Infinite

9 Estar "Ok" e "Não-Ok".


Notas iniciais
HELLO BOYS AND GIRLS Aqui está um capitulo fresquinho, e eu não vou demorar mt na nota pq to correndo pra reler os treze porques antes de amanhã, por conta do lançamento da série sjnejmsiuejnsmez to rindo de nervosa booom, espero que gostem! Gente, pfvr, espalhem a fanfic para os seus amigos e inimigos tmb, to só com 11 leitores, apesar de ter mt gente acessando a fanfic, vamos acompanhar, pfvr, pq saber que o número tá baixo e apenas 3 pessoas comentam me deixa desmotivada pra postar, mesmo com a história concluida, pleasseeeeeeeee.

Terça-feira, meia-noite e meia. Minha silenciosa e solitária casa, onde só se escuta o som da cortina da sala batendo contra o vidro da janela por conta do vento, a espera que alguém possa fechá-la, alguém que está fazendo plantões e esqueceu-se de avisar para a filha que não voltaria para casa. Filha essa que está no seu quarto, onde a escuridão domina e a única claridade vem de um velho abajur da Hello-Kitty, lendo um livro tão poético e tão confuso de se ler.

Tenho raízes, mas sou fluída.

Não é uma frase solitária, faz parte de um longo trecho do livro As Ondas, de Virginia Wolf. Trecho este que está grifado com um marcador com violeta e diz assim: “Sinto mil capacidades brotarem em mim. Ora sou brejeira, alegre, lânguida, ora melancólica. Tenho raízes, mas sou fluida. Toda dourada, fluindo…”. Juliet costumava dizer que ler não é algo muito fácil de se fazer, fácil é simplesmente engolir as palavras de uma vez só e depois vomitá-las em menos de uma semana. Ela sempre se irritou com pessoas que liam um livro e se esqueciam do conteúdo rapidamente. Talvez ela tivesse uma boa memória, ou desse uma atenção especial para cada detalhe. Mas o que eu quero dizer é: Cada livro que lia, se tornava importante para ela, até mesmo aqueles bem chatos e com personagens nada interessantes. Ela queria ser escritora, queria que as pessoas dessem valor ás suas palavras, por isso se empenhava tanto para dar valor ás dos outros.

Eu tento entender a frase, pois é a de maior desataque. Não é algo que combine com Juliet, é algo que combine comigo, isso, de fluir e nunca permanecer na mesmice. Eu nunca sei definir como realmente sou, mas como realmente estou, e sempre estou de diversas maneiras. E eu me pergunto se essa citação é diretamente para mim, ou se ela está deixando claro que sim, ela não era o tempo inteiro a pessoa padrão que ela deixava transparecer para algum público alvo, pois Juliet sempre tinha um público alvo.

Na capa, havia uma pequena nota, semelhante á primeira que achei. Havia a letra de Juliet grifada ali, com um grande J de cor violeta. Ela dizia que, para entender, eu precisaria pedir ajuda á pessoa mais sábia do mundo. E essa dica não me ajudou, nem um pouquinho.

É um livro curto, e antes que eu possa cogitar na ideia de parar de ler, o livro termina. Suspiro, decepcionada. O livro é narrado por seis personagens alternadamente, e cada um com uma personalidade diferente, apesar de que todos juntos compõem uma forma inusitada sobre a consciência. É um livro de monólogos e isso me intriga de uma maneira que não dá para explicar, pois nunca sequer me imaginei lendo e gostando de um livro como este.

E é então que uma ficha cai: Juliet não gostava de Virginia Wolf, ela nunca sequer ouviu falar da autora antes de ir para faculdade e eu lhe dar Mrs. Dalloway de presente. Ela me mandara uma mensagem falando que não tinha conseguido concluir o livro, apesar de ter tentado. E é então que eu percebo que ela não leu As Ondas, ela apenas grifou essa frase aleatoriamente. Ou não tão aleatoriamente assim.

Tenho raízes, mas sou fluída.

