Infinitamente não mais infinita
1 Vinil's Cry
Notas iniciais
Deitada na cama. Um copo de café, já gelado, deixado de lado na escrivaninha de canto.. A chuva cai lá fora de forma torrencial, sem pausas. O barulho da chuva não me incomoda, os trovões já não ganham meu medo. Desisti de tentar me concentrar na leitura. O livro sobre a mesa, há um tempo esquecido. Agora a única coisa capaz de prender minha atenção ou melhor, de me prender em pensamentos, é o som no vinil, músicas do The Smiths ecoando por todo meu quarto.. Please, please, please let me get what I want.. Não me questione, vinil é minha paixão, uma antiguidade capaz de capturar a intensidade de outra época e me traz uma sensação de paz.
Na cama, deitada, olhando pra janela e fitando a chuva que cai, penso em você, penso em nós.. penso na saudade que me reprime. E é nessa vontade, que me vem na mente a lembrança ...
..“
— Alícia!! _Exclamei irritada_ Quantas vezes preciso te lembrar que detesto essa sua mania de jogar a toalha úmida em cima da cama?! _Continuei vociferando com ela.
—Ah qual é, Liz? Se molhar, seca. _ Retrucou, sempre achando graça dos meus surtos. Alícia era assim, sempre alegre, calma, chegava a disfarçar toda a bagagem de loucura que trazia consigo. Sabia ver os pontos positivos em qualquer caos, aparentemente, opressor e interminável. Não havia tempo ruim. Lidava com a vida da forma mais graciosa.
—ARGH!! Juro que ainda te pego por isso, Belle!! _Gritei com raiva. Trocas incessantes de olhares, estava ao lado da cama, segurando a toalha na mão esquerda, não escondendo meu desgosto enquanto minha Alícia Belle gargalhava.. como era lindo seu sorriso, era gostosa sua risada.. Quando cansada de me caçoar, olhava com aqueles olhos calorosos, os quais pertenciam somente á ela e da forma mais meiga sussurrava “Je t'aime”.. Francesinha, nesses momentos já havia esquecido qualquer travessura sua, qualquer gesto controverso ao meu.. Caminhou até mim e tirou a toalha molhada das minhas mãos.
—Você não cansa Liz? _Sussurrava se aproximando do meu ouvido._ Não cansa de ser tão chatinha? _Concluiu a sussurros pausados , passando os braços ao redor da minha cintura.
—Huum.. _Tentei responder, limpei a garganta, mas minha voz já não saia. Me recompus e esforcei para concluir de forma neutra. _ Não, Lícia.. você tem que ter um pouco de.. de.. meerde Bella.
—De que? _Perguntou de forma incisiva, olhando nos olhos.
Ela sabia como dominar uma situação entre nós. Suas provocações nada mais eram que uma forma de mostrar que estava presente, ali, comigo, e que nada mais poderia ser unicamente da forma como gostaria que fosse, agora éramos Alícia e eu, e não apenas eu. De certa forma, um pouco contraditória, achava divertido suas brincadeiras. Era tão reconfortante chegar em casa e sentir teu perfume, olhar na ponta da cama e visualizar sua toalha.. quase encharcada, jogada. Abrir o guarda-roupa e ver suas roupas misturadas em meio as minhas.. era acolhedor ver seus “passos”, de alguma forma, registradas pela casa seja como fosse, um copo sujo na mesinha de centro, seu travesseiro amassado, seus sapatos jogados no canto do quarto.. Mesmo que não me agradasse desordem, era sua desordem, e a sua é a minha ...
O motivo da “raiva” desaparecera, já tinha me perdido nos seus olhos que pra mim significava grande abismo e desejava intensamente sua boca na minha..
—Bella.. _sussurrei rouca. _ A toalha.. eu, me deixa guard... – suspirei e fitei teus olhos ... por favor .. _ Perdi no momento em que se aproximara de mim, seu pescoço cheirava á sabonete de frutas vermelhas, misturada á essência de perfume francês.. Trouxe seu corpo pra perto do meu, encostei meus lábios nos seus quase me derretendo.
