Infinite

13 New York, New York.


Notas iniciais
HELLO gente, sei que estou á duas semanas sem atualizar, mil desculpaaassss mas tá tudo muito corrido, to sem tempo nem pra respirar, sério, imagine entrar aqui no Nyah! quem diria que eu iria pedir arrego da faculdade nos primeiros dias, hein kkkkkkk de qualquer forma, aqui está um capitulo novinho, espero que gostem!

Terceiro tempo, logo após o almoço. Sala do zelador. Clima abafado e calorento, que deixa meu cabelo grudado nas laterais do meu pescoço e minhas mãos escorregadias, mãos sujas de tinta preta da carta que escrevi ontem para Juliet.

Sky está aqui.

Sky está chorando.

Mais uma vez, não sei o que fazer. Ela está senta ao meu lado e nossos ombros se tocam, então acho que isso é o suficiente para nós duas, pois ela respira fundo algumas vezes e coloca a cabeça em meu ombro, e então volta a chorar novamente.

Ela não está dizendo que odeia todo mundo. Ela não está fazendo soluços absurdos, como na primeira vez. É até estranho ver Sky chorando, pois isso nunca mais havia ocorrido. Pelo contrário, o sorriso de Sky contagiava todas as nossas conversas. Mas hoje não há conversa. Hoje não há risos. Hoje tudo é denso, tudo gera suspiro e tremor pelo corpo.

— Sea. – A menção do meu codinome faz com que eu fique ereta de repente. Sky já se afastou. Ela não chora mais. Pelo movimento que seus braços fazem acho que ela está enxugando as lagrimas. – Alguém que você ama profundamente já traiu a sua confiança?

— Já.

— E como foi?

— Horrível. – Sinto uma dor em meu peito. E antes que eu perceba as palavras já estão escapulindo da minha boca. Palavras que estiveram dentro de mim durante muito tempo. Palavras que saiam da minha boca enquanto eu dormia. Palavras que ficavam me atormentando durante muitas noites escuras. – Ele era meu ícone, sabe? Depois da minha irmã, era a pessoa que eu mais admirava. Só de saber que ele estava por perto eu já me sentia segura. E aí em uma noite ele foi embora. E eu fiquei sendo obrigada á vê-lo uma vez por semana. Eu o odiei tanto. Odiei a maneira como tentava fazer as coisas ficarem bem, sendo que não estava nada bem, e eu não queria que nada ficasse bem. Na verdade, eu queria o caos. E aí com a ajuda da minha irmã eu passei a evitá-lo. Então ela foi embora com ele também. E agora ele quer voltar atrás, quer o tempo perdido, sabe? E isso me deixa muito confusa e irritada.

— Meus pais também são divorciados. – Em nenhum momento citei a palavra pais, mas Sky já passou por isso. Sky também entende. E isso me enche de alivio, isso faz com que meu peito incha e transborde com a sensação de estar segura. – Mas ela mora no Alabama. Só a vejo no meu aniversário ou do meu irmão. Foi meio complicado no começo, mas eu nunca fui apegada á nenhum dos dois. Depois de um tempo, foi como se não houvesse feito nenhuma diferença. – Ela para de falar e se move um pouco, parece estar pensando e então diz: – Hoje faz um ano que meu melhor amigo morreu. E é tudo muito difícil. Nós estávamos brigados quando a coisa aconteceu. Ele havia traído a minha confiança. A última coisa que eu havia dito para ele antes de tudo acontecer foi que ele era um drogado. Ele, o meu irmão e a namorada dele. Mas eu estava chateada especificamente com ele, pois ele dizia que nunca iria entrar nesse caminho também. Ele havia prometido para mim. E aí, no dia do enterro, deixei um saco de maconha em cima da sua lápide. E disse que o perdoava. E que o amava. E agora faz um ano. E tudo está tão complicado, Sea. Para inicio de conversa, eu nem deveria estar estudando na Walter. Eu deveria estar terminando meu último ano na Novaski, não aqui, com toda essa gente me olhando com desprezo.