A cortina continua batendo contra a janela. São quase uma hora da madrugada. O quarto está frio. O silencio predomina. Eu pisco. Uma, duas, três vezes. O livro continua sobre a cabeceira. Pisco mais uma vez. Encolho o corpo. Mindy está dentro do meu guarda-roupa, mas eu consigo vê-la, e sei que ela consegue me ver. E isso me intriga. Eu deito, eu me cubro, eu fecho os olhos. E é tudo escuro. E eu abro. E é tudo fantasmagórico. E eu não sei se quero continuar com eles abertos ou fechados. Então eu intercalo. E eu me canso. E, puxa vida, eu tenho aula mais tarde. E eu pisco mais cinco vezes antes de conseguir virar para o lado e perceber que não estou nem um pouco confortável.

Eu me levanto. Eu me agacho. Eu me deito novamente. As molas estão coloridas, pois já que eu passo tanto tempo embaixo da cama decidi usar um pouco de criatividade para deixar tudo com um clima melhor. Clima melhor. O que seria clima melhor? Eu conto. Infinitos números. Números grandes. Números pequenos. Números depois de zero. Número antes de zero. E eu fico rouca. E minha garganta dói. E eu não paro. Porque os números são infinitos. E eu quero ser infinita.

Tenho raízes, mas sou fluída.

—.-.-.-

Sala da diretoria, onde o secretário baixinho e gordinho me encara decepcionado. Onde tudo cheira á desinfetante de flores, o que significa que tudo cheira á morte. É tão surpreendente a morte ter um cheiro que isso nem sequer me incomoda. É tão surpreendente isso não me incomodar que eu até esqueço que este é o aroma que vaga por toda a minha casa.

— Você tem muita sorte, mocinha. – Quero dizer á ele que pare de me chamar de mocinha. Quero dizer á ele que sorte não existe, e que se existe, eu não a tenho, nem um pouco, pois não acredito nela. Quero dizer á ele que precisa urgentemente fazer um novo corte de cabelo e encontrar uma namorada, mas eu não digo, pois eu não me importo com ele. – Natalie conseguiu convencer o diretor de não expulsá-la. Agora, tudo o que precisa fazer é limpar o auditório e a sala de teatro no fim das aulas.

Eu me viro e saio sem dizer obrigada. As pessoas me encaram enquanto ando. Lembro-me de sorrir, de agir como se nada tivesse acontecido e eu não estivesse abalada, pois esta é uma atitude que Juliet faria sem nem sequer pensar na possibilidade de mostrar que está incomodada. Então as pessoas já não estão mais me encarando, elas não estão mais cochichando e nem olhando torto. Bater em Amanda Monkey não ás incomoda mais, aliás, por que incomodaria, se estou sorrindo? Pois se estou sorrindo, então está tudo bem, não é mesmo?

Não. Não é.

Eu me encontro com Anne no terceiro horário. Ela não fala comigo durante cinco minutos, pois seu celular não para de vibrar e pelo seu sorriso eu sei que ela está conversando com Maxwel. Então a professora entra na sala, ela desliga e se vira para mim de maneira lenta e direta:

— Pela sua cara, acho que você voltou ao normal. – Eu ainda estou sorrindo, pois parece que eu fiz uma plástica e ele permaneceu ali, intacto. Isso me irrita de uma maneira que simplesmente não dá para explicar. – Então voltamos á sermos amigas.

E é isso. Eu fiquei quatro dias suspensa, o que fez com que eu não visse nem Mayune e muito menos Anne. E elas não ligaram. Elas não foram até a minha casa. Elas nem sequer perguntaram o porquê eu bati em Amanda Monkey. E é isso. Ela não é mais amiga da Vivi Singer. Então o fim de semana passa. Eu volto para a escola. E é isso. Ela volta a ser amiga de Vivi Singer.

Sinto algo no estomago. Parece ser mais como um soco, e por um segundo sinto vontade chorar, mas não choro, e isso é uma droga pois quero dizer para todos que não estou bem, que, Meu Deus, Juliet está morta á um mês e meio e ainda parece que foi ontem e tudo dói como se fosse a primeira vez.