E então, toda a magia que era ter seu corpo colado no meu, tirou o chão e me levou pra perto da cama. Ela me beijou de forma suave e lenta, querendo torturar, mas também explorar cada cantinho da minha boca com a sua.. aumentava aos poucos o ritmo do beijo, quando juntas começávamos a dar passos mais apressados, até minhas pernas encontrarem a cama e sentar trazendo seu corpo comigo. Puxava seus longos cabelos hora suave, hora com pressão.. não aguentava todo o meu desejo, então pedi com todo carinho e desejo impresso na voz:
—Seja minha? _Com minha boca próxima a sua. Meus olhos castanhos fitavam os seus..
—Sua, meu amor! _Respondeu doce. A certeza que carregava na voz, aquilo me tocava, me excitava de uma forma arrebatadora!
Invertendo a posição a deitei, tentando não interromper a ligação entre nossos olhares.. minha pele queimava pela sua, precisava toca-la! Beijar cada cantinho do seu corpo. Comecei a beijar suas pernas enquanto minhas mãos circulavam suas coxas e seus olhos já estavam fechados, sua respiração estava descompassada assim como a minha. Subia lentamente minhas mãos pelo seu corpo, passeava pela sua barriga.. e a cada beijo meu, um suspiro dela.. Era sentimento puro, fazíamos amor! E fizemos amor a madrugada inteira, até estarmos esgotadas uma nos braços da outra.
Quando acordei no dia seguinte já passara do meio dia.
—Bom dia, Belle! _Desejei beijando sua testa. Belle era seu sobrenome.
—Bom dia, Liz! _Retrucou me beijando. _Eu amo você!_ Fora o ultimo desejo da manhã que me dera.
“...
Passo as mãos por entre os lençóis e me colido com o vazio, com o frio.. The Smiths ainda tocando, essa era sua música favorita. A chuva ainda cai de forma agressiva, como se os céus estivessem em desabafo pela minha dor.
—Liz? _Minha mãe chama da porta, sua expressão era de tristeza, mas tentava me confortar com um simples sorriso, um pouco apagado, porém ainda generoso.
—Sim, mãe?
—Quer ajuda com as roupas? _Na sua voz transcendia angustia.
—Não, obrigada. _Levantei lentamente, como quem não quer. _Eu posso fazer. _Conclui, tentando parecer forte. E então, minha mãe balançou a cabeça em concordância, tentando ainda com um sorriso pequeno, passar algum tipo de conforto e deixou o quarto em curtos passos..
O amor arde, a dor destrói.. Ficar sem você é como não ter casa pra voltar.
Acostumei com sua bagunça. Ter que recolher sua toalha, seus sapatos e encaixotar sua roupas, me livrar da sua desordem não estava nos meus planos. Deixar-te sozinha, foi o maior erro que pude cometer e a sua ausência vai permanecer como consequência.. E nem pude dizer o quanto te amo! O que quase pode me confortar é saber que sempre sentiu meu coração bater por você...
Deixei cair teu casaco marrom e encontrei um papel no bolso, onde sua caligrafia dizia:
‘...Qu’il soit infini aussi longtemps qu’il durera. Je ne sais pas si je trouve mes yeux dans tes yeux. Je
ne sais pas adoucir ma douleur avec vous, mais où je vais prendre votre regard et où tu ma douleur. Je
t'envoie quelques mots en douceur. Quelques mots que mon coeur écrit sur ta peau...
(Que seja infinito enquanto dure! Já não sei se encontrarão os meus olhos nos teus olhos. Já não se
adoçará junto a ti a minha dor, mas por onde for levarei o teu olhar e para onde fores levarás a minha
dor. Estou lhe enviando algumas palavras sem problemas. Algumas palavras meu coração escreveu na
sua pele.)’
Lágrimas escorreram por minha face, sempre soube aquecer meu coração. Colidir com a dor todas as manhãs não está sendo fácil, sobrevivo com a esperança de um dia poder tocar mais uma vez o único corpo que mantinha aquecido não só minhas mãos, como meu coração. Não poderia esquecer todos os olhares e nem os sentimentos neles, não poderia me esquecer de algo gravado em minha retina. Ainda sinto suas mãos rabiscando minha pele depois de uma noite longa de amor. Meu único desejo antes de adoecer solitária é poder ter o que quero, você mais uma vez.. Pudera eu, mais uma vez te olhar nos olhos e dizer o quanto te amo!
…So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time...
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