Notas iniciais
Obrigada pelos comentários e favoritos! Boa leitura!

— Ouçam bem o que eu vou dizer porque não pretendo repetir — ela disse. — A partir de hoje, Marian não trabalha mais na minha fazenda e está terminantemente proibida de colocar os pés nas minhas terras!

— Patroa…

— Cale-se porque eu não acabei! — Regina a interrompeu. — Qualquer um que permitir a entrada dessa mulher na minha propriedade, irá para o olho da rua.

— Por favor, patroa…eu não tenho para onde ir — disse ela.

— Isso é problema seu! Você tem uma hora para pegar suas coisas e sumir daqui, caso contrário, irei à polícia e a acusarei de invadir minha propriedade! O que está esperando? Dá o fora daqui! — ela exclamou, e aos prantos, Marian se retirou.

A multidão permanecia em silêncio, e embora desconhecessem a razão do que acabara de acontecer, nenhum deles se atreveu a questioná-la, pelo contrário, ouviam cada palavra atentamente e calados.

— De agora em diante, David será o capataz da fazenda. Em minha ausência, deverão obedecê-lo no que diz respeito ao trabalho.

— Eu estou demitido também, patroa? — Robin perguntou.

— Não…mas bem que você merecia depois do que fez! — disse ela. — Era só isso o que eu tinha pra dizer, portanto, voltem para suas casas — acrescentou, e entre cochichos, os trabalhadores foram desaparecendo. — David e Margaret, me acompanhem até a casa grande.

Em seu escritório, Regina orientou Magaret e seu esposo, David, sobre todos os assuntos relacionados à fazenda dos quais eles deveriam tratar com todo o cuidado possível, uma vez que ela não pretendia aparecer com frequência.

— Obrigado pela confiança, patroa. Prometo que darei o meu melhor para que essa fazenda continue produzindo e sendo a melhor da região — David falou.

— Espero que não me decepcione. Agora pode começar a trabalhar.

— Sim senhora, com licença.

— Margaret…obrigada por ter ido a capital me contar sobre o que havia acontecido.

— Não fiz mais que minha obrigação, patroa. E agradeço pela confiança em mim e no meu marido.

— Aqui…se acontecer alguma emergência, ligue para o meu telefone celular ou para o meu escritório principal.

— Sim senhora. Ah, eu devo servir o jantar em seu quarto ou na sala mesmo?

— Eu não quero jantar, estou sem fome. Pode ir.

— Com licença, patroa.

O cansaço provocado pela viagem acabou por proporcionar a Regina uma ótima noite de sono acompanhada de bons sonhos onde Emma era a atriz principal. Ao despertar, ela esboçou um singelo sorriso enquanto a imagem da mulher que amava se formava em suas lembranças. A vontade de retornar o mais rápido possível para os braços de Emma lhe impulsionaram a levantar bem cedo e orientar cada um dos responsáveis pelo funcionamento de cada ponto naquela propriedade. No final da tarde, tudo parecia estar de acordo com o que ela desejava e por essa razão, ela voltaria para Augusta tão logo amanhecesse.

— Patroa…obrigado por não me deixar sem trabalho — disse Robin.

— É melhor sair da minha frente antes que eu me arrependa disso! E fique sabendo que já dei ordens para que descontassem do seu salário todas as cabeças de gado que você matou, seu idiota!

— Eu só fiz aquilo porque estava apaixonado por ela e ela se aproveitou disso — ele se justificou.

— Espero que tenha aprendido a lição. Agora volte ao trabalho.

— Sim senhora, com licença.

Na manhã seguinte, conforme havia pensado, Regina retornou para Augusta. Seu corpo já manifestava os sintomas da saudade e ela não via a hora de chegar ao posto que tanto amava: os braços de Emma.

[…]

— Alô… tem alguém em casa? Victor? Não sei porque ainda gasto saliva...ele vive de trabalho... — dizia Lily, enquanto adentrava o apartamento.

Enquanto arrastava sua bagagem até o quarto, Lily se deteve ao encontrar uma camisa branca sobre o encosto do sofá. Ao pegar a peça, ela percebeu que se tratava de uma camisa feminina, e mesmo imaginando que pudesse pertencer a alguma namorada do seu irmão Victor, ela não hesitou em aspirar o perfume agradável que dela emanava. Embora tivesse gostado do cheiro, ela colocou a camisa no mesmo lugar e continuou os seus passos, porém, assustou-se quando ao abrir a porta, deparou-se com uma bela cabeleira loira esparramada sobre os travesseiros.

— Eu só posso estar em pleno sonho… — ela murmurou, enquanto seus olhos percorriam o corpo parcialmente coberto por um lençol.