A aula começa. É filosofia. E a professora fala de uma maneira tão direta e tão convencional que eu gosto da aula, que eu consigo me concentrar em alguma coisa que não seja o livro As Ondas e as molas embaixo da minha cama. Faz com que eu não tenha que lidar com meus demônios. E por poucos minutos, acho que tudo fica OK. Não quero falar “bem”, pois estou começando a achar que tudo isso – e com isso quero dizer estar bem ou estar mal- é apenas um rótulo, então vou começar a usar o “Ok”.

Eu gosto de filosofia. Eu gosto tanto de filosofia que por um momento penso em cursar isso para a faculdade. Enquanto todos na minha turma já têm algo em mente sobre o que quer fazer da vida, eu não faço a mínima ideia do que vou comer no café da manhã, o que dificulta ainda mais a minha perspectiva de um futuro universitário. Mas filosofia parece ser uma opção viável, então sim, tudo OK colocar filosofia na hora da inscrição acadêmica.

A aula termina. É hora de trocar de turma. Anne elogia o meu tênis enquanto ando, diz que tive um bom gosto desta vez, pois ela sempre critica os tênis que eu uso. Mas esses tênis não são meus, são de Juliet, e essa é a o primeira vez em semanas que eu uso apenas uma peça de seu guarda-roupa. Minhas opções estão ficando limitadas, pois ela levou boa parte das suas roupas consigo para o dormitório da faculdade, o que fez com que meu pai doasse todas as peças quando ela morreu. Só restou apenas aquelas que eu fiz questão de que ele não se desfizessem, aquelas que tinham uma história.

Esse tênis, no entanto, não tem história nenhuma. Ele é apenas um tênis florido. Pronto. E eu estou ok com isso.

O dia passa lentamente. Eu continuo sorrindo, eu continuo intercalando entre Ok e Não-Ok. O último sinal toca, e todos os adolescente saem da escola em poucos minutos. E os corredores ficam vazios, as salas, os bebedouros, os banheiros. Tudo fica uma completa solidão. E então eu paro de sorrir. Então eu me permito ficar Não-Ok. E eu suspiro aliviada, pois realmente estou aliviada em parar de sorrir e fingir. E eu quero saber o que há de errado comigo. Quero saber porque estou tão Não-Ok ultimamente. E, por um minuto, acho que é depressão. Mas não, não é, pois depressão é um lago fundo, escuro e denso. Tudo isso que estou sentindo é apenas uma tristeza sem tamanho, é o lembrete doloroso que algo foi arrancado de mim. Esse algo não é apenas a minha irmã, é muito além.

Eu limpo a sala de teatro e o auditório. O zelador é minha única companhia, mas ele não me ajuda, pois esse é o meu castigo pelo restante do mês. Ele não conversa comigo, mas só em estar aqui já é o suficiente, pois ele parece ser a única pessoa de verdade no meio de tantos alunos, já que me sinto constantemente sozinha dentro de uma escola tão repleta de pessoas.

Eu termino tudo antes do tempo que foi estipulado, então vou até a pequena cabina do zelador e sem nem mesmo me dar o trabalho de acender a luz, eu jogo o esfregão, a vassoura e o balde para o fundo da sala. Aqui é escuro e pequeno. Não consigo identificar mais o que há aqui dentro, pois não consigo encontrar o interruptor. Eu já estou dando meia volta quando escuto um murmúrio, tão baixo que por um segundo acho que é minha imaginação, mas sei que não. Meu coração bate mais rápido que o normal.

Eu dou um passo, e, puta merda, dou de cara com uma pessoa. Eu sei que é uma garota, pois ela funga e dá pra escutar o som de seus saltos batendo contra o piso enquanto ela se afasta. Eu aperto os olhos com força, mas é em vão, pois tudo é completamente obscuro.

— Quem diabos é você? – Faço a pergunta com cuidado e dou um passo para o lado, tentando ter alguma noção de onde ela está.

— Eu... eu estou perdida. – Sua voz é tão baixa e tão aveludada que parece ter saído de algum musical, talvez até mesmo da série Glee. Eu acho que nunca escutei essa voz antes. – Achei que aqui fosse algum banheiro ou coisa do tipo.