— Eu não olho para você com desprezo.

— Olha sim. Todo mundo olha. Você não sabe quem eu sou quando estamos fora daqui, Sea, se soubesse não andaria comigo. Seria suicídio social.

— Eu não me importo, pois acho a mesma coisa.

Nós ficamos em silencio. Sinto o peso do luto, sinto o preto rodeando nós duas. Ela por ter perdido o melhor amigo. Eu por ter perdido a minha irmã. Acho que nossas dores acabam se encaixamos, pois, por fim, suspiramos juntas.

— Acho que você é minha amiga. – Eu digo

— É, acho que sou. Sim. – Ela diz.

Sky ri. É tão bom ouvi-la rir que acabo rindo também. Antes que eu me contenha, já estou segurando a sua mão e apertando com força. Sua cabeça está em meu ombro e eu quero que ela se sinta bem, pois talvez se ela estiver bem eu consiga ficar Ok, pois ultimamente tenho estado muito Não-Ok.

— Não acho que necessariamente todo mundo te odeie. Não dá para uma única pessoa carregar todo o ódio da escola inteira. – Eu digo, tentando convencer-me a mim mesma que estou dizendo essas palavras apenas para Sky, e não para mim. Mas é uma mentira bem deslavada. – Não tem ninguém que trate você bem, de verdade?

— Você é uma exceção, então não conta. – Ela fica um tempo em silencio, como se estivesse pensando. – Tem a Sra. Smith,aquela ruiva da biblioteca, ela já me ofereceu uma vaga para ajudá-la. Diz que vai melhorar minha nota em literatura e talvez eu aceite. Ela sorri para mim, o que já é grande coisa. Tem o treinador Ethan, o esposo da ruiva da biblioteca, também. Acho que talvez eles estejam de complô para que eu saia dessa minha solidão. Tem uma garota que me deixa sentar com ela no almoço, mas á quase um metro de distancia. Ás vezes, ela troca o seu suco de mação pelo meu sanduíche e trocamos um olhar silencioso. Nada de sorrisos nem palavras agradáveis, esse olhar já é o suficiente para que eu não em afunde por completo na lama preta da depressão. E tem o... – Ela para de falar e aperta com um pouquinho mais de força, então aperto com a mesma intensidade, para ela saber que está tudo Ok, que pode confiar em mim. Ela está voltando á ficar ao menos bem, mesmo que isso seja impossível em um dia de luto com este, mas está tentando, e por tentar, eu fico Ok. – É um garoto da minha turma de mercenária, só tenho essa aula uma vez por semana. Ele é... ele é lindo, Sky. E ele sorri para mim o tempo todo. Eu nunca sorrio de volta. Ele é sempre simpático. Pergunta se tenho dúvida com alguma coisa. Senta-se ao meu lado. Deseja-me bom dia e boa tarde quando chega e quando saí. Mas ele só faz isso na sala, pois existem apenas mais cinco pessoas além de nós, e elas são tão intelectuais que nem notam a nossa presença. E aí quando a aula acaba, ele aperta meu nariz de leve e some pelo corredor. Então eu só o vejo no almoço depois disso. Todos os dias. Com as mesmas pessoas. E aí quando eu passo por ele, sem olhá-lo, sei que ele olha para mim por baixo do boné dos Yankes que ele usa, para que a namorada não perceba. Então eu sento na minha cadeira e olho para ele. E aí ele sorri, um sorriso bem curtinho, sem mostrar os dentes. E eu volto a comer. Aí o dia termina. Eu venho para cá, nós duas conversamos. Ás vezes não quero vir para cá, pois existem dias que tudo é simplesmente insuportável. E você me faz bem, então nunca quero jogar todas as bombas em cima de você. Por isso eu somo ás vezes. Desculpa por nunca ter me justificado. Se somos amigas, não posso mais simplesmente ir e vir sem dizer nada.

