Infinite
1 Todo mundo tem a sua hora.
Notas iniciais
Tenha uma boa leitura.
Tarde de terça. Minha casa. Primeiro degrau da escada, onde a tinta está descascando e há ferrugem nos cantos. Os sussurros estão se transformando em falas e as falas estão virando gritos, e os gritos estão sendo abafados pela dor. Funeral.
Todo mundo tem a sua hora.
Não estou falando no sentido literal da coisa toda; todo mundo tem a sua hora mesmo. Pode ser que seja em breve ou daqui a muitos anos, mas o momento vai chegar, quando você menos esperar. Ou não. Neste caso, o indivíduo que está sendo enterrado hoje fez as coisas ao contrário. Ele tem uma parcela de culpa na sua morte. No meu ponto de vista, isso é algo deprimente, mas, para ser sincera, existe certa beleza na morte.
Saia e vestido preto de funeral. Sapatos pretos de salto com um horripilante bico fino. Chapéu preto. A morte tem lá seu estilo, pena que não combinada em nada com a minha mãe. Ela fica com a pele pálida altamente destacada e está com olheiras tão profundas que eu não consigo encarar o seu rosto por muito tempo. Eu tenho pena dela, perder uma filha tão jovem deve ser algo relativamente trágico.
— Eu sinto muitíssimo.
As mãos quentes e úmidas de Kiersten apertam o ombro direito da minha mãe, e eu sei que o seu anel, uma flor de lótus já enferrujada pelo tempo, está pressionando a blusa preta e a deixará marcada. Eu não gosto de Kiersten. Ela e mamãe são amigas desde o colegial e mesmo depois que minha mãe se casou elas ainda continuaram juntas. A presença de Kiersten me incomoda, suas lágrimas de crocodilo causam embrulhos em meu estomago. Nunca tive simpatia á gente falsa.
De onde estou consigo ver todo mundo. Tem muita gente da escola, tem muitos daqueles grupinhos que eu considerava serem os meus amigos. Eu vejo todos, mas ninguém me vê. Sinto vontade de me encolher, pois ainda não estou preparada para sair daqui e encarar a realidade que me aguarda. Ainda não estou preparada para o que restou dentro daquelacaixa no meio da sala.
O enterro será em menos de uma hora. Pessoas trazem flores a todo o momento. Será que eles não sabem que eu odeio branco? Que eles deveriam ter o mínimo de decência em ao menos fingirem estarem realmente chocados com o que aconteceu e se importarem em me agradar, já que estou morta? Estou sendo um tanto exigente para um cadáver, mas isso é uma coisa que não posso controlar.
Quando eu era criança, gostava de me esconder debaixo da cama. Ao contrário do que eu esperava, estava sempre limpo: sem teias de aranha, insetos ou coisa parecida. Era só eu e as molas do colchão. Eu ficava por horas e horas, até mamãe gritar meu nome pedindo ajuda com algo ou só para se certificar de que eu ainda estava viva. Debaixo da cama era meu lugar secreto; agora, meu lugar secreto é no topo da escada, encolhida vendo todas essas pessoas estranhas e vazias na minha casa. Elas não estão aqui por mim, pela minha mãe ou em memória de algo que eu já fui. Elas estão aqui para manter o status de vizinhos, amigos e familiares civilizados, conversando baixinho sobre como o rosto está desfigurado ou sobre como o petisco que está sendo servido tem um gosto peculiar.
Essas pessoas me causam arrepios, nojo, dor. Elas são uma mistura de tudo o que eu odeio.
Um homem alto e calvo diz para minha mãe que já está tudo pronto, isso significa que em poucos minutos o caixão será fechado, levado para o cemitério e enterrado. É então que eu decido descer as escadas. Ninguém olha para mim, afinal, como poderia, já que estou morta? Eu atravesso o corredor, com o queixo erguido, os olhos fixos no caixão. Quando me aproximo eu tento ao máximo possível não desviar o olhar, tanto que meus olhos ardem e parecem que vão saltar das órbitas à qualquer segundo.
A garota que está ali é idêntica a mim. Tem o mesmo cabelo loiro-limonada, o rosto levemente oval, cílios grandes, lábios finos e nariz arrebitado. Até o sinal de catapora no meio da testa é o mesmo. A única diferença entre nós são dois anos de idade.E eu estou tão convencida de que estou morta, que todas essas flores são para mim, que todas essas pessoas que estão presentes é para prestar pêsames a minha mãe que esqueço que eu não estava no Quinns no sábado dois dias atrás, que não foi eu quem xingou todo mundo antes de entrar em um carro e ir para fora da cidade, não foi eu quem atravessou uma ponte a 180km/h e bateu em uma coluna, tendo o corpo arremessado para fora, para o rio, por não estar usando um cinto de segurança, não sou eu quem está com a pele azulada, o corpo coberto de cicatrizes, os braços e pernas levemente tortos, e, principalmente, não sou eu quem tem um anel prata de diamante e está usando-o agora no dedo medinho.