Ficamos em silencio. Não sei o que ainda estou fazendo aqui, pois ela não respondeu á minha pergunta e eu não consigo ver o seu rosto. Tento me aproximar da parede, talvez encontrar o interruptor, mas parece uma tarefa simplesmente impossível. A garota está chorando, e não faz questão de esconder isso, pois ela funga sem parar e soluça baixinho. Quero perguntar se está tudo Ok, mas tenho medo da resposta, tenho medo do motivo para ela estar assim. Mas eu pergunto mesmo assim e engulo em seco.

— E você por algum acaso se importa? – É como um tapa na minha cara, e eu fico sem fala por alguns segundos. – Desculpa, eu só... é difícil.

— Difícil. – Eu repito a palavra, saboreando-a em meus lábios. Eu sei o que é isso, esse difícil que ela está se referindo. – Olha, aqui não é um banheiro, mas é um lugar perfeito para chorar por desilusão amorosa.

É um tiro no vácuo e eu percebo que fico aliviada quando ela sorri de maneira hesitante e rouca. Afinal de contas, ela pelo menos não é alguém que está chorando pelo ex-namorado ou coisa do tipo. A sua tristeza é tão palpável que eu me pergunto se a minha também é e se as pessoas simplesmente á ignora.

— Não é nada disso. Não to chorando porque algum otário me deixou. – Ela respira fundo e eu percebo que ela está do meu lado. E isso é estranho, pois achei que ela estivesse em algum outro canto da sala. Eu não estico o braço, eu não lhe ofereço conforto. Não posso dar á ela algo que eu estou desesperadamente precisando. – Odeio eles. Todo mundo. Cada pessoa dessa escola, inclusive você, mesmo que eu não saiba quem seja. Odeio de todas as formas possíveis. Eu não deveria estar aqui.

— E por que você nos odeia? – É estranho falar no plural, é estranho me incluir entre os outros alunos e saber que faço parte deles.

— Vocês nem sequer me conhecem e me julgam. E me olham torto. E, puta merda, desde que as aulas começaram ninguém tentou ser meu amigo, ninguém tentou se aproximar. E, quer saber? Eu não ligo. Sério, eu não me importo.

Fecho os olhos. Imagino-me colocando o braço ao redor dos seus ombros e lhe dizendo palavras de conforto, mas tudo isso é uma hipocrisia e falsidade tão grande que simplesmente nem dá pra engolir. Então eu troco o peso de um pé para o outro e caminho de volta para aporta. Abro-a e antes que eu saia por completo, digo:

— Se isso te deixa mais aliviada, bom, saiba que eu também odeio todo mundo, mocinha.

Ela ri mais uma vez, pelo menos não está chorando, fungando e soluçando. Percebo que eu não consigo lidar com a minha tristeza, e por isso é meio complicado lidar com a de outras pessoas.

— Não me chame de mocinha, fica parecendo o secretário do diretor. Pode me chamar de... Sky.

Sky. Fico repetindo na minha cabeça até que eu consiga absorver, pois sei que não é seu nome verdadeiro.

— Tudo bem, Sky. Pode me chamar de Sea. Vejo você amanhã.

Não é uma promessa. Não é uma sentença. Não é uma expectativa. É apenas um fato, é apenas uma consequência. Eu saio da sala, e quando já estou no fim do corredor, escuto a porta se fechando. Não olho para trás e espero que ela não olhe para mim, também.

Sky é a única coisa real que acontece no meu dia.

—.-.-

Cozinha da minha casa. Cores. Quentes e mórbidas, tudo em uma pessoa só. Minha mãe, com o cabelo preso em um rabo-de-cavalo e óculos solto ao redor do pescoço pendendo sobre uma corrente. Chocolate. Por toda a cozinha. Se espalhando pelo ar.

Isso sempre foi um bom sinal: minha mãe fazer biscoitos. Quando ela e papai se separaram, lembro-me bem de vê-la sempre tão triste, e a casa estava sempre com um leve aroma de queimado. E então, quando sentíamos o aroma de chocolate, sabíamos que ela estava de bom humor, que ser largada pelo marido não estava mais afetando-a tanto.

