? Se a gente não se conhecesse no colégio ou se fôssemos colegas de trabalho daqui a alguns anos ou então se a gente fosse amigos desde o primário... você ainda seria meu namorado? — Kacchan não olhava para mim. Seus olhos fitavam a mais distante estrela naquele céu estrelado do último dia de aula. Pela primeira vez, ele não me olhava diretamente.

— Eu gosto de você. Não me apaixonei pela forma que nos conhecemos ou as coisas que você me falou. Eu me apaixonei por você, Kacchan.

Pela primeira vez, ele não questionou, não me fitou ou sequer mudou de assunto; ele simplesmente sorriu.

— Sabe, desde que nos conhecemos, eu venho pensando que você é como a lua. — falei, tentando colocar minhas ideias de uma forma que ele realmente entendesse. — Você é lindo e importante para todos... principalmente para mim. Tudo que você precisa é do sol para te iluminar e mostrar o quão incrível você é.

— E o que seria meu sol?

— Eu não sei! Talvez suas ações, objetivos...

— Isso não faz sentido, Deku. Eu sou o meu sol e a minha lua?

— Ei! É você o viciado em astros aqui, eu só tô tentando te mostrar um ponto.

— Você conseguiu. — Kacchan olhou no fundo dos meus olhos e pressionou seus lábios nos meus gentilmente. Com um grito, Uraraka avisou que a chuva de meteoro que tanto aguardávamos iria começar. Eu não podia pedir por momento melhor para passar com ele.

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