Com os olhos vidrados na figura angelical adormecida sobre a sua cama, Lily fez menção de se aproximar, todavia, deteve-se quando Emma se remexeu no leito, e suas pernas longas e despidas se mostraram em toda sua beleza. Ao contrário do que antes pretendia, dessa vez ela tentou recuar, todavia, quanto mais tentava, menos conseguia, e num momento de distração, ela acabou esbarrando na própria bagagem e em consequência disso, Emma despertou mediante o ruído.

— Desculpa! Eu não quis te acordar — Lily falou, e diante do embaraço de Emma, ela optou por se apresentar rapidamente. — Me chamo Lily…sou irmã de Victor.

— Ah…oh, desculpe. Eu estou no seu quarto, na sua cama e…

— Não se preocupe…fique à vontade. Você é namorada do meu irmão?

— Não, não…claro que não. O Dr. Victor me ajudou a resolver uns problemas e cedeu o apartamento dele por alguns dias até eu encontrar um lugar. A propósito, meu nome é Emma — ela explicou, estirando-lhe a mão.

— Muito prazer, Emma. E você sabe por onde anda meu irmão?

— Está viajando, mas não se preocupe…agora mesmo vou liberar o seu quarto…

— De jeito nenhum! Ficarei no quarto de Victor por enquanto… — ela disse, e sem que pudesse evitar, seus olhos se fixaram sobre o colo exposto de Emma.

— Você chegou agora? — Emma perguntou, aparentemente constrangida.

— Tem alguns minutos apenas…

— Eu vou tomar um banho e preparar o jantar depois…imagino que esteja com fome.

— Na verdade eu estou sim, mas não se incomode…

— É o mínimo que posso fazer por tomar o seu quarto — ela falou, e seu sorriso de covinhas por pouco não derreteram a mulher à sua frente.

— Já que você vai tomar banho, então farei o mesmo.

— Certo…nos vemos na cozinha daqui a pouco — dito isso, Emma adentrou o banheiro enquanto Lily, se dirigiu ao quarto de Victor.

Enquanto se despia, Lily se perguntava que tipo de problemas seu irmão teria solucionado para Emma, e principalmente, por qual razão ele oferecera o apartamento para ela. Apesar de conhecer pouco sobre os amigos de Victor, ele nunca mencionara aquele nome, tampouco se mostrou tão atencioso com alguém a ponto de viajar e confiar sua moradia. Seus pensamentos foram interrompidos quando o som da campainha se fez presente. Embora se encontrasse coberta apenas com as roupas íntimas, ela caminhou apressadamente ao encontro da porta, no entanto, parou nas proximidades do estofado e sem cerimônias, vestiu a camisa de botões de Emma.

— Em que posso ajudá-la? — Lily perguntou, e o sorriso que trazia nos lábios lentamente se desfez diante da seriedade com que aquela mulher lhe observava.

— Onde está Emma? — Regina perguntou, e instintivamente os seus punhos se fecharam quando ela percebeu que a camisa usada por aquela desconhecida pertencia a sua mulher.

— Emma está no banho…e eu estava prestes a fazer o mesmo. Vai esperar ou quer deixar recado? — ela perguntou, e sem proferir nenhuma palavra, Regina se retirou.

Para Emma, o restante da noite se passou de forma tranquila, apesar de estranhar a ausência de Regina, uma vez que a reunião de pais aconteceria na manhã seguinte e ela garantiu que estaria presente. De qualquer forma, ela optou por não dar tanta importância a esse fato, afinal, Zelena era tia de Henry e poderia perfeitamente cuidar desse assunto também. O jantar ao lado de Lily se tornou mais agradável do que ela imaginava, uma vez que a irmã mais nova de Victor possuía a mesma simpatia dele, embora fosse totalmente o contrário em relação a seriedade. Ao ser questionada sobre os supostos problemas que Victor ajudara a solucionar, Emma não hesitou em lhe contar a verdade, e assim como imaginava, ela não a julgou como tantos fizeram, pelo contrário, deixou claro que em seu lugar teria feito o mesmo.

Antes de dormir, Emma acabou ligando para Henry e após um beijo de boa noite, ela encerrou a ligação.

[…]

Regina se levantou de sua cama quando os primeiros raios solares apontaram nas vidraças das janelas do seu quarto. Embora a viagem de volta para Augusta tivesse sido cansativa, ela quase não conseguiu dormir devido às lembranças da noite anterior. Emma estava na companhia de alguém e sequer havia lhe telefonado para saber a respeito do seu retorno. Mais uma vez o ciúme tomava todo o espaço em sua mente, e em consequência disso, ela não conseguia raciocinar com clareza, tampouco afastar as dúvidas da sua cabeça. Após um banho quente, ela seguiu direto para a escola onde aconteceria a reunião de pais para a festa escolar de final de ano.