Sei que estou sorrindo, mas não deixo que Sky saiba disso. Ela confia em mim. Isso me deixa tão Ok que eu a abraço com força e digo a ela sobre a lista e sobre a nota. Conto a ela que quero ler com ela e ambas ficamos tensas com o que isso significa. Sky diz que está muito abalada, por conta da morte do melhor amigo e que talvez devêssemos fazer isso quando estivéssemos realmente bem. Eu concordo com ela e nos abraçamos mais uma vez. Preciso descobrir quem é a garota que senta com Sky, e dizer para ela ser mais simpática. E preciso descobrir quem é o garoto com boné dos Yankes, para deixar claro que ele não deve partir o coração da minha amiga.

Conto a ela sobre os itens da lista. Sobre Aaron (De maneira implícita, pois deixar que seu nome escape dos meus lábios perto de outra pessoa torna tudo muito surreal). E ela diz que eu deveria tentar conversar com ele, deveria tentar seguir com o que minha irmã pediu. E então Sky me conta que só está estudando na Walter porque seu irmão pediu que ela fizesse isso, pois a Novaski é conhecida como a escola onde boa parte dos alunos se drogam ou são alcoólatras. Lembrar disso faz com que eu me lembre de Juliet e da maneira que ela agia quando estava sob efeito do álcool. Pergunto-me se papai sabia disso, e se sabia porque não a mudou de escola. Porque não fez nada em relação á isso. E Sky diz que precisamos fazer aquilo que não queremos pelas pessoas que amamos, que ela é um exemplo disso, que ela só está ali porque prometera ao irmão.

— Fico feliz que você seja meu mar agora, Sea.

—E fico feliz que você seja o meu céu, Sky.

Ela diz que vai ao cemitério no fim da aula e eu quase me ofereço á ir com ela, pois assim terei a oportunidade de visitar Juliet. Mas não faço isso, pois eu preciso terminar a lista de Juliet. E para que isso seja possível, preciso encarar o meu passado alto de olhos azuis e cabelos de corvo.

—.-.-

Amazonas Street. Centro da cidade. Pessoas que andam para lá e para cá sem realmente prestarem atenção no que estão fazendo, com celulares em mãos ou sendo pressionados na orelha. Sol oculto por nuvens densas. A chuva está próxima, mas o clima está quente.

Colin está na faculdade, por este motivo não está sendo o meu motorista quase-oficial no momento, o que faz com que eu percorra quase três quilômetros á pé até a biblioteca rascunhos. Mas isso não é ruim, isso faz com que eu tenha tempo de sobra pra pensar sobre todas as decisões que já tomei na minha vida durante meus dezesseis anos até agora enquanto ando e observo todas as pessoas ao meu redor. É claro que elas também têm escolhas como eu, talvez algumas mais preocupantes e importantes do que outras e isso significa que não existem muitas diferenças entre eu e elas.

E saber disso me deixa triste, não sei por que.

Para chegar até a Rascunhos preciso passar por uma curva e há tantos carros que eu fico por um bom tempo parada esperando a oportunidade para atravessar. De onde estou, consigo ver as pessoas lá dentro. Consigo ver a atendente sorrindo e conversando com uma garotinha no balcão. Consigo ver ele, caminhando até o seu escritório com livros nas mãos. Pergunto-me o que ele faz na faculdade, qual curso escolheu e porque está aqui ao invés de estar estudando. Mas isso não são coisas para as quais devo me importar ou questionar. Deixei de fazer isso quando ele foi embora e nunca mais voltou.

Quando finalmente entro, entrego As Ondas para a atendente e atravesso o grande salão de livros até a sala do secretário. A porta está aberta, então entro sem emitir nenhum tipo de som para avisar que estou aqui. A sala parece estar vazia.