É Juliet.
Mas deveria ser eu.
Isso tudo é muito irônico. Essa coisa de não é, mas deveria ser. Eu nunca fui uma boa irmã, mas deveria ter sido. Juliet e eu não somos a mesma pessoa, mas deveríamos ter sido. Nós prometemos, quando ainda éramos crianças, que sempre seríamos iguais, que seríamos aquele tipo de irmãs que deveriam ser uma só pessoa, por serem absolutamente parecidas em tudo. Mas Juliet quebrou essa promessa quando, pouco tempo depois dos meus pais se separarem, ela aceitou acompanhar meu pai, mesmo depois de fazermos um singelo juramento de nunca, jamais, nos separarmos. Juliet quebrou esta promessa quando mudou, quando passou a se importar com festas, garotos e status social; sei que no fundo, eu deveria tê-la acompanhado, mas não estava – nunca estive, para falar a verdade – pronta para isto. E às vezes, quando nós fazíamos maratona de Friends e dormíamos juntas no sofá, ainda acreditava que poderíamos ser a mesma pessoa, mas sabia, lá no fundo, que isso era impossível.
Eu estou triste. Nunca acreditei muito na felicidade, por não acreditar na tristeza, mas estou triste. Quero chorar, mas não consigo e isso é ruim, pois sinto que estou me afogando com minhas próprias lágrimas não derramadas, é uma sensação de sufoco que me faz parar de respira, uma dor latejante na garganta, uma dor cujo a intenção é deixar claro que estou prestes a chorar. E isso é tão estranho, pois sou uma pessoa tão sensível. Seria racional que eu estivesse em um estado de pranto e dor, mas estou calma, na verdade, uma calmaria fingida, pois há um turbilhão de sentimentos dentro de mim.
As horas passam devagar. O enterro chega. Faço um elogio fúnebre olhando para o chão; para a única coisa que fará companhia à Juliet de hoje em diante. As pessoas se esforçam para falar comigo e eu me esforço para ignorar as expressões de espanto, pena e incompreensão de cada uma delas. Sei que em suas mentes, elas dizem : "Por que ela ao invés de você?!"
Meu pai me abraça e diz que me ama. Não digo que o amo de volta. As pessoas vão embora. Entro no carro. Volto para casa. Minha mãe fica na sala chorando. Não digo a ela que tudo vai ficar bem. Não digo a ela que dói em mim também, a única coisa que faço é abraça-la por um longo período de tempo. Mamãe para de chorar e fica em um estado vegetativo. Subo as escadas. Tranco-me no quarto. Vou para debaixo da cama. Tem algo novo lá, uma girafa de pelúcia. Eu a empurro com o pé, pertencia a Juliet e isso dói. Não posso olhar para ela agora, por isso olho para as molas. Espero que elas de repente mecham, mas isso não acontece. Está escuro. Está calmo. O silêncio me conforta.
Sinto saudade de Juliet. Sendo sincera, sinto saudade de Juliet antes mesmo de tudo isso acontecer, sinto saudade de Juliet desde que ela se libertou para o mundo e eu preferi permanecer debaixo da cama. E isso é ruim, pois agora sinto falta dela. Sentir saudade e sentir falta são coisas totalmente diferentes. Sentir saudade é ter aquela certeza de que a pessoa vai voltar. A falta não, ela machuca, ela corrói, pois ela é o lembrete doloroso de que nada vai ser como antes, a falta é querer ter de volta e saber que não vai ter.
Eu sempre estive diretamente ligada a Juliet, até mesmo no útero, pois mamãe preferiu fazer o parto em casa, o médico só conseguiu trazer-me ao mundo quando Juliet entrou no quarto e colocou a mão sobre a barriga. Mamãe me contou uma vez que fiquei duas semanas no hospital, enquanto Juliet nem sequer saiu de casa. Sempre foi deprimente e obscuro ter plena noção de que ás vezes, era como se Juliet estivesse tomado algo de mim, algo que eu não sei bem o quê. Nunca quis admitir, mas sentia que dependeríamos eternamente uma da outra, que não éramos nada além de as irmãs Singer.
Juliet foi tão egoísta que esqueceu-se que prometemos sempre sermos a mesma pessoa, sendo assim, ela esqueceu que ao morrer, estava me levando junto.
Notas finais
Espero que tenha gostado!
Beijos de luz.
Fale com o autor