Nós voltamos á estaca a zero, ou dez, depende do ponto de vista. Voltamos aos dias em que ela e eu comemos apenas coisas industrializadas ou requentadas, pois mamãe não está mais descontando toda a sua frustação cozinhando por horas, a barriga pressionada contra o fogão quente, tão quente que deixa sua pele vermelha quando ela se afasta.

Nós não conversamos. Ela não me pergunta como foi a escola. Ela não pergunta qual castigo eu recebi. Ela não pergunta como estou. E, em troca, eu também não lhe pergunto nada. Depois de amanhã faz exatamente um mês e meio que Juliet morreu, e nós ainda não conversamos sobre isso, nenhuma de nós duas teve coragem para começar o assunto. Nenhuma de nós duas quis abordar o fato de que, enquanto uma está brigando na escola e pegando suspensão a outra fez do hospital o seu lar. E estamos Ok com isso, quanto menor a quantidade de perguntas, quanto menor o lengalenga, menor é a dor.

Já escureceu quando ela finalmente coloca a bandeja sobre a mesa e senta-se ao meu lado. Eu me contorço, pois quero dizer á alguém, principalmente á ela, sobre meu não-encontro com Aaron. É algo que eu certamente teria comentado com Anne, mas, depois vi-me sentada no banco do refeitório, com ela falando sobre o quão lindo Maxwel é e não dando uma única atenção sequer ao que eu estava falando. Mas com mamãe seria diferente. Ela sabe o que eu sentia por Aaron, ela percebeu muito antes de mim, porque, afinal de contas, ela é minha mãe, e naquela época eu era simplesmente transparente em relação aos meus sentimentos.

Mas, falar de Aaron, a levaria á varias perguntas, principalmente sobre porque fui naquela biblioteca especifica. E eu não consigo mentir para a minha mãe tão descaradamente, então não saberia dar uma boa resposta, o que me levaria á falar do bilhete que achei de Juliet, bilhete esse que nem sei de que data é, Aaron não me disse quando foi que ela deixou aqueles livros com ele. E eu não quero falar sobre isso com ela, não antes de eu saber o que tudo realmente significa.

Ao invés disso, eu apenas como os biscoitos enquanto ela fala do programa de TV que ela acompanha de madrugada nas pequenas pausas do hospital. E eu escuto, pois é bom ouvi-la falando, é bom saber que ela está aqui, fisicamente do meu lado, e não do outro lado da cidade em uma ala pediatra em algum hospital qualquer.

— É romance policial. Pode parecer bem clichê, mas eu gosto. – Ela pega dois biscoitos e os coloca de uma só vez em sua boca. Eu sorrio, pela primeira vez no dia, eu sorrio de verdade. E, ai Meu Deus, ela sorri de volta. E é tão bom vê-la sorrindo, isso enche-me de um alivio tão grande que eu suspiro. – Vivi, você ainda vai viajar para St. Paul?

— Não sei. Papai disse que o meu castigo seria não viajar com ele, mas ele cancelou as passagens, de qualquer forma.– Natalie disse que ele apenas estava adiando, devido ao pequeno-não-tão-pequeno imprevisto que ocorrera, no caso, meu surto psicótico na escola. Por mais que eu me arrependa do que fiz, ainda não disse isso ao meu pai, por isso ajo como se isso não fizesse diferença alguma. Mas faz. – De qualquer forma, não quero ir.

— Mas deveria. – Eu automaticamente paro de mastigar e olho interrogativamente para ela. Não é algo que minha mãe diria, ela certamente concordaria com qualquer coisa que eu dissesse que não fosse de acordo com alguma decisão do meu pai. – Você e ele estão afastados desde que nos separamos. E agora que sua irmã não está mais aqui... Bem, é difícil. Digo por experiência própria.

Sinto meu rosto esquentar e acabo cuspindo as palavras de uma só vez:

— Você tem passado tanto tempo dentro daquela droga de hospital que não parece nem mesmo lembrar que tem uma filha.

Os olhos da minha mãe se fecham por longos segundos e eu sei que a magoei.

— Ela era minha filha, Vivi. Saber que ela morreu antes de mim é como morrer também.