Fico parada, sem saber ao certo se devo sentar-me na cadeira á minha frente ou continuar em pé. É uma sala grande, e as prateleiras de livros se estendem em uma linha horizontal. Ele está na terceira fileira, sei disso porque consigo ver a sua camisa verde e a os seus sapatos quando aperto os olhos e presto bastante atenção. Não é algo que eu deva fazer, mas já estou andando, lenta e ligeiramente até ele.

Então ele se vira.

Aaron.

— Que merda.

É isso o que ele diz quando nota a minha presença. Não “Nossa, Violet, que bom vê-la aqui”. Não “Esperei você ligar, mas isso não aconteceu” ou “Fico feliz que finalmente tenha vindo”.

Apenas diz “Que merda”

— Verdade. – digo, pois é a única resposta que consigo pensar. Está tudo tão calmo e silencioso que me irrita, já que eu iria preferir que tudo estivesse uma completa bagunça, pois assim eu não teria como me concentrar em nada além do pequeno aperto em meu peito. – Que merda, hein?

— Eu... – Ele para o que está fazendo e me encara. Não faz nenhum movimento para se aproximar, o que é bom, é realmente ótimo. Seus olhos azuis me deixam com vontade de chorar, berrar, abraçá-lo e nunca mais soltar. Tudo isso ao mesmo tempo, por isso opto por olhar para o seu peitoral. Ele é tão magro que sinto medo que ele simplesmente parta ao meio com qualquer movimento brusco. – Não esperava ver você aqui.

— Eu moro no mesmo lugar, sabe. Na mesma escola também. Uns quinze minutos daqui, de metrô. – Minha voz sai dura. Essa não é o tipo de conversa que eu gostaria de ter com ele. Queria que apenas falássemos da lista, e não batêssemos papo sobre isso. Sobre nós. Pois não existe um “Nó”’ aqui.

– Você sumiu. Não me ligou e nem veio aqui durante o que? Duas semanas? Achei que não quisesse me ver depois daquela noite.

Por que ele está me questionando dessa forma? Por que ele se importa que eu não liguei para ele, como ele pediu? Sendo que eu passei meses indo até a sua casa todos os dias, para ver o olhar de pena da sua mãe enquanto me dizia estar indisposto e não querer me ver? Como ele pode me cobrar esse tipo de coisa se ele mesmo disse que achava ser algo sem importância manter a nossa amizade?

— Eu não necessariamente sumi. Só não queria ver ninguém. – Ele está apertando o pulso contra a camisa, inquieto. Ele sempre faz isso, ele sempre faz algum movimento aleatório, pois Aaron simplesmente não consegue ficar parado. Nunca. – E você achou certo.

Ele hesita e afasta o olhar, voltando sua atenção para a pilha de livros ao seu lado. Aqui dentro está quente, o que faz com que o suor escorra pelo meu rosto e deixe a gola da minha blusa marcada. Isso, esse suor, faz com que eu me lembre de algo. Faz com que eu me lembre de quando eu deitei entre Aaron e Juliet na casinha de árvore, naquele ano o verão estava de matar. Aaron contava-nos sobre a dimensão do espaço e o quão próximo ou o quão distante a Terra é do Sol. Eu estava com calor, e o suor deixava-me molhada e grudenta, mas continuei ali, entre eles. Em algum momento, enquanto Aaron começou a falar sobre a teoria do buraco negro, segurei sua mão, que estava tão suada quanto a minha. E ele a apertou, com uma forcinha a mais. E tudo o que eu conseguia pensar era: Eu poderia ficar aqui para sempre.

O que foi que mudou?

Juliet. Meus pais. O acidente.

Tudo.

De repente, sinto vontade de chorar. Então envolvo os meus braços ao redor da minha cintura e aperto, para que eu consiga engolir o caroço em minha garganta e volte a respirar novamente.