…

Todos os educadores já se encontravam a postos, inclusive a direção e Zelena, dona da instituição de ensino. Pais e mães já se acomodavam no miniauditório enquanto os últimos detalhes eram inspecionados.

Emma trocava algumas palavras com Zelena quando Regina chegou. Sua presença imponente emanava poder e refinamento, uma graciosidade discreta e o mais inflexível grau de exigência. A dura expressão em suas feições não passaram despercebidas por Emma, muito menos por Zelena, no entanto, a julgar pelo péssimo humor que ela nunca fizera questão de esconder, nenhuma delas se preocupou o bastante.

Zelena deu início à reunião explicando como, onde e quando a festa seria realizada. Além de comemorar o natal, seria também o encerramento do ano letivo. O diretor e vice-diretor tomaram a palavra posteriormente, e só então a concederam aos pais para que eles tirassem as dúvidas e expusessem suas sugestões.

— Mais alguém tem algo a dizer? — Zelena perguntou, surpreendendo-se quando Regina ergueu a mão. — Fique à vontade, senhora Mills — disse ela. Apesar de o parentesco entre elas ser conhecido por todos, Zelena manteve a formalidade naquele momento.

— Não sou de acordo que a senhorita Swan lecione nesta escola — ela disse, e por alguns instantes, Zelena pareceu perder a fala. Emma por sua vez, apesar da expressão claramente desconsertada, imaginou inocentemente que se tratasse de uma brincadeira, embora soubesse perfeitamente que Regina não era do tipo que brincava, principalmente diante de tanta gente.

— E podemos saber a razão disso? — indagou Zelena.

— Não creio que uma ex presidiária seja a pessoa adequada para ensinar crianças… — disse ela.

O impacto daquelas palavras atingiram Emma em cheio e ela precisou segurar na borda da mesa para que não caísse diante de todos. O choque estampado em seu rosto era desconsertante, e seus olhos eram poças verdes profundas desejando que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. A dor lhe rasgava os músculos enquanto ela lutava para não chorar.

— Sinto muito, senhora Mills — disse Zelena, num misto de desconserto e incredulidade. — A senhorita Swan passou pelas mesmas etapas que todos os professores desta instituição, e se ela está aqui hoje, é porque teve e tem capacidade para isso. E quanto ao passado dela, não existe nenhuma regra ou lei que a impeça de lecionar em qualquer instituição, sejam elas escolas, institutos, universidades públicas ou privadas!

— Então você não deixa outra saída que não seja retirar o meu filho desta escola! — exclamou Regina.

— Eu concordo com a senhora Mills! — disse uma outra mulher. — Não teremos escolhas senão retirarmos os nossos filhos desta escola!

— Fiquem à vontade, senhoras. Ninguém é obrigado a manter os filhos nesta instituição, mas a professora Emma fica — Zelena falou.

— Não será preciso tirar as crianças da escola — disse Emma, manifestando-se pela primeira vez. Sua voz falhava, e seu coração era atingido pela profundidade da raiva que nublava o rosto de Regina. Sentia-se mal e jurava que naquele momento, não aguentaria ouvir mais nada da boca que dias atrás a beijara e lhe jurara tanto amor. Dessa forma, Emma engoliu as lágrimas pois sabia que estava prestes a chorar o bastante por uma, duas ou incontáveis noites. — A partir de hoje eu não trabalho mais nessa instituição. Com licença — dito isso, ela caminhou apressadamente em direção à saída.

— Emma… — Zelena tentou detê-la, todavia, em questão de segundos, Emma já se encontrava fora do seu alcance.

…

A chuva fina que caía naquela manhã cinzenta em Augusta parecia ter contribuído para o trânsito caótico de uma simples quarta-feira. Os ruídos irritantes das buzinas dos veículos ecoavam insistentemente, mas os únicos sons que Emma conseguia ouvir eram aqueles provenientes das palavras de Regina. Atordoada, ela levou a mão à boca como se tentasse engolir ou pelo menos abafar o choro, todavia, a dor explodiu em seu peito acompanhada por uma torrente de lágrimas. O ar gelado pareceu anestesiar-lhe o corpo, mas não ofereceu alívio algum para sua dor, pelo contrário, seu próprio corpo a traiu fazendo-a perder o equilíbrio e cair de joelhos. O asfalto não poupou sua pele e lhe rompeu a carne. Uma fina linha de sangue misturada à água da chuva escorria pelos pequenos ferimentos em seus joelhos, mas nada daquilo importava ou provocava aquela dor dilacerante que o comportamento de Regina havia provocado. O tão sonhado caminho que deveriam percorrer juntas agora estava coberto pelos pedaços do seu coração, e Regina os posicionara de maneira estratégica para que ela tropeçasse, caísse e restasse para sempre ferida.