— Então, você também precisa de mim, mais do que o papai. Afinal de contas, á quase quatro anos atrás, Juliet morava com ele, e não conosco.

– Foi o melhor para ela, Vivi, morar com o seu pai. – Meu rosto queima, não entendo porque ela está dizendo isso para mim. Quando Juliet disse que o desejo dela de aniversário de quinze anos era morar com o papai, mamãe protestou contra, disse que o lugar dela era com a nossa mãe. Foi mais um daqueles dias com árduas discussões entre ela e o papai dentro do escritório abafado. – Ela precisava...

— Ela nos abandonou. – Assim que as palavras saem da minha boca, um gosto amargo fica e se espelha por tudo, de uma maneira rápida e hábil, de maneira que eu sinto que vou vomitar. Sempre tentei convencer-me de que não, ela não havia nos abandonado, que estar com papai fazia bem á ela, que ela estava mais feliz. E era exatamente por isso que eu ficava transtornada. Não havia chances nenhuma de eu morar com o meu pai, e eu simplesmente me questionava como Juliet poderia estar mais feliz sem mim ao seu lado, todos os dias. Mas então vi que eu não era tão importante na sua vida, que não fazia tanta diferença assim. E isso me atinge. Saber disso me corrói. – Ela tinha uma escolha, e preferiu ficar com ele.

Minha mãe fica em silencio. Ela abre e fecha a boca repentinas vezes.Eu sei que ela quer falar alguma coisa, e sei que essa coisa é extremamente importante. Mas ela não faz isso, ela apenas encolhe os ombros e murcha em sua cadeira. Eu me sinto Não-Ok, pois mamãe parecia estar querendo trazer as coisas ao normal, parecia estar tentando colocar uma pedra no passado, superar a morte de Juliet. Mas eu sei que nunca irei superar. Sei que nunca irei me perdoar.

Eu olho para a minha mãe, com suas expressões que mudam constantemente. Quando Juliet começou a mudar, suas expressões também mudavam, ela não estava o tempo inteiro sorrindo, apenas quando tinha muita gente por perto. Era como se ela tivesse escondendo quem ela realmente era, eu sentia que no fundo havia alguma coisa em Juliet, algum mistério, que só ela sabia, só ela conhecia. E quando eu lhe falava sobre isso, ela me dizia que era coisa da minha cabeça, que não havia nada de misterioso nela, e se ela sabia controlar suas expressões e sentimentos, foi porque ela havia aprendido com a pessoa mais sábia do mundo.

Minha mãe é a pessoa mais sábia do mundo. Ao menos, para as irmãs Singer.

E, com isso, já sei quem pode me ajudar a entender a citação de As Ondas.

— Mãe, o que significa raízes? – Eu começo, de maneira lenta e hesitante, com medo de deixar escapar alguma coisa. Ela volta á se endireitar em sua cadeira, pois sabe que estou mudando de assunto pois sabe que não quero mais falar sobre o papai. – Não no sentido literal da coisa toda, no sentido de ser algo que faz parte de uma arvore ou coisa do tipo. Mas no sentindo, sei lá, emocional? É uma frase que li: “Tenho raízes, mas sou fluída.” E estou tentando entende-la.

— Depende do contexto. – Ela fecha os olhos minimamente quando olha para mim, parecem estarem cerrados. Eles são verdes, como os meus, mas seu cabelo é castanho escuro, coisa que nem eu nem Juliet herdamos dela. – Tenho raízes, mas sou fluída. – Seu tom de voz muda, e ela vira a cabeça levemente para o lado, avaliando-me. – Isso é algo que sua irmã sempre dizia no telefone, quando eu perguntava se ela estava bem.

— Tem certeza?

Meu coração bate aceleradamente contra o peito. Detalhes. Eu preciso observar os detalhes. Tenho raízes, mas sou fluída. Meu Deus, o que isso significa. Detalhes por todos os lugares. Detrás de uma tela. Em um cartão de biblioteca. Dentro de um livro. Em um diálogo ao telefone. Detalhes.