— Escuta. Eu preciso completar os itens da lista. O quanto antes. – Consigo controlar minhas emoções e encaro-o diretamente nos olhos. – E ela pediu que nós fizéssemos isso juntos, ao menos a maioria deles. Não sei por que ela pediu isso. Não sei nem porque fez essa lista, existem coisas que eu ainda não consigo entender. – Paro de falar. Não entendo quando ela criou isso. Não entendo porque Aaron está participando disso. Não entendo qual a real finalidade, para dizer a verdade. – Mas é algo que ela fez, e parece ter se empenhando para que desse certo. Não quero decepcioná-la.

— Você nunca quer. – Ele diz. Há algo na sua voz, algo na maneira como ele olha para mim quando diz isso. A maneira como a sua expressão muda ao falarmos de Juliet é tão rápida que eu sei que tem alguma coisa errada aqui. Que alguma coisa aconteceu. Eu consigo sentir o rancor, mas, rancor de que? Pelo quê? – Eu saio daqui ás três, a gente pode tentar completar alguma coisa mais fácil. Sei lá, talvez aquele item de estar em dois lugares ao mesmo tempo.

— E isso é fácil? – Quase sorrio quando ele sorri também, mas permaneço com a mesma expressão dura de antes.

— O que torna algo fácil ou difícil é você mesmo.

Eu assinto e me despeço. Antes de sair, deixo uma cópia da lista sob a sua mesa e digo que vou esperá-lo na biblioteca. Mas é uma mentira, na verdade eu volto para a rua. Volto para a curva. E fico ali, vendo os carros passarem por ela em velocidades diferentes. O sol queimando-me por inteira, sem me importar de estar parecendo uma maluca. Fico pensando o que aconteceria se eu simplesmente pulasse na frente de qualquer um deles. Se meu corpo voaria para cima. Ou se ficaria presa no vidro enquanto o sangue saia de mim lentamente. Fico pensando quanto tempo demoraria para me socorrerem. Qual seria a reação dos meus pais ao saberem que perderam as duas filhas. Se fariam algum memorial para mim, assim como fizeram para Juliet. Se iria ser comparada com ela.

E, por um segundo, eu juro, sinto vontade de fazer exatamente isso. Morrer. Mas Aaron aparece na porta da biblioteca, e mesmo estando desidratada, cansada, com sono, a pele sensível pelo sol e tão suada quanto antes, aceno. E quando ele atravessa a curva e para na minha frente, sinto que estou Ok. Sinto que morrer não vale a pena. E isso me assusta, assusta de tal forma que quase digo a ele que não vamos á lugar nenhum. Mas ele já está caminhando até o seu carro, onde as badaladas de rap fazem com que eu estranhamente fique Ok.

Saber que Aaron está voltando á me trazer a sensação de segurança não me deixa feliz. Nem um pouco.

—.-.-

Carro do Aaron. Velocidade de 60 km/h. Não sei se isso é bom ou ruim, mas estamos saindo da cidade, o que significa que não seremos parados por nenhum policial ou coisa do tipo. A janela está aberta, o vento entra e saí do carro em intervalos de tempo diferentes. Acho que estou Ok.

Decido enviar um sms para a minha mãe avisando que chegarei tarde em casa hoje, mas não porque eu queira ou me importe que ela saiba onde estou, mas sim porque caso ela fique preocupada (O que é uma chance mínima) eu ao menos terei me justificado. Então ela pergunta onde estou, e quando respondo que estou em um carro com Aaron McFuller á uma destino desconhecido por mim, ela me liga.

Isso é tão estranho que eu quase não atendo, mas antes que eu perceba, meu dedo já deslizou sob a tela e o aparelho está sendo pressionado contra a minha orelha.

— Oi?

Quero falar com o Aaron.

— Por que? – Minha voz é acusatória e eu estou na defensiva, não sei o motivo, mas estou.

Agora, Vivi.

Entrego o celular para Aaron e pela sua expressão sei que ele sabe que é a minha mãe que está na linha. Não consigo ouvir o que ela diz, mas em determinado momento ele faz um barulhinho estranho com a garganta e diz “Não, Sra. Singer, eu estou limpo” e minha cabeça faz giros e nós tentando entender o que isso significa. “Eu juro, Violet está segura”. Segura de que? De quem? Do que diabos ele está falando? Antes que eu possa perguntar algo, ele já me devolveu o telefone.

— Mãe?

— Seu pai vai querer saber o que você estava fazendo com o Aaron. Ele está aqui, e está irritado.

— O que ele está fazendo aí?

Minha mãe fica em silencio por tanto tempo que eu acho que a ligação caiu, mas então ela suspira e pede:

Cuidado, Vivi. Confio nele, mas... – Estou perguntando o que ela quer dizer com isso, mas ela simplesmente ignora e termina com: – Um dia você vai precisar saber da verdade.

E, pronto. Fim da linha, ela já desligou.

— Acho que minha mãe está ficando louca. – Eu digo olhando para a estrada. Eu não vejo nada além de plantações e cercas e uma nuvem escura sob nós, e em seguida pingos no vidro. – Ah, ótimo. Chuva. Parece que a sua tentativa de me fazer interpretar Jamie Sullivan com um pé em cada lado de uma cidade no meio do nada em frente á uma placa não vai dar certo.

É então que algo bizarro acontece: Aaron ri. Isso mesmo, ri. Com todos os dentes a mostra e aquele maravilhoso som que saí dos seus lábios que indicam que ele realmente achou divertido o que eu disse. Eu fico estática, pois durante todo o caminho ele esteve com uma carranca. Na verdade, Aaron está sempre com uma carranca. Nem parece aquele garoto sensível que dizia querer ser palhaço de circo. E vê-lo sorrir, assim, tão á vontade, me causa dores no peito e embrulho no estomago.

— Achou mesmo que iríamos fazer algo tipo Um Amor Para Recordar?

— É, ué. Estamos no meio do nada, e mais á frente tem uma placa delimitando a cidade. O que você achou que eu iria pensar?

Ele não responde, ao invés disso revira os olhos e aumenta o som. É um rap tão barulhento e com versos aleatórios que eu até fecho os olhos para conseguir acompanhar. Aaron não parece alguém que goste desse gênero musical, mas todos os seus Cd’s são de grupos de rap, com colares grossos ao redor do pescoço e bonés aba retas na cabeça.

O tempo passa lentamente. Não gosto de ficar aqui, sentada apenas encarando a chuva na estrada, por isso leio e releio diversas vezes a lista de Juliet. Voltei á usar minhas lentes, o que é um tremendo alivio visto em conta que o grau de Juleit era maior que o meu e o contato da armação com o meu nariz deixava-me irritada. Aaron não fez nenhum comentário sobre isso, mas Colin disse que preferia ver-me com óculos, pois, segundo ele, deixa-me com um ar de intelectual e interessante, como se eu não soubesse o quão normal e desinteressante eu sou. Mas, ambos repararam no meu cabelo, nas mechas azuis retocadas. Aaron torceu o nariz, como se estivesse enjoado. Colin pegou os fios com interesse e sorriu. A diferença de reação dos dois deixa-me tão perdida quanto um cego em tiroteio.

Gostaria de saber o que Juliet acharia disso. Espero que, no fundo, ela aprove a maneira como estou tentando me adaptar. Que não me reprove por usar suas roupas e tentar ser como ela, pelo contrário, quero que ela se sinta orgulhosa de mim. A opinião dela sempre foi mais do que importante para mim, deixá-la satisfeita sempre foi uma das coisas fundamentais.

Paramos em um zoológico. Procuro na lista, mas não encontro nada relacionado á isso. Aaron já desceu do carro e me espera na entrada. Não o questiono, apenas fico ao seu lado enquanto andamos. A última vez que fui a um zoológico, foi antes dos meus pais se separarem. Evitei visitar as girafas, pelo trauma que tive na África. Mas, ao menos, visitei jardins botânicos e tirei muitas fotos com incontáveis aves. Isso foi quando tudo ainda era belo, quando havia cores em tudo. Foi antes do cinza se espelhar e da tristeza predominar. Antes de o infinito parecer tão longe, antes dos números começarem á ser uma companhia de, literalmente, tirar o sono.