— Absoluta. Na primeira vez ela me explicou que, com raízes, ela queria dizer o sentimento, que ela tinha um sentimento fixo, mas era fluída, o que significava que os sentimentos poderiam mudar, oscilar, fluir. Então depois, em uma de nossas conversas, ela disse que raízes não eram mais um sentimento, era um lugar. O seu lugar de raiz. O lugar que ela se tornou ela mesma, e fluída são os lugares que ela frequentou depois dele.

— E qual você acha que seria esse lugar?

— Ah, não sei. – Eu percebo que mamãe está fazendo um grande esforço para não cair no choro, percebo que falar de Juliet não está sendo uma coisa muito confortável para ela. – O seu quarto, talvez.

Minha mãe está errada. Não é o quarto de Juliet que fez ela se tornar quem ela realmente era. Mas o escritório, sim. O que fica ao lado do porão, o lugar onde escrevíamos nossas histórias fictícias. Juliet tinha a horrível, e ao mesmo tempo incrível, mania de colocar tudo dela em uma história, colocar até mesmo cenas reais do nosso dia-a-dia. Mas ela dizia que estava sendo ela mesma, e que era por isso que suas histórias faziam tanto sucesso.

Aqui é pequeno, pois deixou de ser o lugar onde eu e Juliet ficávamos a maior parte do tempo, apenas escrevendo e debatendo sobre futuras histórias e acontecimentos. O antigo computador está em um canto, coberto por um pano grosso, e a nossa antiga beliche amarela com estrelas também está aqui, porém, a parte de cima está desmontada e a debaixo serve como apoio. Eu a encaro. Uma sensação estranha me atinge, e por um segundo eu quero ir correndo para debaixo dela, ver como são as molas e contar e recontar inúmeras vezes, mas isso levaria muito tempo e esforço, e por hoje estou esgotada.

Há fotos por toda a parede, fotos de coisas variadas, de bichos, de objetos, de pessoas desconhecidas, fotos que Juliet e eu pegávamos aleatoriamente da internet e revelávamos, apenas para deixar claro que esse espaço era apenas nosso.

Eu sento na velha poltrona e cruzo os braços. Olho para o teto, para o papel de parede velho e florido e fecho os olhos. Inspiro com tanta força que acabo espirrando por inalar poeira, então os abro novamente e ponho-me de pé.

Eu começo a procurar alguma coisa. Qualquer coisa, mesmo que eu não saiba exatamente o que. Juliet queria me mostrar algo, mas eu não entendo exatamente o que tudo isso significa, porque ela fez tudo isso e quando começou a organizar essa coisa toda. Encontrar aquele bilhete naquela tela foi algo tão inusitado que eu até pergunto-me o quão clichê e conspiratório foi. Mas eu encontrei. E estou aqui agora.

Eu vasculho as gavetas. Eu procuro entre o beliche desmontado e debaixo da cama, ignorando o anseio de deitar-me ali e permanecer por um bom tempo, ligo o computador, mas não há nada além de arquivos e mais arquivos antigos, eu olho debaixo do tapete e estou quase desistindo quando procuro dentro da lata de lixo.

Há apenas um único papel ali, e quando o pego percebo que ele é tão velho que quase o jogo dentro do cesto novamente, mas eu consigo ver que há algo escrito nele. Desembrulho-o totalmente. É um mapa, um mapa rasgado ao meio, um mapa incompleto. Um riso nervoso escapa pelos meus lábios.

Abaixo do grande J violeta feito de esmalte, há um endereço e uma ordem.

Cross Craw. 173. Dollores Bright.

Encontre a outra parte.

Notas finais
Aiai, esse mistérios. A pergunta é: O que Juliet quer com tudo isso? Quando foi que ela planejou essa coisa toda? Qual era a sua real intenção? tamtamtamtam, uma garota morta faz tanto estrago, mds. Gente, sejam como a Manu, quando virem alguma coisa incoerente na fanfic, me avisem, para que eu possa revisar e corrigir! Não imaginam o quão feliz eu fico em saber que tem gente que se importa, sabe, e é bom você ler um texto sem tantos erros ortográficos e de concordância verbal, eu venero quem, sem beta, consegue essas proeza kkkkkkkkk é isso galera me digam o que acharam bjos de luzzz