Aaron fala alguma coisa para um assistente, que me olha por dois segundos antes de sorrir e digitar algo no computador. Nós voltamos a andar, e algumas vezes paramos em frente á animais exóticos e faço caretas para eles, como uma criança idiota. Aaron começa a me acompanhar, e em determinado momento um gorila põe a língua para fora e fica assim por um bom tempo, então Aaron lhe mostra o dedo do meio e surpreendentemente o gorila faz a mesma coisa. Começo a rir tão descontroladamente que coloco a mão sob a barriga e me encosto na grade de metal para me estabilizar.

— Tá achando engraçado, é? – Aaron semicerra os olhos e sorri debochado. – Ele está logo atrás de você, acho que vai comer essa tinta azul horrenda do seu cabelo.

Eu pulo, com a mão sobre a cabeça. Meus olhos estão tão arregalados que doem, mas o gorila ainda permanece no mesmo lugar e nem mesmo está mais prestando a atenção em nós. Agora é Aaron quem está rindo, e todas as outras pessoas também. Reviro os olhos, fingindo não dar a mínima e me afasto dele.

E então algo estranhamente estranho acontece. Um garoto, de mais ou menos seis anos de idade, puxa a minha mão. Olho para ele, sem entender, e pergunto se ele está perdido. O garoto balança a cabeça e timidamente pergunta:

— Você pode dançar comigo?

— Dançar? – Olho ao redor. Todo mundo está surpreendentemente parado, prestando atenção em nós. – Aqui? – O garoto assente, balançando nossas mãos unidas. – Mas nem tem música.

— E quem disse que precisa de música para dançar?

Então ele pega a minha outra mão e balança o corpo de um lado para o outro. De inicio, mantenho-me parada, sem graça, mas aos poucos movo os pés para lá e para cá. Sei que meu rosto inteiro está em chamas, e o garoto sorri para mim como se estivesse tudo bem. E realmente está tudo bem, pois todo mundo agora está dançando. E toca uma música pelos alto-falantes de aviso, toca a música favorita de Juliet, New York, New York do Frank Sinatra. Eu sorrio, sem acreditar no que está acontecendo. O garoto me solta, e agora uma garotinha dança com ele, e então um senhor de idade me puxa e eu rodopio tantas vezes que fico tonta.

Eu sorrio. Eu balanço os pés. Eu balanço os braços. Mexo a cabeça. Mexo o quadril. Mexo-me. Eu adoro dançar. Mas, aí que está: Eu não sei dançar. Mas eu danço, ou dançava, ás escondidas na casa de árvore. E apenas Aaron sabia disso.

Aaron.

Ele também está dançando, mas não tira os olhos azuis da minha direção. E ele sorri todas as vezes que alguém me puxa para dançar e faz movimentos tão esquisitos quanto os meus. Em algum momento, alguém colocou um colar de flores em minha cabeça. Crianças me abraçam e pulam comigo a cada vez que uma música diferente toca, uma senhora me entrega uma bugiganga típica de zoológico e diz que é um presente. A chuva volta, mas as pessoas não correm para debaixo de uma cobertura, pelo contrário, elas permanecem no pátio. E as músicas desligaram, mas agora nós estamos cantando New York, New York em sincronia, os animais nos observam, como se quisessem também fazer parte da diversão.

Eu pulo. Eu solto gritinhos. Eu estendo os braços para cima e faço movimentos aleatórios. É tudo tão natural que sinto vontade de chorar, que sinto o desejo de estar com Juliet aqui. Mas algo me diz que ela está aqui, ela está em cada movimento, ela está em cada verso cantado, ela está em cada sorriso e abraço que as pessoas me dão. E está tudo tão maravilhoso que eu fico Ok ao extremo.

Não acredito na felicidade. Ela é tão passageira. Ela vem e vai tão rápido, e a tristeza dura tão mais tempo. A tristeza dura até mesmo dias, e pode ser sentida até quando você não quer sentir nada. Mas agora a felicidade está tão presente que eu não consigo parar de pedir a forças divinas que ela dure um pouco mais, que isso fique marcado na minha memória para sempre.

Aaron está ao meu lado. As pessoas estão batendo palmas para mim, então Aaron sussurra em meu ouvido que eles sabem que eu estava em um momento difícil. E isso é tudo, e a maneira como essas pessoas me olham é tão diferente daquelas que estavam no velório de Juliet. Elas não me olham com pena, ou com acusação por estar viva. Ao invés disso, elas me olham como se estivessem feliz por eu estar aqui, com elas, por eu estar tentando ficar Ok, mesmo que eu não tenha me esforçado muito para isso.

Quando deixamos o zoológico, estou com várias bugigangas e coroas de flores, além de sorrisos e abraços que me marcaram para sempre. Aaron não se importa que eu sente molhada em seu banco de couro, diz que hoje foi um dia especial e que os plásticos servirão de proteção. Ele não coloca rap para tocar, mas sim músicas eletrônicas. Eu sorrio, mesmo sem perceber, pois músicas eletrônicas fazem minha autoestima mudar para a melhor. Eu começo a cantar, e balanço os braços. Aaron também canta comigo, mas se mantém distante, e é melhor assim, acho que não iria reagir bem se ele resolvesse se aproximar como as outras pessoas fizeram. Na verdade, acho que ele nem quer isso. Acho que deixo Aaron desconfortável, como se o fizesse lembrar algo que deseja esquecer.

Mas não penso sobre isso no caminho para casa, e quando finalmente ele estaciona o carro eu pego a caixa de Juliet e ele diz que eu devo abrir o bilhete número 4, pois eu literalmente tive um momento glorioso, cheio de mimos e frescurinhas.

E o que está escrito nele é:

“Você merece, Vivi. Você merece muito mais do que um momento glorioso, você merece todos os momentos gloriosos. Por favor, fique bem. Espero que tenha aproveitado esse momento, espero que tenha trago um pouco de paz em seus dias turbulentos”.

Aaron desliga o som. Ele não me encara, apenas destrava o carro e diz que terá tempo de sobra para completarmos outro item daqui á dois dias. Mas eu tenho jogo, e quando lhe informo, ele me questiona sobre qual esporte estou participando.

— É futebol. Não que eu seja boa nem nada disso, acho que vou ficar o tempo inteiro no banco. Mas eu to no time, o que já é grande coisa. – Desço do carro e fico encarando-o pela janela. Ele está encarando-me também. O que será que ele vê quando olha para mim? Gostaria de saber, pois eu não sei o que sou quando olho para mim mesma. Por impulso, as palavras já estão escapando da minha boca. – Talvez você devesse ir. Sei lá, para descontrair. Só não vale tirar onda com a minha cara.

Ele fica em silencio por um bom tempo, analisando todas as expressões que podem ser encontradas no meu rosto. Por fim, suspira e diz:

— Onde vai ser?

O ar escapa na minha boca tão rapidamente que faz um barulho estranho. Troco o peso de um lado para o outro, segurando os meus presentes contra o peito, como se fossem um escudo.

— Na Walter. Ás sete.

Ele pisca os olhos. Uma. Duas. Três vezes.

— Estarei lá.

E eu surpreendentemente quero que ele realmente esteja.

E sou uma masoquista idiota por querer isso, sei que sou.

Mas eu realmente estou pouco me fodendo para isso.

Notas finais
gente, sábado é meu niver de dezoito, quem aqui vai me dar de presente uma linda recomendação, HEIN??? jogando indiretas no ar, espero que todos peguem, hahahahaha enfimmm comenteeemmm o que acharam! beijão, lindos e lindaasss